Categoria: Música

A dança dos negros gatos

Arte de Jupiter Apple estreia nova proposta

Hamburg Black Cats é o nome do novo projeto e show de Jupiter Apple/Maçã. A expressão reverencia aos vanguardistas hamburguenses do início dos anos 60, que não sairam da obscuridade. Na formação atual, que se apresenta amanhã, 31, em Chapecó (SC), o próprio man assume a guitarra, acompanhado da mulher, Clegue França, na percussão, e de Felipe Faraco, que troca o baixo pelos teclados e programações de bateria eletrônica. Segundo Júlio Sasquatt, músico e produtor ligado a Júpiter, o set list apresenta os clássicos do compositor em versões eletro-rock. “É tri-dançante, é o New Order do Maçã”, brinca Sasquatt, enfatizando o bom gosto demonstrado por Apple na concepção do novo espetáculo, que é auto-produzido.

Faraco e seus teclados

Faraco (ainda no baixo) e Júpiter em 2010.

Clegue

Clegue

Vale lembrar que a ênfase no ritmo já permeava a produção recente de Júpiter: tanto no single “Modern Kid”, como nas extra-oficiais “Six Colours Frenesi”, e ainda, “Cerebral Sex” – esta composta originalmente para outro projeto paralelo “orgânico” do artista: The Apple Sound, que também envolvia Clegue, em um conceito um tanto mais experimental e performático do que a banda regular.

Veja o The Apple Sound em sua estréia em 2009, desconstruindo “As Tortas e As Cucas”: proposta com detalhes comuns ao Hamburg Black Cat.

Excetuando-se os videoclipes acompanhados de singles em vinil, o último álbum de Júpiter foi Uma Tarde Na Fruteira (2008). Este ano ele esteve em Abbey Road masterizando um material que inclui inéditas e takes raros, e que prevê alguns lançamentos, como uma coletânea, que ainda não saiu. Os dias na Zooropa incluiram escala em Paris com visitação a Père Lachaise e à Torre.

De volta ao Brasil, Júpiter andou interagindo com o trompetista Guilherme “Guizado” Menezes, com quem tocou em estúdio, e com o tresloucado Rogério Skylab, em show conjunto no Sesc Campinas.

Como se vê, o cara não se prende a formatos e propostas estagnados… workaholic na criação, vive em metamorfose, insistindo em não se repetir. A inventividade chamou a atenção desde suas primeiras bandas e continuou na carreira solo. Já nos anos 90 se estabeleceu a aura cult e um fiel séquito em torno, com muita expectativa para cada lançamento. Vamos relembrar as fases do camaleônico artista e algo da riqueza das influências que já lhe inspiraram.

Rockabilly, Beatles, Stones: em seu debut nos primórdios do TNT, o precoce compositor de “Identidade Zero” cantava as coisas importantes da humanidade: garotas, carros, rock and roll – do ponto de vista perplexo de um jovem de fim de século. Porno-psychobilly: após a ruptura com a antiga banda, foi possível com os Cascavelettes ir mais fundo na proposta de letras taradas/chapadas. Incluindo vudu e, lógico, gatos pretos. Folk: a alcunha inicial da carreira solo, Woody Apple, faz alusão a W. Guthrie sugerindo um artista voz-e-violão-e-banquinho. Psicodelia: A Sétima Efervescência é seu Sargento Pimenta.
Jazz & Bossa: a lisergia se sofistica em Plastic Soda. Já Hisscivilization aprofunda a sonoridade às beiras do Acid Jazz e progressivo. De repente a crueza quebra a sequencia: com Blues e rock básico Bitter é o famoso “passo atrás” para retomar o vigor da sonoridade de décadas atrás. Tropicalismo: aparece atualizado dando o tom de Uma Tarde na Fruteira. Tudo isso veio temperado com Kurt Weill, Moulin Rouge, e principalmente, Gainsbourg, como ficaria ainda mais claro na estética do clipe “Modern Kid”, e a influência warholiana saindo do armário já nas primeiras cenas de “Calling All Bands”.

