Categoria: Gaúchos

O bis do sucesso do Pouca Vogal


Coisas que o Pouca Vogal consegue: lotar um novo show e emocionar o público como se não tivesse tocado repertório idêntico no mesmo clube apenas sete meses atrás. Isso aconteceu em Bagé. A única novidade no playlist foram os acordes iniciais de “Seven Nation Army” dos White Stripes, no contrabaixo de Humberto – tocado com os pés, assim como o som de cordas que está mais evidente em algumas canções, dispensando tecladista, e os loops que adicionam empolgação em A Força do Silêncio, Pose e Infinita Highway. De resto, as variações sobre os mesmos temas de Leindecker e Gessinger ficam por conta dos detalhes que fazem a diferença. O duo agora é definido por Humberto como a “maior banda do bairro Bela Vista” (sua morada portoalegrense) ao se apresentar, confere o vídeo:

Hoje é Renato Russo quem dava razão a Humberto, no táxi que trouxe o Alemão a Bagé. E na farmácia, quem procurava protetor solar era um emo, não mais o punk.
Além de tudo isso, 1berto esbanja o know-how de palco de 25 anos como engenheiro havaiano. Entre goles em uma caneca de chá, brinca de animar a audiência. Interrompe estrategicamente Somos Quem Podemos Ser várias vezes só para incitar a gritaria, saúda ao Grêmio Esportivo Bagé (em Banco) e por aí vai. Gessinger está solando mais ao piano. Seus improvisos e os de Duca na guitarra tornam cada show único, aparecendo mais nos momentos jam session como o final de Pouca Vogal, a canção.

Setlist – Bagé, 11.06.2011 – Clube Comercial

Depois da Curva
Até o Fim
Girassóis
Breve
Pose
Dia Especial
Além da Máscara
Somos Quem Podemos Ser
Música Inédita
Terra de Gigantes
Força do Silêncio suingada
Pinhal
Toda Forma de Poder/Banco/Dom Quixote/Satisfaction
Refrão de Bolero
Ao Fim de Tudo
Piano Bar
Tententender
3 X 4
O Amanhã Colorido
Pra Ser Sincero
Pouca Vogal
Vôo do Besouro
A Montanha
Os Segundos
Infinita Higway/ Carona
Jingle “rockabilly” de despedida – curte o vídeo com o simpático agradecimento da dupla, na finaleira do show:

Leia também: Resenha do show de 2010:

Thedy Corrêa tem muito a dizer

Conhecido como cantor e letrista, Thedy Corrêa Filho, 47 anos, tem a oferecer a uma Semana Acadêmica ainda mais do que o lirismo romântico que vocaliza no Nenhum de Nós, banda que acaba de lançar seu décimo-quarto álbum, Contos de Água e Fogo. Além de escrever em seus blogues Astro Thedy e Gigante, já lançou dois livros (Bruto, 2006, e Livro de Astro-ajuda, 2010) por conta dos quais tem sido convidado para feiras do livro e eventos literários Brasil afora. Também participa do programa de televisão Café TV Com.

Thedy e a filósofa Márcia Tiburi, em debate que permitiu interação do público

Thedy e a filósofa Márcia Tiburi, em debate que permitiu interação do público

No interesse de acadêmicos de Comunicação Social, cabe destacar a recente participação de Thedy no evento Filosofia do Rock, onde foi o convidado especial em quatro das oito noites de debates entre músicos e filósofos sobre a relação entre o gênero musical e as correntes de pensamento.
Mesmo quem acha as teorias universitárias algo sonífero teve a atenção despertada pelas análises altamente pertinentes de Corrêa, que relacionaram Bob Dylan a Walter Benjamin, Legião Urbana a Foucalt, Velvet Underground a pós-modernismo. Inclusive o conceito de Sociedade do Espetáculo, de Debord, fundamental para a pesquisa em desenvolvimento pelo autor deste blog, embasou os comentários de Thedy sobre os grupos Nirvana e Radiohead.

Todos esses são alguns dos motivos para engrossarmos o coro de
‎#TOMARAQUEROLE Semana Academica da FACOS Urcamp com presença de @thedycorrea \õ/

Leia ainda a entrevista com Thedy em 2008, em Bagé, antes do show do Nenhum, que voltaria a tocar aqui em janeiro de 2011.

https://marcelofialho.wordpress.com/2008/12/31/ndnbage/

Conhecendo Danúbio Gonçalves

Referência viva no mundo das artes relembra o Grupo de Bagé

“A arte é para todos, não para uma elite”. A avaliação parte de um nome incontestável das artes gráficas: Danúbio Gonçalves. Coerência total com a escola que lhe projetou na metade do século XX – a do antológico “Grupo de Bagé”, cuja história ele rememora, em fragmentos, para o Blog. Danúbio é o único dos dois remanescentes do Grupo que ainda reside no Rio Grande do Sul, enquanto Glênio Bianchetti mora em Brasília. Suas gravuras primam pela temática realista, o que justifica assim: “As obras tem que se comunicar visualmente, sem necessidade de ser explicadas. O abstrato não diz nada”. Ele acaba de ser convidado para produzir um grande painel na reforma de um forte militar em Jaguarão, e defende o uso do formato, pois “dá um contato com pessoas que nunca entram em museu”.

OS PAINÉIS DE DANÚBIO:

1. “Epopéia Farroupilha”, Estação Mercado Público (2008)

2. “Centenário da Imigração Judaica” – Rótula Carlos Gomes/Protásio (2004)

O “Grupo de Bagé” – alcunha criada pelo escritor Carlos Reverbel, segundo Danúbio – é um dos referenciais que mais desperta orgulho na cidade de origem. Em meados dos anos ´40, os artistas integrantes popularizaram suas obras mediante temas regionalistas e cotidianos, democratizando a arte de modo associado aos movimentos sociais populares. Em conexão direta com a capital gaúcha (onde criariam o Clube da Gravura), influenciaram definitivamente a arte regional, e por conseguinte a brasileira, com reconhecimento no exterior. Foi a deixa para o artista bajeense ganhar o mundo. Ao reconstituir o contexto da época, sua memória descreve como “autodidatas” a Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti, e como “um importante intelectual” a Pedro Wayne, de quem, mais tarde aproximou-se Zé Morais. Carlos Scliar: grande amigo e divulgador do grupo, através, por exemplo, da Revista Horizonte. Particularmente, foi por meio de Scliar que Danúbio sofreu grande influência do taller gráfico mexicano, através de materiais trazidos do convivio direto com Leopoldo Mendez. >>

Se o acesso à cultura de então não dispunha da tecnologia atual, Gonçalves se alimentava artisticamente pela observação direta: “Conheci mais de dez países, e vivia em museus”. Além disso, frequentava a casa de Portinari e Burle Marx, seu vizinho. Como referência literária, aponta Érico Veríssimo, revelando uma admiração mútua entre ambos que teve continuidade na geração seguinte, com Luis Fernando.
Danúbio recorda que teve noção da notoriedade a que fora alçado pelo Grupo atráves dos convites para exposições: “Cheguei a fazer uma retrospectiva com 300 obras no Masp, na época”. Não tardou para o êxito internacional ficar demonstrado com a primeira mostra na galeria francesa L´Oeil de Boeuf, mantida pela bajeense Ceres Franco.

