Jupiter Apple/Maçã: megaentrevista exclusiva

“Sir Jupiter Apple´s Triumphal March to Cloud #9”
ou
“Os planos de Jupiter Apple para tornar sua obra mais visível e eventualmente conquistar o mundo”

Esqueça Stuart Stucliff. O beatle extra que entende das artes vive, e aprecia cafés no centro histórico da capital gaúcha. Flávio (ou Flavius) Basso de nascença, elegeu a assinatura “Jupiter Apple” para firmar suas obras-polaróides de uma compulsão interior full time pela criação, e que ao mesmo tempo refletem dilemas do caos urbano. Os indícios de ser um beatle estão em sua trajetória: começou com nuances de transgressão em uma formação rock básico que influenciou gerações. Se apartou para dar vasão a uma concepção mais autoral. Teve uma fase de lisergia real. Transcendeu os limites da própria criação assimilando influências das artes de avant-garde. Conquistou um séquito fiel e passional com uma obra que assimila influências como psicodelia, bossa nova, tropicalismo, poesia beat e exala uma fragrância de inventividade desigual. Hoje só o que lhe distingue de um fab4 é o êxito restrito a uma cena cult, e ainda não devidamente massificado. Provocar maior visibilidade para si é o desejo confesso do artista que, aos 42 anos, passa longe de ser has been, incansável em reinventar sua obra com soluções nada previsíveis e que não reproduzem fórmulas.

PÉTALAS DE GENIALIDADE

É comum a associação de Jupiter Apple à idéia de genialidade. Aconteceu na entrevista do Wander Wildner ao blog, quando o ex-replicante rejeitou ser gênio mas disse que Jupiter e Edu K. fazem jus ao termo.

https://marcelofialho.wordpress.com/wander/

No programa Código MTV em 2008, o apresentador Lobão referiu-se com este qualitativo a Apple, que na ocasião concordou, rebolando: “I am a genius! I´m a genius!” Hoje, ele acrescenta: “Depois vi que o Lobão chama um monte de gente de gênio (risos). Mas eu já fui chamado assim por pessoas muito sérias – assim como o Lobão, lógico – com responsabilidade em suas palavras. O que eu acho ? Tem mesmo, cara, um toque genial ali… agora o que é este toque ? Pode ser um pezinho na não-realidade, que alguns dizem ´quase um autista´… pode ser excesso de devoção às artes, mas será que existe isso ? O porquê, onde, como, quando, se existe uma formula, não sei exatamente. Existe um quê de genialidade que, me distanciando, consigo detectar mesmo, na minha obra. Se me incomoda ? Não, nem me deixa desconfortável. Levo com bom humor, e sem modéstia. Levo numa boa. Não sou o dono absoluto… mas existem pétalas de genialidade no meu jardim”.

OS DISCOS DE JUPITER “AINDA ESTÃO PRA SAIR”

Extremos de uma obra: a primeiro demo, anterior à "Sétima Efervescência"...

Extremos de uma obra: a primeira demo (acima), anterior à “Sétima Efervescência”, e (abaixo) Jupiter replicado nos “Silver Beatles”, já na era singles de “Calling All Bands”: uma obra inteira a ser (re)descoberta pelo Brasil.

