Nei Lisboa, antes e depois do apocalipse

Após tour nacional, músico compõe inspirado pelas ideias de fim do mundo em 2012

Exceto pela canção-tema de sua recente turnê, Vapor da Estação, Nei Lisboa não lança material inédito há três anos. Mas a espera dos fãs será recompensada em breve: o músico anuncia novas composições, com uma temática surpreendente. “Essa história de fim do mundo em 2012 está me acossando muito – em termos de brincadeira, e a sério”, revela. “Isso já me inspirou várias canções, desde uma brincadeira amorosa sobre o que vai sobrar depois do fim do mundo, até o porquê de todo mundo ter essas tendências de projetar – e produzir – catástrofes, às vezes em cima disso. E também um certo fim do mundo que já aconteceu, e que acontece todo dia, um fim do mundo que a gente vive”, detalha, adiantando que, como brincadeira, batizou o novo projeto de “Telas, tramas e trapaças no novo mundo”. Nei garante que as canções não repetem o clima introspectivo de Translucidação, de 2008: “Está uma pegada mais pra fora, um tom mais expressionista”. E promete compartilhar a nova leva antes mesmo de um futuro álbum – será na temporada de shows de verão, que sempre faz em Porto Alegre.
Enquanto estiver compondo, Nei descarta um sucessor para os dois livros que publicou. “Escrevendo as letras novas, estou dando tudo de mim. Nem para o blog do meu site tenho escrito”, revela. As referências literárias que lhe acompanham desde as primeiras composições, são basicamente escritores beatniks e latinoamericanos. “Em um período na década de 80 os beats me fascinavam, li Burroughs, Kerouac… e uma coletânea que a L&PM lançou, Alma Beat. Me rendeu várias canções, uma chamada Junkie. Dirá, dirás fala em ‘alma beat’. Já os latinos, Garcia Marques li muito… Cortazar é o favorito. Vargas Llosa também gostava apesar da desilusão depois com a posição política dele, acho que até ele está desiludido agora. Sabato e Galliano também li”.

Entrevista – Parte I (vídeo)

De volta a Bagé após dois anos, Nei comentou o formato do show atual e a relação deste com o que apresentou na excursão nacional que foi a mais abrangente da carreira.
Assista a entrevista:

Só alegria no palco

Conforme definiu o próprio Nei no vídeo, o show apresentado em Bagé aposta na animação. Quesito atingido pela colocação estratégica de alguns dos maiores hits do cantor, como Hein?, Cena Beatnik e Baladas. Além disso, acentuação da parte rítmica das originais, em casos como uma Telhados de Paris despida da melancolia, já na abertura, e Dirá/Dirás, que veio emendada em Particípio, e trouxe citações de Deixa o Bicho. O trio ofereceu baladas de muitos ou poucos ontens – Romance e Pra Te Lembrar, respectivamente. Passeou por toda a extensão da obra, resgatando Verdes Anos (parceria com Augusto Licks) e Rima Rica/Frase Feita. Ainda exibiram seu lado jazzístico (Bar de Mulheres, com introdução falada, e Babalu) e latino (Cha Cha Cha Moderno). Pérolas recentes não foram excluídas, como Relógios de Sol, Cine Avenida e Deu Na TV – esta, além das dicas importantes da letra, funciona bem em show.
A dupla que acompanha Nei há mais de década em alguns instantes fica imóvel, esperando para complementar os acordes dos dois violões utilizados pelo cantor. Quando intervém, acrescenta detalhes que diferenciam tudo. Os solos livres de Supekóvia estendem e renovam Verdes Anos e Cena Beatnik. Nas teclas, as cordas de Luiz Mauro Filho pontuam a emoção de Relógios… e em momentos mais bailáveis assumem até mesmo timbres Jovem Guarda/ Manzarek. E a voz de Nei, em plena forma, não se limitou a cantar. Além de parabenizar a casa anfitriã, cujo público escolheu o espetáculo para comemorar dois anos de (re)abertura, ele ainda lembrou a festa bicentenária da cidade.

Além do trio, o show teve uma participação silenciosa e muito especial. Maria Clara Lisboa, oito anos, esteve sentada ao lado do palco, inspirando com o olhar atento ao pai. Como parte da programação de férias da filha, Nei e Clara voaram na sexta para Rivera. No início da noite de sábado, desembarcavam no Bagé City Hotel de táxi, com algumas sacolas trazidas no ônibus Santana do Livramento-Bagé de linha, da São João. Foi pouco depois de os demais músicos, produtor e roadie da banda aportarem em um micro-ônibus.

Vapor da Estação, o CD

O show prensado no CD Vapor da Estação se assemelha muito ao espetáculo atual, exceto pelas canções que só viriam depois. O registro retoma clássicos dos primeiros álbuns, mas rearranjados de forma que afasta alguns timbres datados dos originais.


