Categoria: Pelotas

Catarse no Sul com Dado Villa Lobos & Cia.

O Rio Grande do Sul esteve mais poético esta semana. Dado Villa Lobos e Toni Platão, escudados pela banda Reino Animal, impregnaram o clima com canções marcadas pela ênfase na melodia, e letras de influência literária. Sobrevivendo no showbusiness ao se reinventar sem negar suas raízes, os dois protagonistas vitais do B-Rock anos 80 apresentaram um setlist que contempla ambas carreiras solo, mas também reverencia a cena em que surgiram, e que pode ser resumida em um único nome: Legião Urbana.
Além de Frederico Westphalen e Três de Maio, o espetáculo foi recebido em:

PELOTAS>>

SANTA MARIA>>

Nestas duas cidades, foi possível registrar os detalhes que seguem, sobre os shows e bastidores. Os artistas e sua equipe foram bastante acessíveis em colaborar com a cobertura.

I. PELOTAS, 18.11.2010 – BAR JOÃO GILBERTO

No palco do bar que leva o nome de uma de suas grandes influências, Dado confessou que não visitava a terra da Fenadoce “há muitos anos, desde um show do Taranatiriça, que estava muito bom”. Em seguida homenageou Nenung (Dharma Lovers), um dos gaúchos com quem mantém parceria musical, abrindo a noite com “Seres Extranhos” – mais tarde seria a vez de “Diamante”.

Cada vez mais à vontade no palco, Villa Lobos tocou harmônica e dançou a seu modo no clima da cover de “Rainy Day Women”, de Bob Dylan, que conclama: “everybody must get stoned”.
Na sequência, o guitarrista interpõs suas canções mais conhecidas “Dias”, “Quase Nada” e a nova “O Homem Que Calculava” com as da Legião que escolheu para fazer lead vocal: “Teatro dos Vampiros”, “Um Dia Perfeito”, e “A Dança” – em versão rearranjada onde ele se deixa tomar por gestos “epiléticos”, nos golpes na guitarra, e na dança que protagoniza. Break para o frontman, e Renatinho (segunda guitarra) assume também o microfone para sua versão de “Por Enquanto”.

De volta, Dado já convoca Toni ao palco, para duas parcerias que gravaram: “Tudo Que Vai” (hit com o Capital Inicial) e “Como Te Gusta ¿”. Resgatam o êxito-mor da banda de origem de Platão, a Hojerizah: “Pros Que Estão Em Casa”, com seu refrão operístico-smithiano, em versão que abrevia a trabalhada introdução de Flávio Murrah.

Parece que sempre termina… mas não tem fim

A verdadeira Legião, segundo Renato Russo

A verdadeira Legião, segundo Renato Russo

Chega a hora de um tributo feito com toda a propriedade. Dado ainda seria crooner em “Ainda É Cedo/Gimme Shelter”, “Índios” (só ao microfone, sem guitarra), e em uma “Geração Coca-Cola” acústica, estilo trovador solitário, que sua ex-banda às vezes revisitava.

De resto, é de Toni a voz na sequência legionária que entra bis adentro: “Tempo Perdido”, “Eu Sei”, “Será”, “Há Tempos” e “Pais e Filhos”. O timbre do baritono, sem intenção alguma de substituir Renato Russo, ainda assim favorece o clima da catarse coletiva. A combinação no palco demonstra-se uma das melhores alternativas para a demanda reprimida desde 1996, quando, junto com Russo, morreram as esperanças de voltar a ver a Legião ao vivo.

Ao mesmo tempo, Dado estava com saudades do calor das platéias brasileiras, após uma excursão na Europa, com Marcelo Bonfá e a Caravana Americana.
O resultado dessa interação comprovou que a Legião Urbana vive – já que, segundo o próprio Renato, ela é composta pelos fãs. Quantas bandas atuais levam os admiradores a manter em sua memória cache por tantos anos letras longas e com refrão escasso como “Índios” ?

Um Dia Perfeito
A estadia da trupe em Pel

O ônibus com a banda chegou ao Hotel Manta no meio da tarde. Horas depois, passagem de som no JG. Na saída, Dado e os músicos caminharam até a esquina com a Católica, onde tomaram táxis ao hotel. No início da manhã seguinte ao show, a turma já rumava serra acima.

Força sempre: Bruno e Uiliam viajaram 110 Km para o show e conseguiram autógrafos e fotos com Dado

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Sargento Garcia, banda contumaz no JG, animou a noite antes e depois de Dado

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Dedicação ao Rock I: João Lopes, do João Gilberto Bar, trouxe os ícones nacionais do estilo um dia antes de viajar para ver Paul McCartney em SP

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II. SANTA MARIA, 19.11.2010. BOATE KISS

Dois anos após o show do Jardim de Cactus no Hotel Morotin, Dado se reencontrou com os santamarienses para um repertório idêntico ao da véspera, em Pelotas. Antes e depois do rock, o DJ Juliano Paim é quem pilotava pickups e telões.

Dado e Toni prestaram seu tributo à Legião

Dylan também foi lembrado com Dado na harmônica

A guitarra ficou de lado para cantar “Índios”

Visão alternativa do palco, pela lateral externa ao salão principal

Dedicação ao Rock II: Kiko Spohr traz à sua boate nomes como Cachorro Grande, e em sua banda  Projeto Pantana divide palco com Alemão Ronaldo e Duda Calvin

Dedicação ao Rock II: Kiko Spohr traz à sua boate nomes como Cachorro Grande, e em sua banda Projeto Pantana divide palco com Alemão Ronaldo e Duda Calvin

O Reino Animal, versão 2.010

A banda atual de Dado aproveita o nome de seu projeto experimental pré-Legião. Saiba um pouco mais sobre a fauna dos músicos de apoio:

Lourenço, Renato, Caio e Laufer

Lourenço, Renato, Caio e Laufer

Se você conhece o rock nacional dos anos 80, conhece o baixista Carlos Laufer, mesmo que nunca tenha visto sua imagem. Nos clássicos da neo-filosofia tarada de Fausto Fawcett como “Kátia Flávia” e “Rio 40 Graus”, era ele. Está sempre co-produzindo projetos, como foi o Básico Instinto, que viajou o Brasil nos 90´s, e o primeiro álbum de Dado. Ainda mais low profile que Villa Lobos, demonstra tarimba até quando toca com três cordas.