Ufa! Depois de todo esse balanço, só nos resta aguardar a próxima carta desse louco do Tarot da Arte…

Leia mais sobre Júpiter:

https://marcelofialho.wordpress.com/2010/08/26/jupiterapple/
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/08/26/jupiterpel/
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/08/27/applebage/

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O bis do sucesso do Pouca Vogal


Coisas que o Pouca Vogal consegue: lotar um novo show e emocionar o público como se não tivesse tocado repertório idêntico no mesmo clube apenas sete meses atrás. Isso aconteceu em Bagé. A única novidade no playlist foram os acordes iniciais de “Seven Nation Army” dos White Stripes, no contrabaixo de Humberto – tocado com os pés, assim como o som de cordas que está mais evidente em algumas canções, dispensando tecladista, e os loops que adicionam empolgação em A Força do Silêncio, Pose e Infinita Highway. De resto, as variações sobre os mesmos temas de Leindecker e Gessinger ficam por conta dos detalhes que fazem a diferença. O duo agora é definido por Humberto como a “maior banda do bairro Bela Vista” (sua morada portoalegrense) ao se apresentar, confere o vídeo:

Hoje é Renato Russo quem dava razão a Humberto, no táxi que trouxe o Alemão a Bagé. E na farmácia, quem procurava protetor solar era um emo, não mais o punk.
Além de tudo isso, 1berto esbanja o know-how de palco de 25 anos como engenheiro havaiano. Entre goles em uma caneca de chá, brinca de animar a audiência. Interrompe estrategicamente Somos Quem Podemos Ser várias vezes só para incitar a gritaria, saúda ao Grêmio Esportivo Bagé (em Banco) e por aí vai. Gessinger está solando mais ao piano. Seus improvisos e os de Duca na guitarra tornam cada show único, aparecendo mais nos momentos jam session como o final de Pouca Vogal, a canção.

Setlist – Bagé, 11.06.2011 – Clube Comercial

Depois da Curva
Até o Fim
Girassóis
Breve
Pose
Dia Especial
Além da Máscara
Somos Quem Podemos Ser
Música Inédita
Terra de Gigantes
Força do Silêncio suingada
Pinhal
Toda Forma de Poder/Banco/Dom Quixote/Satisfaction
Refrão de Bolero
Ao Fim de Tudo
Piano Bar
Tententender
3 X 4
O Amanhã Colorido
Pra Ser Sincero
Pouca Vogal
Vôo do Besouro
A Montanha
Os Segundos
Infinita Higway/ Carona
Jingle “rockabilly” de despedida – curte o vídeo com o simpático agradecimento da dupla, na finaleira do show:

Leia também: Resenha do show de 2010:

Thedy Corrêa tem muito a dizer

Conhecido como cantor e letrista, Thedy Corrêa Filho, 47 anos, tem a oferecer a uma Semana Acadêmica ainda mais do que o lirismo romântico que vocaliza no Nenhum de Nós, banda que acaba de lançar seu décimo-quarto álbum, Contos de Água e Fogo. Além de escrever em seus blogues Astro Thedy e Gigante, já lançou dois livros (Bruto, 2006, e Livro de Astro-ajuda, 2010) por conta dos quais tem sido convidado para feiras do livro e eventos literários Brasil afora. Também participa do programa de televisão Café TV Com.

Thedy e a filósofa Márcia Tiburi, em debate que permitiu interação do público

Thedy e a filósofa Márcia Tiburi, em debate que permitiu interação do público

No interesse de acadêmicos de Comunicação Social, cabe destacar a recente participação de Thedy no evento Filosofia do Rock, onde foi o convidado especial em quatro das oito noites de debates entre músicos e filósofos sobre a relação entre o gênero musical e as correntes de pensamento.
Mesmo quem acha as teorias universitárias algo sonífero teve a atenção despertada pelas análises altamente pertinentes de Corrêa, que relacionaram Bob Dylan a Walter Benjamin, Legião Urbana a Foucalt, Velvet Underground a pós-modernismo. Inclusive o conceito de Sociedade do Espetáculo, de Debord, fundamental para a pesquisa em desenvolvimento pelo autor deste blog, embasou os comentários de Thedy sobre os grupos Nirvana e Radiohead.