Photogram by ZÉ ROBERTO MUNIZ, SAN LEO, RS, BRAZIL

Photogram by ZÉ ROBERTO MUNIZ, SAN LEO, RS, BRAZIL

Mesmo convicto da qualidade de sua obra, Jupiter informa que, apesar de ela estar disponível na web “mais do que nunca” (a discografia oficial quase completa no site Trama Virtual), fisicamente ela está fora de catálogo, e “cosmicamente tudo conspira” para que ela seja relançada. “Então não posso considerar lançada ´Uma Tarde Na Fruteira´. A ´Marchinha…´ não caiu na boca do povo, ou pelo menos 50, 60% dos apaixonados pela Pop Culture Brazilis, que seja, os neo-tropicalistas, tropicalistas, os universitários todos… é aí que está meu público geralmente, mas não num grande número, num percentual maior. Então, eu vou revisitá-las mais, eu vou recolocá-las, eu vou mostrá-las mais. Não significa que não esteja escrevendo em português, mas tenho umas coisas tão lindas que não, eu realmente acho, que não foram bem colocadas, e eu tô deixando fluir naturalmente.
As pessoas falam que eu tenho pérolas e pérolas e pérolas e pérolas, sou um grande letrista e tal. Eu tenho um público bem considerável, mas muitos acham também que não o número suficiente de pessoas teve acesso a ponto de sacudir a música brasileira num todo, as músicas em português, que era o que muitos artistas desejavam que viesse acontecer, que eu desse uma sacudida”.
Seria o momento de sair do status cult para algo maior ?
“Eu penso nisso. Essa coisa cult rolou e rola, e tem crescido, uma cena grande, uma cena maior, mas ainda com essa característica do cult, que tem seu charme e é uma coisa legal, elegante e chique. Mas é interessante que muita gente conheça? Olha, desde que elas estejam entendendo, sintonizadas… tem que existir a simbiose, acho que daí tendo essa realimentação, esse sol na coisa toda, acho legal, cara. Se venham a entender a obra pelo que ela é. É muito fácil acontecer um boom de um balela. Mas não aconteceu.
Porque se acontece alguma coisa tipo ´Um Lugar do Caralho’, deve existir a seqüência na linha de raciocínio e admiração, e apreciação e degustação dos próximos números da obra, ao meu entender. Na verdade isso não sou eu que decido.
A coisa acontece”.

A MORTE DO INDIE

E nessa visão, há restrições quanto a apresentar-se em programas de televisão considerados mainstream ? “Atualmente, se alguma coisa me incomodasse em algum sentido, eu saberia levar na brincadeira. Confesso que estou a fim de maior exposição. Visibilidade: está muito em voga essa palavra. As pessoas querem dizem ‘eu quero aparecer mais’ e dizem ´visibilidade´. Ai, que amor! Sou parceiro da visibilidade… se alguma coisa me incomodar vou levar no bom-humor, essa é minha postura. Não existe mais o indie, independent, não tem mais nada disso. Existe a visibilidade e o posicionamento”.
Jupiter faria programas na linha de Domingão do Faustão e Programa do Gugu? “Com maior prazer, se for o caso. Eu acho que a gente cria o caso. Eu não gosto muito de joguinhos, de brincadeiras absurdas… eu não recuso, eu faço uma contraproposta. Já aconteceu: ‘vamos fazer aquilo lá, aquele jogo divertido televisivo’ e eu digo ‘que tal fazer essa outra coisa’ ?. Algumas vezes aconteceu, outras não, ok. Acho que lido bem com isso”.
Dentro das idéias de aumentar a audiência, já houve quem comentasse que as músicas em inglês de Apple visam ao mercado internacional. Ele comenta: “Comecei a escrever em inglês meio que espontaneamente, e flui naturalmente. Até porque essa coisa do mercado, depois eu descobri que se você escreve em português você vai estar agradando mais um público supostamente internacional, pois os ingleses chaparam com a ‘Marchinha Psicótica…’ que é toda em português – tocando na Inglaterra, não fiz muitos shows, mas em alguns que fiz… é um poema bastante grande, mas eles gostaram das colagens, das sonoridade, se apaixonaram pela coisa.
Mas claro que tenho esse interesse… eu quero expandir. Fiz coisa bem de cena, bem focada. Tenho disco lançado lá, sou um cara bem comentado, benquisto, mas não sou uma estrela européia… mas acho que eu posso (risos)”.
Já em francês, idioma de origem de algumas de suas referências culturais, o artista não pretende compor: “Só a vinheta de ‘ Mademoiselle Marchand’, já é um slogan art. Eu não domino a língua francesa nem alemã… queria. Japonês… acho muito legal. Mas eu escrevo em inglês melhor do que falo, e tão bem quanto em português. São coisas bonitas”.