O drummer Lourenço Monteiro tem vida paralela bem intensa fora do Reino. Além de sua banda Cabeza de Panda, colabora com artistas do quilate de Marcelo D2 e a banda Tantra. Jornalista formado, é uma espécie de diretor do soundcheck, onde auxilia a mesa de som, cantando inclusive, e garante a descontração.

O guitarrista Renato Ribeiro chega a se encarregar dos principais solos em alguns momentos, como ocorre em “P´ros Que Estão Em Casa”. Emplacar um trabalho solo parece uma tendência quando assume o vocal da canção que conquistou no set.

Nas teclas, um concentrado Caio Márcio pouco abre os olhos durante o show, parecendo literalmente viajar entre os timbres sinfônicos herdados de Renato Russo e as outras possibilidades mais ritmicas do repertório solo.

Um-dois, som… testando !


Tanto no intimismo do bar (Pelotas) quanto na amplidão da boate (Santa Maria), a passagem de som da banda foi bem extensa, minuciosa. Rolaram músicas como “Blue Monday” do New Order, e “No Alarms” do Radiohead.

Nesse momento entra em cena o papel fundamental do engenheiro de som
Fernando Fischgold, que não se constrange ao sacrificar um pouco os colegas, mantendo-os no palco até atingir a maior harmonia possível para os ouvidos do público.
Além dos citados, a equipe é formada ainda pelo roadie e pelas duas assessoras do manager Alexandre Soares. Ele informa a intenção de ampliar ainda mais as excursões pelo interior. Já tem como certa a volta ao Sul para o lançamento do novo álbum em 2011. E o projeto da tour Sete Cidades, com Bonfá, está de pé – a ideia agora é fazê-la em parceria com as prefeituras dos municípios.

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Entrevista Exclusiva com Dado

Dado Villa Lobos prevê Colapso para 2011

Ex-Legião Urbana trabalha em pré-produção de segundo álbum solo
[ Entrevista exclusiva concedida em 18.11.2010, em Pelotas ]

O artista segura o material que levei para autógrafos: a primeira Bizz que comprei (por causa da Legião), o CD Jam 80 (já com Toni Platão).

Começando pelo disco novo… tinha um nome definido, depois mudou, não?

Dado>> É, não sei ainda. Tem essa ideia do “Passo do Colapso”, que era uma ideia que tava vindo, assim. Mas, que no fundo, no fundo, o disco questiona a vida como ela é – as relações da vida no dia a dia.

Então tem um conceito fechado ?

Dado>> Mais ou menos, mas, justamente: aí abriu. Primeiro comecei com a ideia de “realmente estamos vivendo um colapso quase sem volta” mas, assim: é um ciclo do colapso. Mas ainda as ideias estão em andamento, fechando o repertório. Aí comecei a ver que na verdade o disco falava de outras coisas também, ainda não consegui fechar justamente essa ideia. Mas na verdade estava pensando agora em canções – é um disco muito mais de canções, e no meio do caminho entra a ideia de colapso.

Quais as músicas que vão entrar ? “O Homem que Calculava”, que já está nos shows, entra ?

Dado>> Vai. É toda uma relação com o Nenung – a música “O Passo do Colapso” ele escreveu a letra, em cima de uma ideia que falei. É um grande parceiro.

A música “Overdose Coração” teria potencial para trilha de telenovela…

Dado>> Com certeza. A ideia é assim – o refrão tem título de novela… “mel no sangue”, “cântico dos cânticos”, “amor, sublime amor” (risos)

Já está definido o primeiro single ?

Dado>> Não. Acho que trabalhando as coisas desse jeito, ainda está bem longe de fechar. Primeiro trabalhar o repertório, fazer, realizar, gravar. A previsão seria o primeiro semestre. Vai sair pela Rock It ! com a distribuição de alguma gravadora.

A noticia de que o álbum terá a participação do guitarrista do Calypso surpreendeu…

Dado>> Eu cruzei o Chimbinha um dia. Foi muito bacana, uma noite muito especial. Aí pensei nele tocando nessa música, que inclusive é minha e do Nenung também, “Lucidez”. A ideia é trazer também os Paralamas pra gravar com ele…

Ela tem um traço latino então…

Dado>> Não exatamente latino, é uma música mais praiana. Acho que encaixaria bem os dedilhados, a pegada da guitarra do Chimbinha.

E a parceria com o outro gaúcho, o Marcelo da Robô Gigante, como surgiu ?

Dado>> Gravei duas músicas que ele me mandou: “Paralisado” e “Tudo Bem”. Ele é cantor e guitarrista. Encontrei da última vez que estive aqui e tocamos umas músicas.

Pareceu inusitado o tributo à Legião no Uruguai em 2008, para o qual tu e o Bonfá foram convidados. Como é a cena lá, existe um séquito de fãs ?

Dado>> Aconteceu assim: um amigo que agora é nosso manager, apresentado em 2008 pelo Hermano Viana, passou a ideia: “Tem um pessoal no Uruguai que tá querendo fazer uma homenagem à Legião Urbana, e pretende levar você e Bonfá”. Tenho uma ligação especial com Montevidéo, morei lá quando garoto. Aí, falei: “Pô, legal ir pra Montevideo tocar”. O resultado é que são grandes bandas: La Vuela Puerca, No Te Va a Gustar e metade do Bajo Fondo, que são metade uruguaios e metade argentinos. Eles prepararam um repertório de 20 músicas. A gente entrava na décima-primeira e tocava junto com eles. Foi muito bonito, ficamos muito amigos. Tinha uma ligação com a Legião, aquela coisa da fronteira, a música chegou até lá.

Em Santa Maria, onde vocês vão tocar, existe uma festa “Clube da Criança Junkie”…

Dado>> hahaha. Jura ?!

O que era esse clube, e qual era o teu papel nele ?

