Categoria: Show Bagé

O bis do sucesso do Pouca Vogal


Coisas que o Pouca Vogal consegue: lotar um novo show e emocionar o público como se não tivesse tocado repertório idêntico no mesmo clube apenas sete meses atrás. Isso aconteceu em Bagé. A única novidade no playlist foram os acordes iniciais de “Seven Nation Army” dos White Stripes, no contrabaixo de Humberto – tocado com os pés, assim como o som de cordas que está mais evidente em algumas canções, dispensando tecladista, e os loops que adicionam empolgação em A Força do Silêncio, Pose e Infinita Highway. De resto, as variações sobre os mesmos temas de Leindecker e Gessinger ficam por conta dos detalhes que fazem a diferença. O duo agora é definido por Humberto como a “maior banda do bairro Bela Vista” (sua morada portoalegrense) ao se apresentar, confere o vídeo:

Hoje é Renato Russo quem dava razão a Humberto, no táxi que trouxe o Alemão a Bagé. E na farmácia, quem procurava protetor solar era um emo, não mais o punk.
Além de tudo isso, 1berto esbanja o know-how de palco de 25 anos como engenheiro havaiano. Entre goles em uma caneca de chá, brinca de animar a audiência. Interrompe estrategicamente Somos Quem Podemos Ser várias vezes só para incitar a gritaria, saúda ao Grêmio Esportivo Bagé (em Banco) e por aí vai. Gessinger está solando mais ao piano. Seus improvisos e os de Duca na guitarra tornam cada show único, aparecendo mais nos momentos jam session como o final de Pouca Vogal, a canção.

Setlist – Bagé, 11.06.2011 – Clube Comercial

Depois da Curva
Até o Fim
Girassóis
Breve
Pose
Dia Especial
Além da Máscara
Somos Quem Podemos Ser
Música Inédita
Terra de Gigantes
Força do Silêncio suingada
Pinhal
Toda Forma de Poder/Banco/Dom Quixote/Satisfaction
Refrão de Bolero
Ao Fim de Tudo
Piano Bar
Tententender
3 X 4
O Amanhã Colorido
Pra Ser Sincero
Pouca Vogal
Vôo do Besouro
A Montanha
Os Segundos
Infinita Higway/ Carona
Jingle “rockabilly” de despedida – curte o vídeo com o simpático agradecimento da dupla, na finaleira do show:

Leia também: Resenha do show de 2010:

Bagé entra no coro dos contentes com o Pouca Vogal

Clube Comercial, Bagé, 1º.11.2010

Foto: Débora Mattos

Foto: Débora Mattos

Mesmo com apenas oito composições próprias, repertório não falta ao Pouca Vogal no palco. O duo pinça canções das bandas de origem dos integrantes para surpreender sempre. Em Bagé, longe da execução burocrática do CD “Ao Vivo” de 2009, substituiram duas das 20 faixas do álbum por várias surpresas, como “Piano Bar”, “3 X 4” e “Terra de Gigantes”. Especialmente comemorado o mix de “Infinita Highway/Carona”, com a segunda encartada no clássico de 1987. Foi já no bis, após uma “A Força do Silêncio” mais percussiva que em disco. Apesar da roupagem acústica das músicas, o clima era de show de rock – tanto entre o público, cuja imensa maioria assistiu em pé, quanto sobre o palco. Depois de movimentar a cidade durante o dia, satisfação visível nos rostos de G & L com a vibração emitida pelo clube lotado.
Tocando quase em casa, pelo link familiar que tem com a terra, o Alemão estava pra brincadeira. Inseriu Bagé onde pôde nas letras (como centro do universo em “Além da Máscara” e uma ilha em “Terra de Gigantes”), “confundiu” EngHaw e CQ com Ivete Sangalo e Lady Gaga ao citar seus artistas favoritos. Como ele mesmo disse no Twitter, não é um cardiologista mas um coração – e isso estava muito visível, sob o colete azul da roupa tricolor.
Do lado vermelho da força, a empolgação do Leindecker mais velho veio inclusive nos solos estendidos com improvisos bem diferentes das versões de estúdio.
O PV é uma ode ao descompromisso com os clichês “roquenrôu” como drogas e groupies: o figurino da dupla é o uniforme para o labor de tocar. Ao entrar no palco e assumir dois violões, me soaram como mariachis com a missão de nos entreter naquela noite. Claro que ao longo do show as seis cordas eram divididas com várias ocupações simultâneas – teclas e pedais midi para os pés, harmônica; e alternadas com outras possibilidades como piano. Gessinger tem esse costume desde a formação GLM de seu grupo paralelo. Ele descobriu Dylan e Zé Ramalho décadas depois de Roger Waters e aos 46, sinaliza estar descobrindo o rock “básico”, na levada da canção (jingle?) de despedida/agradecimento. E também ao inserir versos da stoniana “Satisfaction”. Foi depois de uma variação acelerada de “Dom Quixote”, ao final de “Toda Forma de Poder/Banco” – que já estendera tentando descobrir o que ainda emociona os fãs. Causas perdidas ? Time de futebol? Banda? (R.: “Pouca Vogaaal”). A opção “partidos políticos” recebeu vaias, um dia após as eleições. Aliás, a trilha de abertura do show havia sido a ópera “O Guarani” (Carlos Gomes), mas a Hora em Bagé era do Pouca Vogal.

“Vamos todo mundo, ninguém pode faltar”

Os versos de “Pose (Anos 90)” não foram cumpridos literalmente. Clara Gessinger foi o que faltou no palco. A herdeira de Humberto veio a Bagé, onde almoçou churras com torta de sobremesa na casa de familiares, conforme comentou no Twitter. Mas a quinta música da noite não ganhou o toque feminino que valorizou a reinvenção presente no Acústico de 2004.

“Pose” é uma das 12 pérolas de “Gessinger, Licks & Maltz” (1992), conhecido como “G, L & M”, que fecha a trilogia de discos cada vez mais progressivos que os Engenheiros tiveram coragem de lançar no Brasil dos anos 90: antes foram o megaplatinado O Papa É Pop, e o Várias Variáveis, feito às pressas para se antecipar à chegada de Clara.
É uma suite conceitual costurando faixas que se confirmaram pouco radiofônicas.
O nome é uma homenagem auto-irônica aos dinossauros do gênero como Emerson, Lake & Palmer, ou aos caras do Yes quando assinavam dessa forma. No caso dos EngHaw marcou uma formação muito querida e clamada pelos fãs na comunidade do Orkut.
Subestimado pela mídia, é o álbum favorito de muito fã, e traz algo do clima intimista que encontra certa continuidade no Pouca Vogal.