ASSINATURA

O foco na visibilidade nem é tão recente para ele – foi o que motivou, por exemplo, a adoção para a carreira solo de alcunhas diferentes de seu nome próprio, iniciando por Woody Apple, depois Júpiter Maçã e finalmente Jupiter Apple. Ele explica que não é um personagem temporário a la Bowie, mas sim uma assinatura que designa o que ele é em tempo integral:
“Sou Jupiter o tempo todo. Porque é Flávio Basso e seus apelidos. E é tudo meio assim, número romano, ou sci-fi, ou mitológico. Na verdade não existe Flávio, eu sou Flavius Basso, eu sou Júpiter Maçã, Júpiter Apple. É essa coisa futurista, greco-romana. São vários apelidos, nem tantos, foi o Woody… Rogério Skylab detectou que eu tive tantos pseudônimos, mas nem tantos… eu acho que o Apple tem um pouco mais de peso pela abrangência da palavra, e Maçã restringe um pouco à língua portuguesa. Isso eu detecto nas pessoas quando elas falam, de outros países cuja língua não seja a portuguesa. Quando elas recebem esse nome sinto que ele é tão forte. Não é um personagem, nem é alter ego. É uma assinatura para um outro tipo de visibilidade, para se pôr ‘a mercê de’ ”.

DAY-BY-DAY PERSON
Apesar da criatividade fluente e de um estilo de vida próprio, Jupiter também tem seus momentos corriqueiros. “Faço as coisas day-by-day. Sou uma pessoa muito discreta, não faço questão de estar aparecendo, gosto de ser notado como uma pessoa day-by- day. A coisa do flerte: uma mulher sai bonita à rua, ela quer flertar; um homem, se está se sentindo bonito, ele quer flertar… É essa a sensação, a sensação do “estou ok, estou de bem com a vida” mas não de “ei, olhem, viram, notaram? Sou eu, sou eu”. Não, eu não levo o palco e a sessão de fotos, o estúdio fotográfico, cinematográfico, a locação pra rua. Posso até poetisar em torno dele, mas não. Vou no mercado, carrego a sacolinha. Gosto de ir no mercado público de POA, centro histórico, cafés. Mas de ficar na minha. É gostoso ser reconhecido? Às vezes. Bater um papo, tirar uma foto, dar autógrafo, mas é isso. Em princípio sou bastante discreto. Quero ficar tranqüilo, fazer as coisas.” Em casa, Jupiter também não se isenta de zapear por canais de TV aberta e fechada: “Dou uma olhada. Filmes – geniais ou não, programas de variedades…”

Nos momentos de compositor, predomina a própria necessidade artística ou a intenção de ser compreendido ?
“As duas coisas. Eu escrevo pra mim mas eu fico pensando até que ponto estou conectado. Essa conexão é cósmica, ela é telepática. Tenho que me sentir, e sinto também quando é só pra mim. E aí, não raro são as canções que vão ficando em stand-by, elas vão ficando naturalmente na gaveta, arquivadas, em esboço ou não.”

MUITO ALÉM DO ROCK
Se a obra de Apple precisasse ser definida em um rótulo, seria o do rock and roll ? “Minha obra movimenta, trabalha com um tipo de vibração que pode ser detectada no segmento que leva esse cunho rock. Mas não é rock, não sou um roqueiro. Eu já fui dez anos um neo-beatnik. Quem é um neo-beatnik ? Isso não existe. É cosplay então. Beat, mas tem graça ser um beat… Não consigo imaginar um garoto de 15 anos… qual fantasia tem que ter pra ser um beat ? Aí o cara diz: ‘não, é fácil, você tem que levar umas garrafas pra um quarto de hotel lúgubre, fechar todas janelas e deixa só uma fresta’. Ele vai achar fantástico, mas não é uma coisa que você vai dividir e você vai brincar. Como é que você vai colocar isso na Internet ? Como vai se vestir o beatnik ? E se ele ficar realmente depois bêbado e não souber lidar, jogar e brincar com isso… Eu tive essa vida sombria poeticamente e existencialmente falando. Uma vez sóbrio, olhando pra trás eu tirei proveito poético disso”.
Hoje as influências artísticas vão muito além do rock, vem das artes em geral. Celebra os coletivos de arte em atividade no mundo (“Quanto mais melhor”) e enfatiza: “Todos artistas me influenciam. Pode me mostrar por onde não ir (risos) ou apontar pra onde ir, me deixar mais aguçado, mais perceptivo mais belo, mais afinado, sintonizado… Às vezes estou bem desligado para as artes, às vezes fico bem ligado – dos outros”.
Que caminho o artista recomenda para quem quiser, como ele, ampliar seu leque de referências culturais ? “Para se aproximar rapidamente das artes, de vanguarda de preferência? Adquira trabalhos e obras de Júpiter Apple… Depois, beem depois quem sabe os de Wander Wildner. Raaá! (risos)”