Entre amigos:Danúbio (extrema direita) e Mário Lopes (ao centro). Também na fotografia: Tarcisio Taborda, Carlos Scliar, Glauco, José Mayer e José Henrique. Foto: Mário Lopes/arquivo pessoal

Questionado sobre a falta de vanguardismo em artistas da atualidade, Gonçalves reflete: “Acho que é um ciclo. Hoje não se trabalha o conceitual, copiam a vanguarda antiga. Até o ‘modelo vivo’ tiraram ! Percebo pelos jovens que me procuram, querendo aprender a desenhar…”.

Apesar de “aproveitar a tecnologia como base”, Danúbio produz gravuras basicamente em processo manual, com técnicas de aquarela e monotipia.

Para ele, o volume de itens de sua produção (da qual mantém a maior parte em casa) deve-se a ter começado a dar vazão com apenas três anos de idade à aptidão artística, que considera “um dom”, já que não descende de artistas – o pai era estancieiro. Bem mais tarde, as filhas de Danúbio também preferiram os ramos da Arquitetura e comércio.

Hoje colaborador do Jornal e da Revista Fala Brasil, Gonçalves em seu discurso procura reverenciar constantemente aos locais importantes em sua trajetória, como o Atelier Livre (junto ao Teatro Renascença), Margs e Fundação Iberê Camargo.

Para o lançamento do documentário “Danúbio, o Filme”, o homenageado e o diretor Henrique de Freitas Lima, da Cinematográfica Pampeana, estiveram em Pelotas, com destino a Bagé no dia seguinte, para exibições públicas da obra. Encontramos a dupla no hall do hotel em Pelotas, quando concediam entrevista à TV Pampa local.

A equipe de Camila Martins abordou os detalhes do obra de Danúbio e Henrique

Danúbio comemora a recepção do filme, “que tem sido bastante elogiado”, e a parceria com Henrique, para a qual prevê novos frutos: “Ele vai me ajudar a transformar minha casa e atelier em instituto, devido ao valor histórico e arquitetônico encontrado ali”. O contato entre ambos iniciou há dez anos, quando Lima encomendou a Gonçalves uma ilustração para a abertura de filme sobre João Simões Lopes Neto. Por sugestão de Danúbio o trecho foi produzido como uma animação, cujo resultado ele admite que apreciou muito.

Henrique exaltou vários aspectos do artista e amigo, como o fato de o mesmo ser “um professor sem formação acadêmica”, e também “sua visão da vida e das mulheres”. Destacou alguns detalhes da passagem da dupla pelo México, como a visita a pirâmides e a touradas – apesar de Danúbio ter se recusado a testemunhar a agressão ao animal. Uma das constatações de Lima ao longo do trabalho, e que ele busca superar, é de que “ainda existe uma barreira de comunicação do gaúcho para com outros povos”.

Raridade

Acima, reprodução impressa da xilogravura “Sapata”, de Danúbio, publicada em outubro de 1949 no veiculo “o Mensário”, do qual fazia parte o jornalista Mário Lopes (ao lado), detentor do original.

Leia também:

https://marcelofialho.wordpress.com/mariolopes/

Odd: CD de estréia da Twin Cities registra em estúdio a energia dos shows

Capa do disco - por Léko Machado

Capa do disco - por Léko Machado

Show de lançamento ocorre sexta-feira no Atelier Coletivo

Enfim a Twin Cities lança seu primeiro álbum completo e em formato físico, Odd. Presente no underground gaúcho a banda já está há algum tempo. Em Porto Alegre, tocaram em importantes festivais alternativos (estarão no Indie Hype em 15 de outubro), e foram entrevistados em sites como o Qual é A Boa, espécie de agenda cultural. Além da qualidade de seu som, a Twin conquista espaços também pelo modo quase profissional com que se promove nos cybercanais como Myspace, Twitter, Facebook, LastFM, Orkut, e seu site oficial. Por ali foram lançados virtualmente: o EP “Five Days Off”, em 2009. O single “Better Of Us” – que entrou no hit parade da Pop Rock FM – e “How” (B-side), gravado em Porto Alegre com produção de Ray-Z (Jupiter Apple, RPM). Em seguida, veio o vídeo de “How” produzido pela Horizon Express no Clube Comercial. Não satisfeitos, acabam de disponibilizar outra inédita, em streaming, pelo blog Amplifica: “Worst Case Scenario”, expressão que alude a uma situação onde tudo que poderia, saiu errado – e que não se parece em nada com o momento vivido pela Twin.
O show de lançamento de Odd ocorre dia 10 de setembro no Atelier Coletivo. Na data, o novo single “Bones” e uma faixa bônus serão disponibilizados para download no site oficial. Haverá distribuição de 100 cópias de Odd no evento.
O vocalista Diego Maraschin cogita que em algumas semanas todas as 13 faixas de Odd poderão ser baixadas pelo site.
Ele comenta o conceito do álbum: “é mostrar a imagem da banda ao vivo. A escolha da capa, com os instrumentos ao meio dos destroços, é uma ´ode´ às nossas brincadeiras nos shows (que quem já conhece tem noção de quais brincadeiras são essas). A maioria das músicas foram selecionadas após vermos o que soa bem e o que funciona para nós, como banda, ao tocá-las ao vivo. O sentido de ´ao vivo´ foi levado tão á sério que as próprias sessões de gravações do instrumental foram feitas praticamente ao vivo pela banda, apenas acrescentando segundas guitarras e vocais depois. As referências ao gravar, as fotos e tudo mais no disco com os shows foram escolhidas porque, assim como muitas bandas, nesse momento é como soamos melhor, na nossa opinião”.
Assim como em Five Days Off, o título do álbum remete à própria banda: “Odd é um adjetivo que em português pode significar tanto ´estranho´, como ´ímpar´, ´ esquisito´, e lá vai pedradas de significados. Mas não que o som que a banda faz seja peculiar, mas apenas a uma referência de que ainda soa ´estranho´ o fato de estarmos separados e ainda poder fazer o que nos completa, fazendo assim da banda, para nós três, algo ´ímpar´na nossa vida. Pessoalmente, ainda me surpreende o fato de que quando se trata da banda, independente da distância, do pouco contato, cada vez mais a vontade de seguir fazer ´dar pé´ ainda nos move com mais vontade”, explica Diego, em relação ao fato de não morar em Bagé como os outros twins.