Nei ainda falou ao Blog sobre o disco promocional, limitado, que circulou este ano, principalmente nas mãos de jornalistas e produtores, feito para divulgar a turnê Vapor da Estação: “A gente fez um CD promo. Para a turnê a gente fez uma música inédita, gravação em estúdio, e acompanhando ela, tem uma gravação ao vivo, de 2004, de um show em São Paulo, com qualidade super boa. Dá um certo panorama pra quem nada conhecia, inclusive os jornalistas de alguns lugares terem uma noção primeira do trabalho e tal. É um CDzinho que não ia ser vendendo, no final a gente terminou vendendo em shows, fazendo uma tiragem maior”.

DVD abortado

Ainda falando em discos, Nei admite que abandonou o projeto revelado ao Blog em 2009, por falta de patrocínio. Orçado em 200 mil reais, o vídeo apresentaria um show comemorativo aos 50 anos do músico: “Me passou um pouco a hora e o gosto de fazer. Acho até que é sintomático, ser tão difícil a captação para um DVD. Na verdade CD e DVD estão sendo um suporte que a gente – classe dos músicos, artistas – não consegue se desfazer da obrigação de tê-los, porque há um público que exige, que consome, uma demanda artística: ‘não, tu tem que tem um CD novo!’. Gera divulgação, etc., mas ele se tornou também um fardo em termos de custo que não tem retorno. Não vai ter uma grande vendagem, se sabe -vão piratear direto, vai cair na rede depois ou antes do lançamento. Então, talvez essa dificuldade de captação seja um sintoma também disso”.

Para Nei, os vídeos postados em seu canal no You Tube, o NeiLisboaTV, com link no site oficial, suprem parcialmente a função que seria do DVD. “As pessoas não estão fazendo videoclipe mais, cada canção já sai com um videozinho caseiro, vai pro You Tube e é isso. Estou querendo que a gente consiga avançar nessa matéria, fazer um novo trabalho e com ele, alicerçado em formatos atuais, ´políticas´ de lançamento menos pesadas do que era essa coisa: CDzão, clipezão, produção. Não. O negócio todo mais leve, mais como a gurizada faz, mais comum, mais real”.

O mesmo patrocínio cuja falta cancelou o projeto de DVD, possibilitou a Nei duas temporadas de shows: a turnê Vapor da Estação teve apoio da Petrobrás Cultural, e outra mais recente, no Teatro Renascença, teve auxílio da Caixa. “Durante muito tempo eu, pessoalmente, em relação a compor, sustentei que eu não tinha que ser patrocinado mesmo pelo estado. Meu trabalho é comercial, de um mercado de música, e tinha que andar por sua próprias pernas. Que o estado sustentasse quem tem uma certa dificuldade de penetrar nesse mercado, por motivos outros que não a qualidade artística do trabalho. Mas essa questão da Petrobrás veio com justiça. Veio corrigir uma distorção geográfica que meu trabalho tinha: ficar restrito aqui ao Sul e não penetrar lá fora, o que não é uma culpa minha, ou da qualidade do meu trabalho. E veio fazer com que tivesse um dia, ou 15 minutos de olhar lá fora (risos)”.

Outra instituição relacionada à arrecadação dos músicos brasileiros é o Ecad – Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, envolvido recentemente em polêmicas devido a fraudes, e a um projeto controverso do Ministério da Cultura.
“É engraçado, os músicos a vida inteira malharam o Ecad e hoje o estão defendendo de um projeto do MinC, de uma ação na área do direito autoral. A grita que estão fazendo não tem sustentação. Óbvio que o direito autoral deve ser preservado, mas ninguém falou em restringi-lo. Se há algo assim no projeto do governo – de que o autor não seja o dono primeiro e absoluto da sua obra – tem que ser extirpado mesmo. Mas também acho que o sistema do Ecad envolve um negócio intrincadíssimo de arrecadação, distribuição de milhões, envolvendo muitas pessoas, e tem que ter sim uma supervisão do Estado, assim como as agências de telefonia. Onde tem muito dinheiro envolvido, a tendência é de um poder simplesmente privado se corromper”, opina o músico.

Nei e o regime
O regime militar é tema recorrente nas canções de Nei. A motivação tem raízes familiares. O primogênito dos seis irmãos de Nei, Luiz Eurico, foi o primeiro desaparecido político da ditadura a ter o corpo encontrado, em 1979. “Também tive uma irmã que ficou seis meses presa, e dois primos que ficaram anos presos, e torturados, até serem inocentados. Vivia cercado por um movimento forte, a casa era lugar de encontro de amigos dos meus irmãos, toda uma gente que resistiu. Estou impregnado disso desde a infância.