PSICODELIA SEGUNDO UM LISÉRGICO

“Ainda hoje sou muito associado. Já na época lisérgica minha – em que eu também não brincava de lisergia – eu dizia pra mim que psicodelia era a saturação das formas e que eu vinha saturando formas na minha música, basicamente em a Sétima Efervescência e algumas coisinhas que vieram depois e não entraram em disco nenhum. Aí o Plastic Soda acaba tendo já essa ressaca dessa psicodelia, que é uma ressaca muito doce, aveludada, muito legal. É um disco de veludo, feminino. É uma ressaca psicodélica, complexa, mas tudo bem. Uma coisa que existe toda vez que você satura mesmo dentro dessa intenção do exagero e do maior númer de absorção possível da sua própria produção e sua própria imaginação também. Lá dos anos 60 muitos saturaram a fórmula. É uma estética, é um segmento mas ele está ligado a saturação. Nem todos saturam, tem uns que preferem coisas concretistas, outros preferem descontrução/construção, É fundamental, anyway. Abriu horizontes. Escancarou geral. Abriu as portas perceptivas. Pra mim foi ótimo. Eu fui psicodélico. Eu vesti a camisa. Aí eu fiquei com uma gama e tanto, um leque pra seguir nas mais diferentes vertentes, nas artes como um todo”.

NEXT RELEASES
Sob tal gama de influências, o processo criativo de Jupiter é absurdamente produtivo: trabalha simultaneamente vários projetos de futuros lançamentos, e arquiva alguns e prioriza outros conforme a vibração de sua obra em um dado instante.
“Estou trabalhando com conceitos. Não quero anunciar nada. Vou estrear meus lançamentos com singles, e depois é provável um EP com os quatro singles: seus A-sides e B-Sides”.

1.GOTHIC LOVE – provável próximo single
Atualmente Jupiter trabalha no que deverá ser o próximo single: “Gothic Love/Urban Blue”, produzida por Ray-Z http://www.myspace.com/rayzmusicproductions e o próprio Jupiter, como foi “Calling All Bands”. “Ainda não tem registro mas já tenho o poema todo. É uma espécie de um folkzinho existencialista inspirado nos 80´s, que pincela um pouco e dá uma colorida na situação… você poderia lembrar de Smiths”. (N. do R.: Legal !!😉 )

2.FLORISTAS, B-side inédito
Jupiter exemplifica com peça não-lançada, um caráter transgressor que identificamos que se mantém em sua obra desde o início: “ ‘Floristas’ é em português, que é singela, leve, ácida, tem isso que você disse que eu não perco… Tá falando sobre casais apaixonados pessoas simples do day-by-day. São floristas, eles tem uma banquinha de flores. A outra é a menina que colhe framboesas pra sobremesa, preparar os drinques; ela se atrasa porque foi no médico. Aí ela se casa e se apaixona – com o médico. Acho que é natural da minha essência, esse toque poisoned touch… sempre teve desde criança, acho que não perco… um toque de veneno”.

THE UNDERGROUND YEARS ALBUM
Chegou a circular a informação de um álbum em 2010 com o título “The Underground Years”, postada, por exemplo, no artigo sobre Jupiter na Wikipédia. Mas ele esclarece que o projeto não vingou e esse nome pode resultar no máximo em uma coletânea. “Esse álbum seria lançado ainda no formato CD, no final de 2009, quando eu decidi que não era mais um conceito que me atraía tanto o CD, quer dizer, até de forma mercadológica e também o charme, e todo o design, já há algum tempo estava desinteressado. Eu confesso que tive momentos muito bons com o CD, Mas eu realmente acho que tem outras formas de apresentar a arte”. Hoje esse é apenas o título provável de uma compilação que, se sair, “vai ser muito fina, vou trabalhar pra ser finésima”.

