Bonner abre o bico… mas não muito

Quarenta anos do Jornal Nacional – Willian Bonner concede entrevista exclusiva a Alberto Dines do Observatório da Imprensa

Âncora do JN lança livro “Jornal Nacional – Modo de Fazer”

Ou a Globo cobrou algo próximo à venda da alma para conseguir esta horinha de conversa, ou Dines pegou forte na persuasão de seus contatos, para perfurar o hermetismo da platinada. O fato é que William Bonner, editor-chefe do Jornal Nacional durante a última das quatro décadas comemoradas pelo veículo este mês, recebeu Alberto Dines na sala de reuniões onde o telejornal é concebido, nos estúdios da Globo, para falar de tópicos que coincidem com os do livro que está lançando: “Jornal Nacional – Modo de Fazer”. Bonner está doando os direitos autorias da obra à ECA da USP, onde se graduou – em publicidade, unicamente. Sua pretensão é colaborar com a infra-estrutura da Escola, já que defende que as condições dos laboratórios, assim como uma revisão curricular, são os principais pontos a aperfeiçoar nos cursos atuais. Willian não apóia a exigência do diploma em Jornalismo, pois ele mesmo hoje optaria por um curso de História para adquirir bagagem cultural, e buscaria a formação técnica através de uma imersão de seis meses na redação. Segundo ele, é o que fazem com os estudantes que recebem. Estima, no entanto, que o mercado continuará buscando profissionais diplomados, saindo da faculdade.

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COVA DOS LEÕES
Nas circunstâncias do encontro, seria muito improvável extrair de Bonner (que chorou no ar quando da morte de Roberto Marinho) alguma revelação picante de bastidores, ou qualquer fato bombástico ameaçador ao império midiocrático. E de fato, entre o evasivo e o demagógico, as respostas evocaram valores do jornalismo profissional para defender a linha editorial do noticiário. (Cheguei a imaginar uma reunião prévia, talvez um contrato definindo o que poderia ser perguntado ou não, nos moldes da entrevista Frost/Nixon, sobre a qual vi há pouco um filme para minha monografia).
Dines, consciente de seu papel, ousou nas perguntas em vários momentos. Comentou que muitas vezes houve injustiça quando o JN deixou de cobrir algo relevante, e assim, para o grande público tal fato “não aconteceu”. Indagou opinião sobre censura-prévia. Perguntou se não é uma “guerra religiosa” que há entre a Globo e a Record/IURD. E explorou a visão de Bonner de que ombudsman não é necessário ao JN, “pois todos da equipe são”.
Principalmente, Dines perguntou sobre um possível constrangimento para a equipe pelo fato de a TV Mirante, afiliada da Globo no Maranhão, pertencer a José Sarney. “Como a afiliada reproduz as notícias sobre o senador ?”, questionou Dines. “Não me interessa”, disse Bonner, “isso é com a Central de Afiliadas”.
No decorrer do bate-papo, um Bonner que parecia apressado pela correria diária, acelerando as respostas, foi ganhando em simpatia, e aflorando seu lado de bom jornalista. Até consegui engolir aquela sua dicção que me parece sempre impostada demais para uma pessoa real.
Disse adorar o tópico espetacularização da notícia, e que no JN não entram abobrinhas. Priorizam as matérias “factuais” e completam, conforme o espaço, com variedades que obedecem a certos critérios que ele revela no livro. O medidor empírico do acerto de suas pautas, são as manchetes dos jornais impressos do dia seguinte. Não crê na morte do periódico em papel: mesmo com o dilema que sugere que a oferta das notícias de graça na Internet derrubou as vendas, o NYT acaba de aumentar anúncio da receita em meio a uma crise econômica, o que para ele denota a busca pela informação qualificada, analítica, sobre os assuntos de repercussão.

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