Trinta anos entre o punk rock e as câmeras: Carlos Gerbase debate música e cinema na UFPel

Carlos Gerbase, conhecido de longa data como cineasta e ex-integrante d´Os Replicantes, foi o convidado especial do Quartas no Lyceu, programa cultural da UFPel, nesta quarta-feira, 09. Ele e o representante da casa, Leandro Maia (professor do Bacharelado em Música e diretor da Rádio Federal FM) debateram “O Cinema e o Rock”, com a apresentação do professor Luís Rubira, além da presença entre o público do reitor Mauro Del Pino, que também é músico e integrante da banda Laquê.
Gerbase é jornalista desde antes da banda punk, e hoje professor da PUC (Tecnologia em Produção Audiovisual), com pós-doutorado em Cinema na França. Leandro conquistou o troféu Revelação do Prêmio gaúcho Açorianos de Música, com seu trabalho Palavreio, de 2008.

Leandro Maia e Luis Rubira

Leandro Maia e Luis Rubira

Leandro Maia e Luis Rubira[/caption]Em breve intervenção, Maia citou dois marcos históricos da representação do jovem na cultura recente: na sétima arte, Juventude Transviada (Rebel Without a Cause), e na literatura, O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye).
Gerbase iniciou sua apresentação, acompanhada pela projeção de slides com tópicos. Ao fazer um relato histórico, foi buscar nos primórdios da história humana as primeiras manifestações relacionadas à música, associando-as inclusive ao surgimento dos mitos. O cineasta aproveitou a presença dos veteranos do metal pesado liderados por Ozzy Osbourne na capital gaúcha para lembrar que a performance de uma banda no palco não envolve apenas música, mas toda uma misce-en-scène que tem origens nas cerimônias pagãs como o Sabá. Também comparou popularidade das óperas em sua época à dos concertos de rock atuais, e em cujo auge surgia o cinema mudo.


Ao longo das explanações, foram projetados trechos de filmes: Gene Kelly dançando em Singing´ In The Rain (1952) e a seqüência com “Love Reign´Over Me” de Quadrophenia (1979), traçando paralelos entre as obras, notadamente a alegria esfusiante da primeira versus o fatalismo lapidado da segunda, que é baseada na ópera-rock do The Who – um dos tipos prediletos de filme do cineasta, assim como Jesus Cristo Superstar e Hair.


O diretor comentou as origens negras do gênero musical rock e sua popularização ao ser cantado pelo branco Elvis, e comentou filmes como o contracultural Sem Destino e Embalos de Sábado à Noite, que considera um bom drama.
Para finalizar sua fala, Gerbase exibiu passagem da animação American Pop (1981), que introduz a figura do anti-herói como protagonista.
Na parte interativa do debate, o replicante citaria ainda películas relacionadas ao rock como Trainspotting, 24 Hours Party-Time, Closer e Last Days, de Gus Van Sant.

