Jornalista bageense avalia seus quatro meses de reportagens na África

Rodrigo Antunes Cavalheiro, ganhador do prêmio Rei da Espanha de Jornalismo em 2008 e ex-colaborador de El País (Espanha) e Zero Hora, atravessa uma pausa para balanço em sua carreira, após ter cruzado o continente africano durante quatro meses. Com exceção de alguns trabalhos free-lancer, estima voltar ao mercado formal apenas em 2010, após concluir o projeto “Expedição na África”, com a compilação dos registros da viagem. De volta em Porto Alegre desde agosto, onde recupera-se da intoxicação decorrente de um medicamento contra malária, o jornalista redige o texto que complementa as fotos e filmagens – estas, obtidas com um celular, e felizmente baixadas para o laptop antes de o telefone ser roubado no Congo, no primeiro assalto de sua vida.
Os resultados garantem atualizações constantes em alguns sites, a saber:
*Blog pessoal de Rodrigo:

http://rodrigocv.wordpress.com/

*Blog da expedição dentro do site da Zero Hora

http://www.zerohora.com.br/africa/

As atualizações são anunciadas via twitter:

http://www.twitter.com/afrocavalheiro

Alguns vídeos também estão no Canal do jornalista no You Tube:

http://www.youtube.com/user/bage10

Face à riqueza de material que pode ser acessada nesses canais e é acrescida diariamente pelo próprio protagonista, este blog se limita, como é sua proposta, a informações adicionais sobre o projeto e também as práticas profissionais e a experiência na Espanha do Rodrigo, mediante respostas exclusivas.

Garotos nativos apreciaram a textura dos cabelos do repórter

Garotos nativos apreciaram a textura dos cabelos do repórter

BALANÇO E A POSSIBILIDADE DE UM LIVRO
Em vista da publicidade conferida pela Copa de 2010 ao continente africano, Rodrigo idealizou “uma espécie de expedição jornalística” aos 16 países, oferecendo ao mundo um olhar antecipado sobre um território destinado à superexposição nos próximos meses. Ao se lançar na empreitada, deixava para trás a redação do El País e o relacionamento de um ano com uma espanhola: “Era uma separação anunciada. Eu voltaria ao Brasil de qualquer jeito”.
Hoje, após a iniciativa corajosa, e a experiência das adversidades que descreve adiante, admite que nem todos objetivos do projeto puderam ser logrados, especialmente os que estavam além do esforço pessoal: – Patrocínio: “Tinha a esperança de conseguir durante a viagem, mas não consegui. Ou seja, gastei tudo do meu bolso mesmo”, explica. Cavalheiro se auto-financiou com a premiação do ano anterior.
– Cobertura online: “a idéia inicial era fazer o mais tempo real possível. Mas não dava. Nem eu tinha condições de escrever todos os dias, além do que mandar fotos e vídeos exigia uma estrutura mínima e era demorado. Nem a ZH tinha como ficar colocando as histórias quando chegavam”. No entanto, o conteúdo produzido satisfez o autor. “Em relação a qualidade dos textos achei legal. Não queria só fazer um diário. Queria fazer Jornalismo, contar histórias de outras pessoas. E acho que na maior parte deu certo”. Rodrigo já tem sondagens para um possível livro, que lançará se obtiver patrocínio. “Uma editora disse que tem interesse, mas não tem nada certo. Se alguém aparecer com uma proposta, devo acelerar o processo. Tem que ficar pronto antes da Copa”.

DESBRAVADOR NASCEU NA SANTA CASA LOCAL
Filho de uma bancária e de um professor de educação física, Rodrigo não visita desde 2004 a cidade natal: Bagé, onde morou até os 16 anos, quando trocou o Técnico em Processamento de Dados da URCAMP (em cuja primeira turma se formou) pela Famecos da PUC, onde se graduaria em 1999.

POR DOIS ANOS CONSECUTIVOS, JORNALISTA VIRA NOTÍCIA
No início de 2008, o bageense ganhou destaque mundial ao receber o Prêmio Rei da Espanha – na categoria iberoamericana, que corresponde ao maior valor em euros, além de uma escultura entregue pelas mãos do monarca daquele país. A reportagem premiada, “A Rota da Propina”, publicada por ZH em 2007, era binacional, em parceria com o repórter Javier Drovetto, do Clarín argentino. Rodrigo valoriza a conquista com os pés no chão: “Considero um grande reconhecimento, é importante no teu currículo, mas não te ajuda a fazer a próxima reportagem. Um jornalista da ZH, o Carlos Wagner, adora o que ele faz, tem dezenas de prêmios, mas lembra que todo dia, acho chegar na redação, a chance de ele emplacar a manchete é a mesma de um ´foca´. O jornalismo neste aspecto é cruel, todo mundo sai do zero a cada dia”.
Já a expedição recente, sobretudo em seu início, motivou a grande imprensa brasileira a entrevistas cuja leitura sugerimos, pela riqueza de detalhes que cuidadosamente não repetimos aqui no blog.

*Ricardo Kotscho – extensa entrevista no blog:

http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/2009/05/30/entrevista-exclusivarodrigo-cavalheiro-um-reporter-brasileiro-descobre-a-africa/

*Jornalistas & Cia (versão cache, original não está mais online).

http://shorttext.com/ispen56n

A idéia de Rodrigo também pautou as versões online da Folha, Revista Brasileiros, etc.

