Chacundum: a aposta no ritmo de Toni Platão

Cantor fala de seu novo disco, convívio com Renato Russo e vários relatos biográficos

Os fãs de Toni Platão que esperavam um novo álbum para o semestre que acaba, conforme anunciado no site oficial do cantor, vão ter que esperar um pouco mais. As gravações de Chacundum em estúdio só começam em maio de 2011, devido à agenda do produtor escolhido: Berna Ceppas. Toni, porém, vem trabalhando em ritmo workaholic em sua concepção: “Montei um estúdio em casa e tô há uns três meses enfurnando sozinho, compondo e pre-produzindo. Em janeiro começo a ensaiar com uma nova banda, que ainda não sei qual vai ser, e até o final de março pretendo fazer shows no Rio de Janeiro, pelo menos, antes do estúdio”. O nome do disco tem justificativa: “É mais ligado ao ritmo, a parte ritmica é de onde vão sair as coisas. A maior parte das músicas começa com um riff de guitarra, ou uma linha de baixo, mas acabo achando uma batida ou loop que me sirva e que acaba determinando o rumo das canções – mas a ideia é ter um disco ‘orgânico’ mesmo, com músicos tocando”, avisa. O repertório ? “Estou com 12 músicas minhas – duas já com letras e acabei de dar uma pro Fausto Fawcett escrever. Devo voltar a escrever letra, que não faço desde o Caligula Freejack – disco que fiz com o Dado Villa Lobos. Depois, meu trabalho ficou muito calcado para intérprete. Havia necessidade de voltar a compor e fazer um trabalho meu mesmo, faz muito tempo que canto músicas dos outros!”. Ainda assim, as parcerias aparecem em Chacundum: “Tem quatro ou cinco canções que me mandaram, maravilhosas: ‘Já É Tarde’, balada fortíssima do Márvio dos Anjos, sobrinho-neto de Augusto dos Anjos, o poeta. Ele é jornalista e cantor da banda Cabaret. Uma do Frejat, e outra do Alvin L.” Toni surpreende ao mencionar o antigo colaborador. Em 2000, Alvin teria entregue ao Capital Inicial a canção “Por Tudo Que Vai” sem avisar aos autores Dado e Toni. O tema da letra é o fim de um relacionamento do ex-Hojerizah. A versão com Dinho virou megahit, alavancando a vendagem do Acústico MTV em detrimento da original de Toni. “Isso já está superado. Não nos aproximávamos há algum tempo, mas Alvin me ligou para que eu gravasse para uma trilha que ele estava compondo com produção de Gustavo Corsi (Picassos Falsos), outro grande amigo. Somos todos amigos há muito tempo: eu, Alvin, os meninos do Capital”, assegura.

Memórias dos 80´s: literatura e JIM MORRISON com RENATO RUSSO

Os primeiros shows da Legião no Circo Voador tiveram Hojerizah e Capital

Os primeiros shows da Legião no Circo Voador tiveram Hojerizah e Capital

A atual turnê em conjunto com Dado Villa Lobos resulta de uma longa parceria que tem raizes nos anos 80, quando as bandas de origem de ambos conviviam: “Os dois primeiros shows do Hojerizah, Legião Urbana e Capital inicial no Circo Voador foram juntos. Nós abríamos para eles que estavam chegando no Rio.
Toni tem vivas recordações dos encontros com o hoje lendário Renato Russo:
“Eu e Renato, a primeira afinidade fora a música que tivemos, era conversar muito sobre literatura. Eu era um garoto, tinha 19 anos e li aqueles clássicos todos: Dostoievski, Lawrence, Kerouac, Scott Fitzgerald. Falávamos também do Ian Curtis, do Joy Division, e do Jim Morrison… Em nosso segundo encontro, umas duas semanas depois do show do Circo, ele falou: ‘Comprei um presente pra você’. E era Uma Oração Americana, do Jim.
Anos depois, ganhei esse livro – eu tinha dois em casa. Muito estranhamente eu esqueci essa história. Nessa noite conversando sobre Jim Morrison, a gente falava muito do assunto de morte, morrer cedo, não sei o que… aí ele me deu o livro. Na semana em que Renato morreu, que foi uma coisa muito estranha pra quem conviveu e viveu com ele – muito dos anos 80 com a morte do Renato, acabaram ali pra mim. E uma semana depois eu puxo na prateleira de casa esse livro, e quando eu abro, me lembro de tudo e vejo a dedicatória do Renato, que ele terminava assim ‘Take care’, pedindo pra eu tomar cuidado, e eu olhei aquilo e falei: porra, quem tinha que ter tomado cuidado era ele… não eu”, lamenta, com ar reflexivo. “Aqueles anos 80 foram anos muito de farra pra todo mundo ali. A gente acabava todo mundo frequentando uma mesma turminha: o pessoal do Paralamas, Bi Ribeiro mesmo, tava sempre com a gente. Isso foi em 1983. E o Dado é um irmão que ganhei na vida”.

O Sul
Em 2007, Toni participou de uma faixa do CD de estréia da banda gaúcha Izmália: “Flores no Final do Corredor”. Ele lembra que a parceria “pintou lá no Rio. Izmália é prima de uma grande amiga, a atriz gaúcha Suzana Saldanha, que trabalha com Domingos Oliveira. Acabei indo ver o show e as coisas rolam assim, não tenho muita frescura nisso. As pessoas me procuram e se eu gosto do trabalho acabo fazendo as coisas junto”. A interação com gaúchos vem de longa data: “O Hojerizah era uma banda estranha: tirando Picassos Falsos, a gente se relacionava mais com as bandas de fora. São Paulo. Brasília: Capital, Legião, Finnis Africae. E as do Sul – TNT, que gravou com a gente, e faziamos muitos shows junto. Não tenho mais contato com aqueles meninos”, reclama. “Nunca consegui vir fazer show no Sul, é uma vergonha ! Já fiz muito mais Nordeste, mas credito que tive muito mais execução em rádio, tanto Hojerizah como solo, no Sul. Participando do show do Dado, espero abrir um caminho pra que eu possa vir ano que vem lançar meu disco”.

