Marcado: Frank Solari

Ecletismo com pegada

Show de Frank Solari, Ricardo Baumgarten e Marquinhos Fê, Atelier Coletivo, Bagé, RS, 15.09.2010

Entre a técnica e o feeling, equilíbrio do trio de Solari satisfaz público variado

O trio mandou um “direct show”, na concepção dos próprios: variado, e com objetivo de manter a vibração. Do trabalho autoral, os três álbuns foram contemplados: “Lifestyle” da estréia. Do recente “Acqua” vieram “Lucky Girl”, “Na Pressão” e “Estrela, Estrela” – esta num contexto brasileiro do set, próxima de “Rabo de Foguete”, a qual com “Latin Lady Groove” e “Aline” cerra a trilogia extraída do “Um Círculo Mágico”. Também regionalista, o baião countryficado avulso “Força Vital”. A verve rock foi intensificada com tributos em momentos estratégicos. Isso ficou claro na abertura com o hit oitentista do Police, “Message In a Bottle”. Após o rápido intervalo que dividiu o show, voltaram com uma “Kashmir” com variações up-to-date dos solos pageanos. No final do set, “Moby Dick” – Solari humilde coadjuvante na aula de coordenação de Marquinhos. Com a afinação customizada que dera ao kit emprestado pela Twin Cities, fez valer o “I love drums” na camiseta. E a indispensável celebração de Satriani veio bluesy e em dobro, com “The Snake”, bem no início; e no único bis, a versão para “Scutlle Buttin´”. Suíngue letal com o ataque da cozinha, servindo de cama aos solos inclusive do próprio Ricardo. Audiência extasiada e Mestre Satcha justificado pelo pupilo. No ar, a expectativa para o retorno em 2011 com trabalho novo.


Ricardo adicionou melodia aos graves com um baixo de seis cordas, que tocava sentado

Ricardo adicionou melodia aos graves com um baixo de seis cordas, que tocava sentado

Eis um vídeo com qualidade mega-tosca, mas que dá uma idéia da pauleira a que os caras submeteram o Atelier.

Quase um workshop

Quando no Atelier mas fora do palco, como na passagem de som, Solari atendeu vários fãs que lhe buscaram. A cada interação ele deslancha a falar de marcas, modelos e acessórios de guitarra, com fluência comparável à de seus dedos nas casas da “guita” em solos de complexidade variada.
Entre as informações ouvidas do Frank, a de que seu arsenal atual é de umas 30 guitarras, (além dos outros instrumentos), que alterna conforme a finalidade. E de que nas cidades onde tem tocado, eventualmente faz brique de equipamentos que alguém quer se desfazer, como amplificador e fuzz box. Ele também recebeu e concedeu dicas específicas como o uso adequado de palhetas de metal.
A noite da quarta-feira trouxe ao Atelier um público algo diferenciado em relação ao das bandas que poderiam ser rotuladas como indie ou alternativas. Além dos audiófilos que não se restringem a esse nicho musical, como José Luis Dávila e Rafael Silveira, percebia-se alguma elevação na faixa etária, e na densidade de músicos por metro quadrado, a exemplo de Julinho Pimentel, Alessandro Ribeiro, Jorge Luis Salis e Felipe Rosa.

Crespo, o fã que prestigiou Frank em 2003 no Imba, repetiu o encontro e até as posições de uma foto da época

Crespo, o fã que prestigiou Frank em 2003 no Imba, repetiu o encontro e até as posições de uma foto da época

A “BAGAGEM” DE FRANK

Segue a ficha técnica da aparelhagem que Solari está levando aos shows da atual tour pelo interior.

Guitarras

PRS Custom 24 (Orange)

PRS Single Cut (P. 90) (Charcoal)

Amp Orange Dual Terror
Uma caixa 1×12″ (Orange)

Pedais
Nig Shred Pro
MXR Phase 90 (EVH)
Top Tone Light Drive
Boss DD-20

Cordas
010 Elixir cust. 24
009 Elixir S. custom.