Auxílio luxuoso
A superação de LL

Os bajeenses, todavia, foram presenteados com outro convidado eventual no PV. Humberto costuma referir-se como “Duplo L” ao titular do baixo da Cidadão: Luciano Leindecker. Ele surgiu tocando Quince (instrumento criado por ele) em “Música Inédita”. Depois assumiu o baixo, que tocou em pé, para mais duas colaborações, e ainda permaneceu batucando uma caixa. Enriqueceu não só os arranjos mas o sentido do que se via no palco, com seu exemplo: ao lado de uma dupla que vence a ditadura do mercado com uma atitude genuina, Luciano também era a imagem da superação. Lutando contra problemas de saúde nos últimos anos, nem por isso abandona o prazer de excursionar e pulsar as quatro cordas no ritmo dado pelo bombo legüero do irmão.

Programa Familiar:
show do PcVgl pode ser um, e ainda reunir três gerações: D. Cacilda, a homenageada em “Terra de Gigantes”, a cardiologista Rosália Gessinger e Clarinha – abstenção sentida no palco, mas curtiu a passagem pelos pampas.

Coro dos (muito) contentes: Talvez desafinado, foi quem cantou com Humberto e Duca “Pose” e muitas outras.


Leia também:

Gessinger e a cultura gaúcha: material exclusivo onde HG avalia a influência da música regionalista no rock gaúcho e em sua obra.
https://marcelofialho.wordpress.com/2008/09/08/gessinger/

Sobre o Pouca Vogal (artigo opinativo em versão original do que saiu editado no Blog da RBS)
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/10/27/pvrbs/

Entrevista: “Se eu fosse depender das grandes estruturas não teria uma semana de vida” (Gessinger)

Ao ser entrevistado em Bagé, Humberto Gessinger avaliou o fato de o Pouca Vogal ter sido trazido pela mobilização dos fãs na internet. “Cara, isso sempre aconteceu muito com Engenheiros, a coisa de transbordar e cair na rua. Eu me lembro que uma vez eu dei uma entrevista, tinha saído numa revista uma livrinho com todos fã-clubes do Brasil e não tinha nenhum do Engenheiros. Achei bacana e falei pro Carlos (Maltz) e a gente falou numa entrevista. No dia seguinte a gente era a banda com o maior fã-clube ! Porque parece que as pessoas querem fazer o contrário do que tá acontecendo… Já senti ali que Engenheiros é uma coisa de rua. Antes da internet, a coisa dos fanzines, dos mimiografados, tinha muito, e foi o que segurou a minha onda, porque se eu fosse depender das grandes estruturas eu não teria uma semana de vida. Ao mesmo tempo que eu sou muito grato a isso eu não conheço outro mundo, talvez eu nem saiba avaliar o quanto importante isso é, porque pra mim desde sempre foi assim, ligação direta”.
Ele adianta que o Pouca Vogal não tem data prevista para acabar: “Do ponto de vista estético ele é inesgotável, porque a gente pode passar uma vida não só compondo, como relendo o que já escreveu, porque o projeto joga luzes diferentes sobre. Tem outros fatores girando em torno dum lance desses que não só os estéticos. Mas espero que o tempo que durar seja com intensidade total”.
Na parceria, o processo de criação “pinta de várias formas. Cada um faz a sua parte sozinho, seja música ou letra. Aconteceu casualmente, não foi algo que a gente tivesse se imposto. Muito da composição se passa na parte de trás do cérebro e tu nem sabe o que tá escrevendo, e uma hora cristaliza. Não faz muita diferença se a composição é para o Pouca Vogal ou não. A questão é mais do arranjo que da composição – pra que formato a gente vai fazer ?”, detalha HG.
Como escritor, Humberto tem pronto o sucessor de Pra Ser Sincero (2009, Belas Letras), com título a ser definido pelos fãs: “O PSS é um zoom in, é alguém contando 1, 2, 3, 4, 5. E esse novo é 1,1 e 1,2 e 1,3, quer dizer, ele tá chegando mais próximo. Não sei se vai ser melhor ou pior, mas vai ter essa diferença”, compara.

Os vários talentos de Duca Leindecker

Dez anos antes de Gessinger se autobiografar, Duca lançava “A Casa da Esquina”, e em 2002, “A Favor do Vento”, ambos os romances pela L & PM. A faceta escritor é uma das muitas do multimidiático artista.

Também produziu várias bandas gaúchas em seu estúdio próprio, o Submarino Amarelo, em Porto Alegre, onde recentemente o Nenhum de Nós gravou seu novo álbum, Contos de Água e Fogo. Leindecker ainda produz curta-metragens como “Chá de Frutas Vermelhas”, atualmente em exibição no Canal Brasil, da Globo, e que entrou nos Curtas Gaúchos da RBS em 2009.
Sua esposa Ingra Liberato, protagonista principal de Ana Raio e Zé Trovão, voltou às telas da tevê aberta em 2010 com a reprise da novela.
Em Bagé, DL revelou estar trabalhando um terceiro romance e ter um novo curta já escrito, ambos os projetos inacabados, respectivamente, por insatisfação com o texto, e por falta de recursos.

2. SEGUINDO GESSINGER E LEINDECKER

Como foi o dia do Pouca Vogal em Bagé: entrevistas, autógrafos, televisão e outros pormenores

Ok, confesso. Venho seguindo Humberto Gessinger e Duca Leindecker há algum tempo. E mais, tem dezenas de milhares fazendo o mesmo. No ambiente onde isso acontece, eles se apresentam como @1bertogessinger e @ducaleindecker. Welcome to Twitter.

Foto: Murilo Dotto

Foto: Murilo Dotto

Pelo microblog é que foi possível antecipar nas primeiras horas da segunda-feira que os dois sairiam em ônibus de POA por volta de 2 hs com chegada prevista para as 7 hs. E de fato, no início da manhã Humberto já tuitava fotos do Clube Comercial. Naquele momento, o madrugador @murilodotto (dottoblog.blogspot.com), que chegava para apresentar o Conexão Pop Rock na FM 98.1, capturou seu encontro com o músico.

Ao meio-dia, HG e DL encerraram bloco do Jornal do Almoço local. Responderam ao repórter Chrystian Ribeiro sobre sucesso, excursões pelo Brasil, interação com o público, improviso no palco e o papel de multiinstrumentistas que assumem. E em seguida tocaram “Depois da Curva”, cuja letra fala em deixar passar a ventania – que de fato marcava Bagé desde a véspera.