Dado>> Isso era uma brincadeira do Renato. Adolescente em Brasília, interiorzão… Como todo adolescente, a gente tinha um bando de garotos, que ia catar cogumelo no pasto, tinha uns chás de Beladona – tudo muito natural. Eu era muito garoto, e o Renato era mais velho, aí um dia ele falou, me deu essa alcunha: (imitando) “Você é o presidente do Clube da Criança Junkie”. Falei: “Não, não, nada disso!”. Mas era só uma brincadeira: a gente passava o fim de semana zoando geral e eramos bem garotos.

O teu estilo de guitarra está mais para Johnny Marr e Robert Smith do que para as distorções de um Malmsteen ou Satriani… como você o define ?

Dado (Fazendo gesto de reverência aos guitarristas dos Smiths e Cure)>> Não sei cara, acho que é bem simples, acho que é mais melódico, harmônico, e às vezes algumas frases que saem, algumas ideias, são bem colocadas, acho que a ideia é essa: de fazer a música andar. A guitarra sendo um instrumento harmônico que compõe bem e harmoniza bem com o resto da canção, enfim. A ideia é harmonizar sempre.

Havia uma espécie de “padrão Legião” de sonoridade, definido pelo Renato, que sempre voltava aos mesmos timbres de teclados, e às cordas de violão e viola. Musicalmente, isso era um limitador para ti ?

Dado>> Depois de um certo tempo, no Descobrimento do Brasil, a gente falou: “Pô, vamos dar uma geral aí”. Experimentar um pouco mais, na verdade você tá dentro do estúdio pra isso: não ficar sempre naqueles timbres de teclados, né ? Que era as cordas do Juno 106. Sempre acreditei que existiam outros sons também que comporiam bem, dentro dos arranjos. Mas Renato, ele gostava muito daquela sonoridade, daquele negócio.

O Renato ainda conseguia se comunicar na tua visita ao apartamento dele, dias antes da morte ?

Dado>> Não, o que foi muito triste, justamente. Foi uma semana antes.

Quando foi o último contato com ele ainda consciente ?

Dado>> Nas mixagens de A Tempestade. Aí a gente meio que teve um bate-boca assim… mas tudo certo, normal. Depois a gente se falava pelo telefone, tava tudo certo. Então quando eu fui visitá-lo, foi realmente uma grande surpresa.

Vocês imaginavam uma turnê para o álbum ?

Dado>> Não, turnê não.

Por causa da saúde do Renato ? Ou por outro motivo ?

Dado>> A gente não fazia muito essas coisas, não saia muito pra rua. Depois de um certo tempo era complicado. Mas ali no momento da Tempestade, eu vi que a gente ia ter que dar um tempo mesmo… mas sempre acreditando na ciência, na medicina… que aquilo seria um quadro reversível.

O que ficou incompleto ? Tem algo que tu queria ter dito ao Renato, ou feito, e que quando percebeu já não era mais possível ?

Dado>> Tem um monte de coisa que você gostaria de ter falado pra pessoa, que a pessoa se foi de um jeito tão repentino, dramático e drástico, que ficou… “cara, esse cara foi embora e eu tinha que ter falado certas coisas pra ele”. Disso… a gente ter meio que se desentendido no final… essa coisa de briga de família, de irmão falar. Tipo, ´cê tava dando um tempo….

E aquele verso de “Leila”, “no domingo cachorro-quente com as crianças na Fernanda”… é a Fernanda Villa Lobos ? É um fato vivido pelo próprio Renato ?

Dado>> É, a gente domingo ia lá pra casa. A gente tava no Rio trabalhando e tal, chegava o domingo e a gente chamava os amigos pra comer cachorro-quente, jogar um jogo, conversar, ouvir música.

A gente mitifica a imagem do poeta amargurado… Mas então o Renato tinha seus momentos de descontração ?

Dado>> Claro… quando ele queria, ele era muito bem-humorado, muito pra cima… um cara dinâmico e tal, esperto… agora, oscilava entre esses momentos bacanas e a solidão. Basicamente, ele era um cara muito sozinho, não conseguia evitar.

A parceria com o Nenung nunca te trouxe ao Kadhro Ling (templo budista em Três Coroas) ?

Dado>> Não, conheço de fotos… eu me identifico.

Qual é a tua “orientação espiritual” ?

Dado>> Sou totalmente agnóstico, ateu. Sou quase um mitômano, tenho santinhos colados no estúdio. Gosto muito das imagens e das histórias, não que eu siga um dogma, coisa da igreja…essas religiões monoteistas. Mas o o budismo tem essa coisa muito mais leve, eu acho e muito mais voltada pra você ali, junto.

A letra de “Diamante” é totalmente inspirada em budismo…

Dado>> Foi a primeira música que gravei. Eu ouvi ela em 98. Era voz e violão. Fizemos uma gravação. Ali foi o que bateu, foi quando me conectei com os Dharmas e o Nenung.

Vocês se encontraram nessa vinda ao Sul ?

Dado>> Aqui, ainda não encontrei. Eu tava viajando, tô há um mês fora. Cheguei sábado, domingo fui a Belém, toquei lá no Se Rasgum com os Porongas, foi incrível. Cheguei segunda à noite no Rio, na terça, tinha umas entrevistas pra fazer. Correria desgraçada.

A Rock It ! lançou artistas como os gaúchos do Ultramen e Comunidade Nin Jitsu. Agora que ela não é mais uma gravadora, qual a tua contribuição, no lugar dela, para o cenário independente ?

Dado>> O lance da produção musical, fonográfica ficou bem complicado nesse momento. Continua demandando dinheiro, investimentos e tal. Você sempre tem que estar com uma estrutura. Primeiro você tem que satisfazer o artista, ele nunca tá satisfeito. Difícil. E hoje os meios de propagação estão mais fechados, eu sinto. No lugar, eu tenho buscado sempre trabalhar em estúdio. Estar gravando alguma coisa, produzindo alguma coisa. Acabei de fazer uma trilha do Malu de Bicicleta. E o curta do Nicolas Behr. E aí eu me ocupo assim, algo que eu realmente gosto de fazer. E da música, seja a serviço do que for: um curta, um longa, uma canção, um disco. E estar ao vivo tocando também, maravilhoso.