UNRELEASED ONES
Essa exuberância criativa pode até confundir os fãs que colecionam sua discografia. Depois de “Uma Tarde na Fruteira” ele passou a trabalhar com singles e B-Sides (“Gregorian Fish” é o B de “Modern…
”), e mesmo assim, nos shows atuais, toca pelo menos duas canções jamais lançadas em versão estúdio:

1.CEREBRAL SEX
“Gravada mas não disponibilizada, é originalmente uma música do meu projeto The Apple Sound http://www.myspace.com/theapplesound que é com Clegue França, Astronauta Pingüim e Laura Vrona, lá em São Paulo. Então esse quarteto de certa forma inovou bastante, até marcou a cena ali paulistana. Com uma batera fragmentada e tal O the apple sound vai retomar, não sei exatamente com que face, mas vai retomar. Eu quero lançar esse projeto paralelo já em forma de candy architecture, como é que é isso: já vem pelo clipe e pelo single o disquinho, enfim, do jeito que eu quero que as coisas doravante venham a acontecer. Mas como estou em fase de organização de uma estrutura maior que vai produzir, que vai colocar meus produtos – chamando educadamente mesmo, arte de “produto”, expressão que tô colocando numa dimensão respeitosa pela coisa toda…”

2.SIX COLOURS FRENESI
“Vem crescendo em ritmo laboratorial, no estúdio, o áudio dela; e já tem um conceito pro clipe que junto com isso tudo fecha o que eu entendo pelo single em si. Eu já penso naturalmente imagem e som, som e imagem, muitos artistas já fazem isso mas eu costumava pensar muito o áudio, muito o vídeo e nesse caso acabar também pensando cinema, e aí foi a questão, do Apartment Jazz. Então hoje eu sou uma pessoa mais parecida com essa gama de artistas que pensa paralelo, e o interessante, crescem juntos o áudio e o vídeo. Mas aí acabei colocando outro single na frente, passei na frente “Calling All Bands”, por questões minhas, porque as cores , o design e tal que eu pretendia estavam muito mais para “Calling”. Aí voltei para “Six Colours…” por uma semana, e decidi trabalhar a “Gothic Love”.

A IMPORTÂNCIA DA IMAGEM
Dentro da visão de “produto” que já nasce associado à imagem, Jupiter assume cada vez mais a direção de seus clipes. “Calling All Bands” é assinado a seis mãos por ele, Clegue França e Rafael Syd ( http://rafaelvideos73.wordpress.com/ traz fotos hi-quality da produção do clipe). Comentário do autor: “O processo de vídeos parte muito de mim e da Clegue França, estudante de moda. O design está diretamente ligado e a gente bate muita bola, trocamos figurinhas. E aí chega logicamente com um olho clínico de cineasta/cinegrafista, ou seja, com uma câmera gravando muito bem posicionada. Esses três funcionaram muito bem, porque houve uma interferência muito grande da dupla Apple-França, essa intenção”. Jupiter reflete sobre o peso da imagem no conjunto de cada lançamento atual: “Eu sempre apostava muito em toda abstração que seria natural de um brainstorming do ´the audience´ (do público, do ouvinte). Sempre apostei muito na criatividade, na inventividade do público, principalmente nos meus álbuns mais ´pesados´ de conceito mais fechado, mais denso. as pessoas sempre me diziam ´tive uma idéia genial, muito legal para esse, aquele clipe; eu pensei nisso naquilo´ e alguns realmente convidavam pra fazer os clipes E também pelo meu lifestyle muitos clipes eu deixei de fazer. A questão é as pessoas faziam clipes em suas mentes. É como ler um livro, elas construíam seus próprios filmes, durante muito tempo funcionou assim. Hoje é mais uma outra coisa, consigo dar a eles um aspecto de embalagem, também com respeito. Gosto de deixar com uma cara de perfume, de peça plástica, de peça geométrica e decorativa. Que os clipes tenham aspecto de peças organo-plásticas que você leva pra algum lugar, objetos”. Alguém pensou em Warhol ? “Inconscientemente, acaba tendo a influência. Mas quem não foi influenciado ? ´Calling All Bands´ foi escancarado isso, mas ´Modern Kid´ já tinha, e acho que tem mais. Você pode estar levando outras coisas pra casa, um quintal, um jardim, uma casa de campo, esse tipo de coisa. São instalações. Não é o jeito que os grandes clipmakers fizeram, os precursores Madonna ou Michael Jackson, ou os inventores do clipe, Richard Lester com The Beatles, ‘A Hard Days Night’ ”.