A íntegra do papo em vídeo pode ser conferida no site da RBS TV Bagé, atualizado por Patrick Corrêa:
http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=147392&channel=45

Retomando a perseguição: fui ao Yázigi porque sabia pela internet que o PV estaria lá. Me antecipei mas encontrei uma fila de fãs. Depois de um hiato, a esperada dupla chegou distribuindo “autógrafos e sorrisos” como Gessinger anunciou ao microfone, e protagonizando, entre tantas, as cenas a seguir.

A diretora do Yázigi Internexus, Maria do Carmo Machado, foi oportuna em explicar a promoção “Band Me Up”, que oportuniza espaço a novas bandas em busca de projeção. Aqui, ela e parte da equipe recepcionam aos músicos.
>>Confira: http://www.bandmeup.com.br/

Entre os fãs mobilizados pela presença do PV, vários músicos (alguns portando instrumentos para que fossem autografados) como é o caso da galera da banda Plasma Rock, na foto. (ao fundo, Leko Machado)

Também trabalharam por ali os enviados dos veículos de comunicação locais, como o Jornal Folha do Sul, representado por Fernanda Couto e Antônio Rocha. Mesmo caso do Rota 20 – na foto, Graciela Freitas grava seu take…

Também Diélen e Marta da Pop Rock FM, que transmitiram ao vivo…

Mas entre os repórteres, provavelmente o coração que bateu mais forte no dia foi o da Niela Bittencourt, do Jornal Minuano. Fã confessa de EngHaw e PcVgl e militante da vinda do segundo, trabalhou na cobertura acompanhada do namorado (e repórter fotográfico) João. Emocionada na presença de Humberto e Duca, lhes revelou que, se vier a ter um casal de filhos, serão chamados Ana e Luciano, em homenagem aos integrantes do PV.

Incidentalmente à esquerda, o autor destas maltraçadas, flagrado pelo mago da fotografia, Leko Machado.

Foto: Leko Machado

Foto: Leko Machado

Falando no Leko, retribuo a aparição – olha ele à esquerda, neste momento tiete da formanda em Comunicação Buca Netto, que compartilha com 1berto a paixão pelo tricolor. À direita, o mascote Humbertinho.

Na verdade o Humbertinho e o Duquinha foram criações artesanais das irmãs Jenifer e Queli.

3. A LONGA HIGHWAY SP-BAGÉ

Fãs unidos pelo PcVgl: Chinelatto (esq.) veio de São Paulo para o show viabilizado por um movimento virtual encabeçado por Leandro Souza (dir.)

A devoção em torno de um artista é também origem de grandes amizades. Foi assim com José Luís Chinelatto, que voou de São Paulo, capital, em sua primeira vinda a Bagé, para o Dia do Pouca Vogal. Desde que se identificou com as canções do álbum Minuano na rádio, em 1997, passou a acompanhar fãs do Sul, onde já veio seis vezes, em cidades como Caxias, Bento, e inclusive na gravação do DVD de 2009 do PV, na capital. Os gaúchos retribuiram as visitas, por exemplo, na gravação de Novos Horizontes, dos Engenheiros, em 2007, e na turnê subsequente. Técnico em Óptica e proprietário de uma casa do ramo, Chinelatto auto-financia suas viagens, pesquisando na internet as passagens mais em conta.

Gessinger e a cultura gaúcha: material exclusivo onde HG avalia a influência da música regionalista no rock gaúcho e em sua obra.
https://marcelofialho.wordpress.com/2008/09/08/gessinger/

Sobre o Pouca Vogal (artigo opinativo em versão original do que saiu editado no Blog da RBS)
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/10/27/pvrbs/

https://marcelofialho.wordpress.com/2010/11/02/pv/

Vitor Ramil em Bagé – 2009

[ Griffe Bar Privé, 01.11.2009 ]

Ao iniciar seu show com duas canções do álbum “Ramilonga” (1997) – a faixa-título e “Noite de São João”, Vítor denunciava um repertório adaptado à cultura local. “Se eu tivesse uma música sobre Bagé teria iniciado com ela”, justificou. “Faz uma”, sugestão ouvida na platéia. “É… vai rolar”, rebateu o compositor.
Só então, com a primeira das alternâncias entre violões que marcariam a noite, apresentou duas do disco mais recente, “Satolep Sambatown” (2007), normalmente priorizado na turnê. “Tambong” (2000) também foi lembrado com várias inserções. Com exceção à “De Banda”, por não lembrar a letra, atenderia pedidos da platéia, celebrando a liberalidade conferida pelo formato voz-e-violão e pelo ambiente: “Fazia tempo que não tocava em bar… com essa zoeira boa”. Com a roupagem acústica, transpareceu ainda mais a musicalidade do artista, que chegou a emular, com a voz, uma percussão no final de “Não É Céu”.
Como habitual, nas interações entre as músicas, Ramil revelou em riqueza de detalhes o momento de criação de algumas, como a biográfica “Zero Por Hora”, cuja letra parodia uma alusão da Jovem Guarda à Rua Augusta; e “Estrela, estrela”, da qual detalhou até a localização do beliche onde a compôs.
Entre os clássicos “inevitáveis”, “Semeadura”, “Loucos de Cara”, e principalmente, “Joquim”, cujo início meio à capella teve côro no público.

Vitor e Marcelo

ANTES DE BAGÉ, SHOW EM CASA
Na véspera, Vítor se apresentara no Theatro Guarany, em Pelotas. No palco, dois violões, e percussão a cargo do carioca Marcos Suzano, co-autor do álbum de 2007. “Foi totalmente diferente, com repertório fixo e mais ‘organizado’ que esse voz e violão, no qual, conversando e tocando, de repente, se toca uma música que não estava prevista”, avalia Vítor.

SATOLEP SAMBATOWN, UM CONCEITO
A obra alia o sambatown do carioca Suzano à estética do frio do gaúcho, mas não reproduz estereótipos de uma suposta alegria do Rio de Janeiro frente a uma tristeza pampeana: “Não é que a estética do frio proponha uma melancolia, nem tampouco exista uma alegria carioca. Nunca penso nesses opostos, não existe isso pra mim. É uma reunião musical, não tem essa idéia. Eu sou um cara superalegre, divertido. Talvez não fique explicito e não se transforme em lirismo na minha música. Apenas, em meus trabalhos independentes, dei maior vasão sem me preocupar. Quando em gravadoras, antigamente, era muito mais forte isso ainda, sempre tiveram uma obsessão com música pra dançar, música pra alegria… e pra eles milonga sempre seria uma música triste. Mas a estética do frio não tem nada a ver com pregar uma melancolia. Se é melancólico em alguns momentos, ou tranqüilo, é porque minha natureza é essa, esse é meu temperamento, é assim que componho”.