Gerbase responde a estudantes de Cinema

Gerbase responde a estudantes de Cinema

A casa que projetou o RS
Alunos de Cinema da UFPel questionaram Gerbase sobre a Casa de Cinema de Porto Alegre, onde a atual professora do curso, Ivonete Pinto, participou junto com o diretor da realização de filmes como Verdes Anos. Um dos fundadores da Casa, o diretor recorda que na época (final dos anos 80), cineastas abriam suas pequenas produtoras de curtas, e resolveram formalizar algumas alianças naturais de modo praticamente cooperativo. A ideia começou a engrenar bem no arranque da era Collor, que chegou para desvastar toda a estrutura que havia para o cinema nacional, inclusive a Embrafilme. Apesar de todo o cenário adverso, Gerbase relata a façanha conquista pelo grupo na época: “a Casa produziu o curta Ilha das Flores sem dinheiro nenhum, e conseguiu se colocar no mapa do cinema brasileiro e de certo modo, mundial. Demos um tiro na lua e acertamos!”, avalia. Esse formato da Casa de POA perdurou até 1992, quando a entidade assumiu moldes mais próximos de uma empresa formal. Gerbase atribui a longa sobrevivência do projeto à proximidade com a TV, relatando que em sua filmografia teve experiências positivas inclusive com o núcleo Guel Arraes e Carlos Manga, da Rede Globo, como é o caso da minissérie Memorial de Maria Moura, adaptação dele e de Jorge Furtado para o romance de Rachel de Queiróz.
Os seriados atuais despertam em Gerbase interesse e a impressão de que de concentram o material de maior qualidade nos audivisuais da atualidade. Ele retoma a personificação do anti-herói ao citar Breaking Bad e Mad Men (EUA), onde respectivamente um professor com diagnóstico de câncer e publicitários manipuladores são protagnistas que fogem do estereótipo de bom moço, porém demonstram justificativas extremamente humanizadas para suas condutas.
Gerbase alerta aos estudantes que a nova lei de TV por assinatura pode ser uma oportunidade para se colocar uma séria na televisão – algo que também está tentando. E lembra que apesar de alguns cineastas que “vivem de editais” e captam recursos do governo ao invés de no mercado, ele próprio é exemplo de quem já fez cinema com orçamento baixíssimo, em distintos momentos. Seu cachê para realizar Ocidentes foi de R$ 2 mil. Já ofereceu diárias de apenas R$ 100 para atores, que no entanto, ao final das filmagens já manifestavam a vontade de voltar a trabalhar com o diretor de imediato. “O cinema gaúcho hoje tá num momento muito interessante por causa das faculdades”, opina o cineasta, que também enxerga perspectivas interessantes em distribuições não-convencionais, como o Netflix (serviço de filmes e séries por assinatura, recentemente premiado), You Tube e Vimeo. As possibilidades digitais parecem imensas para quem já trabalhou com projeção em lençóis e divulgação através da distribuição de filipetas nas ruas.

A banda nos primórdios com Gerbase nas baquetas

A banda nos primórdios com Gerbase nas baquetas

Pogação em dois atos
Onde quer que se apresente, Carlos Gerbase sempre será perseguido pela memória de andróides de Ridley Scott que certamente não lhe incomodam em nada. Há 11 anos afastado dos Replicantes, banda da qual fez parte desde a fundação, o cineasta foi notícia na ZH da quarta-feira exatamente por dois projetos comemorativos aos 30 anos de seu ex-grupo que já traz no nome uma referência cinematográfica – a personagens de um filme cult. Ele admite que “é muito difícil se afastar emocionalmente da música”, e tomou a iniciativa de reunir a formação atual dos Replicantes com os ex-integrantes para um grande show no Bar Opinião, no dia 09 de dezembro. Além disso, prestará outra homenagem à banda em apresentação no emblemático Bar Ocidente, dia 27 de outubro, onde vai cantar acompanhado de versões pré-gravadas para músicas replicantes que encomendou a músicos participantes de bandas gaúchas contemporâneas, como Fantomáticos, Bidê ou Balde, Graforréia Xilarmônica, De Falla, Dharma Lovers, Lautmusik e até os ex-Engenheiros do Hawaii da fase Tchau Radar, Luciano Granja e Lúcio Dorfmann.

Oci Logo

O ocidente de Gerbase
O Ocidente ou simplesmente “Oci”, meca do underground portoalegrense no início dos anos 80, é tema recorrente na caminhada de Gerbase, que avalia a longevidade do local como “um incrível caso de bar que deu certo”. De propriedade de seu amigo, o arquiteto Fiapo Barth, o Oci ambientou uma cena de seu filme Inverno, de 1982, que hoje representa um “registro antropológico e histórico” de como era aquele espaço na época. Pouco depois, foi o palco da estreia dos Replicantes. Agora, será homenageado ficcionalmente através da perspectiva de quatro diretores, dos quais Gerbase é o decano, em minissérie da TVE gaúcha idealizada pelo colega cineasta Fabiano de Souza, encarregado de um dos quatro episódios que dividem a obra em períodos históricos.

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