A Paixão segundo Morrissey

01

 

Devoção religiosa dos fãs sulamericanos resulta na melhor turnê da vida do cantor

Texto: Marcelo Fialho

Fotos: Alexandre Coelho, Alejandro Kapacevich, Flurina St. Patrick e outros

 

Não é só Wilde que está do lado dele. Milhares de fãs pelo mundo afora também estão, decididamente. Curioso, talvez, que em muitos deles corre sangue latino, uma vez que vivem  longe das origens da antiga gentileza britânica que parece ser um dos ingredientes do charme deste homem que viveu grande parte de seus 53 anos entre os palcos e as estradas. Ao retornar à América do Sul , Morrissey reencontrou acesa a paixão que conhecera anos atrás, e reconheceu, ao final da temporada, quão boa é a a experiência de ser “amado”, quando agradeceu pela melhor tour de sua vida.

03
A paixão por Morrissey é tão ilimitada  que moveu alguns fãs a atravessarem o continente, de país em país, acompanhando a sequência dos shows. Tanto coração nas atitudes de ambos os lados fizeram da turnê uma experiência religiosa. Como ?? De um lado, fãs fervorosos que tratam seu artista favorito como a Santidade em pessoa, seja na pista dos concertos, nas vigílias em hotéis ou nas recepções no check-in de aeroportos. De outro – pra dizer o mínimo – um artista de trajetória tão singular (e improvável pelas regras do mercado) que mesmo  involuntariamente parece atrair  para si a aura de divindade. Com um crucifixo suspenso, ele, que diz ter sido rejeitado por Satã e que mais tarde perdoou a Jesus, agora olha para o céu várias vezes durante seus shows… Seria um agradecimento ? Afinal, quem poderia prever a longevidade dessa carreira… ? E que ainda hoje esse homem teria uma imagem forte… ? E ela é MUITO forte.

04

A entrada de Morrissey no palco é uma cena que se leva para o túmulo. Seu gestual teatral, o modo como joga os braços ao ar, chicoteia o cabo do microfone e seu andar desajeitado. Tudo  é como se espera, como se havia visto em vídeos … mais eis O homem, em três dimensões, logo à nossa frente.  Suas belas e perfumadas camisas, que joga ao público, pelo menos uma vez (durante Let Me Kiss You), e a apresentação bem-humorada de seus entrosados escudeiros (a atual gangue que lhe dá suporte e contribui para a pegada rock sempre sobreviver)…

Entrega e emoção pura é o que circula entre ele e seu público. Sem hologramas de computador, ou esqueletos dançantes, o único efeito especial nos concertos é a velha emoção. Uma relação de entrega mútua inspirada pelo coração de um eterno desajustado.

 

Esteban, I´m back !

 

05A mais recente aquisição da galeria de feitos memoráveis de Morrissey deu os primeiros sinais de vida em janeiro de 2012, quando o site True To You  anunciou que ele faria o Festival Viña del Mar. Dias depois era confirmada uma turnê por cinco países da América do Sul. A notícia se espalhou pelas redes sociais e os fãs faziam com ansiedade a contagem regressiva para o primeiro show, que teve divulgação extra por tratar-se de um festival importante para o Chile. Também por isso, a chegada de Morrissey ao país mereceu destaque na televisão, com  reportagem de três minutos na televisão, (tempo considerável para o veículo) em rede nacional  na Chilevision.

06A caminhada do cantor entre o hotel e seus passeios, por exemplo ao restaurante, seria invadida pelos fãs, fotógrafos e cinegrafistas desde os vários dias anteriores ao show em que a banda se hospedou em Santiago para ensaiar. Nada mal para um artista que não costuma ser tratado pela imprensa de maneira equiparável a uma Madonna.07Fãs de países vizinhos invejavam os chilenos, já se preparando para tentar sua própria chance de contato pessoal com Morrissey. Uma das sortudas que primeiro conseguiu realizar seu desejo foi Coté Arias, cujo autógrafo no braço virou tatuagem. Dias depois, ela e alguns conterrâneos, como Rodrigo Inrockuptible, seguiram a banda até os shows na Argentina.08

Coté,Rodrigo e Julia Riley

O apreço demonstrado por Morrissey ao Chile, confessando até o desejo de morar no país, se repetiria de uma ou outra forma nos países seguintes. Cada qual ganharia sua bandeira estampada no bumbo do equipamento de Matt. Além disso, o frontman sempre demonstrou-se inteirado da cultura e da história local. Na Argentina, desculpou-se pelas Malvinas e inseriu “Don´t Cry For Me Argentina” em “Speedway”.

