Japan Project 2009

Japan Project IV
24 e 25 de outubro de 2009
Colégio São Pedro
Bagé, Rio Grande do Sul, Brasil

O final de semana em Bagé foi marcado pela quarta edição anual do megaevento Japan Project, voltado à disseminação da cultura nipônica, especialmente em formatos como filmes, artes visuais, música, vestuário e jogos. Criado em Bagé e realizado sempre em escolas locais, o JP 2009 foi o primeiro a instalar-se no Colégio municipal São Pedro, no Bairro Getúlio Vargas.

O evento tem site oficial, onde se pode conhecer seus conceitos básicos. A página é caracterizada pelo primoroso acabamento gráfico e qualidade das imagens, uma vez que os idealizadores do evento atuam na área de informática e multimídia.
Portanto, nossa matéria, com fotos de resolução inferior, não é relato oficial do evento. É uma visão adicional, do ponto de vista leigo de quem está conhecendo o JP, e reflexiva, sobre sua significação para Bagé.
Destacaremos com posts específicos ao desenho artístico e aos shows de rock, dois temas top deste blog, mediante entrevistas e resenhas com artistas presentes.

A CHEGADA AO PORTAL MÁGICO
O JP4 aconteceu nos dias 24 e 25. Nas primeiras horas do sábado, o público limitava-se a pouco mais do que os organizadores, o que começou a mudar com o fim da intensa chuva, à tarde; e foi completamente superado no domingo, em parte pela chegada de excursão de Pelotas.
A aproximação ao recinto já sugeria imersão em um universo virtual, paralelo, onde o limite entre realidade e imaginação se torna menos claro. Imagine, logo após entrar, cruzar no corredor com figuras como essas da foto.

Zasalamiel

Vai encarar ?

Exemplos típicos da arte do costume rolerplay, como é chamada a caracterização de um personagem pelo uso de fantasia, muitas vezes fabricada pelo próprio praticante. Por trás da aparência desconcertante, porém, terráqueos comuns. Conseguimos revelar sua identidade secreta, oculta pelo codinome com que cada participante se apresenta: Zasalamiel, na realidade foi batizado como Renato Lyra, 30 anos, lavador de carros. Já Zegram é o nick de Jorge Roberto, 23 anos, auxiliar de serviços gerais. Os irmãos vieram de Porto Alegre. Renato iniciou o gosto pelos nipo-heróis assistindo Changeman na TV, e iniciou o irmão caçula na prática. Há quatro anos desenvolvem seu cosplay. “É divertido, uma coisa diferente”, é a justificativa de Jorge para o esforço em estar no evento.
Figurino exótico era lugar-comum no JP4. Da mesma forma, cenas incomuns à rotina diária: cavalheirescas lutas de espada (sem fio), ninfetas com semblante de fadinha do bem… os freqüentadores de encontros do gênero incorporaram o comportamento visto nos mesmos e o reproduzem com naturalidade aqui. Outras demonstrações: papos de fã tipo discutir qual heróii tem mais poder entre dois, ou “Qual a fraqueza do Batman, já que ele não tem superpoderes?”

MAPA DO TESOURO

A planta do JP4 pode ser resumida assim:

I. Segundo piso
Salas de aula foram adaptadas para as demais atividades, todas simultâneas.
Nesta ordem, tinha-se
Três salas de exibição, onde eram projetados por datashow, no telão, filmes legendados, com áudio no idioma japonês, com as temáticas:
Animex (a de maior público médio): animações.
Nipo Heroes: filmes seriados como Jaspion, Ultramen
Banzai (menor comparecimento de público) filmes longos de heróis mais humanos. O mais conhecido e robótico era o antológico National Kid.

– Sala de Magic Gathering, torneio do card game
– Oficina de desenho, com dois artistas
(ver página específica sobre desenhistas no JP4)

– RPG: role playing game

Troll

Edimar Realant Oliveira (Troll), esteve mestrando nesse ambiente, inclusive a suas duas irmãs, que trouxe para auxiliá-lo. Em Bagé estima que haja de 100 a 150 jogadores, pois há rotatividade – quem lhe ensinou hoje está em Santa Maria. O RPG já figurou em notícias de crimes, como assassinatos associados ao resultado do jogo, onde quem perdeu deveria morrer. Na opinião de Troll, esses casos ocorrem apenas quando acompanhados de outros fatores, como o consumo de crack, o que já teve registros em Porto Alegre.