O clipe do single anterior, “Modern Kid”, dirigido por André Peniche, (http://www.andrepeniche.com/ – contém vídeo com o making of) já tinha um apurado tratamento estético, potencializado pela feliz escolha da locação: “foi o Antiquário Artemobília Galeria, na Rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, São Paulo. É do Sérgio Campos, que foi integrante da banda Kafka, importante nos 80´s”.

DUMONT, O FILME INÉDITO BY APPLE
A assinatura dos videoclipes dá vasão à uma cinematografia já exercida por Apple, de forma plena, em pelo menos uma ocasião: seu média Apartment Jazz (2002). “Ele virou ‘o chiquésimo’, relíquia do cult. Na web tem fragmentado, e como parte de um filme também que é meio piratão “Pescando Júpiter Segundo Huxley”, você acaba se deparando lá pelas tantas com ele”.

Flyer do média metragem debut do Jupiter film maker

Flyer do média metragem debut do Jupiter film maker

Um segundo projeto como cineasta, “Dumont”, está em “stand-by total. Cheguei a filmar, fiz alguma coisa… na linha experimental mas tinha uma linearidade maior, até quero ver onde estão os originais que não estão comigo, estão na Spectrum produtora. Você sabe, eu tive experiências digamos assim de lidar com delicadeza com alcoolismo e tal, eu não sei se teve a ver, mas minha cabeça foi preenchida de outra forma, a ponto de sair o “Uma Tarde na Fruteira”. Hoje olhando e ouvindo o álbum e vendo toda aquela complexidade, toda a beleza do conceito que é mesmo, é foda aquele álbum. Pô, como é que eu fiz aquele álbum num estado tão etílico ? Mas eu não sei se foi exatamente só isso… O fato é eu não tava inspirado. Depois eu comecei a pensar… lá pelas tantas será que é cinema, será que não é cinema ? Mas não era bem isso, pra mim era essa vontade de fazer videoclipes. Desse conceito que pra mim é flash que acabei de descrever. Depende da parceria, de um co-diretor, ou de um diretor, talvez eu queira argumentar mais e atuar, porque neste projeto pausado eu só dirigia. Acho que eu quero ser dirigido por um grande diretor”.

Jupiter projeta, também, o (re)lançamento oficial dos filmes que dirigiu: “Eu tô vendo algumas parcerias pra fechar isso, pra dar esse presente pra nós todos, para os fãs, um DVD meio documentário que traga cenas soltas, enfim…”

SEXY WORDS
“Eu canto muito sobre o que estou vivendo… escrevo sobre o que estou vivendo… passa por esse filtro da existência. Isso faz de mim o autor que capta, traduz e emana de volta. É tão amplo, e acho que sou tão versátil nas temáticas”. Os primeiros instantes de “Calling…”, por exemplo, já denunciam o erotismo marcante dos textos. Uma figura fálica é construída em cima de imagens icônicas de Warhol enquanto a letra fala em “sexy words”, “perfect penis”. Jupiter avalia: “O erotismo tá bem presente na minha obra, diferentes formas… Separa o erotismo de pornô, correto? Mas Cascavelletes praticamente inventaram, já foram creditados pela invenção do pornorock, pornobilly, pornopunkabilly, tararátá. Depois, talvez mais erótico de fato, uma coisa mais rebuscada, você começa encontrar um erotismo muito fino em “Mademoiselle…”. “Miss lexotan…”. Uma languidez química você encontra ao longo de “Plataforma 6”. Em inglês também, eu escrevo bem, esse é o fato. O erotismo paira, né ? Então aparece nas letras… é meio que uma transparência da existência”.