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Chacundum: a aposta no ritmo de Toni Platão

Cantor fala de seu novo disco, convívio com Renato Russo e vários relatos biográficos

Os fãs de Toni Platão que esperavam um novo álbum para o semestre que acaba, conforme anunciado no site oficial do cantor, vão ter que esperar um pouco mais. As gravações de Chacundum em estúdio só começam em maio de 2011, devido à agenda do produtor escolhido: Berna Ceppas. Toni, porém, vem trabalhando em ritmo workaholic em sua concepção: “Montei um estúdio em casa e tô há uns três meses enfurnando sozinho, compondo e pre-produzindo. Em janeiro começo a ensaiar com uma nova banda, que ainda não sei qual vai ser, e até o final de março pretendo fazer shows no Rio de Janeiro, pelo menos, antes do estúdio”. O nome do disco tem justificativa: “É mais ligado ao ritmo, a parte ritmica é de onde vão sair as coisas. A maior parte das músicas começa com um riff de guitarra, ou uma linha de baixo, mas acabo achando uma batida ou loop que me sirva e que acaba determinando o rumo das canções – mas a ideia é ter um disco ‘orgânico’ mesmo, com músicos tocando”, avisa. O repertório ? “Estou com 12 músicas minhas – duas já com letras e acabei de dar uma pro Fausto Fawcett escrever. Devo voltar a escrever letra, que não faço desde o Caligula Freejack – disco que fiz com o Dado Villa Lobos. Depois, meu trabalho ficou muito calcado para intérprete. Havia necessidade de voltar a compor e fazer um trabalho meu mesmo, faz muito tempo que canto músicas dos outros!”. Ainda assim, as parcerias aparecem em Chacundum: “Tem quatro ou cinco canções que me mandaram, maravilhosas: ‘Já É Tarde’, balada fortíssima do Márvio dos Anjos, sobrinho-neto de Augusto dos Anjos, o poeta. Ele é jornalista e cantor da banda Cabaret. Uma do Frejat, e outra do Alvin L.” Toni surpreende ao mencionar o antigo colaborador. Em 2000, Alvin teria entregue ao Capital Inicial a canção “Por Tudo Que Vai” sem avisar aos autores Dado e Toni. O tema da letra é o fim de um relacionamento do ex-Hojerizah. A versão com Dinho virou megahit, alavancando a vendagem do Acústico MTV em detrimento da original de Toni. “Isso já está superado. Não nos aproximávamos há algum tempo, mas Alvin me ligou para que eu gravasse para uma trilha que ele estava compondo com produção de Gustavo Corsi (Picassos Falsos), outro grande amigo. Somos todos amigos há muito tempo: eu, Alvin, os meninos do Capital”, assegura.

Memórias dos 80´s: literatura e JIM MORRISON com RENATO RUSSO

Os primeiros shows da Legião no Circo Voador tiveram Hojerizah e Capital

Os primeiros shows da Legião no Circo Voador tiveram Hojerizah e Capital

A atual turnê em conjunto com Dado Villa Lobos resulta de uma longa parceria que tem raizes nos anos 80, quando as bandas de origem de ambos conviviam: “Os dois primeiros shows do Hojerizah, Legião Urbana e Capital inicial no Circo Voador foram juntos. Nós abríamos para eles que estavam chegando no Rio.
Toni tem vivas recordações dos encontros com o hoje lendário Renato Russo:
“Eu e Renato, a primeira afinidade fora a música que tivemos, era conversar muito sobre literatura. Eu era um garoto, tinha 19 anos e li aqueles clássicos todos: Dostoievski, Lawrence, Kerouac, Scott Fitzgerald. Falávamos também do Ian Curtis, do Joy Division, e do Jim Morrison… Em nosso segundo encontro, umas duas semanas depois do show do Circo, ele falou: ‘Comprei um presente pra você’. E era Uma Oração Americana, do Jim.
Anos depois, ganhei esse livro – eu tinha dois em casa. Muito estranhamente eu esqueci essa história. Nessa noite conversando sobre Jim Morrison, a gente falava muito do assunto de morte, morrer cedo, não sei o que… aí ele me deu o livro. Na semana em que Renato morreu, que foi uma coisa muito estranha pra quem conviveu e viveu com ele – muito dos anos 80 com a morte do Renato, acabaram ali pra mim. E uma semana depois eu puxo na prateleira de casa esse livro, e quando eu abro, me lembro de tudo e vejo a dedicatória do Renato, que ele terminava assim ‘Take care’, pedindo pra eu tomar cuidado, e eu olhei aquilo e falei: porra, quem tinha que ter tomado cuidado era ele… não eu”, lamenta, com ar reflexivo. “Aqueles anos 80 foram anos muito de farra pra todo mundo ali. A gente acabava todo mundo frequentando uma mesma turminha: o pessoal do Paralamas, Bi Ribeiro mesmo, tava sempre com a gente. Isso foi em 1983. E o Dado é um irmão que ganhei na vida”.

O Sul
Em 2007, Toni participou de uma faixa do CD de estréia da banda gaúcha Izmália: “Flores no Final do Corredor”. Ele lembra que a parceria “pintou lá no Rio. Izmália é prima de uma grande amiga, a atriz gaúcha Suzana Saldanha, que trabalha com Domingos Oliveira. Acabei indo ver o show e as coisas rolam assim, não tenho muita frescura nisso. As pessoas me procuram e se eu gosto do trabalho acabo fazendo as coisas junto”. A interação com gaúchos vem de longa data: “O Hojerizah era uma banda estranha: tirando Picassos Falsos, a gente se relacionava mais com as bandas de fora. São Paulo. Brasília: Capital, Legião, Finnis Africae. E as do Sul – TNT, que gravou com a gente, e faziamos muitos shows junto. Não tenho mais contato com aqueles meninos”, reclama. “Nunca consegui vir fazer show no Sul, é uma vergonha ! Já fiz muito mais Nordeste, mas credito que tive muito mais execução em rádio, tanto Hojerizah como solo, no Sul. Participando do show do Dado, espero abrir um caminho pra que eu possa vir ano que vem lançar meu disco”.