Fotos no Studio Digital: João Pedro

Quando a banda entrou no Studio Digital em janeiro, a intenção de registrar apenas duas demos: “O resultado ficou o que realmente queríamos, e assim marcamos as gravações seguintes para a realização do disco. O disco foi gravado em um dia, exceto por uma música, que voltamos a gravar na manhã seguinte. Já o processo de mixagem, masterização duraram quase uma eternidade. Como é um disco 100% independente produzido pela banda, a falta de dinheiro foi um dos enormes problemas que enfrentamos para que o disco fosse finalizado anteriormente”. Relacionando as novas canções ao EP anterior, a avaliação do vocalista é de que “a diferença é o simples fato é de que quando surgimos, não tínhamos nenhuma idéia do que iríamos fazer. As canções presentes no disco estão amadurecidas, e até o exato momento das gravações, tínhamos evoluído do ponto de partida, musicalmente falando. Na época que gravamos nosso primeiro EP, mais da metade das músicas que estão no disco já haviam sido compostas, mas nunca tocadas ao vivo o suficiente para aprendermos mais sobre elas. Outro fator interessante, é a sinceridade que levamos o conceito do disco e banda. As composições feitas são todas em inglês. E talvez sempre serão, porém o medo de que não fosse o bastante e não funcionasse, para mim, já não existem mais. O tipo de música, assim como o idioma, já são partes da banda, e do que sempre tivemos vontade de fazer”.
Diego não descarta um lançamento de Odd em Porto Alegre, entusiasmado com os contatos recentes na capital: “Os últimos shows que fizemos juntos com outras bandas do cenário ´alternativo´, como A Red So Deep, Lautmusik, Parkplatz, foram realmente bons. Temos em comum as letras em inglês (menos a Parkplatz, que é uma banda instrumental), o que me fez ver que não estávamos sozinhos ao redor e foi bem reconfortante, a referência ao ´alternativo´ dos anos 80 e 90 foi outra coisa que temos em comum – praticamente, nossos heróis são os mesmos! -, são pessoas realmente legais, não muito diferente das que conhecemos aqui em Bagé, e foram bem acolhedores conosco. Ainda tem mais um pessoal por lá, que tem bandas, que iria ser bem gratificante de tocarmos juntos, como Bad Honeys, Loomer, Electric Mind (que aliás, tem como integrantes a Riane e a Kika que antes tocavam comigo na Phosphurus e moravam também em Bagé) e etc, e que para um futuro próximo após o lançamento, torcemos para que tudo saia como esperado e aconteça”.

Vibe bajeense conquista Jupiter Apple

Show de Jupiter Apple no Atelier Coletivo, Bagé, em 26.08.2010

Júpiter se eleva ao nível da arte que circunda sua cabeça.

Júpiter se eleva ao nível da arte que circunda sua cabeça.

...prontamente clicado por repórteres como Vinícius Seko e Emerson Sabedra

...prontamente clicado por repórteres como Vinícius Seko e Emerson Sabedra

“Foi uma puta vibe ! Senti um clima de happening“. Assim avaliou Jupiter Apple o show que realizara pouco antes no Atelier Coletivo, em Bagé. O artista comemorou o fato de ter ficado bem próximo ao público, já que a peça que serve de palco é em mesmo nível e sem obstáculos aos admiradores que literalmente cercaram a banda. Com iluminação clara e cercado por quadros fauvistas de Carlo Andrei Rossal, Jupiter se deixou envolver por um mood de maior intimismo, parecendo exibir um olhar reflexivo enquanto cantava seus poemas.
Em relação ao show da véspera em Pelotas, em que o blog também esteve

https://marcelofialho.wordpress.com/2010/08/26/jupiterpel/

o setlist foi idêntico e o que variou mais foram os picos de êxtase do público – alcançados em Bagé com “A Marchinha Psicótica…” e a tradicional saideira “Um Lugar do Caralho”, extendida como uma vigorosa jam que serve de trilha para a saída de cena de Apple.
Antes de deixar a cidade Jupiter visualizou o cartaz promocional do show, de autoria de Rodrigo Sarasol, e debateu com Carlo Andrei as influências artísticas no leiaute, entre Warhol e Matisse.

Jupiter e Carlo Andrei debatem influências de Warhol e Matisse...

Jupiter e Carlo Andrei debatem influências de Warhol e Matisse...

...na peça do publicitário Rodrigo Sarasol

...na peça do publicitário Rodrigo Sarasol

PRÉ-SHOW
A van com a banda chegou à tarde e à noite foi degustado um churrasco no Atelier. A imprensa local se mobilizou. Pelo Rota 20, Ricardo Belleza, fã confesso de Jupiter, soube entrevistar com conhecimento de causa uma de suas maiores inspirações como roqueiro. Os jornais Minuano e Folha do Sul também interagiram com o artista – o editor do primeiro, Glaube Pereira, capturou registros fotográficos da frente do palco. Mais tarde conversou com Jupiter, que comemorou ao ser informado que todos os repórteres presentes haviam passado pelas disciplinas ministradas por Glaube no curso de Jornalismo da Urcamp.

Confira algumas matérias motivadas pela presença de Jupiter na cidade:
http://covilsitiado.blogspot.com/2010/08/festa-dos-bichos.html

http://onavegador.wordpress.com

http://twitpic.com/2gkdmy

http://twitpic.com/2gkf5r

(entrevista ao Minuano)

http://www.folhadosulgaucho.com.br/?p+2&n=4327

Telão no pátio do Atelier exibia o show em tempo real até para os não-pagantes em trânsito na Floriano

Telão no pátio do Atelier exibia o show em tempo real até para os não-pagantes em trânsito na Floriano

Jupiter Apple/Maçã: megaentrevista exclusiva

“Sir Jupiter Apple´s Triumphal March to Cloud #9”
ou
“Os planos de Jupiter Apple para tornar sua obra mais visível e eventualmente conquistar o mundo”

Esqueça Stuart Stucliff. O beatle extra que entende das artes vive, e aprecia cafés no centro histórico da capital gaúcha. Flávio (ou Flavius) Basso de nascença, elegeu a assinatura “Jupiter Apple” para firmar suas obras-polaróides de uma compulsão interior full time pela criação, e que ao mesmo tempo refletem dilemas do caos urbano. Os indícios de ser um beatle estão em sua trajetória: começou com nuances de transgressão em uma formação rock básico que influenciou gerações. Se apartou para dar vasão a uma concepção mais autoral. Teve uma fase de lisergia real. Transcendeu os limites da própria criação assimilando influências das artes de avant-garde. Conquistou um séquito fiel e passional com uma obra que assimila influências como psicodelia, bossa nova, tropicalismo, poesia beat e exala uma fragrância de inventividade desigual. Hoje só o que lhe distingue de um fab4 é o êxito restrito a uma cena cult, e ainda não devidamente massificado. Provocar maior visibilidade para si é o desejo confesso do artista que, aos 42 anos, passa longe de ser has been, incansável em reinventar sua obra com soluções nada previsíveis e que não reproduzem fórmulas.