NOVO ÁLBUM INCLUI CAETANO
Vítor compara a proposta do álbum já gravado, que deve lançar nos próximos meses, com a do anterior: “Satolep Sambatown foi uma chegada ao que eu me propus lá no Ramilonga, exatamente encontrar uma medida entre a música brasileira e essa música mais ‘sureña’, vamos dizer assim, milonga e tal. Ele consegue essa fusão. Já o disco novo é um prosseguimento, uma segunda etapa, não é um retorno a nada, é um andar pra frente. São novas milongas, novos arranjos, é uma nova busca”.
Na Argentina, onde se deu a maior parte das gravações, Vitor recebeu a notícia de que Caetano Veloso queria participar do disco. Dois meses depois, foi direto de Alegrete, para o Rio de Janeiro, onde se conheceram pessoalmente. “Nem sabia se ele me conhecia. Ele é um cara super legal, gentil, e muito interessado na questão cultural. A gente se afinou muito bem”.

DVD-DOCUMENTÁRIO
O CD novo virá acompanhado de um DVD-bônus: “Um documentário bem simples, bem despojado. Enquanto a gente gravava o disco, foi feito um acompanhamento documentando todas as gravações, minha movimentação lá, enfim, uma série de coisas”. Também traz cenas relacionadas aos locais onde viveram Jorge Luís Borges e João da Cunha Vargas, poetas respectivamente argentino e alegretense musicados no disco.

Vitor P&BREGIONALISTAS
Em sua obra, Vítor exalta os valores gaúchos, musicando os poetas locais e gravando milongas… ao seu estilo. Sendo o universo regionalista conservador, como é sua relação, por exemplo, com os freqüentadores do programa Galpão Crioulo ? “Fui no programa em seu começo, quando era bem garoto; e bem depois, muitas vezes… O Neto (Fagundes, apresentador) é super legal, meu amigo e um dos caras mais abertos que tem… Não há impedimento algum de ter uma boa relação. Tem algumas pessoas do regionalismo que torcem nariz pro que eu faço, dizem que não tenho direito de fazer regionalismo, porque sou um cara do litoral, de Pelotas, não sei nem andar a cavalo, essas bobagens assim… Acho que no final a minha composição acaba falando mais alto, o trabalho vai se impondo. Tá aí ‘Semeadura’, ‘Deixando o Pago’, já são clássicos do regionalismo”.

SATOLEP E A CRIAÇÃO
Definindo-se como “gaudério interiorano”, Vítor criou o anagrama “Satolep” em homenagem à cidade natal Pelotas, maior referência de sua obra literária e musical, e berço de seu processo criativo. O artista mora lá há 15 anos, na mesma casa onde residiu pela primeira vez aos quatro anos. É onde compõe quase tudo: álbuns inteiros – a maior parte do novo, o “Longes” (2004) inteiro; canções como “Semeadura”, na sala aos 17 anos, “Deixando o Pago” mais tarde… “É um lugar sempre inspirador, onde me sinto à vontade. Pra mim é importante, sou apegado às minhas coisas de família, de passado”. Uma parte menor das composições surge fora do lar: “Faço muita música em viagens, às vezes em passagem de som… Nunca acontece de ir para o estúdio compôr. Já entro com tudo muito pensado, com um conceito por trás, sabendo o que vou gravar”.

Nei Lisboa em Bagé – Entrevista

[ 08.10.2009 ]

A simplicidade de Nei Tejera Lisboa, 50 anos, foi conferida pelos bajeenses esta semana, quando voltou à cidade para uma performance de seu show atual, e para a divulgação de seu segundo livro, extemporânea à recente Feira do Livro local. Nei já se apresentara na AABB na época do álbum “Hein ?” lançado em 1988, e mais recentemente, em um evento da Ajuris, no Clube Comercial. Desta feita, o artista veio na véspera da agenda a cumprir, antes da banda e produção. Foi pauta em vários veículos de imprensa, e atração-relâmpago das “variedades” de tele-jornal local.

Um Nei naturalmente indiferente aos cliques, acompanhado pelo entrevistador-fã exibindo um autógrafo

Um Nei naturalmente indiferente aos cliques, acompanhado pelo entrevistador-fã exibindo um autógrafo

TRINTA ANOS DE NÃO-ESTRELISMO
“Ser acessível faz parte do meu show”, define um Nei coerente com seu discurso, já no saguão do hotel, onde desceu para uma conversa de cerca de quarenta minutos. O músico cogitou a transferência do bate-papo para uma cafeteria, caso o som de uma televisão no recinto interferisse na gravação. Tal acessibilidade por parte de um artista consagrado, rara em qualquer constelação, acompanha o compositor desde sempre. Ao cumprimentar Paulinho Supekóvia, Nei qualificou de “lenda viva” o guitarrista que tem sido seu escudeiro há duas das três décadas de estrada.
“O estrelismo não é meu mundo. Sempre que tentei, me senti um peixe fora d´água em qualquer situação do gênero. Acho que é uma recusa mútua”, brinca, referindo-se ao showbusiness. Apesar da timidez confessa, Nei chegou a percorrer a via crucis de todo artista gaúcho em busca de projeção nacional: entre 1987 e 88, contratado pela EMI, rumou para o Rio de Janeiro, apareceu na grande mídia. Mas os planos foram interrompidos por um acidente automobilístico que vitimou sua então namorada Leila Espellet. Isso motivou uma inversão da escala de valores do artista: “Aquele mundo se desfez e iniciou o trabalho do disco Amém.”
Permanecendo relevante no cenário gaúcho sobretudo, Nei hoje mantém uma agenda nacional, porém modesta. Conserva datas anuais em São Paulo, para um máximo de 50 pessoas, e Curitiba.

