Vitor Ramil em Bagé – 2009

[ Griffe Bar Privé, 01.11.2009 ]

Ao iniciar seu show com duas canções do álbum “Ramilonga” (1997) – a faixa-título e “Noite de São João”, Vítor denunciava um repertório adaptado à cultura local. “Se eu tivesse uma música sobre Bagé teria iniciado com ela”, justificou. “Faz uma”, sugestão ouvida na platéia. “É… vai rolar”, rebateu o compositor.
Só então, com a primeira das alternâncias entre violões que marcariam a noite, apresentou duas do disco mais recente, “Satolep Sambatown” (2007), normalmente priorizado na turnê. “Tambong” (2000) também foi lembrado com várias inserções. Com exceção à “De Banda”, por não lembrar a letra, atenderia pedidos da platéia, celebrando a liberalidade conferida pelo formato voz-e-violão e pelo ambiente: “Fazia tempo que não tocava em bar… com essa zoeira boa”. Com a roupagem acústica, transpareceu ainda mais a musicalidade do artista, que chegou a emular, com a voz, uma percussão no final de “Não É Céu”.
Como habitual, nas interações entre as músicas, Ramil revelou em riqueza de detalhes o momento de criação de algumas, como a biográfica “Zero Por Hora”, cuja letra parodia uma alusão da Jovem Guarda à Rua Augusta; e “Estrela, estrela”, da qual detalhou até a localização do beliche onde a compôs.
Entre os clássicos “inevitáveis”, “Semeadura”, “Loucos de Cara”, e principalmente, “Joquim”, cujo início meio à capella teve côro no público.

Vitor e Marcelo

ANTES DE BAGÉ, SHOW EM CASA
Na véspera, Vítor se apresentara no Theatro Guarany, em Pelotas. No palco, dois violões, e percussão a cargo do carioca Marcos Suzano, co-autor do álbum de 2007. “Foi totalmente diferente, com repertório fixo e mais ‘organizado’ que esse voz e violão, no qual, conversando e tocando, de repente, se toca uma música que não estava prevista”, avalia Vítor.

SATOLEP SAMBATOWN, UM CONCEITO
A obra alia o sambatown do carioca Suzano à estética do frio do gaúcho, mas não reproduz estereótipos de uma suposta alegria do Rio de Janeiro frente a uma tristeza pampeana: “Não é que a estética do frio proponha uma melancolia, nem tampouco exista uma alegria carioca. Nunca penso nesses opostos, não existe isso pra mim. É uma reunião musical, não tem essa idéia. Eu sou um cara superalegre, divertido. Talvez não fique explicito e não se transforme em lirismo na minha música. Apenas, em meus trabalhos independentes, dei maior vasão sem me preocupar. Quando em gravadoras, antigamente, era muito mais forte isso ainda, sempre tiveram uma obsessão com música pra dançar, música pra alegria… e pra eles milonga sempre seria uma música triste. Mas a estética do frio não tem nada a ver com pregar uma melancolia. Se é melancólico em alguns momentos, ou tranqüilo, é porque minha natureza é essa, esse é meu temperamento, é assim que componho”.

NOVO ÁLBUM INCLUI CAETANO
Vítor compara a proposta do álbum já gravado, que deve lançar nos próximos meses, com a do anterior: “Satolep Sambatown foi uma chegada ao que eu me propus lá no Ramilonga, exatamente encontrar uma medida entre a música brasileira e essa música mais ‘sureña’, vamos dizer assim, milonga e tal. Ele consegue essa fusão. Já o disco novo é um prosseguimento, uma segunda etapa, não é um retorno a nada, é um andar pra frente. São novas milongas, novos arranjos, é uma nova busca”.
Na Argentina, onde se deu a maior parte das gravações, Vitor recebeu a notícia de que Caetano Veloso queria participar do disco. Dois meses depois, foi direto de Alegrete, para o Rio de Janeiro, onde se conheceram pessoalmente. “Nem sabia se ele me conhecia. Ele é um cara super legal, gentil, e muito interessado na questão cultural. A gente se afinou muito bem”.

DVD-DOCUMENTÁRIO
O CD novo virá acompanhado de um DVD-bônus: “Um documentário bem simples, bem despojado. Enquanto a gente gravava o disco, foi feito um acompanhamento documentando todas as gravações, minha movimentação lá, enfim, uma série de coisas”. Também traz cenas relacionadas aos locais onde viveram Jorge Luís Borges e João da Cunha Vargas, poetas respectivamente argentino e alegretense musicados no disco.

Vitor P&BREGIONALISTAS
Em sua obra, Vítor exalta os valores gaúchos, musicando os poetas locais e gravando milongas… ao seu estilo. Sendo o universo regionalista conservador, como é sua relação, por exemplo, com os freqüentadores do programa Galpão Crioulo ? “Fui no programa em seu começo, quando era bem garoto; e bem depois, muitas vezes… O Neto (Fagundes, apresentador) é super legal, meu amigo e um dos caras mais abertos que tem… Não há impedimento algum de ter uma boa relação. Tem algumas pessoas do regionalismo que torcem nariz pro que eu faço, dizem que não tenho direito de fazer regionalismo, porque sou um cara do litoral, de Pelotas, não sei nem andar a cavalo, essas bobagens assim… Acho que no final a minha composição acaba falando mais alto, o trabalho vai se impondo. Tá aí ‘Semeadura’, ‘Deixando o Pago’, já são clássicos do regionalismo”.

SATOLEP E A CRIAÇÃO
Definindo-se como “gaudério interiorano”, Vítor criou o anagrama “Satolep” em homenagem à cidade natal Pelotas, maior referência de sua obra literária e musical, e berço de seu processo criativo. O artista mora lá há 15 anos, na mesma casa onde residiu pela primeira vez aos quatro anos. É onde compõe quase tudo: álbuns inteiros – a maior parte do novo, o “Longes” (2004) inteiro; canções como “Semeadura”, na sala aos 17 anos, “Deixando o Pago” mais tarde… “É um lugar sempre inspirador, onde me sinto à vontade. Pra mim é importante, sou apegado às minhas coisas de família, de passado”. Uma parte menor das composições surge fora do lar: “Faço muita música em viagens, às vezes em passagem de som… Nunca acontece de ir para o estúdio compôr. Já entro com tudo muito pensado, com um conceito por trás, sabendo o que vou gravar”.

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