PÉTALAS DE GENIALIDADE

É comum a associação de Jupiter Apple à idéia de genialidade. Aconteceu na entrevista do Wander Wildner ao blog, quando o ex-replicante rejeitou ser gênio mas disse que Jupiter e Edu K. fazem jus ao termo.

https://marcelofialho.wordpress.com/wander/

No programa Código MTV em 2008, o apresentador Lobão referiu-se com este qualitativo a Apple, que na ocasião concordou, rebolando: “I am a genius! I´m a genius!” Hoje, ele acrescenta: “Depois vi que o Lobão chama um monte de gente de gênio (risos). Mas eu já fui chamado assim por pessoas muito sérias – assim como o Lobão, lógico – com responsabilidade em suas palavras. O que eu acho ? Tem mesmo, cara, um toque genial ali… agora o que é este toque ? Pode ser um pezinho na não-realidade, que alguns dizem ´quase um autista´… pode ser excesso de devoção às artes, mas será que existe isso ? O porquê, onde, como, quando, se existe uma formula, não sei exatamente. Existe um quê de genialidade que, me distanciando, consigo detectar mesmo, na minha obra. Se me incomoda ? Não, nem me deixa desconfortável. Levo com bom humor, e sem modéstia. Levo numa boa. Não sou o dono absoluto… mas existem pétalas de genialidade no meu jardim”.

OS DISCOS DE JUPITER “AINDA ESTÃO PRA SAIR”

Extremos de uma obra: a primeiro demo, anterior à "Sétima Efervescência"...

Extremos de uma obra: a primeira demo (acima), anterior à “Sétima Efervescência”, e (abaixo) Jupiter replicado nos “Silver Beatles”, já na era singles de “Calling All Bands”: uma obra inteira a ser (re)descoberta pelo Brasil.

Photogram by ZÉ ROBERTO MUNIZ, SAN LEO, RS, BRAZIL

Photogram by ZÉ ROBERTO MUNIZ, SAN LEO, RS, BRAZIL

Mesmo convicto da qualidade de sua obra, Jupiter informa que, apesar de ela estar disponível na web “mais do que nunca” (a discografia oficial quase completa no site Trama Virtual), fisicamente ela está fora de catálogo, e “cosmicamente tudo conspira” para que ela seja relançada. “Então não posso considerar lançada ´Uma Tarde Na Fruteira´. A ´Marchinha…´ não caiu na boca do povo, ou pelo menos 50, 60% dos apaixonados pela Pop Culture Brazilis, que seja, os neo-tropicalistas, tropicalistas, os universitários todos… é aí que está meu público geralmente, mas não num grande número, num percentual maior. Então, eu vou revisitá-las mais, eu vou recolocá-las, eu vou mostrá-las mais. Não significa que não esteja escrevendo em português, mas tenho umas coisas tão lindas que não, eu realmente acho, que não foram bem colocadas, e eu tô deixando fluir naturalmente.
As pessoas falam que eu tenho pérolas e pérolas e pérolas e pérolas, sou um grande letrista e tal. Eu tenho um público bem considerável, mas muitos acham também que não o número suficiente de pessoas teve acesso a ponto de sacudir a música brasileira num todo, as músicas em português, que era o que muitos artistas desejavam que viesse acontecer, que eu desse uma sacudida”.
Seria o momento de sair do status cult para algo maior ?
“Eu penso nisso. Essa coisa cult rolou e rola, e tem crescido, uma cena grande, uma cena maior, mas ainda com essa característica do cult, que tem seu charme e é uma coisa legal, elegante e chique. Mas é interessante que muita gente conheça? Olha, desde que elas estejam entendendo, sintonizadas… tem que existir a simbiose, acho que daí tendo essa realimentação, esse sol na coisa toda, acho legal, cara. Se venham a entender a obra pelo que ela é. É muito fácil acontecer um boom de um balela. Mas não aconteceu.
Porque se acontece alguma coisa tipo ´Um Lugar do Caralho’, deve existir a seqüência na linha de raciocínio e admiração, e apreciação e degustação dos próximos números da obra, ao meu entender. Na verdade isso não sou eu que decido.
A coisa acontece”.

A MORTE DO INDIE

E nessa visão, há restrições quanto a apresentar-se em programas de televisão considerados mainstream ? “Atualmente, se alguma coisa me incomodasse em algum sentido, eu saberia levar na brincadeira. Confesso que estou a fim de maior exposição. Visibilidade: está muito em voga essa palavra. As pessoas querem dizem ‘eu quero aparecer mais’ e dizem ´visibilidade´. Ai, que amor! Sou parceiro da visibilidade… se alguma coisa me incomodar vou levar no bom-humor, essa é minha postura. Não existe mais o indie, independent, não tem mais nada disso. Existe a visibilidade e o posicionamento”.
Jupiter faria programas na linha de Domingão do Faustão e Programa do Gugu? “Com maior prazer, se for o caso. Eu acho que a gente cria o caso. Eu não gosto muito de joguinhos, de brincadeiras absurdas… eu não recuso, eu faço uma contraproposta. Já aconteceu: ‘vamos fazer aquilo lá, aquele jogo divertido televisivo’ e eu digo ‘que tal fazer essa outra coisa’ ?. Algumas vezes aconteceu, outras não, ok. Acho que lido bem com isso”.
Dentro das idéias de aumentar a audiência, já houve quem comentasse que as músicas em inglês de Apple visam ao mercado internacional. Ele comenta: “Comecei a escrever em inglês meio que espontaneamente, e flui naturalmente. Até porque essa coisa do mercado, depois eu descobri que se você escreve em português você vai estar agradando mais um público supostamente internacional, pois os ingleses chaparam com a ‘Marchinha Psicótica…’ que é toda em português – tocando na Inglaterra, não fiz muitos shows, mas em alguns que fiz… é um poema bastante grande, mas eles gostaram das colagens, das sonoridade, se apaixonaram pela coisa.
Mas claro que tenho esse interesse… eu quero expandir. Fiz coisa bem de cena, bem focada. Tenho disco lançado lá, sou um cara bem comentado, benquisto, mas não sou uma estrela européia… mas acho que eu posso (risos)”.
Já em francês, idioma de origem de algumas de suas referências culturais, o artista não pretende compor: “Só a vinheta de ‘ Mademoiselle Marchand’, já é um slogan art. Eu não domino a língua francesa nem alemã… queria. Japonês… acho muito legal. Mas eu escrevo em inglês melhor do que falo, e tão bem quanto em português. São coisas bonitas”.

