Fim de tarde com os Acústicos e Valvulados

Fim de tarde com os Acústicos & Valvulados
[ Pelotas, 06.03.2013]

Bar 1

O sol já tinha encerrado o expediente quando um quinteto de forasteiros adentrou um bar na esquina da Gonçalves Chaves com Dom Pedro II. Pediram, é claro, uma gelada. Ao primeiro contato já foi possível perceber que a gangue não estava ali para arrumar problemas – apenas apresentar seu trabalho atual, que é o resultado de mais de duas décadas de palco. Enquanto P. James descansava no conforto do hotel, Rafael Malenotti falou ao blog sobre os projetos de sua banda, acompanhado pelo restante da formação: Alexandre Móica, Luciano Leães, Daniel Mosmann e Diego Lopes.
Prestes a tocar no ambiente intimista do Bar João Gilberto, o Acústicos traz na bagagem eventos maiores. Um deles acabou não acontecendo na semana anterior, em Rio Grande, onde dividiriam o palco com o conjunto escocês Nazareth: “O produtor, que fugiu com o dinheiro da bilheteria do Nazareth em Pelotas, (obs.: dias depois) já estava mal intencionado com o show de RioGrande, deu o godó lá, e a gente não tocou. O Nazareth acabou tocando mas tomou o tufo igual”. Apesar dos contratempos, já participaram de vários festivais, assim como tocaram em locais menores. Rafael explica a relação entre ambos os tipos de show: “O Acústicos já está com mais ou menos uns 1200 shows no currículo e a gente obviamente não começou em grandes palcos, foi como cem por cento das bandas começam, geralmente. O palco vai aumentando de acordo com o tempo que tu vai te apresentando. Pra gente, que realmente já tem uma experiência em todo tipo de palco, o que interessa é que o som esteja bom e que o público esteja presente. Se são cinquenta pessoas ou cinquenta mil pessoas, a nossa intenção é que o som pra essas pessoas esteja perfeito ou pelo menos o melhor possível. Esse é o grande objetivo sempre: que o som esteja bom pra gente tocar e se divertir, e que a galera que esteja presente, independente do número que for, possa curtir isso. Mas por opinião pessoal, a diferença é tão grande que tu aprender a lidar com as situações. O show intimista te dá possibilidade de fazer piada, trocar música; e o grande festival, onde tu tem o tempo corrido e fechado, aonde tu tem que fazer um show enxuto porque geralmente o set é mais curto mesmo, daí tu opta por fazer um show onde tu prioriza mesmo os grandes clássicos da história e é gol ! Geralmente é gol assim né ?Algumas vezes bate na trave mas entra, dificilmente a gente erra um alvo”, avalia Rafael.

