Roupa Nova: Cruzeiro do Romantismo em firmes terras gaúchas

Trinta anos depois, grupo segue levando os bailes da vida aonde o público está

No último final de semana, o Roupa Nova iniciou por Pelotas uma seqüência de três shows em cidades gaúchas, com a atual tour “Cruzeiro Roupa Nova”, que divulga o DVD de mesmo nome. Trazida pela produtora Morphine, a apresentação reproduz em alguns momentos o clima minimalista das gravações ocorridas a bordo do Transatlântico MSC Armonia, em 2012, no litoral de Santos. Além de trazer ao palco os músicos em banquinhos como havia no navio, a abertura do espetáculo também resgata do DVD a atmosfera de proximidade entre artistas e público, reforçada pelos diálogos e forte interatividade dos seis entertainers com seus fãs. Nando logo dá a dica: “aqui é a nossa casa, o nosso navio !”. Em pleno setembro gaúcho, o pavilhão da Fenadoce (Feira Nacional do Doce) se viu tomado de calor humano com o astral das canções “Felicidade” e “Tudo Desarrumado”. Em seguida, os músicos abandonam os assentos para a clássica “Linda”, que já traz o sabor que será recorrente ao longo do show: o reconhecimento imediato de peças que fazem parte do imaginário musical brasileiro das últimas três décadas, sendo acompanhadas em côro.
Logo, um dos autotributos que a banda se permite de forma natural, com toda a história que traz: Milton Nascimento (que está lançando também um DVD ao vivo, aos 50 anos de carreira), aparece no telão – na primeira das interações virtuais da noite – com “Nos Bailes da Vida”, um de seus standards e que alude ao Roupa Nova e suas origens nos bailes populares, de onde vem a performance empolgante que o grupo ainda mantém.

Em seguida, “Volta Pra Mim” e “A Viagem” reforçam as recordações do período em que grande parte das trilhas de novela mais marcantes da dramaturgia nacional eram concebidas pela banda.
Após uma “Cantar Faz Feliz ao Coração” meio a capella por Feghali, este anuncia “alguns sucessos na voz de Serginho Herval”, quando o baterista desce da plataforma de seu instrumento e volta ao kit reduzido na beira do palco, como na abertura da noite. “Seguindo no Trem Azul”, “Anjo”, “Sapato Velho” e “Começo, Meio e Fim” são algumas das canções cujas melodias deixam claras a proximidade do músico com o prog rock do Genesis e o Clube da Esquina mineiro.
A esta altura, os arranjos já recebem o reforço dos colaboradores da banda nos instrumentos de sopro (harmônica, flauta e sax): Stanley Netto e Daniel Musy, que realçam números como “Frisson”.
A veia romântica cede espaço momentaneamente ao suingue com “Eu Só Quero Ser Feliz”, um dos raps cantandos por Nando no repertório. Mas o romantismo logo retorna para “Meu Universo é Você”.
Outra vez a banda revisita a própria trajetória com um set de faixas que se tornaram bem conhecidas em versões que, nem todos sabem, traziam o Roupa Nova tocando. Um medley instrumental traz inserções de algumas delas: o tema do primeiro Rock In rio, a versão de “Don´t Stop Till You Get Enough” da abertura do Vídeo Show, “Ilariê” (sim, aquela) e o “Tema da Vitória” que marcava os êxitos de Ayrton Senna. Na mesma linha, seguem-se músicas cantadas (mas que se tornaram sucessos com outros vocalistas) como “Aguenta Coração” e “Todo Azul do Mar”.

Show de rock and roll !

Após trinta e três primaveras mantendo a formação original completa de modo ininterrupto, tendo gravado ainda um álbum em Abbey Road, e por esse trabalho recebido o Grammy Latino em 2009, o Roupa Nova parece estar além da necessidade de provar alguma coisa para quem quer que seja. A naturalidade dos músicos no palco é tanta que eles se permitem apresentar clássicos em versões diferentes às de estúdio que viraram hits. Aqui, os vocais são assumidos pelos compositores originais – Cléberson, Kiko e Feghali, evidenciando a parcela de contribuição de cada um ao legado do conjunto.
Depois de tudo isso, o fechamento com “Whisky a Go Go” mistura nostalgia das trilhas memoráveis de folhetins globais, com um tempo presente onde o sexteto de corôas toca com energia só possível a quem faz o que ama. Somado às raizes roqueiras dos músicos da banda, esse fator resultou em um bis não menos surpreendente do que marcante: definido como “homenagem às grandes bandas”, sucedeu-se uma playlist de clássicos a partira de Beatles e Stones, passando por Creedence, Pink Floyd, Queen, Bon Jovi, Guns and Roses (!) e Nirvana (!!). Nem a disco dos Bee Gees foi esquecida. Com essa, cessam as palavras e fica o convite, a quem puder, que veja e ouça por si o que é um show do Roupa Nova aos 33 anos.


Nunca pára: o futuro próximo

Apesar da agenda repleta, o Roupa Nova não pára de apresentar novidades paralelas aos shows. Uma delas está prometida para muito breve: a biografia da banda, “Tudo de Novo”, a cargo da jornalista Vanessa Oliveira, está saindo da prensa, com amostras diárias do conteúdo aparecendo nas redes sociais.
No âmbito fonográfico, o grupo deve ter comemorado muito a isenção fiscal para CDs e DVDs nacionais aprovada no Senado há alguns dias. Afinal, o Roupa Nova, que já foi produzido pelo papa do pop brasileiro Mariozinho Rocha, e compositor oficial de trilhas durante a hegemonia da Rede Globo, atravessou as mudanças do mercado musical e optou por fundar em 2004 seu próprio selo, o Roupa Nova Music, que lançou inclusive o álbum do músico de apoio Daniel Musy, em 2009.
E o resultado de trabalhar para si mesmos parece estar satisfazendo a banda, vide os novos lançamentos que não param de pipocar: estão anunciado para breve um box com os cinco DVDs lançados (Acústico, Acústico Dois, Em Londres, Trinta Anos e Cruzeiro) mais um EP com seis novas músicas.
Artisticamente, a criatividade não dá sinais de cansaço: Nando adiantou o projeto do grupo de lançar um trabalho conceitual inspirado na ópera-rock Tommy, do The Who, que incluirá três canções novas já apresentadas no Cruzeiro, as quais são versões de sucessos de Kiss, Herman´s Hermits e Frank Valli.

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