MEGA-SHOW DE ANIVER
Além dos shows comemorativos ocorridos ao longo do ano, há um projeto de um grande espetáculo de aniversário, envolvendo “mega-banda, orquestra de câmara e locutor paulista”. A idéia inicial de lançar um DVD, que chegou a ser divulgada na mídia, tornou-se incerta: a captação envolve em torno de 200 mil reais, e embora a produção estude a Lei Ruanet, questiona-se a validade de investir em “um suporte (o de DVD, CD) em depreciação, tanto pela tecnologia atual de distribuir música, como pela demora do processo, por exemplo, gravar em março e lançar no fim do ano”. Diferentemente de Amém e Hi-Fi, o terceiro álbum ao vivo daria prioridade aos clássicos do cantor. Tal qual o repertório atual, que faz um balanço da trajetória em seu aniversário, distinto aos shows Lado B (com as canções menos exploradas comercialmente, o que inclui o último disco quase na íntegra) e Hi-Life (comemorando dez anos do ao vivo anterior).
O envolvimento com o show atual não abriu espaço para um novo álbum de inéditas. Nei admite ter apenas “esboços de gaveta”, mas ainda sem visualizar se o próximo trabalho dará continuidade ao intimismo MPBista de Translucidação (2006), considerado pelo autor um trabalho difícil (quanto à assimilação pelo público).

POETA EM PROSA
Nas cidades onde se apresenta, Nei promove sessões de autógrafo de seu mais recente livro, “É Foch !” (pronuncia-se Fóshi – alusão a um eminente marechal francês atuante no início do século). Em vista de que Thedy Corrêa e Duca Leindecker têm livros publicados e Humberto Gessinger anunciou que fará o mesmo, questiono a Nei, se lançar livros (o que ele fez pela primeira vez há 20 anos) é uma tendência natural para os músicos. “Não só músico, todo mundo quer lançar um livro, plantar uma árvore e ter um filho”, brinca o cantor, com o clichê. “Mas no caso do músico, se é conhecido, a editora já se interessa sem ler. (risos) E costumamos ter fome de prosa, porque escrever letra é uma atividade ‘neurótica’, principalmente no meu caso que componho primeiro a música”, confessa, tendo um calafrio só de pensar em escrever.
“É Foch !” compila justamente escritos extra-musicais de Nei, que colaborou com crônicas para Zero Hora (quinzenalmente) e Extra-classe (mensal, veículo ligado ao Sinpro) até a época da concepção do álbum Translucidação. “Foi uma experiência muito legal, apesar da minha falta de tarimba e lentidão para escrever; o que atrapalhava no fechamento”.

DEU NA TV
A percepção de Nei quanto a mídia transparece em algumas de suas letras, como “Deu na TV”, do álbum Relógios de Sol (2001). Será que para o poeta nada se salva na grade da TV ? “Na Globo News, assisto os comentaristas para poder falar mal deles, e o programa Milenium. Além de outros programas de entrevistas e documentários no canal GNT. O seriado Law and Order, da Universal, é um vício”, admite. “Mas hoje a TV é só uma entre outras telas, como a da internet, por exemplo”.

Camiseta alvirrubra com que Nei foi presenteado agradou, pelas cores em comum com seu favorito no futebol gaúcho

Camiseta alvirrubra com que Nei foi presenteado agradou, pelas cores em comum com seu favorito no futebol gaúcho

NEI TEJERINHA
Mais do que rock, a música de Nei tem elementos que variam da MPB ao blues de cabaret, e em alguns momentos assimilaram uma genética latina, denunciada por títulos como “Cha cha cha Moderno”, e letras como “pop art meio bolerão”. Nei revela que a influência da vizinhança resume-se ao Uruguai, pátria de origem da família Tejera, de seu avô, e com cuja cultura teve um “namoro” na produção do disco “Amém”. Na época, promovia inusitadas reuniões de músicos locais com uruguaios, como Jorginho do Trompete com Maurício Trobo, “Lobo” Nuñez e Ruben Rada.

A influência latinoamericana mais ampla sobre Nei vem da literatura. Vários autores dessa origem, dividem com os beats as maiores referências literárias do cantor. “Sou um leitor comum, não um intelectual”, adverte. “Nas entrevistas perguntam que livro estou lendo e sou bem sincero: nenhum !”.

CLIQUE NO COCO… E OUÇA O NEI NA FAIXA
Devido a seu perfil democrático, Nei procurou oferecer aos fãs mais que discos, livros e shows e investiu na tecnologia: seu site oficial é constantemente aprimorado, sendo rico em material, incluindo seu acervo completo. Foi desenvolvido o programa “Webvitrola Cliquenococo”, que permite o acesso online (via streaming) a toda a discografia (incluindo dois títulos fora de catálogo), shows extra-oficiais e vídeos. Parte das faixas pode ser baixada legalmente – o músico chegou a pagar ao ECAD para ofertar sua obra. Sobre a distribuição de material pela Internet, argumenta: “é inutilidade jogar contra. A indústria tem uma percepção equivocada das possibilidades e agiu da pior maneira quanto a isso. As vendas de CD caíram não só devido aos downloads mas por ´N´ motivos: as gravadoras seguem inflacionando o preço, e um cartel de quatro majors domina 80% do mercado mundial. Chamo pirataria às vendas de calçada, ligadas à máfia chinesa e sem pagamento de impostos. A troca de arquivos via rede, ponto a ponto, é salutar”. Está prevista para breve a primeira transmissão ao vivo pelo site, após a conclusão de testes técnicos.

BERLIM/BONFIM/CIDADE-BAIXA
Na produção antiga de Nei, certo bairrismo gaúcho transparece em elegias a valores típicos de Porto Alegre, como “Berlim-Bonfim”. Hoje fora do tradicional bairro (divulgado nacionalmente pelo “Magro do Bonfa”) em que morou por décadas desde os oito anos de idade, Nei cantava a boemia inerente ao local, mas admite que a mesma se desfez no final dos anos 90: “só sobrou o Ocidente, do que havia”. Para ele a Cidade Baixa hoje concentra as opções noturnas.

NEI PARA CRIANÇAS – EXCLUSIVIDADE DA MARIA CLARA
Nos últimos dias em Bagé, houve quem especulasse que Nei fosse pai da atriz Mel Lisboa, destacada por minisséries e novelas globais há alguns anos. Apesar do sobrenome, Mel é na verdade filha de Bebeto Alves, um dos antigos parceiros musicais de Nei.
Já Maria Clara, sim, é o nome da pequena criação de Nei que passou a dividir o tempo do músico com a arte, nos últimos seis anos. Nei admite estimular na menina o gosto pela música, “da mesma forma que faria se (a música) não fosse meu trabalho; nada excepcional. Propiciamos a ela conteúdos legais, tentando escapar do circuito da Xuxa e das coisas que imbecilizam, tratam a criança como um adulto idiota”. Nessa proposta, apresentou à filha os grupos Palavra Cantada e Cuidado Que Mancha. Demonstra expectativa quando comentamos sobre o Pequeno Cidadão, projeto de Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra voltado ao público infantil.