Carreira “doida”
Avaliando sua carreira, Toni considera algumas coisas como “malucas”: alguns de seus sucessos solo ocorreram muito depois dos respectivos lançamentos, como “Q´Eu Vou Estar Aqui”, e “Caligula Freejack”, que estouraram ao entrar em telenovelas. “Depois de a minha gravação da música do Márcio Greick entrar em novela, quando fui lançar o DVD me chamaram para regravar ‘Moço Velho’ também para novela. Mas como eu já estava com o DVD pronto, essa acabou não entrando, mas apenas como bonus track no CD” exemplifica. “Minha carreira tem um pouco disso, faz com que eu circule muito no underground, sem nunca ter a sorte de ‘encaixar’ um trabalho, como eles dizem, em massa. Mas não tenho aversão ao mercado, até funciono nele de alguma forma. Acho que é mais contingência – durante muitos anos fui desleixado com a minha carreira, deixava as coisas correrem muito frouxas e de uns anos pra cá eu tenho andado mais centrado.” O artista atribui a mudança de atitude, em parte, ao relacionamento com a coreógrafa Déborah Colker: “Aquela mulher é uma usina de trabalho ! Ela não para, trabalha feito eu nunca vi na vida, e estou assim agora (risos). Passo 10, 12 horas trabalhando em estúdio – e nunca fui disso. Ela me joga muito pra cima, conheço-a desde 97”. Há influência da esposa na cenografia do show ? “Ela me trouxe o Gringo Cardia, que dirigiu meu DVD em uma concepção própria dele, e ganhei o Prêmio da Música Brasileira 2009”.

Relendo o Poetinha: é o Pagode do Punk

Comento com Toni – que já gravou “Louras Geladas” do amigo Paulo Ricardo – que o ex-RPM está lançando um disco onde relê Vinícius com roupagem atual. Platão também prestou tributo ao mestre quando gravou “Canto de Ossanha”, e revela a inspiração: “tem uma versão do Baden Powell e do Vinícius de Moraes com a Elis Regina que é arrasadora! durante alguns anos eu tinha um projeto, o ‘Pagode do Punk‘, que era pegar clássicos da Música Popular Brasileira e ‘destrui-los’ com uma roupagem punk. Comentei isso muito com o Dado e acabamos fazendo em “Canto…”, quase tudo ali é o Dado tocando, programando… ele arrebenta, tem um solo de guitarra genial nessa versão. E o ‘Pagode do Punk’ ainda pode rolar”, cogita.

Ex-futuro Guitar God
Inicialmente guitarrista-base da Hojerizah, Toni atualmente voltou a ser multiinstrumentista em seu estúdio, criando calos por trabalhar até à noite. Mas é exigente na auto-avaliação: “Toco tudo, mas toco mal. Na escola punk da qual eu venho, eu me viro”. O artista, no entanto, teoriza sobre uma possibilidade eliminada em sua tenra infância: canhoto apenas de pé, observou que seu filho Antônio Bento é todo canhoto, e escreve com a esquerda. “Você também escrevia, só que na época, amarravam o braço para você passar a escrever com a direita”, foi a história que ouviu de familiares. “Vocês podem ter matado o novo Jimi Hendrix !”, exclamou.

Ex-futuro jornalista
Três períodos antes de Toni se formar jornalista, a agenda do Hojerizah interrompeu sua faculdade até hoje. Mas ele não estava muito para as redações, conforme conta: “Entrei na primeira faculdade, de Física, aos 17 – queria fazer Física Nuclear ou Astronomia. Mas começando a tocar violão, vi Jimmy Page no “Rock é Rock Mesmo(documentário do Led Zeppelin) e falei: ´Eu quero ser isso´. Larguei a faculdade. Mas um garoto de classe média carioca largar a faculdade pra fazer música, isso não existia no Brasil, e foi uma pressão muito grande lá em casa: ‘Cê tem que fazer outra faculdade!’ Aí pensei: ‘O que tem a ver com música? Jornalismo, tem algo a ver’. Pra total loucura da minha família, entro no Jornalismo em 1982 e o Hojerizah se forma lá dentro – a faculdade me levou de vez pra carreira de música!”.

A escolha de Kaos
Além de Marcelo Larrosa e Flávio Murrah, o núcleo inicial da Hojerizah contava com Manolo Kaos. O integrante batizou a banda, mas duas semanas antes da estréia no extinto bar carioca Western Club, fez uma opção: deixar o trabalho que estava “sério demais” para os colegas quando ele só queria diversão, e formar-se em jornalista. Hoje Manolo é radialista em Portugal.


Uma voz tricolor

O radialismo também se tornou opção para Toni desde 2002, como representante fluminense no programa Rock Bola. O tricolor carioca convicto prefere a neutralidade entre tricolores gaúchos e colorados: “Já torci pra ambos, e admiro muito o futebol gaúcho. O Renato Gaúcho é um grande ídolo do Fluminense e do Grêmio, e torci pelo Dunga, eu brigava no programa porque acho ele um exemplo de jogador”.

Um Comentário

  1. Pingback: Resenha: Dado Villa Lobos em Pelotas | e-Cult, Cultura Pelotas-RS

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s