Mário Lopes: entrevista biográfica

Quem é Mário Lopes e porquê seu nome foi dado ao Troféu Imprensa ?

Aos 87 anos, Mário Nogueira Lopes viu nas últimas semanas seu nome voltar a figurar com freqüência no noticiário local, por conta do Troféu Imprensa de que é patrono e cuja edição de 2009 está marcada para o dia 28. Houve épocas em que o nome de Mário saia diariamente no expediente do jornal Correio do Sul, onde chegou ao posto mais alto – o de diretor.
Além de figura histórica do jornalismo local, Lopes é o portador de um raro conhecimento do passado de Bagé, registrado por ele em dois livros e inúmeros artigos em jornais, além do material ainda inédito. O trabalho que teve para deixar impressa a história de Bagé não garantiu que a sua própria ficasse visível para a geração que pesquisa unicamente na Internet: são escassas as referências virtuais a Mário na rede que vão além da citação de seu nome. Motivo para nosso blog tentar contribuir, oferecendo um perfil biográfico, porém atual, em um encontro da comunicação digital com aquela que teve origem no modelo de Guttenberg.
Fora do ambiente digital, a falta de documentação sobre Lopes começa a se resolver na Biblioteca Pública, onde encontra-se seu livro “Bagé – Fatos e Personalidades”. O prefácio, por José Antônio Marques da Silva, traz uma biografia do autor, citando, nos veículos onde trabalhou, as funções que cumpriu com pioneirismo, como: a criação de programas próprios de radioteatro e radiojornalismo nos momentos iniciais das rádios locais; e também como comentarista, narrador, e editor de informativos impressos segmentados, em cobertura esportiva, área de seu especial interesse. A partir dos anos 60, permaneceria quase três décadas na equipe do Correio do Sul, que veio a dirigir. Antes que seu nome fosse atribuído ao troféu que está na sexta edição anual, Mário viu o reconhecimento de sua obra ao receber as mais diversas distinções e honrarias – civis e militares, muitas das quais, emolduradas na parede, dividem espaço em sua sala com a biblioteca.

Já na escrivaninha do jornalista, vários impressos disputam lugar com um computador conectado à Internet. Lopes admite que, embora tenha superado a fase da informatização do Correio do Sul, quando nem chegava perto das novas máquinas, ainda domina pouco as ferramentas informatizadas. Suas atividades resumem-se a acompanhar a rede mundial, visualizando as notícias como espectador, e adicionando sites aos favoritos do navegador.
Mário também assiste, diariamente, o noticiário da televisão e lê os jornais impressos Zero Hora e Minuano, prevendo que o formato nunca acabará: “O rádio e a televisão não terminaram como diziam… e o impresso é o que fica !”
Das redações, está distante há anos, embora tenha colaborado por algum tempo com o Correio do Sul, mesmo depois de afastado, com uma coluna sobre fatos históricos. É diretor de Imprensa do Núcleo de Pesquisas Históricas Tarcísio Taborda e da Associação dos Amigos da Biblioteca.
Fazendo um retrospecto de sua trajetória, o jornalista é decidido ao indicar os momentos que considera mais marcantes:
“O Correio do Sul foi o primeiro jornal a garantir que Médici ia ser o presidente. E a primeira entrevista que Médici concedeu antes de assumir foi para mim, pelo telefone, quando ia para Brasília. Todos os jornais do Brasil me telefonavam, pedindo pra mim informar o que ele tinha dito, queriam saber”.
Apesar de ter dirigido o jornal durante o regime militar, o que compreendeu a vigência de decretos como o AI-5, Mário relata: “Não tive nenhum problema com a censura, porque o que era censurado, não chegava a Bagé”. Questionado se tomou conhecimento de alguma ação de censura atingindo a qualquer veículo da imprensa local no período, afirma: “Que eu saiba não, na imprensa acho que nunca houve”.

