Categoria: História

Conhecendo Danúbio Gonçalves

Referência viva no mundo das artes relembra o Grupo de Bagé

“A arte é para todos, não para uma elite”. A avaliação parte de um nome incontestável das artes gráficas: Danúbio Gonçalves. Coerência total com a escola que lhe projetou na metade do século XX – a do antológico “Grupo de Bagé”, cuja história ele rememora, em fragmentos, para o Blog. Danúbio é o único dos dois remanescentes do Grupo que ainda reside no Rio Grande do Sul, enquanto Glênio Bianchetti mora em Brasília. Suas gravuras primam pela temática realista, o que justifica assim: “As obras tem que se comunicar visualmente, sem necessidade de ser explicadas. O abstrato não diz nada”. Ele acaba de ser convidado para produzir um grande painel na reforma de um forte militar em Jaguarão, e defende o uso do formato, pois “dá um contato com pessoas que nunca entram em museu”.

OS PAINÉIS DE DANÚBIO:

1. “Epopéia Farroupilha”, Estação Mercado Público (2008)

2. “Centenário da Imigração Judaica” – Rótula Carlos Gomes/Protásio (2004)

O “Grupo de Bagé” – alcunha criada pelo escritor Carlos Reverbel, segundo Danúbio – é um dos referenciais que mais desperta orgulho na cidade de origem. Em meados dos anos ´40, os artistas integrantes popularizaram suas obras mediante temas regionalistas e cotidianos, democratizando a arte de modo associado aos movimentos sociais populares. Em conexão direta com a capital gaúcha (onde criariam o Clube da Gravura), influenciaram definitivamente a arte regional, e por conseguinte a brasileira, com reconhecimento no exterior. Foi a deixa para o artista bajeense ganhar o mundo. Ao reconstituir o contexto da época, sua memória descreve como “autodidatas” a Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti, e como “um importante intelectual” a Pedro Wayne, de quem, mais tarde aproximou-se Zé Morais. Carlos Scliar: grande amigo e divulgador do grupo, através, por exemplo, da Revista Horizonte. Particularmente, foi por meio de Scliar que Danúbio sofreu grande influência do taller gráfico mexicano, através de materiais trazidos do convivio direto com Leopoldo Mendez. >>

Se o acesso à cultura de então não dispunha da tecnologia atual, Gonçalves se alimentava artisticamente pela observação direta: “Conheci mais de dez países, e vivia em museus”. Além disso, frequentava a casa de Portinari e Burle Marx, seu vizinho. Como referência literária, aponta Érico Veríssimo, revelando uma admiração mútua entre ambos que teve continuidade na geração seguinte, com Luis Fernando.
Danúbio recorda que teve noção da notoriedade a que fora alçado pelo Grupo atráves dos convites para exposições: “Cheguei a fazer uma retrospectiva com 300 obras no Masp, na época”. Não tardou para o êxito internacional ficar demonstrado com a primeira mostra na galeria francesa L´Oeil de Boeuf, mantida pela bajeense Ceres Franco.

Entre amigos:Danúbio (extrema direita) e Mário Lopes (ao centro). Também na fotografia: Tarcisio Taborda, Carlos Scliar, Glauco, José Mayer e José Henrique. Foto: Mário Lopes/arquivo pessoal

Questionado sobre a falta de vanguardismo em artistas da atualidade, Gonçalves reflete: “Acho que é um ciclo. Hoje não se trabalha o conceitual, copiam a vanguarda antiga. Até o ‘modelo vivo’ tiraram ! Percebo pelos jovens que me procuram, querendo aprender a desenhar…”.

Apesar de “aproveitar a tecnologia como base”, Danúbio produz gravuras basicamente em processo manual, com técnicas de aquarela e monotipia.

Para ele, o volume de itens de sua produção (da qual mantém a maior parte em casa) deve-se a ter começado a dar vazão com apenas três anos de idade à aptidão artística, que considera “um dom”, já que não descende de artistas – o pai era estancieiro. Bem mais tarde, as filhas de Danúbio também preferiram os ramos da Arquitetura e comércio.

Hoje colaborador do Jornal e da Revista Fala Brasil, Gonçalves em seu discurso procura reverenciar constantemente aos locais importantes em sua trajetória, como o Atelier Livre (junto ao Teatro Renascença), Margs e Fundação Iberê Camargo.

Para o lançamento do documentário “Danúbio, o Filme”, o homenageado e o diretor Henrique de Freitas Lima, da Cinematográfica Pampeana, estiveram em Pelotas, com destino a Bagé no dia seguinte, para exibições públicas da obra. Encontramos a dupla no hall do hotel em Pelotas, quando concediam entrevista à TV Pampa local.

A equipe de Camila Martins abordou os detalhes do obra de Danúbio e Henrique

Danúbio comemora a recepção do filme, “que tem sido bastante elogiado”, e a parceria com Henrique, para a qual prevê novos frutos: “Ele vai me ajudar a transformar minha casa e atelier em instituto, devido ao valor histórico e arquitetônico encontrado ali”. O contato entre ambos iniciou há dez anos, quando Lima encomendou a Gonçalves uma ilustração para a abertura de filme sobre João Simões Lopes Neto. Por sugestão de Danúbio o trecho foi produzido como uma animação, cujo resultado ele admite que apreciou muito.

Henrique exaltou vários aspectos do artista e amigo, como o fato de o mesmo ser “um professor sem formação acadêmica”, e também “sua visão da vida e das mulheres”. Destacou alguns detalhes da passagem da dupla pelo México, como a visita a pirâmides e a touradas – apesar de Danúbio ter se recusado a testemunhar a agressão ao animal. Uma das constatações de Lima ao longo do trabalho, e que ele busca superar, é de que “ainda existe uma barreira de comunicação do gaúcho para com outros povos”.

Raridade

Acima, reprodução impressa da xilogravura “Sapata”, de Danúbio, publicada em outubro de 1949 no veiculo “o Mensário”, do qual fazia parte o jornalista Mário Lopes (ao lado), detentor do original.

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https://marcelofialho.wordpress.com/mariolopes/

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