Todos esses são alguns dos motivos para engrossarmos o coro de
‎#TOMARAQUEROLE Semana Academica da FACOS Urcamp com presença de @thedycorrea \õ/

Leia ainda a entrevista com Thedy em 2008, em Bagé, antes do show do Nenhum, que voltaria a tocar aqui em janeiro de 2011.

https://marcelofialho.wordpress.com/2008/12/31/ndnbage/

O Sul pronto para Dado

A fachada do Bar João Gilberto, em Pelotas, anuncia o evento da próxima quinta-feira. Dado Villa Lobos, Toni Platão e banda vão apresentar um show dividido entre os trabalhos solo do guitarrista e os clássicos da Legião Urbana.
Dado acaba de tocar no festival Serasgum, no Pará, onde mais uma vez acompanhou a banda Los Porongas, que já produziu. Antes, passou 19 dias na Espanha, onde se apresentou por três noites com Marcelo Bonfá e mais dezenas de convidados no projeto La Caravana Americana, do artista espanhol Xoel Lopez.
Já tendo trabalhado com vários artistas gaúchos como Ultramen, Comunidade Nin-Jitsu, Dharma Lovers e Marcelo Gigante, Villa-Lobos volta ao Sul, onde esteve em 2008, em momento de intensa atividade, entre o advento de duas novas trilhas sonoras, e a pré-produção do segundo álbum solo de carreira. Começa por Frederico Westphalen na quarta, 17, e após Pelotas, ainda passa por Santa Maria dia 19 e Três de Maio no dia 20.

Leia também:

Bagé entra no coro dos contentes com o Pouca Vogal

Clube Comercial, Bagé, 1º.11.2010

Foto: Débora Mattos

Foto: Débora Mattos

Mesmo com apenas oito composições próprias, repertório não falta ao Pouca Vogal no palco. O duo pinça canções das bandas de origem dos integrantes para surpreender sempre. Em Bagé, longe da execução burocrática do CD “Ao Vivo” de 2009, substituiram duas das 20 faixas do álbum por várias surpresas, como “Piano Bar”, “3 X 4” e “Terra de Gigantes”. Especialmente comemorado o mix de “Infinita Highway/Carona”, com a segunda encartada no clássico de 1987. Foi já no bis, após uma “A Força do Silêncio” mais percussiva que em disco. Apesar da roupagem acústica das músicas, o clima era de show de rock – tanto entre o público, cuja imensa maioria assistiu em pé, quanto sobre o palco. Depois de movimentar a cidade durante o dia, satisfação visível nos rostos de G & L com a vibração emitida pelo clube lotado.
Tocando quase em casa, pelo link familiar que tem com a terra, o Alemão estava pra brincadeira. Inseriu Bagé onde pôde nas letras (como centro do universo em “Além da Máscara” e uma ilha em “Terra de Gigantes”), “confundiu” EngHaw e CQ com Ivete Sangalo e Lady Gaga ao citar seus artistas favoritos. Como ele mesmo disse no Twitter, não é um cardiologista mas um coração – e isso estava muito visível, sob o colete azul da roupa tricolor.
Do lado vermelho da força, a empolgação do Leindecker mais velho veio inclusive nos solos estendidos com improvisos bem diferentes das versões de estúdio.
O PV é uma ode ao descompromisso com os clichês “roquenrôu” como drogas e groupies: o figurino da dupla é o uniforme para o labor de tocar. Ao entrar no palco e assumir dois violões, me soaram como mariachis com a missão de nos entreter naquela noite. Claro que ao longo do show as seis cordas eram divididas com várias ocupações simultâneas – teclas e pedais midi para os pés, harmônica; e alternadas com outras possibilidades como piano. Gessinger tem esse costume desde a formação GLM de seu grupo paralelo. Ele descobriu Dylan e Zé Ramalho décadas depois de Roger Waters e aos 46, sinaliza estar descobrindo o rock “básico”, na levada da canção (jingle?) de despedida/agradecimento. E também ao inserir versos da stoniana “Satisfaction”. Foi depois de uma variação acelerada de “Dom Quixote”, ao final de “Toda Forma de Poder/Banco” – que já estendera tentando descobrir o que ainda emociona os fãs. Causas perdidas ? Time de futebol? Banda? (R.: “Pouca Vogaaal”). A opção “partidos políticos” recebeu vaias, um dia após as eleições. Aliás, a trilha de abertura do show havia sido a ópera “O Guarani” (Carlos Gomes), mas a Hora em Bagé era do Pouca Vogal.

“Vamos todo mundo, ninguém pode faltar”

Os versos de “Pose (Anos 90)” não foram cumpridos literalmente. Clara Gessinger foi o que faltou no palco. A herdeira de Humberto veio a Bagé, onde almoçou churras com torta de sobremesa na casa de familiares, conforme comentou no Twitter. Mas a quinta música da noite não ganhou o toque feminino que valorizou a reinvenção presente no Acústico de 2004.