09
Os Hermanos argentinos souberam retribuir com a mesma garra e empolgação que demonstram no futebol. As imagens de câmera trêmula capturadas nos shows demonstram o quanto era impossível ficar em pé.

Em uma noite, via-se Morrissey a uma proximidade inacreditável, e na seguinte, retumbando/ecoando em um estádio a céu aberto de proporções consideráveis.

Assim foi em Rosario, onde um palco pouco elevado, e com fosso mínimo, permitiu a Morrissey praticar um de seus principais rituais: tocar a mão de seus fãs, às quais busca compulsivamente, com uma angústia de receber diretamente a energia e também transmiti-la…para isso ele não se importa se tiver que deitar no chão, como aconteceria em Belo Horizonte, quando  uma cadeirante foi levada até à vala do palco para tocar o cantor.
10

Morrissey alcança as mãos dos fãs

e a troca de energia parece simbolizada pela aura ao fundo

11

O suor de Morrissey não é efeito de cena, é real;

é típico do artista que coloca corpo e alma em xeque sobre o palco.

Das tijoletas a la Salford Lads do Metropolitan em Rosario à noite seguinte no GEBA, Buenos Aires, o intimismo despareceu na estrutura do enorme local a céu aberto, em cuja lateral passava constantemente um trem urbano na ferrovia. “And when a train goes by…” Mas ambos  – Morrissey e fãs –  estavam entregando novamente seus corações. Impensáveis aqui os toques ou a famosa-de-longa-data “coisa dos abraços” que ocorre em ousadas invasões de palco, como aquela que uma fã conseguiria dias depois, em Bogotá.

12

Fila para o show no Metropolitan (Rosario)

De qualquer forma, não há vala que impeça a paixão por Morrissey de se manifestar em noites como aquelas. A empolgação na Argentina era tanta que, entre as pessoas pulando, o medo de cair era real, mas embora fossemos levados pela massa de um lado a outro, não houve incidentes. O mesmo pode ser dito de certa tensão decorrente da disputa pelas camisas (bem, por pedaços delas) jogadas ao público, que acabavam tendo um final amigável e uma justa(?) divisão.

13

Fãs tentam chegar ao cantor em Rosario…

14

…mas apenas em Bogotá aconteceria, para surpresa do próprio Morrissey!

Em Rosario, os fãs cantaram não apenas as letras, mas o riff instrumental que introduz “You Have Killed Me” na base do “ooouoo”. Pouco depois, o cantor admite sua reciprocidade a tanto afeto: “I Love you too” disse ele para a garota que acabara de declarar sua paixão ao microfone. Em Buenos Aires, revelou o já sabido: “these songs are pieces of my heart, of which there are many more”. Esperaremos pelos próximos…
15
No Brasil, ao debutar na cidade de Belo Horizonte, viu-se um Morrissey muito a vontade e com várias tiradas engraçadas durante a noite. O próprio artista classificaria o entusiasmo da plateia brasileira como “quase de parar o coração”. Era visível: ele estava se divertindo. Como todos nós.
16

Ainda em Belo Horizonte, a entrega de Morrissey foi tanta

17

que ele deitou na beira do palco para tocar a mão de uma cadeirante…

18

Em São Paulo, segue a busca mútua pelas mãos…

19

…e a tentativa de ganhar o famoso abraço.

 

Em Lima, Peru, após causar recorde de vendas de ingressos, não foi surpresa que sua chegada ao aeroporto causasse cenas (e gritos) de histeria e sua saída fosse isolada pela devida proteção policial.
20

Alguns fatos do show de Lima sugerem uma viagem ao passado, pelas escolhas: tanto na camisa como em repertório: “Sheila Take a Bow”, que até então só era ensaiada em passagens de som, foi finalmente tocada para a audiência – algo que os Smiths pouco chegaram a fazer.
2121 B

Life tends to come and go… back… to TTY

 