ASSINATURA

O foco na visibilidade nem é tão recente para ele – foi o que motivou, por exemplo, a adoção para a carreira solo de alcunhas diferentes de seu nome próprio, iniciando por Woody Apple, depois Júpiter Maçã e finalmente Jupiter Apple. Ele explica que não é um personagem temporário a la Bowie, mas sim uma assinatura que designa o que ele é em tempo integral:
“Sou Jupiter o tempo todo. Porque é Flávio Basso e seus apelidos. E é tudo meio assim, número romano, ou sci-fi, ou mitológico. Na verdade não existe Flávio, eu sou Flavius Basso, eu sou Júpiter Maçã, Júpiter Apple. É essa coisa futurista, greco-romana. São vários apelidos, nem tantos, foi o Woody… Rogério Skylab detectou que eu tive tantos pseudônimos, mas nem tantos… eu acho que o Apple tem um pouco mais de peso pela abrangência da palavra, e Maçã restringe um pouco à língua portuguesa. Isso eu detecto nas pessoas quando elas falam, de outros países cuja língua não seja a portuguesa. Quando elas recebem esse nome sinto que ele é tão forte. Não é um personagem, nem é alter ego. É uma assinatura para um outro tipo de visibilidade, para se pôr ‘a mercê de’ ”.

DAY-BY-DAY PERSON
Apesar da criatividade fluente e de um estilo de vida próprio, Jupiter também tem seus momentos corriqueiros. “Faço as coisas day-by-day. Sou uma pessoa muito discreta, não faço questão de estar aparecendo, gosto de ser notado como uma pessoa day-by- day. A coisa do flerte: uma mulher sai bonita à rua, ela quer flertar; um homem, se está se sentindo bonito, ele quer flertar… É essa a sensação, a sensação do “estou ok, estou de bem com a vida” mas não de “ei, olhem, viram, notaram? Sou eu, sou eu”. Não, eu não levo o palco e a sessão de fotos, o estúdio fotográfico, cinematográfico, a locação pra rua. Posso até poetisar em torno dele, mas não. Vou no mercado, carrego a sacolinha. Gosto de ir no mercado público de POA, centro histórico, cafés. Mas de ficar na minha. É gostoso ser reconhecido? Às vezes. Bater um papo, tirar uma foto, dar autógrafo, mas é isso. Em princípio sou bastante discreto. Quero ficar tranqüilo, fazer as coisas.” Em casa, Jupiter também não se isenta de zapear por canais de TV aberta e fechada: “Dou uma olhada. Filmes – geniais ou não, programas de variedades…”

Nos momentos de compositor, predomina a própria necessidade artística ou a intenção de ser compreendido ?
“As duas coisas. Eu escrevo pra mim mas eu fico pensando até que ponto estou conectado. Essa conexão é cósmica, ela é telepática. Tenho que me sentir, e sinto também quando é só pra mim. E aí, não raro são as canções que vão ficando em stand-by, elas vão ficando naturalmente na gaveta, arquivadas, em esboço ou não.”

MUITO ALÉM DO ROCK
Se a obra de Apple precisasse ser definida em um rótulo, seria o do rock and roll ? “Minha obra movimenta, trabalha com um tipo de vibração que pode ser detectada no segmento que leva esse cunho rock. Mas não é rock, não sou um roqueiro. Eu já fui dez anos um neo-beatnik. Quem é um neo-beatnik ? Isso não existe. É cosplay então. Beat, mas tem graça ser um beat… Não consigo imaginar um garoto de 15 anos… qual fantasia tem que ter pra ser um beat ? Aí o cara diz: ‘não, é fácil, você tem que levar umas garrafas pra um quarto de hotel lúgubre, fechar todas janelas e deixa só uma fresta’. Ele vai achar fantástico, mas não é uma coisa que você vai dividir e você vai brincar. Como é que você vai colocar isso na Internet ? Como vai se vestir o beatnik ? E se ele ficar realmente depois bêbado e não souber lidar, jogar e brincar com isso… Eu tive essa vida sombria poeticamente e existencialmente falando. Uma vez sóbrio, olhando pra trás eu tirei proveito poético disso”.
Hoje as influências artísticas vão muito além do rock, vem das artes em geral. Celebra os coletivos de arte em atividade no mundo (“Quanto mais melhor”) e enfatiza: “Todos artistas me influenciam. Pode me mostrar por onde não ir (risos) ou apontar pra onde ir, me deixar mais aguçado, mais perceptivo mais belo, mais afinado, sintonizado… Às vezes estou bem desligado para as artes, às vezes fico bem ligado – dos outros”.
Que caminho o artista recomenda para quem quiser, como ele, ampliar seu leque de referências culturais ? “Para se aproximar rapidamente das artes, de vanguarda de preferência? Adquira trabalhos e obras de Júpiter Apple… Depois, beem depois quem sabe os de Wander Wildner. Raaá! (risos)”

PSICODELIA SEGUNDO UM LISÉRGICO

“Ainda hoje sou muito associado. Já na época lisérgica minha – em que eu também não brincava de lisergia – eu dizia pra mim que psicodelia era a saturação das formas e que eu vinha saturando formas na minha música, basicamente em a Sétima Efervescência e algumas coisinhas que vieram depois e não entraram em disco nenhum. Aí o Plastic Soda acaba tendo já essa ressaca dessa psicodelia, que é uma ressaca muito doce, aveludada, muito legal. É um disco de veludo, feminino. É uma ressaca psicodélica, complexa, mas tudo bem. Uma coisa que existe toda vez que você satura mesmo dentro dessa intenção do exagero e do maior númer de absorção possível da sua própria produção e sua própria imaginação também. Lá dos anos 60 muitos saturaram a fórmula. É uma estética, é um segmento mas ele está ligado a saturação. Nem todos saturam, tem uns que preferem coisas concretistas, outros preferem descontrução/construção, É fundamental, anyway. Abriu horizontes. Escancarou geral. Abriu as portas perceptivas. Pra mim foi ótimo. Eu fui psicodélico. Eu vesti a camisa. Aí eu fiquei com uma gama e tanto, um leque pra seguir nas mais diferentes vertentes, nas artes como um todo”.

NEXT RELEASES
Sob tal gama de influências, o processo criativo de Jupiter é absurdamente produtivo: trabalha simultaneamente vários projetos de futuros lançamentos, e arquiva alguns e prioriza outros conforme a vibração de sua obra em um dado instante.
“Estou trabalhando com conceitos. Não quero anunciar nada. Vou estrear meus lançamentos com singles, e depois é provável um EP com os quatro singles: seus A-sides e B-Sides”.