“Pose” é uma das 12 pérolas de “Gessinger, Licks & Maltz” (1992), conhecido como “G, L & M”, que fecha a trilogia de discos cada vez mais progressivos que os Engenheiros tiveram coragem de lançar no Brasil dos anos 90: antes foram o megaplatinado O Papa É Pop, e o Várias Variáveis, feito às pressas para se antecipar à chegada de Clara.
É uma suite conceitual costurando faixas que se confirmaram pouco radiofônicas.
O nome é uma homenagem auto-irônica aos dinossauros do gênero como Emerson, Lake & Palmer, ou aos caras do Yes quando assinavam dessa forma. No caso dos EngHaw marcou uma formação muito querida e clamada pelos fãs na comunidade do Orkut.
Subestimado pela mídia, é o álbum favorito de muito fã, e traz algo do clima intimista que encontra certa continuidade no Pouca Vogal.

Auxílio luxuoso
A superação de LL

Os bajeenses, todavia, foram presenteados com outro convidado eventual no PV. Humberto costuma referir-se como “Duplo L” ao titular do baixo da Cidadão: Luciano Leindecker. Ele surgiu tocando Quince (instrumento criado por ele) em “Música Inédita”. Depois assumiu o baixo, que tocou em pé, para mais duas colaborações, e ainda permaneceu batucando uma caixa. Enriqueceu não só os arranjos mas o sentido do que se via no palco, com seu exemplo: ao lado de uma dupla que vence a ditadura do mercado com uma atitude genuina, Luciano também era a imagem da superação. Lutando contra problemas de saúde nos últimos anos, nem por isso abandona o prazer de excursionar e pulsar as quatro cordas no ritmo dado pelo bombo legüero do irmão.

Programa Familiar:
show do PcVgl pode ser um, e ainda reunir três gerações: D. Cacilda, a homenageada em “Terra de Gigantes”, a cardiologista Rosália Gessinger e Clarinha – abstenção sentida no palco, mas curtiu a passagem pelos pampas.

Coro dos (muito) contentes: Talvez desafinado, foi quem cantou com Humberto e Duca “Pose” e muitas outras.


Leia também:

Gessinger e a cultura gaúcha: material exclusivo onde HG avalia a influência da música regionalista no rock gaúcho e em sua obra.
https://marcelofialho.wordpress.com/2008/09/08/gessinger/

Sobre o Pouca Vogal (artigo opinativo em versão original do que saiu editado no Blog da RBS)
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/10/27/pvrbs/

Entrevista: “Se eu fosse depender das grandes estruturas não teria uma semana de vida” (Gessinger)

Ao ser entrevistado em Bagé, Humberto Gessinger avaliou o fato de o Pouca Vogal ter sido trazido pela mobilização dos fãs na internet. “Cara, isso sempre aconteceu muito com Engenheiros, a coisa de transbordar e cair na rua. Eu me lembro que uma vez eu dei uma entrevista, tinha saído numa revista uma livrinho com todos fã-clubes do Brasil e não tinha nenhum do Engenheiros. Achei bacana e falei pro Carlos (Maltz) e a gente falou numa entrevista. No dia seguinte a gente era a banda com o maior fã-clube ! Porque parece que as pessoas querem fazer o contrário do que tá acontecendo… Já senti ali que Engenheiros é uma coisa de rua. Antes da internet, a coisa dos fanzines, dos mimiografados, tinha muito, e foi o que segurou a minha onda, porque se eu fosse depender das grandes estruturas eu não teria uma semana de vida. Ao mesmo tempo que eu sou muito grato a isso eu não conheço outro mundo, talvez eu nem saiba avaliar o quanto importante isso é, porque pra mim desde sempre foi assim, ligação direta”.
Ele adianta que o Pouca Vogal não tem data prevista para acabar: “Do ponto de vista estético ele é inesgotável, porque a gente pode passar uma vida não só compondo, como relendo o que já escreveu, porque o projeto joga luzes diferentes sobre. Tem outros fatores girando em torno dum lance desses que não só os estéticos. Mas espero que o tempo que durar seja com intensidade total”.
Na parceria, o processo de criação “pinta de várias formas. Cada um faz a sua parte sozinho, seja música ou letra. Aconteceu casualmente, não foi algo que a gente tivesse se imposto. Muito da composição se passa na parte de trás do cérebro e tu nem sabe o que tá escrevendo, e uma hora cristaliza. Não faz muita diferença se a composição é para o Pouca Vogal ou não. A questão é mais do arranjo que da composição – pra que formato a gente vai fazer ?”, detalha HG.
Como escritor, Humberto tem pronto o sucessor de Pra Ser Sincero (2009, Belas Letras), com título a ser definido pelos fãs: “O PSS é um zoom in, é alguém contando 1, 2, 3, 4, 5. E esse novo é 1,1 e 1,2 e 1,3, quer dizer, ele tá chegando mais próximo. Não sei se vai ser melhor ou pior, mas vai ter essa diferença”, compara.