“NÃO DÁ PRA CONTAR ESTRELAS QUE BRILHAM NO FIRMAMENTO…”
Entre tantas atividades, Nei ainda encontra tempo para ativismo político, emprestando seu talento à ideologia que acredita. Essa face se tornou bem conhecida no pleito de 2002, em que Nei aparecia na mídia regional interpretando “Agora é Lula”, de Péri e Duda Mendonça. O engajamento é constante: no último fim de semana Nei engrossou o coro Fora Yeda no Parque Marinha do Brasil. “Não tenho afiliação partidária ou compromisso. O ideário me corresponde apenas, e as realizações como as que vejo em Bagé. Conheço as divisões internas, mas quero ver um partido unido… e vitorioso !”

Nei conheceu a simpatia e profissionalismo da imprensa local

Nei conheceu a simpatia e profissionalismo da imprensa local

HEIN ?! QUEM ?! (NEI PARA NEÓFITOS)

Nome fundamental da música gaúcha (em um estilo rotulado eventualmente como MPG), Nei celebra em 2009 três décadas de carreira musical, além de 50 anos de vida.

Iniciou seus shows no final dos anos 70. Na época, o bairro bonfim era uma espécie de celeiro artístico, a partir da lendária esquina maldita. Entre os convivas de Nei iniciante, Gelson Oliveira, Bebeto Alves, cineastas como Carlos Gerbase, e atores como o performático Antônio Carlos Falcão, mais popular por sua imitação de Maria Betânia.
Em 1979, o antológico espetáculo Deu Pra Ti Anos 70, que execrava debochadamente a década moribunda, atingiu popularidade, inspirando mais tarde o filme homônimo. Nei era acompanhado pelo guitarrista Augusto Licks, que mais tarde alcançaria fama nacional ao entrar para os Engenheiros do Hawaii.

Humberto Gessinger também foi um parceiro importante na época do Carecas da Jamaica (1987), cuja faixa-título é um dueto. “Deixa o Bicho” é composição do Alemão.

Em 1993, gravou “Quebra-cabeça” com o Cidadão Quem para o álbum do estréia, Outras Caras.

No final dos anos 90 realizou a primeira temporada conjunta com Vitor Ramil, onde tocavam seus respectivos sets e formavam duo para clássicos de ambos, como “Dirá, Dirás” e “Sapatos em Copacabana”, e de terceiros como os Beatles.

Nos últimos anos, Nei participou da transposição de suas composições para ambiente de concerto, como quando as executou em conjunto com a Orquestra de Câmara da Ulbra.

Também vem sendo regravado por nomes que transitam de artistas de Nenhum de Nós a Caetano Veloso (trilha do longa nacional Meu Tio Matou Um Cara), e mais recentemente, Zélia Duncan.

Nei tem uma identificação maior com as bandas gaúchas emergentes nos anos 80, como ele, e interagiu muito mais com estas do que com nomes do cenário atual, entre os quais somente a Pública dividiu palco com ele recentemente.
Questionado sobre uma eventual falta de reconhecimento dos nomes históricos da música do RS, Nei acha natural que os jovens tendam a identificar-se com os artistas de sua geração. Recorda um cartoon muito ilustrativo desta situação, em que jovens vêem um anúncio de Bob Dylan e comentam: “Olha, o pai do Jakob, do Wallflowers, também toca !” Como exceção, “de vez em quando se exuma alguma coisa do passado, como eu mesmo (risos)”.

Natural de Caxias, recebeu este ano do Legislativo daquele município o título de Cidadão Emérito Caxiense.

Agradecimentos:
Ana Lombardi, produtora do show de Nei
City Hotel

Izmália em Bagé: dose dupla

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Bagé viveu cenas atípicas no sábado, 08. Dose dupla na área cultural: a mesma dobradinha de bandas, apresentando diferentes performances para dois ambientes distintos. A atração visitante, Izmália, contou com a Marvin local para a abertura dos trabalhos.
O primeiro ato teve como palco o Instituto Municipal de Belas Artes, no início da noite. Com entrada franca, dentro de uma ação itinerante da Fundação Ecarta, que visita vários municípios gaúchos e incluiu Bagé numa seqüência de shows ao longo do ano, a van com o quarteto de músicos e representantes do projeto cultural aportava na avenida Sete… enquanto, no interior da casa, o palco normalmente utilizado para apresentações de alunos de musicalização, era tomado pela Marvin. Neste ambiente algo sóbrio, e repleto de instrumentos como três baterias e um piano coberto, a formação era completa e elétrica, porém o show, pocket e autoral – após duas covers para aquecer, apresentaram suas quatro composições de trabalho, com as quais devem desembarcar em um estúdio da capital gaúcha até o fim do ano. Em sua atual temporada, com shows mais constantes, o quarteto a cada oportunidade demonstra-se mais à vontade no palco e entrosado.
Minutos depois, a simplicidade do palco (cuja única “produção” era o cartaz da Ecarta ao fundo) sofreu leve alteração, com o aparecimento dos bancos onde o trio de frente da Izmália se instalou (devidamente suportados pelo batera Rafinha Carneiro, integrado à família há cerca de seis meses), denunciando o clima do show: intimista, como pedia a ocasião, mas nada de voz e violão: Izmália tem (literalmente) soul… e, claro, muito rock and roll !
Com a platéia ganha de cara, pela simpatia em interagir, e por não economizar nas covers, alternariam entre visceralização (com os arranjos) de standards da MPB imortalizados por Elis (“Como Os Nossos Pais”) e Vinícius; e reverência a compositores da nova leva, como Marcelo Camelo – já na abertura, com “O Vento”, e mais tarde “Sentimental”, sugestão do guitar man Marcelo. A verve jopliniana da cantora não tardou a ressaltar, com “Easy” dos Commodores, coverizada antes pelo Faith No More; e na seqüência Amy Winehouse “Back to Black”, que, assim como “All My Loving” dos Beatles teria bis no show “rock” mais tarde.
Mesmo entre tantos clássicos, as composições próprias intercaladas obtiveram reação positiva. Extraídas do álbum “Quase Não Dói”, de 2007, a faixa-título, “Além do Que Se Pode Alcançar”, “O Beijo Que Não Tem Saída”, etc. tem um potencial que torna sua ausência sentida no playlist negociado das FMs. Em tempos de superficialidade estética sem conteúdo, nada como artistas cuja entrega emociona… Izmália hoje é uma banda, não se trata da estrela com músicos de apoio. O nome foi mantido pelas premiações conquistadas. A cantora inclusive tirou de circulação seu blogue, que para ela “estava com um perfil muito pessoal, e falando principalmente de futebol”, prometendo que vai reativá-lo após uma reformulação.
Horas mais tarde, Atelier Coletivo – a versão com acréscimo de peso do espetáculo. Agora todos em pé, e com cervejas disponíveis no local.