1.GOTHIC LOVE – provável próximo single
Atualmente Jupiter trabalha no que deverá ser o próximo single: “Gothic Love/Urban Blue”, produzida por Ray-Z http://www.myspace.com/rayzmusicproductions e o próprio Jupiter, como foi “Calling All Bands”. “Ainda não tem registro mas já tenho o poema todo. É uma espécie de um folkzinho existencialista inspirado nos 80´s, que pincela um pouco e dá uma colorida na situação… você poderia lembrar de Smiths”. (N. do R.: Legal !! 😉 )

2.FLORISTAS, B-side inédito
Jupiter exemplifica com peça não-lançada, um caráter transgressor que identificamos que se mantém em sua obra desde o início: “ ‘Floristas’ é em português, que é singela, leve, ácida, tem isso que você disse que eu não perco… Tá falando sobre casais apaixonados pessoas simples do day-by-day. São floristas, eles tem uma banquinha de flores. A outra é a menina que colhe framboesas pra sobremesa, preparar os drinques; ela se atrasa porque foi no médico. Aí ela se casa e se apaixona – com o médico. Acho que é natural da minha essência, esse toque poisoned touch… sempre teve desde criança, acho que não perco… um toque de veneno”.

THE UNDERGROUND YEARS ALBUM
Chegou a circular a informação de um álbum em 2010 com o título “The Underground Years”, postada, por exemplo, no artigo sobre Jupiter na Wikipédia. Mas ele esclarece que o projeto não vingou e esse nome pode resultar no máximo em uma coletânea. “Esse álbum seria lançado ainda no formato CD, no final de 2009, quando eu decidi que não era mais um conceito que me atraía tanto o CD, quer dizer, até de forma mercadológica e também o charme, e todo o design, já há algum tempo estava desinteressado. Eu confesso que tive momentos muito bons com o CD, Mas eu realmente acho que tem outras formas de apresentar a arte”. Hoje esse é apenas o título provável de uma compilação que, se sair, “vai ser muito fina, vou trabalhar pra ser finésima”.

UNRELEASED ONES
Essa exuberância criativa pode até confundir os fãs que colecionam sua discografia. Depois de “Uma Tarde na Fruteira” ele passou a trabalhar com singles e B-Sides (“Gregorian Fish” é o B de “Modern…
”), e mesmo assim, nos shows atuais, toca pelo menos duas canções jamais lançadas em versão estúdio:

1.CEREBRAL SEX
“Gravada mas não disponibilizada, é originalmente uma música do meu projeto The Apple Sound http://www.myspace.com/theapplesound que é com Clegue França, Astronauta Pingüim e Laura Vrona, lá em São Paulo. Então esse quarteto de certa forma inovou bastante, até marcou a cena ali paulistana. Com uma batera fragmentada e tal O the apple sound vai retomar, não sei exatamente com que face, mas vai retomar. Eu quero lançar esse projeto paralelo já em forma de candy architecture, como é que é isso: já vem pelo clipe e pelo single o disquinho, enfim, do jeito que eu quero que as coisas doravante venham a acontecer. Mas como estou em fase de organização de uma estrutura maior que vai produzir, que vai colocar meus produtos – chamando educadamente mesmo, arte de “produto”, expressão que tô colocando numa dimensão respeitosa pela coisa toda…”

2.SIX COLOURS FRENESI
“Vem crescendo em ritmo laboratorial, no estúdio, o áudio dela; e já tem um conceito pro clipe que junto com isso tudo fecha o que eu entendo pelo single em si. Eu já penso naturalmente imagem e som, som e imagem, muitos artistas já fazem isso mas eu costumava pensar muito o áudio, muito o vídeo e nesse caso acabar também pensando cinema, e aí foi a questão, do Apartment Jazz. Então hoje eu sou uma pessoa mais parecida com essa gama de artistas que pensa paralelo, e o interessante, crescem juntos o áudio e o vídeo. Mas aí acabei colocando outro single na frente, passei na frente “Calling All Bands”, por questões minhas, porque as cores , o design e tal que eu pretendia estavam muito mais para “Calling”. Aí voltei para “Six Colours…” por uma semana, e decidi trabalhar a “Gothic Love”.

A IMPORTÂNCIA DA IMAGEM
Dentro da visão de “produto” que já nasce associado à imagem, Jupiter assume cada vez mais a direção de seus clipes. “Calling All Bands” é assinado a seis mãos por ele, Clegue França e Rafael Syd ( http://rafaelvideos73.wordpress.com/ traz fotos hi-quality da produção do clipe). Comentário do autor: “O processo de vídeos parte muito de mim e da Clegue França, estudante de moda. O design está diretamente ligado e a gente bate muita bola, trocamos figurinhas. E aí chega logicamente com um olho clínico de cineasta/cinegrafista, ou seja, com uma câmera gravando muito bem posicionada. Esses três funcionaram muito bem, porque houve uma interferência muito grande da dupla Apple-França, essa intenção”. Jupiter reflete sobre o peso da imagem no conjunto de cada lançamento atual: “Eu sempre apostava muito em toda abstração que seria natural de um brainstorming do ´the audience´ (do público, do ouvinte). Sempre apostei muito na criatividade, na inventividade do público, principalmente nos meus álbuns mais ´pesados´ de conceito mais fechado, mais denso. as pessoas sempre me diziam ´tive uma idéia genial, muito legal para esse, aquele clipe; eu pensei nisso naquilo´ e alguns realmente convidavam pra fazer os clipes E também pelo meu lifestyle muitos clipes eu deixei de fazer. A questão é as pessoas faziam clipes em suas mentes. É como ler um livro, elas construíam seus próprios filmes, durante muito tempo funcionou assim. Hoje é mais uma outra coisa, consigo dar a eles um aspecto de embalagem, também com respeito. Gosto de deixar com uma cara de perfume, de peça plástica, de peça geométrica e decorativa. Que os clipes tenham aspecto de peças organo-plásticas que você leva pra algum lugar, objetos”. Alguém pensou em Warhol ? “Inconscientemente, acaba tendo a influência. Mas quem não foi influenciado ? ´Calling All Bands´ foi escancarado isso, mas ´Modern Kid´ já tinha, e acho que tem mais. Você pode estar levando outras coisas pra casa, um quintal, um jardim, uma casa de campo, esse tipo de coisa. São instalações. Não é o jeito que os grandes clipmakers fizeram, os precursores Madonna ou Michael Jackson, ou os inventores do clipe, Richard Lester com The Beatles, ‘A Hard Days Night’ ”.