EVERY MODERN KID WILL LOSE THEIR MOTHERS
Jupiter comenta os versos do refrão de “Modern Kid”: “É sobre civilizações que nascem instantâneas. Como sopa de pacotinho, e pipoca de microondas. Eu quis dar essa coisa do “mamãe-filhinho… ? NÃO mamãe-filhinho!”, tipo: muito instantâneo, muito rápido. Eu quis passar essa coisa fria da ruptura drástica entre gerações, gerando civilizações no sentido do exagero do rompimento de gerações. Talvez uma civilização tenha nascido aos nossos olhos com a coisa toda da internet etc. A alteração dos costumes foi tão grande de uma vez só que não é uma nova geração. Muita coisa pode indicar que é uma nova civilização. Até mesmo um pouco de guerra, do caos, é tudo isso.. É muito mais amplo, né ? É poema mesmo. De tudo um pouco. Ondas gigantes… tudo isso”.

BEATLE GEORGE ou “QUE BEATLE É VOCÊ, JUPITER ?”
“Quando eu descobri The Beatles vi uma fotos do ‘Help’, George está com aquela cartola e achei muito elegante a posição dele. Logicamente eles são quatro e o John e Paul sempre liderando, e o George com breves frases no microfone na música ‘Help’. Aquela cartola, só aquele detalhe de um dos maiores clipes, ‘Ticket to Ride’… No fundo eu estava determinado que eu estava mais pra ser John ou Paul, band leader, mas a coisa se manifstou por essa elegância do George. Claro que também acabei me tornado super Paul, super John no sentido de ordenar idéias dirigir um grupo artisticamente”.

ÁLBUM BÊBADO
Questiono a Jupiter porque o álbum Bitter é o único ausente do seu playlist atual. “é o meu ‘drunk album’, assim como os Beatles tem o White Álbum. Adoro, muito legal, tem momentos gloriosos da parceria Jupiter Apple e Bibmo (http://www.myspace.com/bibianamorena), mas não é todo dia. Não creio que esteja fechando muito com o que eu quero traduzir, as formas, cores do meu som, a geometria. E definitivamente o Bitter não lida bem com isso. Então não está mesmo nos planos por hora”. Pensando no repertório do álbum, acrescenta: “Favoritas eu não tenho,mas ‘Lovely Riverside’ é realmente sério aquilo, eu cantei pro (rio) Thames. Não passou lancha, não passou nada, vento não faz, mas foi tão bonito. Teve uma manifestação do rio e houve uma saudação, quando parei me distanciei ele baixou também, pra mim aquele momento foi sensacional. Passavam duas inglesas do tipo matinais assim, usando parcas… chuva fina, dia nublado, aquela caminhada tipo roupa improvisada tênis-abrigo-parcás. Praticamente aplaudiram porque eu tava cantando a capella: (cantando) “I borrowes a lamp from captain Green”. Grande música minha, viu ? Podia estar num belo filme de piratas desse aí, do “man”… do Jack Sparrow lá… e aí vai”.

ÁLBUM TEATRAL
Além de desejar ser soundtrack, Jupiter também revela algo sobre outro de seus álbuns em inglês: “O Hisscivilization ainda está pra sair. (N.: no sentido de que deveria ser relançado pois não teve a devida divulgação) Para mim ele tem que ser encenado teatralmente”.

“ESSE FILHO DA PUTA É TALENTOSO…”
Regravações por nomes como Ira!, Wander, Thunderbird denotam a repercussão do trabalho, e entre as inéditas em sua voz, está uma faixa que ele apresenta em shows como fez no Opinião em novembro de 2009: a new bossa ‘Talentoso’. A banda Cérebro Eletrônico gravou sua versão. Apple conta como rolou: “o Tatá (Aeroplano) da banda ouviu uma demonstration tape, se apaixonou e fizeram uma versão maravilhosa. É uma sobra do Plastic Soda, foi a primeira que gravei, antes da faixa título. O primeiro take era violão e voz, gravei ao vivo num gravador alemão de oito canais de pistas de fita, uma máquina antiga Studard, no estúdio do Tomas Dreher que co-produziu comigo.

JOVEM GUARDA CANTA THE JUPITER APPLE
Às vésperas dos shows de Jupiter em Pelotas e Bagé, no final de agosto de 2010, a cantora Lílian Knapp se apresentou no Programa do Jô com “Um Lugar do Caralho”, que ela regravou, assim como “Miss Lexotan”, com sua atual banda, a Kynna. Lílian fez sucesso na Jovem Guarda, em dupla com Leno. “Fomos apresentados, embora eu não a conheça tanto como o (tecladista) Astronauta Pingüim, que chegou a tocar com ela. Personalidade marcante, uma artista buscando novos caminhos e encontrou (nas músicas) uma forma de expressar algo que ela vem sintonizando”.