DIÁRIO DE BORDO – algumas impressões (exclusivas) da passagem pela África

O assalto na cidade de Kinshasa não foi a única situação hostil vivenciada por Rodrigo, que se sentiu incomodado, principalmente, com tentativas de extorsão por parte de policiais: ““É um hábito cultural pedir propina sempre ao estrangeiro. Depois de três meses se cria uma certa aversão a uniformes”, revela.

Cavalheiro permaneceu na África o dobro do período planejado. “O sistema de transporte e o terreno são ruins”, justifica. “Vivemos com uma certa referência de tempo e espaço, que na África muda. A pressa do entorno é menor, isso influencia. Ao viajar na Europa, este fenômeno para um brasileiro aparece ao contrário. É extremamente rápido mudar de cultura e de país. Na África, tudo é mais lento”.

A urgência que atribuiu à viagem não permitiu maior planejamento prévio: “Não pesquisei quase nada. O primeiro mês viajei com um grupo de aventureiros que saiu da Espanha. Simplesmente segui a rota deles. A partir de Gana é que fui pensar: como faço agora ?
O lado bom: sem expectativas, assim como acontece com um filme, uma viagem tende a te surpreender positivamente. Lugares e principalmente as pessoas são muito surpreendentes na África.
O lado ruim: eu não sabia nada sobre vistos, que são caríssimos, em média 200 reais por país. Sabia pouco sobre a malária, ainda que se soubesse mais, é provável que teria pego igualmente. Sabia pouco sobre a corrupção, mas também não adiantaria saber muito mais. Lá é endêmica”.

ABELHA NA SELVA?
Sem recursos para financiar uma equipe, Rodrigo atuava só, em um modus operandi que remete aos chamados repórter-abelha, como Marcos Losekann, que se auto-produz, grava e edita. “Nunca vai ficar a mesma qualidade. Acho que tu pode contar a mesma história privilegiando o melhor de cada plataforma. E assim contar uma história de maneira mais completa. Mas claro que a qualidade sempre vai ser melhor se tiver uma pessoa concentrada, é uma questão física”, avalia o repórter.

REPORTAGEM IN LOCO
Historicamente, as pautas de Rodrigo sugerem um perfil investigativo, de quem vai a campo averiguar. “Não me apresento como repórter investigador. Se presume que todo repórter tem que fuçar, tentar descobrir o que a fonte oficial não quer dizer. E isso não tem a ver com grandes denúncias, tem a ver com matérias sobre buraco de rua. Se costumou a associar o repórter investigativo ao cara que mete denúncias, que compra brigas com gente grande. Acho que isso é o que menos importa. Interessa que o que tu esteja investigando beneficie ou interesse ao maior número de pessoas. Neste caso, me incluo”. Para muitos teóricos, o a investigação jornalística na era da Internet perdeu terreno para o copiar-e-colar. Cavalheiro, porém, alivia a responsabilidade dos colegas: “Muita gente sai da faculdade sem outra opção. Primeiro, porque é difícil que alguém saia capacitado para investigar da Universidade. Alguns saem sem saber fazer um lide. E também porque cada meio não quer ficar atrás do outro em qualquer questão tecnológica, mesmo que seja uma bobagem. Então é de se esperar que os focas vão parar no copiar-colar”.

LA PRENSA EN ESPAÑA – MERCADO PARA ESTRANGEIROS
A temporada de trabalho para o El País permitiu a Rodrigo conhecer o tratamento da imprensa espanhola ao profissional brasileiro: “Acho que lá o mérito estava mais na sacada do que na própria investigação. Até porque escrevendo em outra língua o que pode te dar um diferencial é a ideia, a pauta. Um estrangeiro vê de forma diferente coisas que um local já está acostumado. Isso ajuda na hora de ter ideias diferentes da média. Mas a questão do idioma está sempre presente. Por melhor que se fale ou se escreva, o trabalho não vai sair como o de um nativo. Eu diria que é melhor fazer jornalismo no Brasil, hoje. Temos muito mais problemas, matéria-prima”.

LA PRENSA EN ESPAÑA II – DIPLOMA E FORMAÇÃO
Na Espanha, não é exigido diploma aos jornalistas: “É indiferente. A maior parte sai diretamente de um Master (N.: especialização ao estilo MBA), depois de ter feito graduação em outra área. Normalmente tem uma prova de seleção, claro, como um vestibular. Posso falar pelo Master do El Pais, que eu fiz: 80 % dos alunos vinha de outras áreas, gente inclusive de Química, Astronomia. Eles acham, em princípio, que um cara destes tem uma cabeça mais aberta”. Particularmente, Rodrigo não sente carência de novas especializações: “Isso é uma questão de objetivos pessoais. Para ser um bom repórter não é preciso fazer pesquisa acadêmica. Mas a briga que há entre os dois setores (N.: acadêmico e redação) é uma bobagem. Uma parcela se dedica a estudar o Jornalismo. Poderia se dizer que o jornalista de rua está estudando tudo, menos Jornalismo (risos)”.

Sempre solícito em atender colegas e leitores em geral, Rodrigo disponibiliza e-mail pessoal para contato: bage10@hotmail.com.

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