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A Marvin demonstrou uma variação do repertório que já vem apresentando, rearranjado de modo a tornar ainda mais empolgante a celebração do rock… algumas influências coincidentes com as da Izmália ficaram evidentes ao serem coverizadas pelas duas bandas da noite, como: AC/DC, Ramones, Beatles… assim que tomou o palco, (por volta de 2h30 AM) a banda portoalegrense mostrou que não estava para amenidades: a segunda música já foi “Suck My Kiss”, petardo do Red Hot em sua era mais funkeada e que não pareceu incomodar muito ao baixista Sandro em emular com competência um Flea. “Vamos fazendo uma própria e um tributo”, informava a cantora, entregando a fórmula que manteve o pique da festa… entre o atendimento a pedidos como “Monogamia”, e Beatles again; essa foi a tônica que trouxe, entre as canções próprias, as certeiras “Jailbreak”, “I Wanna Be Sedated”, “Breakdown” dos Foo Fighters… até a orgiástica seqüência final só de covers, com Kinks, Steppenwolf, Muse (apontada como uma preferência da banda, que eu assino embaixo) e Led Zep… sempre com uma performática frontwoman, demonstrando que seu comentado ecletismo jamais podou sua veia roqueira escolada em Janis, Patti Smith, Amy… celebração consumada, a cantora saiu à francesa sem poder concretizar o combinado – tomarmos umas no Atelier, em vista de uma indisposição orgânica anterior inclusive ao segundo show, contratempo que sequer transpareceu durante a atuação da banda, dado o profissionalismo da equipe.

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Nenhum de Nós em Bagé – 2008

Thedy, com uma compania ilustre (Lennon na estampa) e outra nem tanto

Thedy, com uma compania ilustre (Lennon na estampa) e outra nem tanto

MUITOS DE NÓS CANTARAM…

Como se sabe, o Nenhum de Nós fez um concerto ao ar livre em Bagé em 30 de dezembro de 2008. Oportunidade para ouvir a opinião dos próprios músicos – leia-se Thedy Correia e Véco Marques – sobre as questões suscitadas por seu trabalho.

OS ÚLTIMOS ROMÂNTICOS – o idealismo continua

O Nenhum de Nós que conhecemos: a banda que canta “Paz e Amor”, dá conselhos ao filho em “Dança do Tempo”… Que não tem vergonha de assumir seu romantismo, nitidamente influenciado pela audição da Jovem Guarda…
Muitos carnavais transcorreram desde que Camila apanhava e baixava a cabeça; e desde que o grupo nos engatinhantes anos 90 assinava junto com De Falla e outras, um manifesto pela revagabundização do rock gaúcho…
Pelo exposto, cogitava eu que o perfil do Nenhum tinha mudado desde então… que a exemplo dos Titãs, ao virarem pais de família, tinham amenizado seu discurso…

O vocalista Thedy, no entanto, desmistifica essa visão, defendendo que a rebeldia permanece, especialmente na postura idealista ante o showbusiness: “Eu acho que o rock que a gente fez sempre teve um pezinho na garagem, entendeu ? E a garagem que eu digo é os ideais que tu tem quando tu forma uma banda. Me dá a impressão que isso é uma coisa que falta hoje, porque tem muita gente que forma uma banda não pra fazer rock, mas pra fazer sucesso. E hoje as músicas que a gente tem ouvido no rádio e tudo, elas são músicas de artistas, que o interesse deles, é o sucesso. Então o que fica pra trás ? Quando tu faz uma escolha dessas, tu abre mão de algumas coisas como por exemplo a qualidade, a tentativa de inovar alguma coisa, propor coisas diferente, correr riscos e tudo. E acho que o rock de garagem tem isso um pouco, descompromisso com essas coisas que são muito mercantilistas, digamos assim. Então pra mim, o NDN durante todo esse tempo manteve muitos ideais de uma banda de garagem, e se tu me perguntar hoje, eu diria que a
tendência é a gente voltar ainda mais pra esses ideais.”

ROCK DE BOMBACHAS – BANDEIRA OU ESTIGMA ?

Uma das marcas registradas do Nenhum é a sonoridade do rock gaúcho claramente influenciado pela cultura típica regional. O guitarrista Véco Marques explica a maneira tranqüila com que eles mantêm sua identidade sonora: “O NDN é uma banda que já ´tá há 22 anos na estrada e a gente sempre primou por fazer as misturas dos elementos regionais. Desde o primeiro disco já tem o sotaque do acordeão, os próprios violões. A gente sempre se resumiu como sendo uma banda folk, mas não americano, um folk gaúcho mesmo, até porque a gente se criou ouvindo as músicas das Califórnias e festivais nativistas, e mesmo sendo uma banda de rock a gente nunca virou as costas pra nenhuma espécie de influência, desde Beatles até Noel Guarani e Luis Carlos Borges. Então acho que a grande essência do Nenhum é justamente essa. Depois que eu entrei, tendo tocado oito anos com Renato Borghetti, e do João Vicente, a gente até afundou mais o pé nesses elementos folclóricos.