O cantor lembrou que a banda está lançando clipe da faixa “Vício” e já produz o próximo vídeo para “Vulnerável Inflamável”. Com isso, as onze faixas do álbum Grande Presença (2010) terão ganhado seus respectivos clipes, que serão reunidos em um DVD ainda sem nome: “Não era propriamente a nossa intenção quando lançamos o disco, mas com o passar da turnê toda, a cada três meses a gente concebia uma ideia específica de cada som e de como a gente queria registrar visualmente, e assim foi indo. Como o disco já tá com dois anos e meio de trabalho, então nesse período a gente conseguiu fazer de todas as faixas mesmo”, detalha Malenotti. Esse não é o único lançamento envolvendo o A&V para 2013: “A gente tá com outro trabalho pra sair agora no próximo mês que é o Três Vezes Rock. É o registro de um show em Porto Alegre, onde teve uma noite conosco, Replicantes e Identidade. Uma banda dos anos 80, uma dos anos 90 e uma dos anos 2000, do rock gaúcho. São seis ou sete músicas de cada banda”, explica o vocalista, antes de comentar a playlist daquela noite: “Foi em janeiro de 2011 por isso a gente priorizou as músicas do Grande Presença, porque na época a gente tava começando a trabalhar o disco. Mas tem ´O Dia D é Hoje´ e outras também”.
O A & V despontou em uma cena que, em meados dos anos 90, trouxe também a Ultramen – que acaba de se reunir para shows, a Tequila Baby – com quem os Acústicos acabam de dividir palco no projeto Discografia do Rock Gaúcho. As bandas tinham na mídia espaços como o Folharada, programa de TV da galera da rádio Ipanema, e um bom destaque para a produção local na playlist da rádio Atlântida, então comandada por Gerson Pont. Malenotti avalia aquele momento e relaciona com o vivido atualmente pelo rock gaúcho: “Cara, o que existia na época era um bando de gurizada dando primeiros passos em seus respectivos trabalhos, aonde o aprendizado era muito maior mesmo. A gente tava numa fase de vida e número de discos onde tinha muito experimento, muita coisa a gente tava aprendendo, muita cagada e muito acerto, e assim tu vai contrabalançando e ganhando ritmo, experiência e cancha. Então, assim como teve o cenário ali do Acústicos, Comunidade, Tequila e Ultraman, hoje em dia é mais disperso. Tem muita referência , muitos nomes, muitos trabalhos, e o cenário continua presente, seja continuação daquilo que a gente já tava fazendo, que já era uma continuação do que se fazia com o TNT, Graforréia, Replicantes, Garotos da Rua… é tudo uma sequencia né ? Logo depois da gente veio ali na sequencia dessa geração veio Reação, Bidê, Cachorro Grande. Hoje tem uma rapaziada daqui do rock gaúcho, que são os mais conhecidos, a galera do som mais jovial, a Topaz, a Fresno, enfim, é a continuação de um trabalho onde em cada década que vai seguindo, a gente nota que uma parte do público se puxou pra fazer suas bandas e deu seqüência. Assim como eu era fã do TNT, do Cascavelettes, do TNT e ia a todos os shows deles, a gente sabe que tem muita banda nova que a gurizada ia nos nossos shows, quando não tinha banda, quando tavam pensando em formar, e se dedicar à música. O próprio Lucas da Fresno é um exemplo disso. Frequentava muito os shows da Comunidade, volta e meia os do Acústicos. Depois, dividimos o palco muitas vezes.
Na hoje considerável discografia da banda, o debut de 1996, “God Bless Your Ass”, já figura como uma peça singular, com suas letras em inglês e uma dose de rockabilly imensamente maior que seus sucessores. Será que esse disco ainda tem vez nos shows ? Rafael responde: “Como é um disco que foi muito segmentado e altamente histórico, a gente procura tocar essas músicas quando o show também é histórico, assim, por exemplo, no milésimo show nosso, a gente fez um set onde a gente tocou o “God Bless…”, “Minha Fama de Mau”… mas é um lance muito roots mesmo, pra cada mil fãs , poucos conhecem. Num show como o de hoje se for o caso de tocar o God Bless, é relax, aí já é um público mais reduzido e onde de repente há possibilidade de ter um grupo que conheça o som, assim como tu”.
Malenotti ri ao ser questionado sobre seu “projeto paralelo” solo, “Em Ritmo de Chalaça”, iniciado em 2012. “A gente lançou o primeiro single, a produção é do Daniel Mosmann, nosso guitarrista e eu consegui finalizar um som no ano passado que foi o pontapé inicial. Vai ter algumas remexidas em fundo de baú, de amigos, de banda que a gente gosta. Vai ser um projeto meio sem uma proposta definida, é o resultado de quarenta anos de vida, então tem muita coisa.
Tem As referências do rockabillly, iniciou com Buddy Holy em “True Love Ways”, tem Rei Roberto, Erasmo, Raulzito. Tem uns lances do rock gaúcho, alguma coisa das antigas. Na real é uma grande brincadeira, proque a ideia é que eu toque um som com cada formação de banda.
A pata de elefante já rolou, as presenças não estão todas definidas, mas na sequencia tem com Fernando Noronha e Black Soul, que é um clássico do Stevie Ray Vaughan. Tem Os Nelson que foi minha primeira banda de rockabilly, a gente vai tocar um Eddie Chocran, junto com o Móica, com o Paulinho. Tem o Bruxa Roots, que é a minha banda de peso, com Nando Endres da Comunidade, Júlio Porto da Ultramen. É uma turma grande, com grandes amigos músicos, todo mundo se relaciona no mesmo universo musical e físico”, adianta o músico. Ele deixa claro que não há previsão de lançamento, que deverá ocorrer no formato CD e possivelmente em vinil: “Como agora a gente tá altamente dedicado ao Acústicos e só agora no mês de março vai ter uns 13, 14 shows, tem que esperar um tempinho de descanso, de intervalo. Não gostaria que demorasse tanto tempo pra sair, gostaria de poder concebê-lo ainda esse ano. Mas se a gente repetir os quase cem shows do ano passado, aí o Ritmo de chalaça vai ser um ritmo mais pausado…”, pondera.
Pouco antes da banda se despedir da mesa de bar, Rafael lamenta o fato do dia, que ocupa todas as manchetes: a morte do cantor Chorão , do Charlie Brown Jr. Malenotti relembra as interações do músico com artistas gaúchos, em especial Fred Endres, da Comunidade Nin-Jitsu.