Os vários talentos de Duca Leindecker

Dez anos antes de Gessinger se autobiografar, Duca lançava “A Casa da Esquina”, e em 2002, “A Favor do Vento”, ambos os romances pela L & PM. A faceta escritor é uma das muitas do multimidiático artista.

Também produziu várias bandas gaúchas em seu estúdio próprio, o Submarino Amarelo, em Porto Alegre, onde recentemente o Nenhum de Nós gravou seu novo álbum, Contos de Água e Fogo. Leindecker ainda produz curta-metragens como “Chá de Frutas Vermelhas”, atualmente em exibição no Canal Brasil, da Globo, e que entrou nos Curtas Gaúchos da RBS em 2009.
Sua esposa Ingra Liberato, protagonista principal de Ana Raio e Zé Trovão, voltou às telas da tevê aberta em 2010 com a reprise da novela.
Em Bagé, DL revelou estar trabalhando um terceiro romance e ter um novo curta já escrito, ambos os projetos inacabados, respectivamente, por insatisfação com o texto, e por falta de recursos.

2. SEGUINDO GESSINGER E LEINDECKER

Como foi o dia do Pouca Vogal em Bagé: entrevistas, autógrafos, televisão e outros pormenores

Ok, confesso. Venho seguindo Humberto Gessinger e Duca Leindecker há algum tempo. E mais, tem dezenas de milhares fazendo o mesmo. No ambiente onde isso acontece, eles se apresentam como @1bertogessinger e @ducaleindecker. Welcome to Twitter.

Foto: Murilo Dotto

Foto: Murilo Dotto

Pelo microblog é que foi possível antecipar nas primeiras horas da segunda-feira que os dois sairiam em ônibus de POA por volta de 2 hs com chegada prevista para as 7 hs. E de fato, no início da manhã Humberto já tuitava fotos do Clube Comercial. Naquele momento, o madrugador @murilodotto (dottoblog.blogspot.com), que chegava para apresentar o Conexão Pop Rock na FM 98.1, capturou seu encontro com o músico.

Ao meio-dia, HG e DL encerraram bloco do Jornal do Almoço local. Responderam ao repórter Chrystian Ribeiro sobre sucesso, excursões pelo Brasil, interação com o público, improviso no palco e o papel de multiinstrumentistas que assumem. E em seguida tocaram “Depois da Curva”, cuja letra fala em deixar passar a ventania – que de fato marcava Bagé desde a véspera.

A íntegra do papo em vídeo pode ser conferida no site da RBS TV Bagé, atualizado por Patrick Corrêa:
http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=147392&channel=45

Retomando a perseguição: fui ao Yázigi porque sabia pela internet que o PV estaria lá. Me antecipei mas encontrei uma fila de fãs. Depois de um hiato, a esperada dupla chegou distribuindo “autógrafos e sorrisos” como Gessinger anunciou ao microfone, e protagonizando, entre tantas, as cenas a seguir.

A diretora do Yázigi Internexus, Maria do Carmo Machado, foi oportuna em explicar a promoção “Band Me Up”, que oportuniza espaço a novas bandas em busca de projeção. Aqui, ela e parte da equipe recepcionam aos músicos.
>>Confira: http://www.bandmeup.com.br/

Entre os fãs mobilizados pela presença do PV, vários músicos (alguns portando instrumentos para que fossem autografados) como é o caso da galera da banda Plasma Rock, na foto. (ao fundo, Leko Machado)

Também trabalharam por ali os enviados dos veículos de comunicação locais, como o Jornal Folha do Sul, representado por Fernanda Couto e Antônio Rocha. Mesmo caso do Rota 20 – na foto, Graciela Freitas grava seu take…

Também Diélen e Marta da Pop Rock FM, que transmitiram ao vivo…

Mas entre os repórteres, provavelmente o coração que bateu mais forte no dia foi o da Niela Bittencourt, do Jornal Minuano. Fã confessa de EngHaw e PcVgl e militante da vinda do segundo, trabalhou na cobertura acompanhada do namorado (e repórter fotográfico) João. Emocionada na presença de Humberto e Duca, lhes revelou que, se vier a ter um casal de filhos, serão chamados Ana e Luciano, em homenagem aos integrantes do PV.