TALK SHOW NA MTV BR
“Achei que ia ser asssustador, essa é a jogada: eu estava num período etílico e fui numa realidade etílica nos shows, e depois em alguns outros números eu me recuperava dessa crise. Então na verdade eu sempre fui um pouco peixe fora dágua e acho que isso deu esse toque tão especial pros números, acho que isso acabou gerando um número de extrema qualidade e expressividade, que as pessoas vieram adorar, e gostaram muito”. Planos para novas edições ? “Não nesses moldes, acho que teria que bater uma bola, se for o caso de haver na MTV ou em outra emissora”.

OLD DAYS REVISITED
A carreira solo de Jupiter se consagrou independente dos grandes sucessos de suas ex-bandas: “Lugar do Caralho tem a mesma força, só pra citar um standard”. Mesmo assim, a turnê atual resgata uma composição dele em cada um dos grupos: “Morte Por Tesão” e “Zero”: “adorei ter cantado esta em Chapecó, linda, revisitada, texturizada. Acho ‘Cachorro Louco’ um hino, lembro do dia que escrevi com tênis Iate no quarto, pezinho de adolescente marcando o tempo… tan-tan-tantan (fazendo esse riff) com 16 anos, aqui no sul a música é gigante !”.

ELE E SEUS EX
A última reunião da formação original dos Cascavelletes foi em 2007. “Ensaiamos bastante. Aquilo foi mágico e bem legal mas justamente por ser específico e casual. Faz muito tempo que não falo com nenhum deles. Se a conversa for ficar muito afunilada num sentido que pode gerar depois uma discordância de pontos de vista, eu também já evito, mas isso qualquer um deles faz. Existe carinho, lembrança e respeito ao passado, pelo menos da minha parte, mas também existe a diplomacia”.
Com Charles Máster, do TNT, Jupiter nunca voltou a tocar, e teve contatos superficiais: “Oi, tchau e tal. Ele deu um telefonema estes dias”.

MOMENTO ETÍLICO É PASSADO
Há alguns anos, Jupiter vivia uma “fase etílica” que afetou o ritmo de seus projetos e era visível, por exemplo, em seus shows – há relatos de que não conseguia cantar as músicas – e até mesmo em aparições na MTV e no próprio Jupiter Show. Eventualmente fumando um cigarro retirado da carteira de Camel em sua frente, Apple avalia que o ponto crítico foi “na virada 2008/2009, quando eu parei. A coisa ficou muito radical. A coleção de frascos estava bastante acelerada. Spirits, bebidas fortes. Hoje em dia tomo muito café… expresso, clássico… disponível na região central histórica de Porto Alegre”.

MISS CLEGUE´S BLUES

Quem entra em contato pessoal com Jupiter percebe que uma das atuais inspirações do poeta o acompanha na maior parte dos momentos. Antes de subir ao palco, o cantor se despede carinhosamente dela, que fica atenta em um dos lados do palco. Até mesmo em nossa entrevista, Jupiter a quis por perto: “Ei, baby, você está me inspirando !”. Trata-se de Clegue França, atual sweetheart do artista, e parceria total em sua obra, como mencionado na conversa – desde a concepção estética até, literalmente, on stage com The Apple Sound.

Love is beautiful

Love is beautiful

EPILOGUE: THE JUPITER APPLE´S TIMELINE

L´Enfant Terrible (arquivo Cláudia Basso)

L´Enfant Terrible (arquivo Cláudia Basso)


Sex Symbol ´88

Sex Symbol ´88


MMX year: about to conquer the world

MMX year: about to conquer the world

Um Comentário

  1. Maria Laura Marques

    De todas entrevistas que já li do Júpiter – e olha, não foram poucas – essa é definitivamente uma das melhores, e porque não A melhor. Muito esclarecedora. Profunda, mas sem perder a delicadeza até em assuntos mais sensíveis. Parabéns! Ótimo trabalho!

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