Cabos Elixir

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Domínio pleno – a guitarra como um todo

Em entrevista exclusiva, Frank Solari demonstra que além da técnica em tocar, domina todos os aspectosa da guitarra, da fabricação e estética à melhor disposição de componentes e acessórios. Que tocar em lugares menores é melhor para seu tipo de som. E que busca o intermédio entre o conhecimento técnico e o feeling intuitivo.

Formado em teoria musical a nível de extensão, Solari avalia o diferencial atingido pelo músico que busca o conhecimento: “A música hoje deixou de ser aquela situação em que o músico ou aprendiz ficava de lado, não era considerada uma profissão séria. Hoje a música gera dinheiro, em muitos casos mais que medicina, advocacia, e até futebol. Claro, tem vários níveis, existem vários tipos de músicos para poder exemplificar isso. A gente vive numa época hoje em que quanto mais conhecimento, melhor. Isso é um lado. Na carreira, tem que conhecer até pra poder escollher depois uma certa especialização dentro da música”. Como autodidata na guitarra, o músico considera também um outro aspecto: “o lado intuitivo, é tão importante quanto. Se tu quiser criar uma coisa realmente inédita, talvez o lado intuitivo seja o lado mais rápido e objetivo para essa situação. Porque o cara deixa rolar, vai literalmente viajando no som, daqui a pouco descobre ou inventa uma coisa que vale muito a pena. Agora, o que eu diria dessas duas situações ? As duas são muito importantes. Hoje em dia com quantidade de pessoas no mundo, não só em música, mas em todas as profissões Começa a ser fundamental e essencial esse algo a mais, que é qualquer estudo que se possa fazer. Abrir o leque de estilos, conhecer outros instrumentos. Conhecer pessoas, tocar com muita gente, então ter realmente todas as frentes, pra poder conseguir viver de música”. Frank cita como exemplos de autodidatas bem sucedidos na música, “Paco de Lucia e o próprio Miles Davis que mudou a história do jazz sem conhecimento mais profundo de acordes. Inclusive já depois de ser um dos grandes descobriu outra maneira de tocar, que é tocar agrupando escalas ou seja, poder tocar com as notas, por exemplo, de dó maior mesmo que o acorde de dó não estejam na seqüência harmônica. Descobriu a relação dos acordes, os tais dos modos que muitos guitarristas aí ficam estudando e estudando”. Um terceiro exemplo transcende a música do ocidente: Ravi Shankar. “Eu toco citar indiano e a própria organização da música oriental é diferente da música ocidental, eles tem mais que 12 semitons, trabalham com o quarto de tom. São outras visões e feelings dentro da música. A palavra música é muito grande, a gente quando fala pensa as poucas notas que a gente conhece, a subdivisão ocidental da coisa e na verdade a música mistura uma grandeza, um infinito dentro da parte rítmica, dentro da parte harmônica e por fim da parte melódica, fora interpretação e qualquer outra busca… a própria expressa social e história acaba também moldando a música. Ela abrange tanto e possibilita tanto, por isso que é tão incrível”, pondera o músico.

