Marcado: Clara Gessinger

Bagé entra no coro dos contentes com o Pouca Vogal

Clube Comercial, Bagé, 1º.11.2010

Foto: Débora Mattos

Foto: Débora Mattos

Mesmo com apenas oito composições próprias, repertório não falta ao Pouca Vogal no palco. O duo pinça canções das bandas de origem dos integrantes para surpreender sempre. Em Bagé, longe da execução burocrática do CD “Ao Vivo” de 2009, substituiram duas das 20 faixas do álbum por várias surpresas, como “Piano Bar”, “3 X 4” e “Terra de Gigantes”. Especialmente comemorado o mix de “Infinita Highway/Carona”, com a segunda encartada no clássico de 1987. Foi já no bis, após uma “A Força do Silêncio” mais percussiva que em disco. Apesar da roupagem acústica das músicas, o clima era de show de rock – tanto entre o público, cuja imensa maioria assistiu em pé, quanto sobre o palco. Depois de movimentar a cidade durante o dia, satisfação visível nos rostos de G & L com a vibração emitida pelo clube lotado.
Tocando quase em casa, pelo link familiar que tem com a terra, o Alemão estava pra brincadeira. Inseriu Bagé onde pôde nas letras (como centro do universo em “Além da Máscara” e uma ilha em “Terra de Gigantes”), “confundiu” EngHaw e CQ com Ivete Sangalo e Lady Gaga ao citar seus artistas favoritos. Como ele mesmo disse no Twitter, não é um cardiologista mas um coração – e isso estava muito visível, sob o colete azul da roupa tricolor.
Do lado vermelho da força, a empolgação do Leindecker mais velho veio inclusive nos solos estendidos com improvisos bem diferentes das versões de estúdio.
O PV é uma ode ao descompromisso com os clichês “roquenrôu” como drogas e groupies: o figurino da dupla é o uniforme para o labor de tocar. Ao entrar no palco e assumir dois violões, me soaram como mariachis com a missão de nos entreter naquela noite. Claro que ao longo do show as seis cordas eram divididas com várias ocupações simultâneas – teclas e pedais midi para os pés, harmônica; e alternadas com outras possibilidades como piano. Gessinger tem esse costume desde a formação GLM de seu grupo paralelo. Ele descobriu Dylan e Zé Ramalho décadas depois de Roger Waters e aos 46, sinaliza estar descobrindo o rock “básico”, na levada da canção (jingle?) de despedida/agradecimento. E também ao inserir versos da stoniana “Satisfaction”. Foi depois de uma variação acelerada de “Dom Quixote”, ao final de “Toda Forma de Poder/Banco” – que já estendera tentando descobrir o que ainda emociona os fãs. Causas perdidas ? Time de futebol? Banda? (R.: “Pouca Vogaaal”). A opção “partidos políticos” recebeu vaias, um dia após as eleições. Aliás, a trilha de abertura do show havia sido a ópera “O Guarani” (Carlos Gomes), mas a Hora em Bagé era do Pouca Vogal.

“Vamos todo mundo, ninguém pode faltar”

Os versos de “Pose (Anos 90)” não foram cumpridos literalmente. Clara Gessinger foi o que faltou no palco. A herdeira de Humberto veio a Bagé, onde almoçou churras com torta de sobremesa na casa de familiares, conforme comentou no Twitter. Mas a quinta música da noite não ganhou o toque feminino que valorizou a reinvenção presente no Acústico de 2004.

“Pose” é uma das 12 pérolas de “Gessinger, Licks & Maltz” (1992), conhecido como “G, L & M”, que fecha a trilogia de discos cada vez mais progressivos que os Engenheiros tiveram coragem de lançar no Brasil dos anos 90: antes foram o megaplatinado O Papa É Pop, e o Várias Variáveis, feito às pressas para se antecipar à chegada de Clara.
É uma suite conceitual costurando faixas que se confirmaram pouco radiofônicas.
O nome é uma homenagem auto-irônica aos dinossauros do gênero como Emerson, Lake & Palmer, ou aos caras do Yes quando assinavam dessa forma. No caso dos EngHaw marcou uma formação muito querida e clamada pelos fãs na comunidade do Orkut.
Subestimado pela mídia, é o álbum favorito de muito fã, e traz algo do clima intimista que encontra certa continuidade no Pouca Vogal.

Auxílio luxuoso
A superação de LL

Os bajeenses, todavia, foram presenteados com outro convidado eventual no PV. Humberto costuma referir-se como “Duplo L” ao titular do baixo da Cidadão: Luciano Leindecker. Ele surgiu tocando Quince (instrumento criado por ele) em “Música Inédita”. Depois assumiu o baixo, que tocou em pé, para mais duas colaborações, e ainda permaneceu batucando uma caixa. Enriqueceu não só os arranjos mas o sentido do que se via no palco, com seu exemplo: ao lado de uma dupla que vence a ditadura do mercado com uma atitude genuina, Luciano também era a imagem da superação. Lutando contra problemas de saúde nos últimos anos, nem por isso abandona o prazer de excursionar e pulsar as quatro cordas no ritmo dado pelo bombo legüero do irmão.

Programa Familiar:
show do PcVgl pode ser um, e ainda reunir três gerações: D. Cacilda, a homenageada em “Terra de Gigantes”, a cardiologista Rosália Gessinger e Clarinha – abstenção sentida no palco, mas curtiu a passagem pelos pampas.

Coro dos (muito) contentes: Talvez desafinado, foi quem cantou com Humberto e Duca “Pose” e muitas outras.


Leia também:

Gessinger e a cultura gaúcha: material exclusivo onde HG avalia a influência da música regionalista no rock gaúcho e em sua obra.
https://marcelofialho.wordpress.com/2008/09/08/gessinger/

Sobre o Pouca Vogal (artigo opinativo em versão original do que saiu editado no Blog da RBS)
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/10/27/pvrbs/