Categoria: Teatro

Teatro resgata dilemas humanos de Galileu para fazer pensar

Peça teatral “A Vida de Galileu”, adaptação do texto de Bertold Brecht, pelo grupo Vida Real, apresentada no Teatro de Belas Artes da URCAMP em 21 e 22 de novembro de 2009

Uma reflexão sobre a resistência às idéias inovadoras foi a tônica do espetáculo que lotou o teatro de Belas Artes da URCAMP por duas noites consecutivas no fim de semana. A encenação de “A Vida de Galileu”, pelo grupo de teatro Vida Real, adapta um texto biográfico de Bertold Brecht sobre o cientista. Na platéia bastante heterogênea, presenças como a do estudante de Física na Unipampa, Januário Ribeiro, que costuma freqüentar ainda as observações astronômicas no palacete Pedro Osório; além dos atores do Sarau Noturno e acadêmicos da Comunicação Social da URCAMP, Camila Romero e Antoniel Lopes.
As falas de Galileu (Gladimir Aguzzi), de alto teor filosófico, ao evocar elementos como Copérnico e Giordano Bruno, despertam interesse pelo mesmo universo que há alguns anos foi objeto dos quadros do físico Marcelo Gleisler no programa Fantástico, voltados à popularização da ciência. Após o primeiro ato, uma projeção de vídeo demonstra a comprovação posterior das teorias astronômicas de Galilei, inusitadas em seu tempo.
Aos momentos de monólogo do protagonista central intercalam-se intervenções onde o restante do elenco caracteriza um côro inquisitório, representação da consciência da época da história. Além dessa alternância, o ritmo é garantido por inserções cômicas, principalmente através da ironia: tanto aquela com que Galileu se refere aos seus contestadores e ao próprio Aristóteles; como a que o já citado coral usa para desdenhar das teorias heliocêntricas do personagem. Em uma dessas passagens, o grupo literalmente pula carnaval, com máscaras, ao som da marchinha “Galileu”, debochada letra de Aguzzi em cima de uma melodia que é uma variação da tradicional “Alalaô”. Entre os recursos criativos utilizados pelo grupo, a cena em que, estando Galileu no palco, o côro surge por trás da platéia, vociferando, em tamanha surpresa que houve quem se assustasse nas cadeiras. Em outra seqüência, o côro se aproxima a cada passo da beirada do palco, onde está Galileu, causando sensação de perigo real na medida em que acabariam por pisoteá-lo ou empurrá-lo para fora, caso ele não acatasse a imposição do “Santo” Ofício como faz na cena final.
O texto de Brecht, que trabalha com cerca de 35 atores, foi adaptado para onze. Assim, Aguzzi faz dois papéis (o outro é o Padre Clave) e o côro, como personagem coletivo, assume diferentes identidades. Segundo Gladimir, Brecht era afeto às adaptações em sua obra, como no caso de Turandot e da Ópera dos Três Vinténs. Se
a visão de Bertold já era moderna em relação ao período histórico de Galilei, ganha contemporaneidade na demonstração do grupo, que inclui sem pudor expressões cotidianas como “merda”, “bichona”, e afirma na marcha burlesca que “o Vaticano se fodeu”.

Família em cena: o casal Dilce Helena Santos e Gladimir Aguzzi, que coordena o Vida Real, trouxe para o palco o filho Luís, no papel de um coroinha.

Aguzzi justifica a retomada do texto, já montado pelo grupo em 2001: “esse ano o mundo comemora 400 anos da astronomia moderna, que tomou outro rumo desde que Galileu apontou o telescópio para o céu. Além de o texto ser muito bom, e estarmos com uma compania formada e em condições de levar adiante a idéia”. O ator reproduz depoimento que ouviu de uma dupla de professoras que saíam da exibição: “É muito atual esse texto. Quando a gente ouviu aquela frase que tu dizias: ‘contrata os melhores professores e paga os piores salários’, isso nos tocou na alma”, e acrescenta: “Galileu é professor de matemática e física. E principalmente pelas idéias, muita gente que tem idéias boas e interessantes desiste, não leva adiante. E o Galileu falava exatamente disso, uma tentativa de convencer toda uma autoridade italiana e mundial, que era a igreja, de que era preciso pensar idéias novas”. A maior dificuldade que o grupo teve para a peça foi a financeira: “Para fazer bom cenário e figurino, ter luz melhor. Detalhes técnicos e cenográficos. Mas acho que o espetáculo consegue ser bom porque os atores são legais, e o texto é bom e ajuda muito, e supera algumas coisas”. Como diretora da peça, Dilce, que na atual temporada não atua como em montagens anteriores, demonstra não apreciar o discurso que lamenta as adversidades: “quem faz teatro reclama muito, e realmente é uma coisa de gente louca, só pessoas ‘anormais’ se dedicam a esse tipo de coisa. Mesmo que passe por dificuldades, teatro é viável em Bagé e em qualquer lugar. Pela platéia a gente vê, sempre tem gente interessada em assistir, principalmente o tipo de teatro a que a gente se dedica, que é aquele que a pessoa sai com alguma coisa pra refletir. Esse texto é interessante exatamente por causa disso, sempre vai haver alguém com alguma idéia nova e pessoas que combatem essa idéia e não querem o novo surgindo. Isso é atemporal, enquanto existir o ser humano vai existir isso. O teatro mais ou menos faz isso sempre. Então acho que ele é viável nesse sentido, não é fácil mas é viável”.

Bertold Brecht foi um dramaturgo alemão falecido em 1956. De influência marxista, utilizou a arte para a crítica das relações humanas no mundo capitalista. Seu nome foi “homenageado” na TV brasileira com a corruptela Bertoldo Brecha, pelo ator Mário Tupinambá.

Galileu Galilei, “o pai da ciência moderna”, emitiu enunciados que preconizaram o paradigma newtoniano, rompendo com o modelo de Aristóteles, entre os séculos XVI e XVII. Afirmava que os corpos celestes giravam ao redor do Sol e não da terra como se supunha. Galileu dá nome à revista de circulação nacional conhecida antigamente como Globo ciência.

A peça “A Vida de Galileu” é considerada o testamento de Brecht, que dirigia seus ensaios quando morreu. O enfoque do texto recai sobre o confronto das idéias do cientista com as dificuldades econômicas e a perseguição pelos inquisidores.