22Enfim, tudo acaba onde começou: True to You. Morrissey divulga seu ranking pessoal de shows e diz expressamente que a sulamericana foi sua melhor turnê. O artista mais uma vez oferece suas palavras através de um veículo dirigido pela mesma Júlia Riley que abraçou em Viña del mar: TTY, que começou em 1994 como um fanzine virtual, se converteu ao longo dos anos em canal prioritário de comunicação com os fãs. Ao que parece, Julia fez jus à letra de Speedway, sendo verdadeira e leal para com o inspirador de seu site.
23
Um outro meio de expressão bastante usado por Morrissey são as camisetas de sua banda (ou a eventual ausência delas). Dessa forma ele havia repudiado meses antes outro fansite, e passou a alternar desde então diferentes alvos de seu desapreço, seja a realeza irreal ou veículos de imprensa que lhe desapontaram.
2425

Morrissey´s Always ready to kick royalty´ ass

Talvez o fato de Morrissey ser um gentleman seja um de seus diferenciais em um mundo tão rude, mas ele não faz média com ninguém… como já deixou claro no início em Viña. Mas tem o dom de ser militante em forma de arte e não de panfletarismo vulgar, como o modo que escolheu para defender a causa de “Meat Is Murder”. Hoje, a canção é muito maior e combativa do que na versão original. A parte final ganhou em apelo dramático com sons dantescos que lembram a agonia dos animais assassinados sem direito a defesa.

Voltando a falar em comunicação, a despeito da mídia e paralelamente à negligência dos editores, a rede de fãs de Morrissey é um exemplo da força das manifestações informais alimentada pelas ferramentas virtuais. Muitas amizades internacionais surgiram em torno dessa turnê. Às vezes brotando no mundo virtual para se desenvolver logo depois no real. Foi o caso do grande grupo de pessoas que tomou conta de uma pizzaria no bairro Palermo, pouco depois do show em Buenos Aires.

Amigos de longa data e instantâneos unidos pelas camisetas e paixão por… Morrissey, é claro. Alguns desses grupos de fãs tem uma organização tal que se assemelha a um tipo de clube, pois tem seu material personalizado quase como um uniforme, e suas faixas.

Além disso, o uso dos mensageiros da internet provavelmente facilitou que os fãs descobrissem o hotel do cantor e da banda e pudessem fazer sua vigília e eventuais perseguições. Foi assim em Rosario. Em uma das discretas saídas de Morrissey , do hotel Esplendor Savoy, ele dirigiu-se à noite para o Café El Cairo, mas a notícia caiu no Twitter enquanto ele era reconhecido por frequentadores do histórico local, e acabou indo embora.

Mesmo após o fim da turnê,  os registros e memórias parecem inspirar nos fãs uma militância e dedicação sem limites. No Chile, recentemente foi realizada a primeira “Mozzcicletada”, um passeio em bicicletas inspiradas nos videoclipes antigos de Morrissey.
27
Importante mencionar que os muitas vezes não-amados guarda-costas, no caso da segurança pessoal de Morrissey, comandada por Liam, são um show a parte, tratando os fãs com polimento e organização em lugar de truculência. Muitos puderam presenciar Liam anunciando aos fãs em espera que Morrissey estava para sair do prédio em X minutes, e assim acontecia.
28

 

Seja sobre o palco ou nas ruas, Liam é o anjo da guarda pessoal de Morrissey…

sempre observando, mas muito polido com os fãs

29

Life tends to come and go… back… to the cross and the passion

E tudo enfim volta… à cruz – como dissemos, um belo ícone para  símbolo máximo da Paixão de Morrissey.

31É para a cruz em sua frente que Morrissey recorre em momentos cruciais de seus shows. Em alguns, ele a segura com força, para logo jogá-la contra o ar. Outras vezes, representa o objeto através do sinal da cruz. Em Rosario, como na maioria dos shows, é durante “I Will See You…” que o olhar do poeta parece voltar-se ao transcendental. A sonoridade étnica da canção sugere referência a um deus não-ocidental – seria Shiva ?. Naquele momento ele também olhou para o mesmo céu ao qual apontaria o dedo mais tarde, em “Scandinavia”. Ambas as letras falam, à sua maneira, de… deus. Parece que quando Morrissey atenta para o alto em tom silente e reverente, como também faz em “Please Please…”, é seu modo particular de dizer “thank you”. Ele conseguiu o que queria. E da maneira mais difícil. Ele poderia cantar “Alma Matters”, ou “I Did it my way”… ou ainda recitar: “I have made my choice, have lived my poems, and, though youth is gone in wasted days, I have found the lover’s crown of myrtle better than the poet’s crown of bays”. Mas ele apenas segura o crucifixo… e olha fixo…