Carreira “doida”
Avaliando sua carreira, Toni considera algumas coisas como “malucas”: alguns de seus sucessos solo ocorreram muito depois dos respectivos lançamentos, como “Q´Eu Vou Estar Aqui”, e “Caligula Freejack”, que estouraram ao entrar em telenovelas. “Depois de a minha gravação da música do Márcio Greick entrar em novela, quando fui lançar o DVD me chamaram para regravar ‘Moço Velho’ também para novela. Mas como eu já estava com o DVD pronto, essa acabou não entrando, mas apenas como bonus track no CD” exemplifica. “Minha carreira tem um pouco disso, faz com que eu circule muito no underground, sem nunca ter a sorte de ‘encaixar’ um trabalho, como eles dizem, em massa. Mas não tenho aversão ao mercado, até funciono nele de alguma forma. Acho que é mais contingência – durante muitos anos fui desleixado com a minha carreira, deixava as coisas correrem muito frouxas e de uns anos pra cá eu tenho andado mais centrado.” O artista atribui a mudança de atitude, em parte, ao relacionamento com a coreógrafa Déborah Colker: “Aquela mulher é uma usina de trabalho ! Ela não para, trabalha feito eu nunca vi na vida, e estou assim agora (risos). Passo 10, 12 horas trabalhando em estúdio – e nunca fui disso. Ela me joga muito pra cima, conheço-a desde 97”. Há influência da esposa na cenografia do show ? “Ela me trouxe o Gringo Cardia, que dirigiu meu DVD em uma concepção própria dele, e ganhei o Prêmio da Música Brasileira 2009”.

Relendo o Poetinha: é o Pagode do Punk

Comento com Toni – que já gravou “Louras Geladas” do amigo Paulo Ricardo – que o ex-RPM está lançando um disco onde relê Vinícius com roupagem atual. Platão também prestou tributo ao mestre quando gravou “Canto de Ossanha”, e revela a inspiração: “tem uma versão do Baden Powell e do Vinícius de Moraes com a Elis Regina que é arrasadora! durante alguns anos eu tinha um projeto, o ‘Pagode do Punk‘, que era pegar clássicos da Música Popular Brasileira e ‘destrui-los’ com uma roupagem punk. Comentei isso muito com o Dado e acabamos fazendo em “Canto…”, quase tudo ali é o Dado tocando, programando… ele arrebenta, tem um solo de guitarra genial nessa versão. E o ‘Pagode do Punk’ ainda pode rolar”, cogita.

Ex-futuro Guitar God
Inicialmente guitarrista-base da Hojerizah, Toni atualmente voltou a ser multiinstrumentista em seu estúdio, criando calos por trabalhar até à noite. Mas é exigente na auto-avaliação: “Toco tudo, mas toco mal. Na escola punk da qual eu venho, eu me viro”. O artista, no entanto, teoriza sobre uma possibilidade eliminada em sua tenra infância: canhoto apenas de pé, observou que seu filho Antônio Bento é todo canhoto, e escreve com a esquerda. “Você também escrevia, só que na época, amarravam o braço para você passar a escrever com a direita”, foi a história que ouviu de familiares. “Vocês podem ter matado o novo Jimi Hendrix !”, exclamou.

Ex-futuro jornalista
Três períodos antes de Toni se formar jornalista, a agenda do Hojerizah interrompeu sua faculdade até hoje. Mas ele não estava muito para as redações, conforme conta: “Entrei na primeira faculdade, de Física, aos 17 – queria fazer Física Nuclear ou Astronomia. Mas começando a tocar violão, vi Jimmy Page no “Rock é Rock Mesmo(documentário do Led Zeppelin) e falei: ´Eu quero ser isso´. Larguei a faculdade. Mas um garoto de classe média carioca largar a faculdade pra fazer música, isso não existia no Brasil, e foi uma pressão muito grande lá em casa: ‘Cê tem que fazer outra faculdade!’ Aí pensei: ‘O que tem a ver com música? Jornalismo, tem algo a ver’. Pra total loucura da minha família, entro no Jornalismo em 1982 e o Hojerizah se forma lá dentro – a faculdade me levou de vez pra carreira de música!”.

A escolha de Kaos
Além de Marcelo Larrosa e Flávio Murrah, o núcleo inicial da Hojerizah contava com Manolo Kaos. O integrante batizou a banda, mas duas semanas antes da estréia no extinto bar carioca Western Club, fez uma opção: deixar o trabalho que estava “sério demais” para os colegas quando ele só queria diversão, e formar-se em jornalista. Hoje Manolo é radialista em Portugal.


Uma voz tricolor

O radialismo também se tornou opção para Toni desde 2002, como representante fluminense no programa Rock Bola. O tricolor carioca convicto prefere a neutralidade entre tricolores gaúchos e colorados: “Já torci pra ambos, e admiro muito o futebol gaúcho. O Renato Gaúcho é um grande ídolo do Fluminense e do Grêmio, e torci pelo Dunga, eu brigava no programa porque acho ele um exemplo de jogador”.

Conhecendo Danúbio Gonçalves

Referência viva no mundo das artes relembra o Grupo de Bagé

“A arte é para todos, não para uma elite”. A avaliação parte de um nome incontestável das artes gráficas: Danúbio Gonçalves. Coerência total com a escola que lhe projetou na metade do século XX – a do antológico “Grupo de Bagé”, cuja história ele rememora, em fragmentos, para o Blog. Danúbio é o único dos dois remanescentes do Grupo que ainda reside no Rio Grande do Sul, enquanto Glênio Bianchetti mora em Brasília. Suas gravuras primam pela temática realista, o que justifica assim: “As obras tem que se comunicar visualmente, sem necessidade de ser explicadas. O abstrato não diz nada”. Ele acaba de ser convidado para produzir um grande painel na reforma de um forte militar em Jaguarão, e defende o uso do formato, pois “dá um contato com pessoas que nunca entram em museu”.

