Nenhum de Nós em Bagé – 2008

Thedy, com uma compania ilustre (Lennon na estampa) e outra nem tanto

Thedy, com uma compania ilustre (Lennon na estampa) e outra nem tanto

MUITOS DE NÓS CANTARAM…

Como se sabe, o Nenhum de Nós fez um concerto ao ar livre em Bagé em 30 de dezembro de 2008. Oportunidade para ouvir a opinião dos próprios músicos – leia-se Thedy Correia e Véco Marques – sobre as questões suscitadas por seu trabalho.

OS ÚLTIMOS ROMÂNTICOS – o idealismo continua

O Nenhum de Nós que conhecemos: a banda que canta “Paz e Amor”, dá conselhos ao filho em “Dança do Tempo”… Que não tem vergonha de assumir seu romantismo, nitidamente influenciado pela audição da Jovem Guarda…
Muitos carnavais transcorreram desde que Camila apanhava e baixava a cabeça; e desde que o grupo nos engatinhantes anos 90 assinava junto com De Falla e outras, um manifesto pela revagabundização do rock gaúcho…
Pelo exposto, cogitava eu que o perfil do Nenhum tinha mudado desde então… que a exemplo dos Titãs, ao virarem pais de família, tinham amenizado seu discurso…

O vocalista Thedy, no entanto, desmistifica essa visão, defendendo que a rebeldia permanece, especialmente na postura idealista ante o showbusiness: “Eu acho que o rock que a gente fez sempre teve um pezinho na garagem, entendeu ? E a garagem que eu digo é os ideais que tu tem quando tu forma uma banda. Me dá a impressão que isso é uma coisa que falta hoje, porque tem muita gente que forma uma banda não pra fazer rock, mas pra fazer sucesso. E hoje as músicas que a gente tem ouvido no rádio e tudo, elas são músicas de artistas, que o interesse deles, é o sucesso. Então o que fica pra trás ? Quando tu faz uma escolha dessas, tu abre mão de algumas coisas como por exemplo a qualidade, a tentativa de inovar alguma coisa, propor coisas diferente, correr riscos e tudo. E acho que o rock de garagem tem isso um pouco, descompromisso com essas coisas que são muito mercantilistas, digamos assim. Então pra mim, o NDN durante todo esse tempo manteve muitos ideais de uma banda de garagem, e se tu me perguntar hoje, eu diria que a
tendência é a gente voltar ainda mais pra esses ideais.”

ROCK DE BOMBACHAS – BANDEIRA OU ESTIGMA ?

Uma das marcas registradas do Nenhum é a sonoridade do rock gaúcho claramente influenciado pela cultura típica regional. O guitarrista Véco Marques explica a maneira tranqüila com que eles mantêm sua identidade sonora: “O NDN é uma banda que já ´tá há 22 anos na estrada e a gente sempre primou por fazer as misturas dos elementos regionais. Desde o primeiro disco já tem o sotaque do acordeão, os próprios violões. A gente sempre se resumiu como sendo uma banda folk, mas não americano, um folk gaúcho mesmo, até porque a gente se criou ouvindo as músicas das Califórnias e festivais nativistas, e mesmo sendo uma banda de rock a gente nunca virou as costas pra nenhuma espécie de influência, desde Beatles até Noel Guarani e Luis Carlos Borges. Então acho que a grande essência do Nenhum é justamente essa. Depois que eu entrei, tendo tocado oito anos com Renato Borghetti, e do João Vicente, a gente até afundou mais o pé nesses elementos folclóricos.

Mas eu acho que ao longo dos anos a gente acabou aprendendo a dosar até a quantidade de acordeon, não é uma coisa forçada, como se fosse uma bandeira tipo: “Viemos do Rio Grande do Sul, temos que tocar de bombacha e de acordeon”. Não é isso. É o gosto pela sonoridade mesmo. Acho que a gente tá aprendendo a dosar bem, e vamos fundo nessa mistura, acho que a grande essência do nosso trabalho, nossa música é oriunda dessas coisas: de a gente estar tocando hoje em Bagé, amanhã no Rio de Janeiro, anteontem em Caxias do Sul, ou seja, não virar as costas pra nenhuma tipo de influência.” O músico, no entanto, não crê que bandas gaúchas com proposta musical similar a de seu grupo, formem um movimento unido: “Acho que uma identidade do Nenhum de Nós existe sim, mas a gente nunca quis ser bairrista, tipo: “somos gaúchos, olha só como a gente usa bombacha”. Como a gente circula no eixo central do paí, a gente nota que tem um olho espichado pro rock que é feito no Rio Grande do Sul. Um olho bom, eu diria assim. Na verdade a gente tem várias vertentes, a gente tem o melhor do reggae o melhor do rock, o melhor do punk rock; e por aí vai… dos grandes baladeiros… Acho que todos expoentes que a gente tem aqui, do rock feito no Rio Grande do Sul e essas ramificações que o rock sempre nos deu, são bem feitas e a maioria bem sucedida. Mas não que a gente tenha intenção de ser um movimento, separatista, virar as costas pro resto do país, isso seria uma bobagem… num país com duzentos milhões de habitantes, seria burrice, um tiro no pé o cara querer se isolar o Rio Grande do Sul. Obviamente que o próprio sotaque que a gente fala, e a gente ir pra dentro da MTV tomando um chimarrão já identifica a gente no Rio Grande do Sul, mas não… mas não como uma bandeira e sim como um hábito de todos que moram no Rio Grande do Sul.”

