Dona da Chácara da Cristina em livro

História da dama maior de famoso bordel será revelada

Mistério e curiosidade são as apostas de uma biografia a ser lançada em Bagé até julho de 2011, pela mulher de 66 anos conhecida apenas como Cristina. Ela adotou o pseudônimo há quase meio século para emprestá-lo à casa de garotas de programa que estava abrindo, e que hoje é a mais antiga da cidade – a famosa Chácara da Cristina.
Prestes a promover uma festa beneficente a menores carentes, se define como alguém “à moda antiga”. Católica, dá graças a Deus ao relatar fatos positivos de sua vida. Contrária às drogas, proibiu o consumo em seu estabelecimento. E comemora sete anos de um relacionamento afetivo estável.
Em nome do suspense, Cristina não se deixa fotografar até que saia o livro, que contém fotos suas. Então, sim, promete descartar o véu e participar de eventos de lançamento, como feiras do livro.

A dama não se deixa fotografar, mas eis a casa em imagens inéditas: aspecto do bar...

A dama não se deixa fotografar, mas eis a casa em imagens inéditas: aspecto do bar...

O LIVRO
Um complemento à história da cidade

Ainda sem título para a biografia, Cristina estima ter chegado à metade da fase de redação, feita pelo jornalista Mário Nogueira Lopes, com base em seus relatos. Cogitando estar entre as mais antigas do pais no agenciamento de prostitutas, crê que o interesse dos leitores será despertado pelo valor histórico e por dados que permitam identificar seu nome real. “É a história minha e da casa, que faz parte de Bagé, da noite bajeense, e de pessoas que na maioria não existem mais. De quem vive a noite e como foram todos esses anos. Começa com a minha identidade, quando cheguei em Bagé e como acabei ficando ‘dona de casa’ ”, resume. A biografada considera desagradável nomear, em suas memórias, a quem frequentou o estabelecimento, por isso adotará nomes fictícios.

Outro ângulo do bar

Outro ângulo do bar

A DAMA
Um pouco da biografia que virá…

Com objetivos definidos, aos 18 anos Cristina deixou o emprego e a casa dos pais em uma cidade no interior gaúcho: “Ganhar dinheiro e conhecer o mundo, esse era o meu negócio. Mas como a casa foi aumentando, fui ficando e assim foram passando os anos. Tive salão de beleza, trabalhando como manicure, na Fabrício Pilar. Depois, fui apresentada à Méri, que tinha casa. Até de brincadeira, arrendei uma casa na Pedro Wayne e comecei a trabalhar na noite. Mais tarde comprei a chácara”. Além desta, entre os bens que demonstram seu nivel de vida atual estão carro e apartamento próprios, em outra cidade gaúcha, onde fixou residência há seis anos quando esteve doente, e que visita quinzenalmente. Não se preocupa com o futuro material, ainda que o mercado continue a retração atual, aposentada que é – e esta é a profissão que informa às pessoas com quem interage nos locais públicos que frequenta. Descartou retomar os estudos interrompidos no primeiro ano do antigo curso ginasial, já que há anos se ressente da falta de tempo que lhe ocupa as tardes e noites de trabalho.
Na atual ocupação, Cristina sofreu preconceito familiar, antes do falecimento dos pais, por parte da mãe e de uma das irmãs, do conjunto de seis filhos. Do pai, porém, ouviu que a casa sempre seria também da filha.
O namorado de Cristina nos últimos sete anos é um homem que conhecera na época da vinda para Bagé, e que nunca lhe esqueceu, conforme confidenciou ao procurá-la. Ele soube que ela estava enferma e tinha enviuvado como ele, após um casamento celebrado no Uruguai.
A herdeira, que já administrou uma filial que fechou em Livramento, e a matriz na ausência da mãe, hoje não quer continuidade no ramo.
A ideia de retornar no tempo e escolher um modo de vida diferente não seduz Cristina: “Olha, não tenho nada do que me arrepender. Não me queixo nem digo que ´ai, não faria tudo igual’ “.

A CASA

Hoje a Chácara da Cristina, segundo a própria, é o nome fantasia de uma empresa “devidamente legalizada nos ramos de boate, bar, restaurante e motel, e que paga uma fortuna em impostos. Geramos oito empregos indiretos, entre eventuais como caseiro, e cozinha, bar, segurança, limpeza”. Se a administradora preserva a própria identidade, o estabelecimento não precisou de muito marketing para ultrapassar fronteiras. “Até em São Paulo nos conhecem, pois em função de obras em cidades da região tivemos clientes ligados às empreiteiras”.
O maior movimento atual é em meio de semana, normalmente quartas e quintas-feiras. Cristina detalha seu modus operandi: “Se tem evento em Bagé a gente procura ter mais meninas, quando tem exposição boto vinte e cinco. Não trabalho com casa aberta, para que entre todo mundo: ‘vou lá na tia tomar uma cerveja’, não é meu ‘pastel’. Eu trabalho diferente: ou tu vem aqui com intenção de conversar e fazer alguma coisa, ou interessado em fazer programa”.
A exceção são as festas ao ar livre da casa, como a mais recente, que teve animação musical de Ivonléo Monteiro: “É o aniversário da casa e o meu, em 15 de setembro. Automaticamente todo mundo já sabe, é tradição”, afirma, revelando que hoje só anuncia em um jornal local. Ela cita um exemplo bibliográfico da tradição da casa: “Tu vê o livro do ex-prefeito, Dr. Luis Kalil, numa parte está escrito que o Felipinho foi buscá-lo e ele veio ‘na zona’ – até acho que ele podia ter destacado a casa – que tinha churrasco…”

