Marcado: Engenheiros do Hawaii entrevista exclusiva

Gessinger e a cultura gaúcha

Depoimento concedido por Humberto a pedido de estudantes da Facos, cadeira de Mídia e Cultura, para a produção de um vídeo sobre cultura gaúcha. Escolhi apresentar um trecho sobre a influência, no rock, da música tipicamente gaúcha. A idéia foi apresentar os trabalhos das bandas Ultramen, Cidadão, Rock de Galpão, Nenhum, Graforréia, Almôndegas e principalmente EngHaw, com base em um trecho de um livro inédito sobre música gaúcha gentilmente cedido por Artur de Faria.

Dèja-vu inédito: a entrevista

01_longedemais_1986“Acho que o local de origem é o ponto de partida da obra de qualquer artista, assim como o tempo em que ele vive, é impossível fugir dessas variáveis. Acho que mesmo os artistas que tentam fugir disso e querem ser universais e querem ser atemporais, acabam nessa fuga denunciando o lugar de onde eles vêem e a época em que eles vivem.
Bacana que seja assim isso, faz com a que a arte seja um lance humano apesar de transcendente. É aquele lance:
pra falar do universo nada melhor do que falar da tua aldeia.
O fato de ser gaúcho é muito presente em toda a produção dos Engenheiros. É o filtro pelo qual todas informações que eu recebi passaram, esse fato de ser gaúcho, ser portoalegrense.
Tem coisas mais explícitas, como a regravação do Herdeiro da Pampa Pobre do Gaúcho da Fronteira, mas tem coisas mais sutis, como o próprio papo que alinhava todo o disco Longe Demais das Capitais, ou o disco Minuano, ou a canção Pampa no Walkman, ou a canção Anoiteceu em Porto Alegre, são músicas que dá pra ver bem claramente ali o caráter gaúcho.
Acho que quem melhor fez a mistura de elementos regionais com pop universal em relação à música gaúcha foram Kleiton e Kledir. Acho que não se avançou muito em relação ao trabalho deles, não sei porquê, mas acho que não se avançou não. Acho que a propria música regional da época era uma coisa mais densa, mais autoral, hoje é um pouco mais voltada à coisa do baile, das rádios, então acho que perdeu um pouco da força por causa disso também. E do lados das bandas, acho que as bandas gaúchas acabaram assumindo uma identidade passadista, muito voltada aos anos 60 e 70, acabou virando uma característica das bandas gaúchas essa coisa de ficar requentando o som dos Beatles e dos Rolling Stones, dos 60 e 70.papa
Mas enfim, acho que sempre vale a pena se misturar os elementos regionais, acho que só faz ficar mais forte e mais verdadeiro o teu som.
Me perguntam muito se o fato de ser gaúcho ajudou ou atrapalhou a minha carreira, acho que nem ajudou nem atrapalhou.
Ao mesmo tempo que rola um estranhamento em relação aos gaúchos no resto do Brasil pelo jeito que a gente fala, pelo nosso senso de humor, pela nossa própria cultura, não ser tão difundida quanto a cultura do norte e nordeste é, não é só em música mas também na literatura ou na cultura popular. Ao mesmo tempo que tem estranhamento, rola uma curiosidade também, né ? Quando a gente começou rolava uma curiosidade: afinal como são as bandas gaúchas e tal… Então acho que tanto atrapalhou como ajudou; não foi uma coisa decisiva na minha carreira não. Espero que a gente continue nessa construção da cultura gaúcha que não e feita por uma banda nem em uma geração, cada um coloca o seu tijolo ali. E acho que um bom sinal vai ser quando a gente falar menos da nossa identidade cultural. O lugar onde mais se fala da própria identidade cultural é aqui, o Rio Grande do Sul, e isso não é necessariamente um bom sinal, pois nos lugares onde a mistura é feita com mais naturalidade, isso não é discutido. Na Bahia é super natural, em Pernambuco isso é super natural, misturar elementos regionais. Aqui no Sul que a gente tem essa coisa da auto-consciência, né, e acho que a gente supera essa fase, que é uma fase de imaturidade, eu acho, pra começar a trabalhar duma forma mais madura com elementos regionais e não
ficar policiando cada segmento cultural, não, porque ‘aquilo é uma banda de rock aquilo é música nativista’ “…capa_minuano