– Guitar Hero e outros vídeo games

PIC00003

O jogo da moda também atraiu um dos maiores públicos, puxado pela presença infantil, e por roqueiros que também tocam instrumentos reais.
Flagramos a galera de Pelotas “tocando” “Mr. Crowley”, do Ozzy, na espera da cotação “You Rock !” do game.

II.Térreo/Auditório: uma dezena de estandes de vendas de produtos variados: mangás, fanzines autorais, publicações-raridade de sebo, e acessórios típicos tais como tocas e tiaras com orelhas de gatinho e similares…
Eventuais shows no palco.

ezio

O blogueiro e poeta Ézio Sauco atendeu estande de um sebo local

Na tarde do último dia, as demais atividades foram encerradas e o pico de público concentrou-se no auditório para o concurso de Cosplay, que teve três colocados entre oito concorrentes avaliados por cinco jurados. O bageense Dione levou a medalha de primeiro lugar, com seu disfarce de “Garo”, produzido por ele mesmo em papel machê.

garo

Criatura: Garo guardando os portões do JP4...

dione

BREVE HISTÓRIA E OBJETIVO

Aldo Mesquita, 34 anos, microempresário do ramo da informática, relata detalhes da origem do JP e da equipe organizadora, atualmente 22 pessoas (nenhuma de descendência nipônica) coordenadas por Aldo, Leonardo Fontes e Dione. Com o acesso a Internet, há alguns anos, Aldo reavivou o interesse que surgiu quando acompanhava seriados japoneses na extinta Rede Manchete, e conseguiu contatar parceiros para a formação de um grupo, que hoje realiza pelo menos dois encontros internos mensais, além de atividades públicas permanentes, como mini-exibições em locais como a Casa de Cultura, atraindo de 30 a 40 pessoas em média. Essa é a continuidade da proposta após os dois dias anuais do encontro JP. Mesquita é também o responsável pelo site oficial, que abusa nas cores ao gosto da cultura homenageada, o que está bem refletido no mascote Lanthalder.

aldo e leonardo

Aldo Mesquita e Leonardo Fontes na entrada dos estandes

Segundo ele, “a proposta do Japan Project é oferecer um evento diferenciado para Bagé, onde só se tinha opções gauchescas, como mateadas, e festas com bebida”. Sem fins lucrativos, o JP não cobra dos expositores o estande, nem oferece cachês aos músicos. É cobrado ingresso desde a segunda edição, pois na primeira, em que não houve e ainda se arrecadaram alimentos para filantropia, os custos saíram dos bolsos dos organizadores. A programação é inspirada em similars como Super Anime World, em Porto Alegre, ligado à Yamato; e Anime Friends, em São Paulo.

Aldo explica o que há de diferente nos heróis japoneses, a ponto de despertar tamanho fascínio: “As lições de moral que dão. São heróis humanos, como o Kamen Rider, como, em que a força vem de sua identidade secreta”. O empresário acredita que essas produções contribuem mais para a formação da criança, que os demais, onde mesmo os personagens clássicos de “bichinhos”, vivem cenas de agressão gratuita. “O respeito ao próximo e o sacrifício, muitas vezes por desconhecidos, são os valores mais transmitidos pelos nipo-heróis”, acrescenta.

O termo “nerd” é freqüentemente associado a fãs extremos de heróis televisivos, por exemplo. Aldo, porém, não se constrange com o modo como a palavra é empregada no Brasil: “No Japão, sim, é pior: chamam de ´Otaku´, mais pejorativo, que significa algo como ‘super nerd´, e a pessoa é realmente excluída. No Brasil tem um sentido mais de ‘fã´mesmo, pois hoje representa uma moda pop”. Mesquita também discorda dos que consideram “coisa de criança” o gosto pela cultura anime seja: “é uma questão de estilo”.