ROCKIN´ IN THE MERCOSUL

Na verdade, há muito o Nenhum transcendeu o papel de ser um mero representante do rock riograndense na mídia nacional, como era quando eles e os Engenheiros estavam no top ten Brasil, há uns 15 anos. Depois disso, eles ampliaram seu campo para o vigoroso e sub-aproveitado rock produzido nos vizinhos hermanos sulamericanos, estabelecendo boas relações a exemplo dos Paralamas da época de “Dos Margaritas”. Véco revela que esse trabalho continua a pleno:
“Cada vez mais com os dois pés dentro da América do Sul. Esse ano a gente teve uma troca de figurinhas muito legal com duas bandas do Uruguai, uma chamada “No Te Va a Gustar”, que hoje talvez seja a banda mais importante de toda a América do Sul, fazem shows estourados no Chile, na Argentina, na Bolívia, na Colômbia, no Equador; e a gente fez três shows lotados em Montevidéo, Capital do Uruguai; a gente trouxe a Porto Alegre essa banda, e mais o Sócio que é um grande músico uruguaio pra tocar conosco uma temporada no Teatro São Pedro.
Ou seja: da mesma maneira que eles abriram as portas pra gente entrar pro outro lado pelo Rio da Prata, a gente ta abrindo, trazer uruguaios e argentinos pra tocar conosco aqui, é muito importante que a gente pegue esse corredor da América do sul. O Brasil, Por não falar a língua (espanhola), a gente sofre um pouco disso, mas não que a gente seja auto-suficiente. Se pegar, por exemplo, Paralamas do Sucesso, uma das maiores influências dos Paralamas do Sucesso é o rock argentino. Fito Paez, Charly Garcia, Soda Stereo, Gustavo Cerati.Então o NDN em 2009, 2010 vai lançar discos lá, trazer mais parcerias do Uruguai e da Argentina pra tocar conosco aqui, porque a gente tem certeza que o nosso rock tem esse sotaque, do acordeão, do bandoniom, sotaque argentino, sotaque do tango; e a gente nota isso no palco lá, tocando para platéias cada vez mais cheias, cada vez com mais interesse na nossa música e a gente com muito mais interesse pela música feita lá do outro lado.”

ACÚSTICOS E INDIGNADOS

Sendo precursor e recorrente no formato hoje popularizado (banalizado?) pelo Acústico MTV, o Nenhum de Nós, através de Véco, faz um esclarecimento:
“Existem duas correntes do formato acústico: uma quando a banda realmente ta a fim de subir num palco – e vou pegar o Nenhum como exemplo – e mexer nas músicas, usar outro tipo de instrumento, outras influências; e o segundo formato é um caça-níquel: quando a banda já ta ´fechando a bodega´ e o cara diz: ´não, vamos ganhar mais uns pilas fazendo um acústico´, porque é um produto que vende. Mas eu acabo achando que passa do limite, sabe ? Na primeira resposta que eu te dei, falei em folk. Folk lembra violão, o Nenhum de Nós nunca teve vergonha de subir num palco usando um violão. Pega uma banda que nem Charlie Brown Jr., os caras nunca usaram violão e fazem um acústico só pra lançar e ganhar uma grana, depois eles não vão numa turnê de dois anos como a gente fez, levando citar indiano, levando bandonion, bandolim, slide, ´um milhão´ de instrumentos que a gente tem orgulho de levar pra cima dum palco. Essa é a grande diferença: a gente mata no peito, assume e faz; não é só pra ganhar grana, muito pelo contrário: a gente ganhou muito pouco fazendo isso (risos). É um projeto artístico, a gente adora. A gente ta fundo agora num projeto de misturar acústico com o elétrico, a gente tá achando esse híbrido, esse meio termo e daí pra frente vai ser isso. Violões, instrumentos acústicos com as guitarras.”

REM, THE ONE THEY LOVE

Em novembro passado, o Nenhum ganhou um de seus maiores prêmios: a oportunidade de abrir “em casa” o show do REM, emblemática banda oitentista que segue lançando álbuns relevantes e cuja estética é muito similar à do grupo gaúcho.
Na visão de Véco, REM é “a maior influência do Nenhum de Nós, talvez seja a banda em que a gente mais tenha se focado, e ter aberto o show dos caras em nossa cidade, foi talvez um dos grandes momentos da nossa carreira, porque a gente acabou achando que subir num palco com uma banda que tu admira é um presente, uma dádiva, e isso a gente acabou assinando embaixo de uma banda que a gente adora e nos deu a honra de subir no palco e ter feito esse show com eles para 25 mil pessoas.”
Thedy afina-se com o discurso do colega, acrescentando que a interação com os americanos não se restringiu ao palco: “Foi muito bom. Uma das bandas mais importantes pra mim e pro Nenhum, uma das que mais influenciou, muito no trabalho de guitarra e tudo. Dividir palco com eles, e depois conversar alguns momentos com o Mike Stipe num jantar, foi um dos momentos que entrou pra minha história assim das boas recordações…”
Fica a dedução de que a máquina zero na careca de Carlos Stein é um tributo ao Michael Stipe… uma declaração de amor, assim como as dirigidas aos Beatles verificadas nas camisetas de Thedy e Véco.

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