Mas eu acho que ao longo dos anos a gente acabou aprendendo a dosar até a quantidade de acordeon, não é uma coisa forçada, como se fosse uma bandeira tipo: “Viemos do Rio Grande do Sul, temos que tocar de bombacha e de acordeon”. Não é isso. É o gosto pela sonoridade mesmo. Acho que a gente tá aprendendo a dosar bem, e vamos fundo nessa mistura, acho que a grande essência do nosso trabalho, nossa música é oriunda dessas coisas: de a gente estar tocando hoje em Bagé, amanhã no Rio de Janeiro, anteontem em Caxias do Sul, ou seja, não virar as costas pra nenhuma tipo de influência.” O músico, no entanto, não crê que bandas gaúchas com proposta musical similar a de seu grupo, formem um movimento unido: “Acho que uma identidade do Nenhum de Nós existe sim, mas a gente nunca quis ser bairrista, tipo: “somos gaúchos, olha só como a gente usa bombacha”. Como a gente circula no eixo central do paí, a gente nota que tem um olho espichado pro rock que é feito no Rio Grande do Sul. Um olho bom, eu diria assim. Na verdade a gente tem várias vertentes, a gente tem o melhor do reggae o melhor do rock, o melhor do punk rock; e por aí vai… dos grandes baladeiros… Acho que todos expoentes que a gente tem aqui, do rock feito no Rio Grande do Sul e essas ramificações que o rock sempre nos deu, são bem feitas e a maioria bem sucedida. Mas não que a gente tenha intenção de ser um movimento, separatista, virar as costas pro resto do país, isso seria uma bobagem… num país com duzentos milhões de habitantes, seria burrice, um tiro no pé o cara querer se isolar o Rio Grande do Sul. Obviamente que o próprio sotaque que a gente fala, e a gente ir pra dentro da MTV tomando um chimarrão já identifica a gente no Rio Grande do Sul, mas não… mas não como uma bandeira e sim como um hábito de todos que moram no Rio Grande do Sul.”

ROCKIN´ IN THE MERCOSUL

Na verdade, há muito o Nenhum transcendeu o papel de ser um mero representante do rock riograndense na mídia nacional, como era quando eles e os Engenheiros estavam no top ten Brasil, há uns 15 anos. Depois disso, eles ampliaram seu campo para o vigoroso e sub-aproveitado rock produzido nos vizinhos hermanos sulamericanos, estabelecendo boas relações a exemplo dos Paralamas da época de “Dos Margaritas”. Véco revela que esse trabalho continua a pleno:
“Cada vez mais com os dois pés dentro da América do Sul. Esse ano a gente teve uma troca de figurinhas muito legal com duas bandas do Uruguai, uma chamada “No Te Va a Gustar”, que hoje talvez seja a banda mais importante de toda a América do Sul, fazem shows estourados no Chile, na Argentina, na Bolívia, na Colômbia, no Equador; e a gente fez três shows lotados em Montevidéo, Capital do Uruguai; a gente trouxe a Porto Alegre essa banda, e mais o Sócio que é um grande músico uruguaio pra tocar conosco uma temporada no Teatro São Pedro.
Ou seja: da mesma maneira que eles abriram as portas pra gente entrar pro outro lado pelo Rio da Prata, a gente ta abrindo, trazer uruguaios e argentinos pra tocar conosco aqui, é muito importante que a gente pegue esse corredor da América do sul. O Brasil, Por não falar a língua (espanhola), a gente sofre um pouco disso, mas não que a gente seja auto-suficiente. Se pegar, por exemplo, Paralamas do Sucesso, uma das maiores influências dos Paralamas do Sucesso é o rock argentino. Fito Paez, Charly Garcia, Soda Stereo, Gustavo Cerati.Então o NDN em 2009, 2010 vai lançar discos lá, trazer mais parcerias do Uruguai e da Argentina pra tocar conosco aqui, porque a gente tem certeza que o nosso rock tem esse sotaque, do acordeão, do bandoniom, sotaque argentino, sotaque do tango; e a gente nota isso no palco lá, tocando para platéias cada vez mais cheias, cada vez com mais interesse na nossa música e a gente com muito mais interesse pela música feita lá do outro lado.”

ACÚSTICOS E INDIGNADOS

Sendo precursor e recorrente no formato hoje popularizado (banalizado?) pelo Acústico MTV, o Nenhum de Nós, através de Véco, faz um esclarecimento:
“Existem duas correntes do formato acústico: uma quando a banda realmente ta a fim de subir num palco – e vou pegar o Nenhum como exemplo – e mexer nas músicas, usar outro tipo de instrumento, outras influências; e o segundo formato é um caça-níquel: quando a banda já ta ´fechando a bodega´ e o cara diz: ´não, vamos ganhar mais uns pilas fazendo um acústico´, porque é um produto que vende. Mas eu acabo achando que passa do limite, sabe ? Na primeira resposta que eu te dei, falei em folk. Folk lembra violão, o Nenhum de Nós nunca teve vergonha de subir num palco usando um violão. Pega uma banda que nem Charlie Brown Jr., os caras nunca usaram violão e fazem um acústico só pra lançar e ganhar uma grana, depois eles não vão numa turnê de dois anos como a gente fez, levando citar indiano, levando bandonion, bandolim, slide, ´um milhão´ de instrumentos que a gente tem orgulho de levar pra cima dum palco. Essa é a grande diferença: a gente mata no peito, assume e faz; não é só pra ganhar grana, muito pelo contrário: a gente ganhou muito pouco fazendo isso (risos). É um projeto artístico, a gente adora. A gente ta fundo agora num projeto de misturar acústico com o elétrico, a gente tá achando esse híbrido, esse meio termo e daí pra frente vai ser isso. Violões, instrumentos acústicos com as guitarras.”

REM, THE ONE THEY LOVE

Em novembro passado, o Nenhum ganhou um de seus maiores prêmios: a oportunidade de abrir “em casa” o show do REM, emblemática banda oitentista que segue lançando álbuns relevantes e cuja estética é muito similar à do grupo gaúcho.
Na visão de Véco, REM é “a maior influência do Nenhum de Nós, talvez seja a banda em que a gente mais tenha se focado, e ter aberto o show dos caras em nossa cidade, foi talvez um dos grandes momentos da nossa carreira, porque a gente acabou achando que subir num palco com uma banda que tu admira é um presente, uma dádiva, e isso a gente acabou assinando embaixo de uma banda que a gente adora e nos deu a honra de subir no palco e ter feito esse show com eles para 25 mil pessoas.”
Thedy afina-se com o discurso do colega, acrescentando que a interação com os americanos não se restringiu ao palco: “Foi muito bom. Uma das bandas mais importantes pra mim e pro Nenhum, uma das que mais influenciou, muito no trabalho de guitarra e tudo. Dividir palco com eles, e depois conversar alguns momentos com o Mike Stipe num jantar, foi um dos momentos que entrou pra minha história assim das boas recordações…”
Fica a dedução de que a máquina zero na careca de Carlos Stein é um tributo ao Michael Stipe… uma declaração de amor, assim como as dirigidas aos Beatles verificadas nas camisetas de Thedy e Véco.