Incidentalmente à esquerda, o autor destas maltraçadas, flagrado pelo mago da fotografia, Leko Machado.

Foto: Leko Machado

Foto: Leko Machado

Falando no Leko, retribuo a aparição – olha ele à esquerda, neste momento tiete da formanda em Comunicação Buca Netto, que compartilha com 1berto a paixão pelo tricolor. À direita, o mascote Humbertinho.

Na verdade o Humbertinho e o Duquinha foram criações artesanais das irmãs Jenifer e Queli.

3. A LONGA HIGHWAY SP-BAGÉ

Fãs unidos pelo PcVgl: Chinelatto (esq.) veio de São Paulo para o show viabilizado por um movimento virtual encabeçado por Leandro Souza (dir.)

A devoção em torno de um artista é também origem de grandes amizades. Foi assim com José Luís Chinelatto, que voou de São Paulo, capital, em sua primeira vinda a Bagé, para o Dia do Pouca Vogal. Desde que se identificou com as canções do álbum Minuano na rádio, em 1997, passou a acompanhar fãs do Sul, onde já veio seis vezes, em cidades como Caxias, Bento, e inclusive na gravação do DVD de 2009 do PV, na capital. Os gaúchos retribuiram as visitas, por exemplo, na gravação de Novos Horizontes, dos Engenheiros, em 2007, e na turnê subsequente. Técnico em Óptica e proprietário de uma casa do ramo, Chinelatto auto-financia suas viagens, pesquisando na internet as passagens mais em conta.

Gessinger e a cultura gaúcha: material exclusivo onde HG avalia a influência da música regionalista no rock gaúcho e em sua obra.
https://marcelofialho.wordpress.com/2008/09/08/gessinger/

Sobre o Pouca Vogal (artigo opinativo em versão original do que saiu editado no Blog da RBS)
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/10/27/pvrbs/

https://marcelofialho.wordpress.com/2010/11/02/pv/

Theatro Guarany em pé para os Detonautas

Metade do show. Conforme a canção avança, o público sentado nas cadeiras e camarotes vai levantando aos poucos. Em instantes, o Theatro Guarany inteiro está em pé, vibrante, cantante. Tico Santa Cruz exclama ao microfone que foi a reação “mais foda” à composição “Só Nós Dois” até hoje. A cena ocorreu na noite de quinta, 09, em Pelotas, primeira cidade a receber os Detonautas, após o retorno de apresentações no Japão, para uma turnê de seis datas no Sul. De início, a platéia parecia em dúvida sobre como interagir com o espetáculo – a expectativa de arranjos mais suaves promovendo o mais recente CD/DVD foi surpreendida por guitarras totalmente plugadas e uma banda a fim de oferecer peso. “Esqueceram de avisar pra gente que o show é acústico.”, brincou o cantor. “Espero que não se importem de ouvir guitarras. Vocês se importam se a gente continuar ´pegando pesado´ ?” Resultado: nas primeiras músicas, além da barricada de fotógrafos entrincheirados diante do palco, fãs exaltados já pulavam frente às primeiras filas de cadeiras, para desconforto dos devidamente “acomodados”.

Platéia em dois momentos: comportada na expectativa de arranjos acústicos...

Platéia em dois momentos: comportada na expectativa de arranjos acústicos...

...e depois, sob o devido efeito da vibe emanada do palco

...e depois, sob o devido efeito da vibe emanada do palco

Esse foi apenas um dos picos de sintonia emotiva entre palco e audiência. O afiado entertainer Tico incitou ao coro no final reggae-estendido para “Quando O Sol Se For”. Trouxe ao palco uma garota do público para recitar poema no meio de “Olhos Certos”. Explicou que “Só Por Hoje” alude a uma frase-lema dos grupos de reabilitação de viciados em alcoolismo e drogas. E ainda, no final do show, com “Outro Lugar” pediu que cada um abraçasse a pessoa ao lado, estimulado pela mensagem “abraços grátis” em um cartaz exibido por fãs.
Sem falar na corrente por vibes positivas, com mãos levantadas, próximo de a banda prestar tributo a Raulzito emendando “Metamorfose Ambulante” e “Sociedade Alternativa”, entremeadas com discurso pró-liberdade individual. Outra cover inesperada foi “Ainda É Cedo” da Legião Urbana.
Tudo isso veio encartado entre os hits aguardados: “Você Me Faz Tão Bem”, “O Amanhã”, “Tênis Roque”, “O Dia Que Não Terminou”, “Mercador das Almas”, “Não Reclame Mais”, “O Retorno de Saturno”, “O Inferno São Os Outros”. Em arena ou teatro, o clube dos Detonautas é sempre o do rock.