Cristina faz referência ao livro "Contando Parece Mentira" (2006), capítulo "Um Comício Inusitado" (p. 109)

Cristina faz referência ao livro "Contando Parece Mentira" (2006), capítulo "Um Comício Inusitado" (p. 109)

A próxima festa aberta será beneficente ao Natal de crianças necessitadas. Quarenta porcento da entrada do dia 08 de dezembro será revertida à instituição mais carente, ainda sendo pesquisada.
Além das festas, outras diversificações da oferta são as despedidas de solteiro (externas) e o atendimento a demandas em hotéis “em segredo absoluto”, muitas vezes de necessidades diferenciadas. Cristina revela já ter enviado mulheres e até homens, para atender, conforme o caso, homens ou mulheres (inclusive do mesmo sexo da pessoa solicitada), ou casais.
Para justificar a imagem de ambiente selecionado e de nivel, a Chácara submete seu casting feminino a algumas exigências. “Todo mundo me conhece, sou uma pessoa completamente contra droga – odeio. O meu problema é assim, chega uma menina acostumada, digo: ‘faz o que quiser da tua vida, agora, na minha casa não permito (o consumo de drogas). É muito à moda antiga, então tem muitas gurias que realmente não gostam. Normalmente quem frequenta aqui são pessoas que tem nome e tudo, respeitadas, tem seus compromissos, não podem estar num local assim…”.
Cristina aponta a regularidade burocrática como justificativa para jamais ter enfrentado uma situação comum a este universo – sofrer batida policial: “Graças a Deus, nunca tive problema com Polícia”.
Quanto às propostas de legalização da profissão de prostituta, considera que “não vai resolver nada. É bem difícil, porque mulher nenhuma quer divulgar que é prostituta. Temos conversado e jamais alguém quer uma carteira de prostituta. As (prostitutas) de nível, bem na vida, a maioria estuda, trabalha e estão na faculdade, tentando outra vida. As de rua, aí sinceramente não sei”.

O pátio das festas ao ar livre

O pátio das festas ao ar livre

AS GURIAS

Há muita curiosidade sobre as mulheres com cachês de centenas de reais, perfil universitário e aparência de modelo com quem se poderia encontrar e interagir na Chácara. Ninguém melhor que Cristina para confirmar informações a respeito delas:
“Antigamente ficavam bastante tempo numa casa, hoje elas passam a semana ou 15 dias, vindas de Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande, Caxias. Vêm na segunda, sexta ou sábado vão embora. Têm família lá e passam uma semana em casa e outra aqui. Saem de casa dizendo que vão trabalhar, com vendas, por exemplo. Outras moram em Bagé e frequentam faz um tempo. Umas quantas fazem programa porque estudam”, admite, antes de mencionar o curso superior mais comum entre suas contratadas. “Outras porque tem filho, ou ainda porque marido ou namorado largaram. Tem mulheres que gostam de ser, outras são por necessidade”.
Com base na experiência, arrisca um perfil físico preferido na casa: “Acho que a mulher da noite é loira e magra”. A idade para admissão fica entre os 18 e a casa dos 30 anos. “Tem que ter uma vantagem: tem que ser bonita. A mulher bonita pode vir que sempre consegue. A gente dá um trato social, uma coisa assim”.
A agenciadora também revela um destino bastante frequente para as garotas: “Algumas ficam uma duas semanas e alguém se apaixona e já casa, tira daqui. Tem muito isso. Ainda esses dias uma casou. Várias casadas são minhas amigas até hoje”, diz, denunciando um vínculo de amizade, além do profissional, com aquelas que chegam muitas vezes “numa pior, sem dinheiro”.
A maioria das garotas chega por informações “boca a boca” à casa, mas o padrão estabelecido exige uma qualificação: “Muitas vem prontas, mas quando a gente começa com uma – muitas iniciaram aqui – se explica como é, como tem que ser. E vamos experimentar. E acontece que muitas não se enquadram, elas próprias sentem. Fica dois, três dias e não dá”.
As garotas evitam a exposição de seus rostos, a ponto de adiar o projeto de um site da Chácara: “Só algumas que vem de Porto Alegre não se importam, mas até nos sites da Carmen e Gruta Azul normalmente é pouco rosto, mais é corpo. Todo mundo faz e ninguém quer que saiba que faz”.