O clipe do single anterior, “Modern Kid”, dirigido por André Peniche, (http://www.andrepeniche.com/ – contém vídeo com o making of) já tinha um apurado tratamento estético, potencializado pela feliz escolha da locação: “foi o Antiquário Artemobília Galeria, na Rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, São Paulo. É do Sérgio Campos, que foi integrante da banda Kafka, importante nos 80´s”.

DUMONT, O FILME INÉDITO BY APPLE
A assinatura dos videoclipes dá vasão à uma cinematografia já exercida por Apple, de forma plena, em pelo menos uma ocasião: seu média Apartment Jazz (2002). “Ele virou ‘o chiquésimo’, relíquia do cult. Na web tem fragmentado, e como parte de um filme também que é meio piratão “Pescando Júpiter Segundo Huxley”, você acaba se deparando lá pelas tantas com ele”.

Flyer do média metragem debut do Jupiter film maker

Flyer do média metragem debut do Jupiter film maker

Um segundo projeto como cineasta, “Dumont”, está em “stand-by total. Cheguei a filmar, fiz alguma coisa… na linha experimental mas tinha uma linearidade maior, até quero ver onde estão os originais que não estão comigo, estão na Spectrum produtora. Você sabe, eu tive experiências digamos assim de lidar com delicadeza com alcoolismo e tal, eu não sei se teve a ver, mas minha cabeça foi preenchida de outra forma, a ponto de sair o “Uma Tarde na Fruteira”. Hoje olhando e ouvindo o álbum e vendo toda aquela complexidade, toda a beleza do conceito que é mesmo, é foda aquele álbum. Pô, como é que eu fiz aquele álbum num estado tão etílico ? Mas eu não sei se foi exatamente só isso… O fato é eu não tava inspirado. Depois eu comecei a pensar… lá pelas tantas será que é cinema, será que não é cinema ? Mas não era bem isso, pra mim era essa vontade de fazer videoclipes. Desse conceito que pra mim é flash que acabei de descrever. Depende da parceria, de um co-diretor, ou de um diretor, talvez eu queira argumentar mais e atuar, porque neste projeto pausado eu só dirigia. Acho que eu quero ser dirigido por um grande diretor”.

Jupiter projeta, também, o (re)lançamento oficial dos filmes que dirigiu: “Eu tô vendo algumas parcerias pra fechar isso, pra dar esse presente pra nós todos, para os fãs, um DVD meio documentário que traga cenas soltas, enfim…”

SEXY WORDS
“Eu canto muito sobre o que estou vivendo… escrevo sobre o que estou vivendo… passa por esse filtro da existência. Isso faz de mim o autor que capta, traduz e emana de volta. É tão amplo, e acho que sou tão versátil nas temáticas”. Os primeiros instantes de “Calling…”, por exemplo, já denunciam o erotismo marcante dos textos. Uma figura fálica é construída em cima de imagens icônicas de Warhol enquanto a letra fala em “sexy words”, “perfect penis”. Jupiter avalia: “O erotismo tá bem presente na minha obra, diferentes formas… Separa o erotismo de pornô, correto? Mas Cascavelletes praticamente inventaram, já foram creditados pela invenção do pornorock, pornobilly, pornopunkabilly, tararátá. Depois, talvez mais erótico de fato, uma coisa mais rebuscada, você começa encontrar um erotismo muito fino em “Mademoiselle…”. “Miss lexotan…”. Uma languidez química você encontra ao longo de “Plataforma 6”. Em inglês também, eu escrevo bem, esse é o fato. O erotismo paira, né ? Então aparece nas letras… é meio que uma transparência da existência”.

EVERY MODERN KID WILL LOSE THEIR MOTHERS
Jupiter comenta os versos do refrão de “Modern Kid”: “É sobre civilizações que nascem instantâneas. Como sopa de pacotinho, e pipoca de microondas. Eu quis dar essa coisa do “mamãe-filhinho… ? NÃO mamãe-filhinho!”, tipo: muito instantâneo, muito rápido. Eu quis passar essa coisa fria da ruptura drástica entre gerações, gerando civilizações no sentido do exagero do rompimento de gerações. Talvez uma civilização tenha nascido aos nossos olhos com a coisa toda da internet etc. A alteração dos costumes foi tão grande de uma vez só que não é uma nova geração. Muita coisa pode indicar que é uma nova civilização. Até mesmo um pouco de guerra, do caos, é tudo isso.. É muito mais amplo, né ? É poema mesmo. De tudo um pouco. Ondas gigantes… tudo isso”.

BEATLE GEORGE ou “QUE BEATLE É VOCÊ, JUPITER ?”
“Quando eu descobri The Beatles vi uma fotos do ‘Help’, George está com aquela cartola e achei muito elegante a posição dele. Logicamente eles são quatro e o John e Paul sempre liderando, e o George com breves frases no microfone na música ‘Help’. Aquela cartola, só aquele detalhe de um dos maiores clipes, ‘Ticket to Ride’… No fundo eu estava determinado que eu estava mais pra ser John ou Paul, band leader, mas a coisa se manifstou por essa elegância do George. Claro que também acabei me tornado super Paul, super John no sentido de ordenar idéias dirigir um grupo artisticamente”.

ÁLBUM BÊBADO
Questiono a Jupiter porque o álbum Bitter é o único ausente do seu playlist atual. “é o meu ‘drunk album’, assim como os Beatles tem o White Álbum. Adoro, muito legal, tem momentos gloriosos da parceria Jupiter Apple e Bibmo (http://www.myspace.com/bibianamorena), mas não é todo dia. Não creio que esteja fechando muito com o que eu quero traduzir, as formas, cores do meu som, a geometria. E definitivamente o Bitter não lida bem com isso. Então não está mesmo nos planos por hora”. Pensando no repertório do álbum, acrescenta: “Favoritas eu não tenho,mas ‘Lovely Riverside’ é realmente sério aquilo, eu cantei pro (rio) Thames. Não passou lancha, não passou nada, vento não faz, mas foi tão bonito. Teve uma manifestação do rio e houve uma saudação, quando parei me distanciei ele baixou também, pra mim aquele momento foi sensacional. Passavam duas inglesas do tipo matinais assim, usando parcas… chuva fina, dia nublado, aquela caminhada tipo roupa improvisada tênis-abrigo-parcás. Praticamente aplaudiram porque eu tava cantando a capella: (cantando) “I borrowes a lamp from captain Green”. Grande música minha, viu ? Podia estar num belo filme de piratas desse aí, do “man”… do Jack Sparrow lá… e aí vai”.

ÁLBUM TEATRAL
Além de desejar ser soundtrack, Jupiter também revela algo sobre outro de seus álbuns em inglês: “O Hisscivilization ainda está pra sair. (N.: no sentido de que deveria ser relançado pois não teve a devida divulgação) Para mim ele tem que ser encenado teatralmente”.