OS PAINÉIS DE DANÚBIO:

1. “Epopéia Farroupilha”, Estação Mercado Público (2008)

2. “Centenário da Imigração Judaica” – Rótula Carlos Gomes/Protásio (2004)

O “Grupo de Bagé” – alcunha criada pelo escritor Carlos Reverbel, segundo Danúbio – é um dos referenciais que mais desperta orgulho na cidade de origem. Em meados dos anos ´40, os artistas integrantes popularizaram suas obras mediante temas regionalistas e cotidianos, democratizando a arte de modo associado aos movimentos sociais populares. Em conexão direta com a capital gaúcha (onde criariam o Clube da Gravura), influenciaram definitivamente a arte regional, e por conseguinte a brasileira, com reconhecimento no exterior. Foi a deixa para o artista bajeense ganhar o mundo. Ao reconstituir o contexto da época, sua memória descreve como “autodidatas” a Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti, e como “um importante intelectual” a Pedro Wayne, de quem, mais tarde aproximou-se Zé Morais. Carlos Scliar: grande amigo e divulgador do grupo, através, por exemplo, da Revista Horizonte. Particularmente, foi por meio de Scliar que Danúbio sofreu grande influência do taller gráfico mexicano, através de materiais trazidos do convivio direto com Leopoldo Mendez. >>

Se o acesso à cultura de então não dispunha da tecnologia atual, Gonçalves se alimentava artisticamente pela observação direta: “Conheci mais de dez países, e vivia em museus”. Além disso, frequentava a casa de Portinari e Burle Marx, seu vizinho. Como referência literária, aponta Érico Veríssimo, revelando uma admiração mútua entre ambos que teve continuidade na geração seguinte, com Luis Fernando.
Danúbio recorda que teve noção da notoriedade a que fora alçado pelo Grupo atráves dos convites para exposições: “Cheguei a fazer uma retrospectiva com 300 obras no Masp, na época”. Não tardou para o êxito internacional ficar demonstrado com a primeira mostra na galeria francesa L´Oeil de Boeuf, mantida pela bajeense Ceres Franco.

Entre amigos:Danúbio (extrema direita) e Mário Lopes (ao centro). Também na fotografia: Tarcisio Taborda, Carlos Scliar, Glauco, José Mayer e José Henrique. Foto: Mário Lopes/arquivo pessoal

Questionado sobre a falta de vanguardismo em artistas da atualidade, Gonçalves reflete: “Acho que é um ciclo. Hoje não se trabalha o conceitual, copiam a vanguarda antiga. Até o ‘modelo vivo’ tiraram ! Percebo pelos jovens que me procuram, querendo aprender a desenhar…”.

Apesar de “aproveitar a tecnologia como base”, Danúbio produz gravuras basicamente em processo manual, com técnicas de aquarela e monotipia.

Para ele, o volume de itens de sua produção (da qual mantém a maior parte em casa) deve-se a ter começado a dar vazão com apenas três anos de idade à aptidão artística, que considera “um dom”, já que não descende de artistas – o pai era estancieiro. Bem mais tarde, as filhas de Danúbio também preferiram os ramos da Arquitetura e comércio.

Hoje colaborador do Jornal e da Revista Fala Brasil, Gonçalves em seu discurso procura reverenciar constantemente aos locais importantes em sua trajetória, como o Atelier Livre (junto ao Teatro Renascença), Margs e Fundação Iberê Camargo.

Para o lançamento do documentário “Danúbio, o Filme”, o homenageado e o diretor Henrique de Freitas Lima, da Cinematográfica Pampeana, estiveram em Pelotas, com destino a Bagé no dia seguinte, para exibições públicas da obra. Encontramos a dupla no hall do hotel em Pelotas, quando concediam entrevista à TV Pampa local.

A equipe de Camila Martins abordou os detalhes do obra de Danúbio e Henrique

Danúbio comemora a recepção do filme, “que tem sido bastante elogiado”, e a parceria com Henrique, para a qual prevê novos frutos: “Ele vai me ajudar a transformar minha casa e atelier em instituto, devido ao valor histórico e arquitetônico encontrado ali”. O contato entre ambos iniciou há dez anos, quando Lima encomendou a Gonçalves uma ilustração para a abertura de filme sobre João Simões Lopes Neto. Por sugestão de Danúbio o trecho foi produzido como uma animação, cujo resultado ele admite que apreciou muito.

Henrique exaltou vários aspectos do artista e amigo, como o fato de o mesmo ser “um professor sem formação acadêmica”, e também “sua visão da vida e das mulheres”. Destacou alguns detalhes da passagem da dupla pelo México, como a visita a pirâmides e a touradas – apesar de Danúbio ter se recusado a testemunhar a agressão ao animal. Uma das constatações de Lima ao longo do trabalho, e que ele busca superar, é de que “ainda existe uma barreira de comunicação do gaúcho para com outros povos”.

Raridade

Acima, reprodução impressa da xilogravura “Sapata”, de Danúbio, publicada em outubro de 1949 no veiculo “o Mensário”, do qual fazia parte o jornalista Mário Lopes (ao lado), detentor do original.

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O Sul pronto para Dado

A fachada do Bar João Gilberto, em Pelotas, anuncia o evento da próxima quinta-feira. Dado Villa Lobos, Toni Platão e banda vão apresentar um show dividido entre os trabalhos solo do guitarrista e os clássicos da Legião Urbana.
Dado acaba de tocar no festival Serasgum, no Pará, onde mais uma vez acompanhou a banda Los Porongas, que já produziu. Antes, passou 19 dias na Espanha, onde se apresentou por três noites com Marcelo Bonfá e mais dezenas de convidados no projeto La Caravana Americana, do artista espanhol Xoel Lopez.
Já tendo trabalhado com vários artistas gaúchos como Ultramen, Comunidade Nin-Jitsu, Dharma Lovers e Marcelo Gigante, Villa-Lobos volta ao Sul, onde esteve em 2008, em momento de intensa atividade, entre o advento de duas novas trilhas sonoras, e a pré-produção do segundo álbum solo de carreira. Começa por Frederico Westphalen na quarta, 17, e após Pelotas, ainda passa por Santa Maria dia 19 e Três de Maio no dia 20.