ENTREVISTA

CONEXÃO NIPO-SATOLEP

A apresentação em solo pelotense foi a primeira depois de a banda ter tocado no último final de semana nas cidades japonesas de Hamamatsu e Toyohashi (no Brazilian Day). “A gente passou só dois dias no Rio, tempo de trocar de mala, lavar as roupas e vir. Teríamos dois shows na Europa mas priorizamos tocar aqui no Sul, que serão seis datas”, revela Tico Santa Cruz. “No Japão, foi show de parque, que mistura público variado – brasileiro, japonês, americano. A galera começou, num primeiro momento, observando, e no final tava todo mundo com a gente, foi uma vitória”. Segundo o vocalista, a banda não tem CDs lançados no mercado nipônico. “Com internet não tem muito esse lance, as pessoas tem acesso pelo próprio site”.
Apresentando no Sul um show distinto do último álbum, os Detonautas ainda não iniciaram a pré-produção do sucessor do Acústico: “Estamos compondo, mas não há um conceito, vamos precisar de mais tempo. A idéia é fazer como no Psicodelia…, onde a gente ficou no estúdio criando, até sair coisas novas, e não só compôr no violão como estou acostumado a fazer, e como foram os últimos discos”.

ATÉ A PÉ DETONAREMOS…

Gremista assumido a ponto de eventualmente ostentar simbolos de seu timão, Tico, que esteve na equipe de transmissão no Olímpico quando da última conquista do Campeonato Gaúcho em 2010, relata as origens da preferência. “Meu tive lá do RJ é um time que não tem muita expressão, o América. Joga campeonato da terceira divisão. Aí escolhi um time de fora”.

UM COMUNICADOR NATO

Para dedicar-se aos Detonautas, Tico interrompeu algumas faculdades iniciadas, entre elas Jornalismo, no fim dos anos 90. “Quando fui fazer Ciências Sociais na UFRJ ia fazer Ciência Política poder atuar como jornalista na área política especializada. Mas enfim depois fui deixando amadurecer as idéias e prevaleceu o meu sonho de fazer som e tal. Ser jornalista é investigativo, tentar passar os fatos de uma forma que as pessoas possam tirar as conclusões delas sem ser necessariamente influenciadas pelos interesses dos jornais. É diferente ser jornalista e ser marketeiro”.
Mesmo sem diploma, o roqueiro demonstrou ser comunicador também de outras formas, através, inclusive, dos meios virtuais:
-Seu Blog pessoal onde descreve fatos reais, além de reflexões e contos eróticos.

-Seu Twitter para o qual retornou há pouco após ter deletado o perfil anterior em seguida de polêmica envolvendo bandas emo. Há algum tempo Tico atravessava madrugadas tuitando, com seu fuso horário particular. Temas, diversos: dicas de livros, como ele também sugere nas letras, já que “O Inferno São Os Outros” vem de Sartre, há uma “Ensaio Sobre a Cegueira”… Meteção de pau no tratamento oferecido pelas companhias aéreas brasileiras. E, entre outras formas de ode ao amor solitário 5 X 1, já é tradicional a sessão do “Proibidão”, vídeos pornôs temáticos para a ocasião – recentemente rolou com japinhas, não por acaso.
Além disso, e nessa linha independente dos impérios midíáticos, Tico apresentava há alguns meses seu Sarau Eletrônico através de streaming de vídeo via Justin TV.
[ Mais no Blog:
https://marcelofialho.wordpress.com/2009/07/01/justin/ ]

Recebeu convidados célebres como Biquíni Cavadão para conversas e jams. O projeto não tem data para retomada: “A gente tá muito sem tempo, e exigia bastante. Passava as segundas feras de descanso fazendo um trabalho que levava seis horas durante a madrugada toda, se tornou um pouco cansativo. Preferi parar pra não ficar fazendo mal feito”.