“ESSE FILHO DA PUTA É TALENTOSO…”
Regravações por nomes como Ira!, Wander, Thunderbird denotam a repercussão do trabalho, e entre as inéditas em sua voz, está uma faixa que ele apresenta em shows como fez no Opinião em novembro de 2009: a new bossa ‘Talentoso’. A banda Cérebro Eletrônico gravou sua versão. Apple conta como rolou: “o Tatá (Aeroplano) da banda ouviu uma demonstration tape, se apaixonou e fizeram uma versão maravilhosa. É uma sobra do Plastic Soda, foi a primeira que gravei, antes da faixa título. O primeiro take era violão e voz, gravei ao vivo num gravador alemão de oito canais de pistas de fita, uma máquina antiga Studard, no estúdio do Tomas Dreher que co-produziu comigo.

JOVEM GUARDA CANTA THE JUPITER APPLE
Às vésperas dos shows de Jupiter em Pelotas e Bagé, no final de agosto de 2010, a cantora Lílian Knapp se apresentou no Programa do Jô com “Um Lugar do Caralho”, que ela regravou, assim como “Miss Lexotan”, com sua atual banda, a Kynna. Lílian fez sucesso na Jovem Guarda, em dupla com Leno. “Fomos apresentados, embora eu não a conheça tanto como o (tecladista) Astronauta Pingüim, que chegou a tocar com ela. Personalidade marcante, uma artista buscando novos caminhos e encontrou (nas músicas) uma forma de expressar algo que ela vem sintonizando”.

TALK SHOW NA MTV BR
“Achei que ia ser asssustador, essa é a jogada: eu estava num período etílico e fui numa realidade etílica nos shows, e depois em alguns outros números eu me recuperava dessa crise. Então na verdade eu sempre fui um pouco peixe fora dágua e acho que isso deu esse toque tão especial pros números, acho que isso acabou gerando um número de extrema qualidade e expressividade, que as pessoas vieram adorar, e gostaram muito”. Planos para novas edições ? “Não nesses moldes, acho que teria que bater uma bola, se for o caso de haver na MTV ou em outra emissora”.

OLD DAYS REVISITED
A carreira solo de Jupiter se consagrou independente dos grandes sucessos de suas ex-bandas: “Lugar do Caralho tem a mesma força, só pra citar um standard”. Mesmo assim, a turnê atual resgata uma composição dele em cada um dos grupos: “Morte Por Tesão” e “Zero”: “adorei ter cantado esta em Chapecó, linda, revisitada, texturizada. Acho ‘Cachorro Louco’ um hino, lembro do dia que escrevi com tênis Iate no quarto, pezinho de adolescente marcando o tempo… tan-tan-tantan (fazendo esse riff) com 16 anos, aqui no sul a música é gigante !”.

ELE E SEUS EX
A última reunião da formação original dos Cascavelletes foi em 2007. “Ensaiamos bastante. Aquilo foi mágico e bem legal mas justamente por ser específico e casual. Faz muito tempo que não falo com nenhum deles. Se a conversa for ficar muito afunilada num sentido que pode gerar depois uma discordância de pontos de vista, eu também já evito, mas isso qualquer um deles faz. Existe carinho, lembrança e respeito ao passado, pelo menos da minha parte, mas também existe a diplomacia”.
Com Charles Máster, do TNT, Jupiter nunca voltou a tocar, e teve contatos superficiais: “Oi, tchau e tal. Ele deu um telefonema estes dias”.

MOMENTO ETÍLICO É PASSADO
Há alguns anos, Jupiter vivia uma “fase etílica” que afetou o ritmo de seus projetos e era visível, por exemplo, em seus shows – há relatos de que não conseguia cantar as músicas – e até mesmo em aparições na MTV e no próprio Jupiter Show. Eventualmente fumando um cigarro retirado da carteira de Camel em sua frente, Apple avalia que o ponto crítico foi “na virada 2008/2009, quando eu parei. A coisa ficou muito radical. A coleção de frascos estava bastante acelerada. Spirits, bebidas fortes. Hoje em dia tomo muito café… expresso, clássico… disponível na região central histórica de Porto Alegre”.

MISS CLEGUE´S BLUES

Quem entra em contato pessoal com Jupiter percebe que uma das atuais inspirações do poeta o acompanha na maior parte dos momentos. Antes de subir ao palco, o cantor se despede carinhosamente dela, que fica atenta em um dos lados do palco. Até mesmo em nossa entrevista, Jupiter a quis por perto: “Ei, baby, você está me inspirando !”. Trata-se de Clegue França, atual sweetheart do artista, e parceria total em sua obra, como mencionado na conversa – desde a concepção estética até, literalmente, on stage com The Apple Sound.

Love is beautiful

Love is beautiful

EPILOGUE: THE JUPITER APPLE´S TIMELINE

L´Enfant Terrible (arquivo Cláudia Basso)

L´Enfant Terrible (arquivo Cláudia Basso)


Sex Symbol ´88

Sex Symbol ´88


MMX year: about to conquer the world

MMX year: about to conquer the world

Pelotas celebra show com surpresas de Jupiter Apple

Show de Jupiter Apple no Bar João Gilberto, Pelotas, 25.08.2010

Satolep voltou a receber um Jupiter Apple ainda mais variado do que em novembro de 2009: agora o playlist transita desde os primórdios, das ex-bandas, até os singles ainda não lançados formalmente, como é o caso da canção de abertura, “Six Colours Frenesi”. Seguem-se “Querida Superhist…”, “As Tortas e As Cucas”, e “A Lad and Maid in the Bloom”. Anunciada a primeira “surpresinha” da noite, “composta aos 16 anos”:“Identidade Zero”, reconstruída com arranjo cabaré meio jazzy. “Síndrome de Pânico”. “Beatle George”. “So You Leave The Hall”. Em meio ao set Jupiter empunha a guitarra adicional à de Júlio Cascaes.

Música de trabalho: “Calling All Bands”. Se no palco algumas faixas são despidas de delicados detalhes da produção de estúdio, esta soou mais rock, e foi a deixa para o lado entertainer de Apple incitar um coro cada vez mais alto do refrão. “Um dia será num estádio” desejou. Após “Mademoiselle Marchand” e “Modern Kid”, até mesmo Hisscivilation foi contemplado com a “faixa-quase-titulo”. A seguir, “Miss Lexotan 6 mg”. A segunda surpresa – esta composta aos 18: “Morte Por Tesão” (pausa para pulos do repórter). Novas gerações sendo lembradas que estão diante de um clássico. “Marchinha Psicótica”, “Eu e Minha Ex”. Sem sair do palco, Jupiter avisa: “agora já é o bis”, emendando as recentes “Head Head” e “Cerebral Sex”, e como saideira seu esperado e do caralho hino…