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Theatro Guarany em pé para os Detonautas

Metade do show. Conforme a canção avança, o público sentado nas cadeiras e camarotes vai levantando aos poucos. Em instantes, o Theatro Guarany inteiro está em pé, vibrante, cantante. Tico Santa Cruz exclama ao microfone que foi a reação “mais foda” à composição “Só Nós Dois” até hoje. A cena ocorreu na noite de quinta, 09, em Pelotas, primeira cidade a receber os Detonautas, após o retorno de apresentações no Japão, para uma turnê de seis datas no Sul. De início, a platéia parecia em dúvida sobre como interagir com o espetáculo – a expectativa de arranjos mais suaves promovendo o mais recente CD/DVD foi surpreendida por guitarras totalmente plugadas e uma banda a fim de oferecer peso. “Esqueceram de avisar pra gente que o show é acústico.”, brincou o cantor. “Espero que não se importem de ouvir guitarras. Vocês se importam se a gente continuar ´pegando pesado´ ?” Resultado: nas primeiras músicas, além da barricada de fotógrafos entrincheirados diante do palco, fãs exaltados já pulavam frente às primeiras filas de cadeiras, para desconforto dos devidamente “acomodados”.

Platéia em dois momentos: comportada na expectativa de arranjos acústicos...

Platéia em dois momentos: comportada na expectativa de arranjos acústicos...

...e depois, sob o devido efeito da vibe emanada do palco

...e depois, sob o devido efeito da vibe emanada do palco

Esse foi apenas um dos picos de sintonia emotiva entre palco e audiência. O afiado entertainer Tico incitou ao coro no final reggae-estendido para “Quando O Sol Se For”. Trouxe ao palco uma garota do público para recitar poema no meio de “Olhos Certos”. Explicou que “Só Por Hoje” alude a uma frase-lema dos grupos de reabilitação de viciados em alcoolismo e drogas. E ainda, no final do show, com “Outro Lugar” pediu que cada um abraçasse a pessoa ao lado, estimulado pela mensagem “abraços grátis” em um cartaz exibido por fãs.
Sem falar na corrente por vibes positivas, com mãos levantadas, próximo de a banda prestar tributo a Raulzito emendando “Metamorfose Ambulante” e “Sociedade Alternativa”, entremeadas com discurso pró-liberdade individual. Outra cover inesperada foi “Ainda É Cedo” da Legião Urbana.
Tudo isso veio encartado entre os hits aguardados: “Você Me Faz Tão Bem”, “O Amanhã”, “Tênis Roque”, “O Dia Que Não Terminou”, “Mercador das Almas”, “Não Reclame Mais”, “O Retorno de Saturno”, “O Inferno São Os Outros”. Em arena ou teatro, o clube dos Detonautas é sempre o do rock.

ENTREVISTA

CONEXÃO NIPO-SATOLEP

A apresentação em solo pelotense foi a primeira depois de a banda ter tocado no último final de semana nas cidades japonesas de Hamamatsu e Toyohashi (no Brazilian Day). “A gente passou só dois dias no Rio, tempo de trocar de mala, lavar as roupas e vir. Teríamos dois shows na Europa mas priorizamos tocar aqui no Sul, que serão seis datas”, revela Tico Santa Cruz. “No Japão, foi show de parque, que mistura público variado – brasileiro, japonês, americano. A galera começou, num primeiro momento, observando, e no final tava todo mundo com a gente, foi uma vitória”. Segundo o vocalista, a banda não tem CDs lançados no mercado nipônico. “Com internet não tem muito esse lance, as pessoas tem acesso pelo próprio site”.
Apresentando no Sul um show distinto do último álbum, os Detonautas ainda não iniciaram a pré-produção do sucessor do Acústico: “Estamos compondo, mas não há um conceito, vamos precisar de mais tempo. A idéia é fazer como no Psicodelia…, onde a gente ficou no estúdio criando, até sair coisas novas, e não só compôr no violão como estou acostumado a fazer, e como foram os últimos discos”.

ATÉ A PÉ DETONAREMOS…

Gremista assumido a ponto de eventualmente ostentar simbolos de seu timão, Tico, que esteve na equipe de transmissão no Olímpico quando da última conquista do Campeonato Gaúcho em 2010, relata as origens da preferência. “Meu tive lá do RJ é um time que não tem muita expressão, o América. Joga campeonato da terceira divisão. Aí escolhi um time de fora”.

UM COMUNICADOR NATO

Para dedicar-se aos Detonautas, Tico interrompeu algumas faculdades iniciadas, entre elas Jornalismo, no fim dos anos 90. “Quando fui fazer Ciências Sociais na UFRJ ia fazer Ciência Política poder atuar como jornalista na área política especializada. Mas enfim depois fui deixando amadurecer as idéias e prevaleceu o meu sonho de fazer som e tal. Ser jornalista é investigativo, tentar passar os fatos de uma forma que as pessoas possam tirar as conclusões delas sem ser necessariamente influenciadas pelos interesses dos jornais. É diferente ser jornalista e ser marketeiro”.
Mesmo sem diploma, o roqueiro demonstrou ser comunicador também de outras formas, através, inclusive, dos meios virtuais:
-Seu Blog pessoal onde descreve fatos reais, além de reflexões e contos eróticos.

-Seu Twitter para o qual retornou há pouco após ter deletado o perfil anterior em seguida de polêmica envolvendo bandas emo. Há algum tempo Tico atravessava madrugadas tuitando, com seu fuso horário particular. Temas, diversos: dicas de livros, como ele também sugere nas letras, já que “O Inferno São Os Outros” vem de Sartre, há uma “Ensaio Sobre a Cegueira”… Meteção de pau no tratamento oferecido pelas companhias aéreas brasileiras. E, entre outras formas de ode ao amor solitário 5 X 1, já é tradicional a sessão do “Proibidão”, vídeos pornôs temáticos para a ocasião – recentemente rolou com japinhas, não por acaso.
Além disso, e nessa linha independente dos impérios midíáticos, Tico apresentava há alguns meses seu Sarau Eletrônico através de streaming de vídeo via Justin TV.
[ Mais no Blog:
https://marcelofialho.wordpress.com/2009/07/01/justin/ ]

Recebeu convidados célebres como Biquíni Cavadão para conversas e jams. O projeto não tem data para retomada: “A gente tá muito sem tempo, e exigia bastante. Passava as segundas feras de descanso fazendo um trabalho que levava seis horas durante a madrugada toda, se tornou um pouco cansativo. Preferi parar pra não ficar fazendo mal feito”.