Luiz Eurico Tejera Lisboa

Mas de envolvimento direto tive quase nada, uma atividadezinha no centro acadêmico do colégio, e na faculdade já na distensão – entrei em 78, final do governo Geisel, anistia. Minha militância foi mínima”, confessa Nei. “Senti mais com a censura absurda, que no final da ditadura, beirava o ridículo. Mesmo antes do teu disco, cada música que tu cantasse em público, em qualquer show, na universidade mesmo, tinha que mandar para Brasília para passar pela censura federal. Volta e meia os caras mandavam: ´Não, não pode´, sem nenhum critério, as coisas mais cabeludas passavam, e outras não”.

Anos Rebeldes
No final dos anos 70 Nei participou de espetáculos antológicos como Deu Pra Ti, Anos 70, que marcavam ainda a rebeldia de uma geração. Questionamos a Nei o que na juventude atual se equipara aos movimentos contraculturais de décadas anteriores. “Também me pergunto isso
É visível que cada geração tenta criar seu espaço, tu só te afirma pela diferença daquilo que te precede, para dizer ‘eu existo’. Acho que a minha hora no final dos anos 70 já foi uma escala muito menor que o final dos 60, onde houve uma ruptura que o mundo está assimilando até agora. Hoje a mídia passou a louvar a adolescência de uma forma tão intensa – ou usá-la
Passou a se ver isso como um momento de alto consumo, e se idolatra muita essa coisa da adolescência, jovialidade, ao ponto que as pessoas não querem mais envelhecer: Botox, lipoaspiração, moldar o corpo na academia… chegaram ponto de doença mesmo. Uma sociedade que curiosamente cada vez vive mais, acha que tem que viver 100 anos com cara de 18 (risos)”.

Foto: Emerson Rickenbaker

Em recente show no Rio de Janeiro, Nei recebeu no camarim Augusto Licks, seu parceiro dos primeiros discos em canções como “Verdes Anos”, tocada com dedicatória ao guitarrista naquela noite. Nesse último contato, porém, a dupla não chegou a agendar novas parcerias.

Todos por um

Paulinho Supekóvia (guitarra) e Luiz Mauro Filho (teclados) acompanham Nei há 12 anos ininterruptos. O guitarrista, que desde o fim da década de 80 já colaborava eventualmente com o cantor, arrisca uma explicação para a longevidade da formação: “A relação tem afinidade musical e pessoal, parceria e respeito. O Nei é um músico que deixa espaço para os músicos criarem no seu trabalho. As letras, composição e harmonia são dele, mas a banda dá uns pitacos no arranjo. A gente procura dar uma roupagem, um acabamento final”. Supekóvia lança nas próximas semanas um álbum instrumental pela Iman Records, e celebra o sucesso de colegas do gênero: “Músicos gaúchos como o Yamandu, por exemplo, que segue uma outra corrente, só com o violão dele consegue lotar teatros. Além do Luiz Mauro, que sabe melhor que eu o que é fazer música instrumental no Rio Grande do Sul”. Assim como Augusto Licks, Paulinho participou do antológico álbum de 1984 do trio gaúcho Cheiro de Vida. O guitarrista considera “complicada” uma reunião atual do CV, por incompatibilidade de agendas: “Cada um foi para uma direção, o Martal está trabalhando com produção, o André como músico de acompanhamento, o Alexandre como músico de estúdio, e eu fazendo meu trabalho solo. Atualmente, temos um contato social, de se ligar e tal”. Mas Supekóvia guarda boas recordações do período de colaboração: “Esses dias estava assistindo o show dos Filhos de João, que é a história dos Novos Baianos, e tem algumas similaridades com a história do Cheiro de Vida, no sentido que os quatro moravam juntos, no mesmo apartamento, tudo era comunitário, de todo mundo”

Luiz Mauro Filho interrompeu a graduação em música erudita ao entrar no que classifica como “outra corrente”: a da MPB, da Bossa Nova e do Jazz. “Para mim fazer esse trabalho foi mais um aprendizado, tu está acostumado a fazer tal tipo de música e às vezes é difícil te adequar em um trabalho totalmente diferente do que fazia antes, mas tu aprende muito com os amigos”, diz, fazendo menção especial a Supekóvia, que lhe indicou para a banda de Nei: “Mesmo não sendo pianista, ele me deu muitas dicas”. Apesar da dificuldade da entrada do instrumental no mercado, com a resistência de patrocinadores, Luiz insiste em oferecer seu projeto paralelo a empresas que possam viabilizá-lo via Lei Rouanet: “Elas não perdem nada, é compensado nos impostos”, esclarece. O trabalho em questão é o Cumbuca instrumental, formação completada pelos reconhecidos Mano Gomes na bateria e Nico Bueno no baixo.

O sofá continua o mesmo…

2009

2011

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s