Mário Lopes e Emílio Médici

Mário Lopes e Emílio Médici

HERANÇA JORNALÍSTICA
Mário não sabe precisar em que momento percebeu sua vocação: “Acho que eu já nasci jornalista !” Seu pai, Túlio Lopes, foi o primeiro fotógrafo do Correio do Sul, quando as fotos das notícias eram colocadas unicamente em painéis na porta da frente da redação, pois a gráfica ainda não suportava o clichê. Túlio teve tipografia e desde jovem fazia jornaizinhos. “No mês em que nasci saiu a revista Fênix, que tinha como redatores os grandes intelectuais da cidade”, recorda Mário. “Eu comecei fazendo um jornalzinho que era distribuído no cinema”. Mais tarde, na redação, conviveu com o uso de artefatos hoje arcaicos como a máquina de datilografia, o linotipo, o clichê, o off-set, o telégrafo… período do qual sente nostalgia: “Era mais emocionante fazer jornal naquela época. Isso eu achava. Porque eu ia pra oficina, metia as mãos e sabia trabalhar de um modo que como é hoje, não saberia. Porque era feito com as mãos, se mexia na tinta… eu até paginava o jornal. Às vezes por necessidade, outras porque gostava”. Na época, o Correio do Sul tinha mais de 30 funcionários.

REGISTRO PROFISSIONAL
Mário, que tem como formação escolar o Ginásio concluído no Colégio Auxiliadora, viu-se obrigado, após anos trabalhando em redação, a fazer seu registro no Ministério do Trabalho. “Tinha que mandar matérias, comprovando que trabalhava em jornal”. Dessa forma obteve o carimbo de “jornalista profissional” na Carteira de Trabalho que guarda ainda, e exibiu durante a conversa.
Sobre a polêmica do diploma para Jornalismo, opina: “o diploma não faz jornalista, é só o que tenho a dizer”, admitindo a “verdade e a ética como condições principais” para a profissão.
Entre os colegas jornalistas de seu convívio passado, cita como remanescente o nome de José Higino Gonçalves, atual editor-assistente do Minuano. Na categoria “In Memorian”, destaca Paulo Fontes e Olmiro Passos como “dois repórteres criadores, que tinham iniciativa própria”. Mesmo na condição do que considera “o mais alto cargo do jornalismo de Bagé” na época, Lopes diz que nunca deixou de ser repórter: “Pra mim sempre foi a mesma coisa, era diretor mas saía pra fazer reportagens também”.

PRODUÇÃO LITERÁRIA E HISTÓRICA
Junto a sua biblioteca pessoal, Mário mantém um arquivo de vários volumes encadernados que compilam sua produção escrita, inclusive a recente. “Aqui está minha vida jornalística”, define. Entre os temas que tem cadernos específicos, estão:

– Seleção de notícias antigas para o Correio do Sul, após seu afastamento.
– Jornalzinho para circulação exclusiva nas mesas da cafeteria local que freqüentava, destinado a uma leitura leve com piadas e comentários.
– Centenários: dedicados à comemoração de um século, tanto de entidades como Associação Comercial (publicado em livro), Colégio Auxiliadora e Igreja Anglicana; como de personalidades como Emilio Médici (veiculado no Correio do Sul), Átila Taborda e Emilio Guilain.

Atualmente trabalha em dois projetos:

– o segundo volume de seu livro sobre a História de Bagé, possivelmente a ser patrocinado pelo Núcleo de Pesquisas que leva o nome de quem ele considera que “foi o grande historiador de Bagé”. Apesar do valor antológico de seus escritos, Mário esclarece: “Não sou historiador e nem pesquisador, sou um copiador de notícia antiga… e escrevo o que eu vi ! Quantos anos eu tenho da História de Bagé ? Sou testemunha de mais do que um quarto do tempo da vida da cidade, que cobri, no rádio e no jornal”. Relata o jornalista que viveu uma Bagé posicionada como terceira cidade em importância no Rio Grande do Sul. “O primeiro automóvel do estado circulou aqui. Foi a primeira, e terceira do brasil em energia elétrica. O primeiro telefone automático. Teve o cinema meses depois do Rio”, exemplifica.