Entregamos ao Tico CD com demos de algumas bandas de Bagé: Central do Rock, Lactário Ruivo, Marcelo Chroner, Plasma Rock, Ricardo Belleza, Sistema Falido, Twin Cities, The Vermes, Viajantes do Éden

Entregamos ao Tico CD com demos de algumas bandas de Bagé: Central do Rock, Lactário Ruivo, Marcelo Chroner, Plasma Rock, Ricardo Belleza, Sistema Falido, Twin Cities, The Vermes, Viajantes do Éden

JABÁ NO CARDÁPIO DAS GRANDES

Também independente é a postura que a banda adotou em relação à divulgação de seus singles, após terem sido limados de algumas programações dentro do jabá, aliás, método de trabalho de algumas grandes emissoras. “Obviamente que com essas rádios a gente teria muito mais força com o mercado popular. Mas, a Internet privilegia o artista que sabe manipular ferramentas e a gente sempre soube se sair muito bem através dos meios digitais. Detonautas não sofreu nenhum baque por conta do boicote e da censura, muito pelo contrário, fazendo bastante shows, e sempre cheios, as coisas estão acontecendo muito bem pra gente. Voltamos a fazer coisas importantes, voltamos ao Japão, o que mostra que não estamos mais nas mãos desse pessoal, e que eles são importantes mas não únicos. Existem outros caminhos para você poder chegar até o público”.

NUMA PROPAGANDA DE REFRIGERANTES

Domingo, no Pepsi On Stage, em POA, a banda divide os palcos com os Raimundos, cujos lead vocais Tico também assumiu recentemente, de modo eventual. “Conheço desde o começo, nos primeiros shows no Circo Voador, quando nem era conhecida a banda e só tinham disco independente. Uma influência não pro som do Detonautas diretamente, mas pra mim como artista, sem dúvida. Foi um privilegio tocar com os caras, fazer uma turnezinha e shows cheios, festivais grandes. Muito produtivo pra todo mundo que participou”. Na ocasião, também se apresentam as bandas finalistas do Concurso Pepsi Música, de cuja escolha Tico participou. “Eu fiz a seleção do Pepsi em Porto Alegre e aqui no sul foi mais tranqüilo de fazer que em são Paulo, onde só tinha banda emo. Espero ver como as selecionadas vão se desenvolver lá no palco, agora que é a hora do ´vamos ver´, no estúdio você pode parar, no palco não tem como”. Tico fala ainda de sua relação com o rock gaúcho: “Conheço as coisas mais antigas na verdade, as atuais não conheço muita coisa. Tenho contato com a galera do Reação (em Cadeia), do Tequila Baby, com o Tonho (Crocco), com uma galera que já faz o som aí já há muito tempo”.

OBRA-PRIMA

O terceiro disco do DRC, psicodeliamorsexo&distorção (2006), talvez o mais criativo, teve produção do gaúcho Edu K. “Eu já gostava do Edu, conhecia a muito tempo, tinha a história do De Falla e tal, já tinha visto show… e achava que ele era a pessoa certa pra registrar aquele momento que a gente tava vivendo… Pra mim é o disco mais rock and roll do Detonautas, o mais pesado…”
O disco tem punch e muita variedade entre as faixas, e brinca com clichês do gênero – o próprio título parece aludir ao bloodsugarsexmagik dos Chilli Peppers. Porém o ano de lançamento do álbum coincidiu com a maior tragédia experimentada pelo grupo, a perda violenta do guitarrista Rodrigo Netto em um assalto. Pergunto ao Tico se ele não considera aquela obra subestimada pela mídia. “Acho que tudo tem seu tempo. Talvez o disco não teve reconhecimento agora e possa ter no futuro, quando a gente já não estiver mais aqui. Pra gente o que vale é o trabalho e pra gente foi bem bacana e o Edu potencializou isso muito ali com a gente”.
A partir daí, um álbum com menor peso e maior romantismo, incluindo a candidata a hino pacifista “Canção do Horizonte”, enquanto Tico se engajava também em manifestações contra a violência. Até chegar ao recente acústico, que reconstrói arranjos, em alguns casos completamente, como “Dia Comum” e explicita um link com os anos 80 ao coverizar Plebe Rude e Renato Russo.

MOMENTOS ANTES, EM PELOTAS…

Fãs recepcionaram a banda na chegada ao hotel

Fãs recepcionaram a banda na chegada ao hotel


Devoção: as fãs Júlia Pereira e Adriana Cunha aguardavam a chegada do DRC

Devoção: as fãs Júlia Pereira e Adriana Cunha aguardavam a chegada do DRC

Pelotas celebra show com surpresas de Jupiter Apple

Show de Jupiter Apple no Bar João Gilberto, Pelotas, 25.08.2010

Satolep voltou a receber um Jupiter Apple ainda mais variado do que em novembro de 2009: agora o playlist transita desde os primórdios, das ex-bandas, até os singles ainda não lançados formalmente, como é o caso da canção de abertura, “Six Colours Frenesi”. Seguem-se “Querida Superhist…”, “As Tortas e As Cucas”, e “A Lad and Maid in the Bloom”. Anunciada a primeira “surpresinha” da noite, “composta aos 16 anos”:“Identidade Zero”, reconstruída com arranjo cabaré meio jazzy. “Síndrome de Pânico”. “Beatle George”. “So You Leave The Hall”. Em meio ao set Jupiter empunha a guitarra adicional à de Júlio Cascaes.

Música de trabalho: “Calling All Bands”. Se no palco algumas faixas são despidas de delicados detalhes da produção de estúdio, esta soou mais rock, e foi a deixa para o lado entertainer de Apple incitar um coro cada vez mais alto do refrão. “Um dia será num estádio” desejou. Após “Mademoiselle Marchand” e “Modern Kid”, até mesmo Hisscivilation foi contemplado com a “faixa-quase-titulo”. A seguir, “Miss Lexotan 6 mg”. A segunda surpresa – esta composta aos 18: “Morte Por Tesão” (pausa para pulos do repórter). Novas gerações sendo lembradas que estão diante de um clássico. “Marchinha Psicótica”, “Eu e Minha Ex”. Sem sair do palco, Jupiter avisa: “agora já é o bis”, emendando as recentes “Head Head” e “Cerebral Sex”, e como saideira seu esperado e do caralho hino…