Entregamos ao Tico CD com demos de algumas bandas de Bagé: Central do Rock, Lactário Ruivo, Marcelo Chroner, Plasma Rock, Ricardo Belleza, Sistema Falido, Twin Cities, The Vermes, Viajantes do Éden

Entregamos ao Tico CD com demos de algumas bandas de Bagé: Central do Rock, Lactário Ruivo, Marcelo Chroner, Plasma Rock, Ricardo Belleza, Sistema Falido, Twin Cities, The Vermes, Viajantes do Éden

JABÁ NO CARDÁPIO DAS GRANDES

Também independente é a postura que a banda adotou em relação à divulgação de seus singles, após terem sido limados de algumas programações dentro do jabá, aliás, método de trabalho de algumas grandes emissoras. “Obviamente que com essas rádios a gente teria muito mais força com o mercado popular. Mas, a Internet privilegia o artista que sabe manipular ferramentas e a gente sempre soube se sair muito bem através dos meios digitais. Detonautas não sofreu nenhum baque por conta do boicote e da censura, muito pelo contrário, fazendo bastante shows, e sempre cheios, as coisas estão acontecendo muito bem pra gente. Voltamos a fazer coisas importantes, voltamos ao Japão, o que mostra que não estamos mais nas mãos desse pessoal, e que eles são importantes mas não únicos. Existem outros caminhos para você poder chegar até o público”.

NUMA PROPAGANDA DE REFRIGERANTES

Domingo, no Pepsi On Stage, em POA, a banda divide os palcos com os Raimundos, cujos lead vocais Tico também assumiu recentemente, de modo eventual. “Conheço desde o começo, nos primeiros shows no Circo Voador, quando nem era conhecida a banda e só tinham disco independente. Uma influência não pro som do Detonautas diretamente, mas pra mim como artista, sem dúvida. Foi um privilegio tocar com os caras, fazer uma turnezinha e shows cheios, festivais grandes. Muito produtivo pra todo mundo que participou”. Na ocasião, também se apresentam as bandas finalistas do Concurso Pepsi Música, de cuja escolha Tico participou. “Eu fiz a seleção do Pepsi em Porto Alegre e aqui no sul foi mais tranqüilo de fazer que em são Paulo, onde só tinha banda emo. Espero ver como as selecionadas vão se desenvolver lá no palco, agora que é a hora do ´vamos ver´, no estúdio você pode parar, no palco não tem como”. Tico fala ainda de sua relação com o rock gaúcho: “Conheço as coisas mais antigas na verdade, as atuais não conheço muita coisa. Tenho contato com a galera do Reação (em Cadeia), do Tequila Baby, com o Tonho (Crocco), com uma galera que já faz o som aí já há muito tempo”.

OBRA-PRIMA

O terceiro disco do DRC, psicodeliamorsexo&distorção (2006), talvez o mais criativo, teve produção do gaúcho Edu K. “Eu já gostava do Edu, conhecia a muito tempo, tinha a história do De Falla e tal, já tinha visto show… e achava que ele era a pessoa certa pra registrar aquele momento que a gente tava vivendo… Pra mim é o disco mais rock and roll do Detonautas, o mais pesado…”
O disco tem punch e muita variedade entre as faixas, e brinca com clichês do gênero – o próprio título parece aludir ao bloodsugarsexmagik dos Chilli Peppers. Porém o ano de lançamento do álbum coincidiu com a maior tragédia experimentada pelo grupo, a perda violenta do guitarrista Rodrigo Netto em um assalto. Pergunto ao Tico se ele não considera aquela obra subestimada pela mídia. “Acho que tudo tem seu tempo. Talvez o disco não teve reconhecimento agora e possa ter no futuro, quando a gente já não estiver mais aqui. Pra gente o que vale é o trabalho e pra gente foi bem bacana e o Edu potencializou isso muito ali com a gente”.
A partir daí, um álbum com menor peso e maior romantismo, incluindo a candidata a hino pacifista “Canção do Horizonte”, enquanto Tico se engajava também em manifestações contra a violência. Até chegar ao recente acústico, que reconstrói arranjos, em alguns casos completamente, como “Dia Comum” e explicita um link com os anos 80 ao coverizar Plebe Rude e Renato Russo.

MOMENTOS ANTES, EM PELOTAS…

Fãs recepcionaram a banda na chegada ao hotel

Fãs recepcionaram a banda na chegada ao hotel


Devoção: as fãs Júlia Pereira e Adriana Cunha aguardavam a chegada do DRC

Devoção: as fãs Júlia Pereira e Adriana Cunha aguardavam a chegada do DRC