– a História de cem anos de futebol em Bagé. Mesmo sem motivos para orgulhar-se do esporte atualmente praticado na cidade, Lopes já entregou ao G. E. Bagé sua História e planeja fazer o mesmo com o Guarany F. C. assim que concluir o texto. Alvirrubro, já integrou a diretoria da agremiação, mas hoje vai ao estádio em raros momentos como o do lançamento da nova iluminação, muito diferente do que fazia há três décadas. Segundo ele, seu lado torcedor nunca dificultou a cobertura isenta: “Pode-se ser torcedor, mas sou primeiro jornalista, então só podia dizer a verdade. Custaram a saber meu time, pelo que eu escrevia ninguém descobria !”, relata. Sobre sua dedicação à cobertura esportiva, argumenta que “a única coisa que une todo mundo é o futebol. Como dizia Mário Rodrigues, futebol é a ‘Pátria de chuteiras’, e continua a mesma coisa. Quem não gosta de futebol torce na copa do mundo, isso acho que não mudou”.

LEMBRANÇAS PESSOAIS
Quando o autor deste blog integrou a redação do Correio do Sul, na metade da década passada, Mário ainda era colaborador. Na avenida Sete, 660, freqüentava especialmente a mesa do Higino, entre cafezinhos, e o arquivo, aos cuidados do saudoso “Seu” Amado Jesus. Quando o jornal faliu, em 2008, Lopes já não mantinha vínculo algum com o veículo, desde a troca da administração ocorrida anos antes. Pela ligação emocional, porém, admite: “Lamentei o fechamento”. Desde então, não recebeu convite para colaborar com nenhum jornal local, revelando certo antagonismo entre as redações. Sua presença, porém, é solicitada constantemente em eventos culturais como a Feira do Livro e “Conversa ao Pé do Palco”, que comemorou o Dia Mundial do Teatro, na Casa de Cultura.

BAGÉ REVISADA POR UM “COPIADOR DE NOTÍCIAS”
O livro “Bagé – Fatos e Personalidades”, (abril de 2007) impresso pela Evangraf de Porto Alegre mas atribuído à Editora Praça da Matriz, é um dos vários projetos de cunho histórico e cultural viabilizados pelo Núcleo de Pesquisas Tarcísio Taborda. Em 136 páginas, serve como um compêndio histórico da cidade, em linguagem simples e objetiva. Entre muitos fatos antológicos e algumas curiosidades, explica quem foram os vultos que dão nome a muitas escolas e ruas do município. Na área de imprensa, enumera órgãos que Bagé já sediou e uma linha do tempo dos veículos atualizada até a fundação do Jornal Minuano.

DISTINÇÃO SOCIAL
Ao ser indicado como patrono do Troféu Imprensa, Mário considerou “muito gratificante, ver meu nome escolhido quando eu já estava fora da vitrine”. De acordo com o presidente do Sindilojas, Luis Fernando Dalé, este foi um modo criado para representar o reconhecimento da cidade à postura de Mário, “um símbolo para os leitores, e para os futuros jornalistas, pois dirigiu órgãos de imprensa sem necessidade de qualquer reparo ético”. Por ser mais jovem, Dalé não acompanhou o início da carreira do jornalista, mas revela que Lopes já contava com a admiração de seu pai José Dalé. Luis Fernando também aponta como motivação para o troféu uma valorização da imprensa livre. Por isso, a votação dos premiados em 12 categorias é feita por jornalistas que exercem profissionalmente o ofício em Bagé, mediante a distribuição de questionários. Em 2009, até o momento 27 questionários já foram respondidos.

Caricatura assinada por Compagnoni, argentino oriundo dos jornais de Buenos Aires, que Mário hospedou em sua casa em Bagé, e auxiliou a ir para o Rio de Janeiro.

Um Comentário

  1. André Santos

    “…E a primeira entrevista que Médici concedeu antes de assumir foi para mim, pelo telefone, quando ia para Brasília. Todos os jornais do Brasil me telefonavam, pedindo pra mim informar…”
    Existe algum registro em aúdio desse telefonema?
    Me chamo André, graduado em Cinema, no Rio de Janeiro. Desenvolvo uma pesquisa sobre o período Médici com o intuito de obras cinematográfica de longa duração.

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