Stones e Beatles no saloon com os Acústicos & Valvulados
(Show no João Gilberto Bar, em Pelotas)

Como um aplicado barman, os Acústicos & Valvulados aprenderam em duas décadas a dosar muito bem os ingredientes de sua performance. Se o equilíbrio já vem desde o batismo da banda – entre a válvula do amp velhaco e corda dedilhada com vontade – o palco do hoje sexteto é de todos os seus músicos, e não centraliza os holofotes no vocalista – como muitas vezes se vê no showbusiness. É Rafael que está à frente nas canções mais esperadas da noite, como “O Dia D é Hoje” e “Fim de Tarde”. Mas não são apenas os hits nem as músicas “de trabalho” que fazem o ar condicionado do João Gilberto não dar conta dos ânimos da noite: a gana que Móica e Diego têm de ser, respectivamente, Keith Richards e Paul McCartney, vai além do visual dos caras e seus instrumentos réplica dos homenageados. Primeiro é Alexandre que assume a voz lead como no disco, e convida: “Sai do Sério”. Logo o baixista é o frontman de uma bailável “I Saw Her Standing There” que logo dá lugar a mais um tributo quase particular ao rock clássico, agora por parte do pianista Luciano, com “Great Balls of Fire”. As teclas blueseiras de Leães, aliás, contribuem para o clima de saloon no ambiente da apresentação, somadas com a bagagem rockabilly que persiste no som dos caras, a tatoo Stray Cat do Móica, a camisa de caubói da Regentag do P. James – “maestro” da banda, e a slide do Mosmann em seu cantinho escuro low profile. Entre suas composições, ainda acharam espaço para saudar ao rock gaúcho com “Sob Um céu de Blues”, “Não Sei”. Com tanto gás no repertório, ao final a galera ainda estava “querendo assunto”, como definiu Rafael, antes de mandar o “Remédio” que todos esperavam…

Ao lado de gigantes
Na noite anterior ao show em Pelotas, o pianista Luciano Leães havia aberto o show de Elton John em Porto Alegre. Ainda extasiado, ele define: “ Foi um momento muito especial, um dos mais importantes dos meus 18 anos como músico profissional. Me apresentar pra umas 20 mil pessoas, sozinho com o meu piano, antes do show do Sir foi uma experiência única, um grande desafio que eu nunca vou esquecer. Isso sem falar na felicidade de ver tanta gente apoiando e vibrando com a minha música, que é uma das coisas mais importantes que eu tenho na vida. No show eu toquei 4 músicas: toquei um boogie woogie meu e do Fernando Noronha chamado “Clap Your Hands”, “Georgia” do Ray Charles, uma versão de “Goodnight Irene” do James Booker e uma música minha que vai estar no disco da minha banda Luciano Leães & The Big Chiefs que se chama “Sho’ Nuff”. Apesar de ter seu espaço nos bastidores, Luciano lamenta: “Não tive a oportunidade de encontrá-lo pois ele entrava por outro lado”, mas se consola ao lembrar que não teve contato com outro músico referencial para ele, que passou pelo Brasil há algum tempo: “Também não encontrei o Jerry Lee Lewis. Eu tava em turnê com o Noronha pela Estônia quando ele esteve aqui. Mas tive a oportunidade de ver Jerry Lee e Chuck Berry juntos há uns sete anos atrás em Londres. Quem sabe numa próxima oportunidade. É um dos meus grandes mestres”, avalia o tecladista.

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