Curiosamente, a comunidade nipônica local comparece timidamente ao JP. Aldo percebeu pouco interesse quando convidou floricultores locais para exposição de bonsai. Em 2007, a exibição de itens como armaduras emprestados pelo Escritório Consular do Japão de Porto Alegre, também não atraiu os japoneses em Bagé. “Para eles isso tudo é comum, é como para nós, visitar uma mostra gaúcha”, opina Aldo.

sawada

Regina e Guilherme

Uma das poucas exceções na edição de 2009 foi o casal Guilherme e Regina Sawada, encontrados circulando pelo JP. Guilherme informa que não há mais, como em outras épocas, uma sociedade japonesa formal em Bagé, devido à dispersão de seus integrantes. Mas arrisca um diagnóstico para a abstenção nipônica: “faltou divulgação em rádio e TV, mas não interesse, pois brasileiro gosta de coisas diferentes”.

EMOTIVOS

marilia

Marilia Silveira

A presença no evento de cultivadores do visual emo, em alguns casos beirando a androginia, poderia sugerir uma aproximação entre aquela cultura e a dos cosplayers. Para Marilia Silveira, da equipe do JP, não existe essa relação, exceto “em algumas coisas no visual”. A aparência foi também a única motivação da forma com que a jovem se caracterizou para o acontecimento: “Só achei bonito”, explica, rejeitando enfaticamente o rótulo de emo.

BALANÇO
Uma rápida análise do Japan Project leva às seguintes considerações: foi um hapenning caracterizado pela riqueza cultural, seja pela diversidade de formatos de mídia envolvidos, ou pelas peculiaridades estética e comportamental. A atualidade do JP era evidenciada pela reprodução, em proporção, das características dos principais encontros da área ao redor do mundo. O evento incrementou o turismo local ao atrair visitantes de outros municípios.
Sob o rótulo de uma cultura exógena – a nipônica, havia muitos conteúdos capazes de interessar aos não-simpatizantes de valores japoneses – a exemplo da sala de jogos, oficinas de desenhos, shows e estandes.
Da mesma forma, o espaço escolhido e as diversas atividades simultâneas suportavam acolher muito mais visitantes do que receberam. Ou seja: berço de muitos murmúrios contra a falta de opções de lazer, Bagé (entendida como o conjunto de 110 mil habitantes) perdeu mais uma chance.

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Um Comentário

  1. Aldo Mesquita

    Uma pequena ressalva apenas na declaração do senhor Guilherme Sawada, onde ele relata que em sua opinião, sobre o evento não despertar a atenção dos bageenses de decendência nipônica seria “faltou divulgação em rádio e TV, mas não interesse, pois brasileiro gosta de coisas diferentes”, é importante frisar que as pessoas em questão as quais eu considero que não demonstraram interesse, foram contatadas pessoalmente nos três primeiros anos do evento, e participado apenas de um, ou seja, não seria necessário uma mídia de TV ou rádio para que as pessoas em questão participassem do evento, importante deixar isso claro.

    Porém, sem dúvida alguma reconhecemos, que as demais pessoas com essa decendência em nossa cidade e arredores, muito provavelmente ainda desconhecem nosso evento, visto nossa divulgação ser sem dúvida ainda, muito precária e deficiente, resultado direto de nossa não intenção de fins lucrativos o que não nos retorno capital suficiente para uma mídia de rádio ou de TV principalmente!

    Importante deixar registrado também, que essa é uma das nossas principais metas a serem corrigidas, mas que infelizmente precisam unicamente de capital financeiro, o que não é a meta principal do Japan Project e sim, a diversão e oportunidade para aqueles que amam e homenageiam essa cultura sem igual!

    De qualquer maneira, a declaração do senhor Guilherme, nos serve claramente como uma “luz no fim do túnel”, de forma a nos corrigir em nosso curso com o evento e enxergar os erros que ainda precisam ser corrigidos, por isso, agradeço as palavras do senhor Guilherme, nos mostrando falhas e correçõs a serem feitas, pois são dessas correções que nosso evento pode se tornar um dia, um grande evento e uma grande fonte de diversão para nossa cidade e os fãs do estilo!

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