Então… que assim seja. Em nome de Morrissey, amén.
32

EPILOGUE:  THE SONGS THAT SAVED OUR LIVES

Seria mesmo o interesse de Morrissey pela cruz um gesto de gratidão ? Por uma honrosa sobrevivência sem vender a alma ao showbusiness ? Afinal, se o símbolo ideal para sua carreira não fosse a cruz da imensa paixão que carrega  – no peito, obviamente – bem poderia ser um “V” da vitória – pessoal e pelas próprias regras.

Nosso last of the famous unmarketable heroes, Morrissey, absolutamente não se prostituiu ao mercado. E a condenação para um artista tão “cheio de verdade” é que a indústria (gravadoras) não tem ideia sobre que fazer com este homem.

record companies

Sequer a grande e gorda mídia não o deglutiu completamente até hoje, e continua não enxergando manchetes vendáveis nas temporadas sold out em lugares incensados, que ele consegue sem esquemas milionários de autopromoção.

O fato é que artistas de qualquer geração podem olhar para Morrissey e dizer: he DID it. E sendo apenas um sacerdote da igreja das coisas do coração, em sua própria capela. Ao cantar seus infortúnios salvou a vida de muitos, e a própria. Ao escrever o que todos sentem, se tornou alguém que SIGNIFICA algo (e hoje nem todos o artistas fazem), e muitas vezes significa o sentido das vidas de seus fãs-seguidores,  algo que eles tem dentro e que ele canta tão bem que lhes soa confessional…

Ele é alguém que trata seus fãs com inteligência (e hoje nem todos os artistas o fazem) .

A paixão de Morrissey é tanta que transpira em seus poros e forma um coração em sua camisa.

Ele fala de “coração para coração” – pode soar piegas, mas, acredite: no atual panorama é o que menos há na música, entre elementos atrativos aos olhos e a outros sentidos.

Sua verve é muitas vezes melancólica, mas também confortante. E sua língua também sabe ser ferina ou irônica, quando lança o verbo de forma tão deliciosa quanto contundente, se há alvos pertinentes.

Como ele conseguiu ? Bem, ele sempre foi verdadeiro para conosco… e consigo mesmo.

33Quem é Morrissey afinal ? Talvez os detalhes venham a ser melhor compreendidos com sua autobiografia anunciada para este ano…

E como ele consegue manter tamanha presença pessoal ?

São trinta anos desde que subiu ao palco a figura esquálida e esbranquiçada, muitas vezes beirando a androginia, na qual sobressaía o topete.

Como Morrissey e seus olhos azuis continuam tão ou mais bonitos que no início ? Um rosto marcante de um Elvis – com uma longevidade que até agora supera em 11 anos ao Rei, e uma postura de chrooner a la Sinatra, legitimada por sua proximidade com Nancy.

34

This (still !) Charming Man

E como ele consegue reinventar sua carreira a cada década, causando mal-estar àqueles que odeiam que ele se torne bem-sucedido ?  Quem diria que após um hiato de sete anos desde Maladjusted (sem contrato, como ele está hoje de novo) ele iria voltar às paradas com o sucesso que teve You Are The Quarry? E que teria um álbum no topo das paradas a cada década da carreira, feito que apenas um álbum de seu antigo grupo (Meat Is Murder) atingiu?  Morrissey versão 2012, não é um has been, ou um ex-Smith. Os Smiths hoje são a ex-banda de um Morrissey com vida própria – compare as trajetórias. Ao longo de décadas, ele soube incorporar à sua sonoridade diferentes nuances – como toques latinos que deram um colorido muito além das eternas viúvas dos anos 80. Life tends to come and go ? Nada mal, para alguém que ficou seriamente abalado à época da separação do quarteto de Manchester.
35

Anúncios

  1. Lino

    Legal o texto. A primeira vez dele no Rio foi ótima, 2012 teve uma vibe linda do público, e aguardo ansioso 04 de Agosto de 2013

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s