Churrascos são uma opção na chácara

Churrascos são uma opção na chácara

OS CLIENTES
“O que mais passou nessa casa foram políticos, depois executivos. Artista não tem vindo muito ultimamente”, revela Cristina, sobre seu público com predominância a partir de classe média alta.
Em uma região conhecida pelas beldades, o que leva os machos, muitas vezes casados, a recorrer aos serviços da Cristina ? Análise da própria: “Acho que o homem por si mesmo é curioso. Tu sabes que vou te contar uma historia: a maioria chega e diz, ô Cristina, sou apaixonado por minha mulher, adoro ela. Então, uns vem aqui pra conversar fiado, fazem as rodas, tomam cerveja, contam histórias – pra distração. E tem quem às vezes não tá bem em casa ou qualquer coisa, faz seu programa, vai embora e acabou. E acho que é uma beleza até pras mulheres, que eles não incomodam em casa”.
No bar, os campeões em consumo são cerveja, uísque, Ice e coquetel.

Aqui as beldades tomam banho de sol e de água

Aqui as beldades tomam banho de sol e de água

MERCADO
Olhando para os tempos em que promovia festas com modelos badaladas em capas de revistas adultas, a agenciadora admite: “De uns anos para cá tá mais parado, Bagé mudou bastante”. E arrisca um diagnóstico: “O que atrasou a noite é que entrou o negócio da aids, antigamente não se falava, não era divulgado. Então o que acontece ? Muita gente diz ´Eu não vou na noite, não vou usar camisinha’, são muito contra. E a gente faz tudo pra usar, porque acho que tem que se cuidar muito, prevenção de doença”. Além disso, as facilidades tecnológicas liberaram as moças de trabalhar presas à casa: “Elas são autônomas e trabalham muito por telefone: conhece aqui alguém que mora em Bagé, dá celular… e ela sai, realmente não tem porque vir na noite”.
Diante desse quadro, prevê: “Olha, eu acho esse tipo de casa tem muita tendência a acabar. Casa em que mora mulher pra prostituição, localizada. Vai ficar boate e vão visitar, tipo Gruta Azul. As gurias moram fora e aparecem, vão pra motel. A profissão nunca vai deixar de existir. Talvez a minha intenção seja vender ou trabalhar só com motel independente. Marcam por telefone, tem varias gurias de fora, vêm e se encontram. Ou vem de fora com alguém e entra direto”, planeja, imaginando um aproveitamento para os apartamentos da chácara, três deles dotados de banheiras.

Em relação a concorrência local, (hoje se tem notícia de pelo menos outras três casas maiores em Bagé) Cristina não tem muito a dizer: “Cada um cuida da sua vida, é indiferente”. E revela bom relacionamento com um dos locais VIP da capital gaúcha: “Conheço a Carmen, me dou bem com ela, que muitas vezes mandou mulheres pra mim. O mercado de Porto Alegre é bem diferente: tem muito público, muita gente de fora e muito dinheiro”.

ANONIMATO X FAMA NACIONAL
O resguardo da imagem de Cristina cedeu à tentação da fama nacional uma vez, há exatos dez anos, estampando reportagem especial da revista Época sobre bordéis gaúchos. O texto dedica à chácara destaque bem maior que à casa de swing portoalegrense Sofazão, cujo dono já foi entrevistado no Programa do Jô. Nos dias em que esteve em Bagé, o repórter Sílvio Ferreira observou a rotina da uisqueria, e curiosidades como a presença de clientes uruguaios. O relato com narrativa de conto mitifica estereótipos de cidade interiorana. Entre os personagens, previsivelmente não-nominados, apresenta fazendeiros reunidos no bordel, e esposas beatas. A entrevistada guarda a matéria em um volume encadernado.

BEST SELLERS DITAM MODA
O livro bajeense surge em uma época em que a prostituta Bruna Surfistinha ganha uma cinebiografia com Déborah Secco no papel central, baseada no êxito editorial de seu livro “O Doce Veneno do Escorpião”. Cristina não leu a bio da paulista, e sequer seu exemplar de uma outra que conta a história da legendária cafetina Eny, de Baurú-SP. Além destes referenciais, demonstra conhecimento de um filme sobre um cabaré de Uruguaiana. Mas sustenta que a ideia da publicação surgiu de terceiros: “Não tinha nenhum interesse mas as pessoas insistiam: ‘tu tem tanta história pra contar, faz um livro, tem que fazer, tem que fazer’ ”.

Abaixo, a Bruna Surfistinha original (Raquel Pacheco) e à direita, sua intérprete, Déborah Secco

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  1. Marcelo Ribeiro

    Marcelo, como o blog tem sido, mais uma vez, foste ousado ao trazer uma personagem de um mundo tão cheio de preconceitos como o das garotas de programa. A reportagem traz de forma ampla, o que é este mundo, por meio da vida e o trabalho de Cristina. Cara, gostei disso, está de parabéns pela iniciativa do blog. Continua em frente, e senta a pua.

  2. carla fabiane antunes elias

    ESPERO QUE NÃO DEMORE A SER PUBLICADO ESTE LIVRO QUE VAI REBENTAR A BOCA DO BALÃO
    CARLA FABIANE

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