A moral da Marvel clássica no martelo de Thor

O destaque do filme Thor (2011) não são os efeitos, o figurino ou os fights – isso Hollywood produz em linha de montagem. O que surpreende são as questões morais que pareciam sobreviver só nos filmes de heróis japoneses: sacrifício pelos demais, lealdade, desobediência e castigo, privação… Elas garantem as tomadas mais tocantes. Numa delas, o herói chega pomposo para erguer o martelo e… não consegue, pela condição de “indigno”. Trilha e grua empregadas com eficiência, na perspectiva de Odin.
Está pra surgir maior demonstração de virtude do que renunciar à Natalie Portman em nome da “causa”. Isso após um romance inocente, sem nu frontal, apenas beijos na mão da moça e um único na boca. E que se revela um amor impossível, claro. Kenneth Branagh filmou alguns Shakespeare antes de Thor.
Para os dias atuais – em que “mocinho” de filme é anti-herói mais corrupto que policial de noir, e que os roteiros não passam de pretexto para a pancadaria estilo “video game de luta com atores reais” – o lado “coração” de Thor remete aos anos 80, quando ainda se sabia filmar fábulas cavalheirescas como Excalibur. Vai mais longe: resgata o clima dos quadrinhos Marvel anos 60. Justamente o que deu liga na produção de Stan Lee e Jack Kirby foi comtemporanizar questões humanas clássicas, permitindo a identificação do público. Mesmo que através de soluções improváveis, cientificamente contestáveis – como uma aranha radioativa dar poderes a um nerd, ou raios gama transformarem um pesquisador em um monstro verde – a dupla de gênios revestiu a mitologia com cores pop, encapsulou dramas atemporais da filosofia em situações cotidianas. Sem explicações mais profundas, mas com charme incontestável, onde se aprendia algo com a luta arquetípica do bem contra o mal. E Thor é um extremo dessa proposta, já que adaptado do panteão do paganismo nórdico.
O espectador mortal não se sente um estranho no ninho asgardiano, pois a trama inicia no ambiente terráqueo, para depois um deja vu contextualizar tudo e voltar ao ponto de corte inicial. Daí em diante, dois desenvolvimentos paralelos, alternando entre o mundo daqui e o dos deuses.
A falta de intimidade dos guerreiros celestes com os hábitos terrenos garantem o lado cômico, entre referências a Facebook e Ipod que estarão datadas já ano que vem. E o vilão carismático da vez é Tom Hiddleston, um Lóki com a maior cara de traíra mesmo.
Junto aos vindouros X-Men First Class (junho) e Capitão América (julho), Thor é um bom aperitivo à espera de Vingadores (2012), que retoma ainda Homem de Ferro e Hulk. São 100 minutos de entretenimento sem complicações maiores do que pronunciar o nome do bendito martelo Mjolnir.

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