PRS, Orange e o palco

Hoje endorser das guitarras importads Paul Reed Smith, Solari realiza o sonho de data de quando fabricava modelos feitos a mão baseados nas PRS. “sempre tive um fascínio por essas guitarras, são como Ferraris – tudo funcionando perfeitamente; e obras de arte em termos de acabamento. E, também com os amplificadores Orange, hoje estou bem contente com meu som, e realmente numa situação bem confortável em termos de timbre. O fato de ter um equipamento e uma emissão de som boa já é pelo menos 50, 60% do som. Esse equipamento que estou trazendo até dispensaria até o P. A. dependendo do tamanho da casa. Tem bastante som que sai daquela caixinha. Agora o P. A. acaba distribuindo melhor o som. Então a gente usa parte do som de palco para empurrar pra frente e parte do P. A. também, essa é a idéia. Então o trabalho acaba ficando um pouco mais artesanal, mas aí é que ta também o legal, o público que conhece a música instrumental, e isso aí vem desde os barzinhos americanos, sabe que nunca rolou aquela infra de showzão, e aquelas coisas todas que nem a gente vê aí a Madonna, Michael Jackson. Nunca foi e nunca vai ser assim. A música instrumental lida com essas situações de “bah, vamos resolver ali…”, o cara ta tocando e “Preciso de mais volume!”, e vai lá e põe mais volume. E o pessoal se ajeita como dá. Isso faz também o bom instrumentista, porque é a colocação de si e do seu som no ambiente e no conjunto. Nem adiantaria por exemplo, estar num estádio, tu tens um controle total de palco, e ainda setorizado. Não tem idéia se lá na frente o operador esqueceu de abrir teu canal, e a guitarra estava desligada o show inteiro. Isso aí o cara nunca vai saber. A questão é o músico ter o controle do seu som. Esse é o músico de verdade”. Nessa linha de raciocínio, Frank demonstra preferência a palcos do porte do Atelier Coletivo. “Eu prefiro fazer show num local menor com o som em boas condições, pra mim é o ideal. Se for teatro, um teatrinho pequeno, com 300, 400 pessoas, dá pra fazer um som quase perfeito”.

A revolução não pára

Naturalmente um profundo conhecedor das guitarras inclusive no aspecto estético e de manufatura, Frank defende que o instrumento ainda se revoluciona, desde o advento do trêmulo e dos pedais: “Na verdade a gente tem a mídia que vende uma coisa: os clássicos. A Stratocaster da Fender e a Les Paul da Gibson, que mesmo quem não conhece vai ver: isso é uma guitarra, é essa que o Hendrix usava – mesmo sem saber a marca. Então sempre o pessoal vai copiar a Strato ou a Les Paul, é certo. Essa guitarra que eu uso por exemplo (vide ficha técnica abaixo) já é uma evolução, começou em 1985 e já melhora o que existia nesses clássicos, e hoje ela já está quase sendo um clássico”. Ao participar do Musikmesse na Alemanha, Solari teve acesso a instrumentos de vanguarda mundial: “A maioria de luthiers, tanto ali da região, Baviera, como da Suíça. Eles tem um tipo de madeira, ali nos Alpes, principalmente para guitarra de jazz, semiacústica. Estão juntando o melhor da construção da lutheria, do handmade, com o melhor de liga e metal, peças, trabalhando com cápsulas de ar.

Birdfish, um sonho de consumo

Existe uma guitarra, Birdfish do Teuffe, não tem nenhuma no Brasil ! Custa 5.800 euros e tem fila de mais de dois anos pra encomendar. Esse cara faz uma guitarra toda em metal com alguns controles, em madeira só o braço e o fingerboard.
Pô, e aí, vai ter som acústico, como é que é? A princípio não funcionaria. A questão é que ela é um lance meio “Exterminador do Futuro”. Coloca ela, o apoio é super confortável. Em cima ele coloca ressonadores acústicos com densidades diferentes. Aquilo ali sim, é algo em madeira com revestimento meio emborrachado. E aí ele pinta, tem vermelha, azul, verde, com densidades diferentes e sons diferentes. Os captadores são meia-luas , são três como se fossem single, captadores simples. Mas ao mesmo tempo ele tem som do humbucking da Gibson. Achei impressionante, teria um desses. Realmente lindas em estética, funcionamento, em som. Só que são coisas completamente não-comerciais, para quem conhece, vai atrás, pesquisa e feitas por pessoas que não estão precisando de dinheiro, fazem por prazer. Então, os instrumentos, a evolução, ela se baseia no clássico”.

Handmade Indoors

A D. Fialho usada por Solari

A D. Fialho usada por Solari


As guitarras de fabricação caseira, hoje Frank reserva ao uso em estúdio: “Cheruti, D. Fialho, Moraes. São instrumentos excelentes com as melhores madeiras, inclusive hoje até proibidas de corte. Então esse tipo de instrumento só tem a valorizar. Só que essas guitarras foram baseadas nas que estou usando hoje, não é nem o shape mas o tamanho de escala, algum posicionamento, a concepção básica”.