Marcado: Humberto Gessinger

Bagé entra no coro dos contentes com o Pouca Vogal

Clube Comercial, Bagé, 1º.11.2010

Foto: Débora Mattos

Foto: Débora Mattos

Mesmo com apenas oito composições próprias, repertório não falta ao Pouca Vogal no palco. O duo pinça canções das bandas de origem dos integrantes para surpreender sempre. Em Bagé, longe da execução burocrática do CD “Ao Vivo” de 2009, substituiram duas das 20 faixas do álbum por várias surpresas, como “Piano Bar”, “3 X 4” e “Terra de Gigantes”. Especialmente comemorado o mix de “Infinita Highway/Carona”, com a segunda encartada no clássico de 1987. Foi já no bis, após uma “A Força do Silêncio” mais percussiva que em disco. Apesar da roupagem acústica das músicas, o clima era de show de rock – tanto entre o público, cuja imensa maioria assistiu em pé, quanto sobre o palco. Depois de movimentar a cidade durante o dia, satisfação visível nos rostos de G & L com a vibração emitida pelo clube lotado.
Tocando quase em casa, pelo link familiar que tem com a terra, o Alemão estava pra brincadeira. Inseriu Bagé onde pôde nas letras (como centro do universo em “Além da Máscara” e uma ilha em “Terra de Gigantes”), “confundiu” EngHaw e CQ com Ivete Sangalo e Lady Gaga ao citar seus artistas favoritos. Como ele mesmo disse no Twitter, não é um cardiologista mas um coração – e isso estava muito visível, sob o colete azul da roupa tricolor.
Do lado vermelho da força, a empolgação do Leindecker mais velho veio inclusive nos solos estendidos com improvisos bem diferentes das versões de estúdio.
O PV é uma ode ao descompromisso com os clichês “roquenrôu” como drogas e groupies: o figurino da dupla é o uniforme para o labor de tocar. Ao entrar no palco e assumir dois violões, me soaram como mariachis com a missão de nos entreter naquela noite. Claro que ao longo do show as seis cordas eram divididas com várias ocupações simultâneas – teclas e pedais midi para os pés, harmônica; e alternadas com outras possibilidades como piano. Gessinger tem esse costume desde a formação GLM de seu grupo paralelo. Ele descobriu Dylan e Zé Ramalho décadas depois de Roger Waters e aos 46, sinaliza estar descobrindo o rock “básico”, na levada da canção (jingle?) de despedida/agradecimento. E também ao inserir versos da stoniana “Satisfaction”. Foi depois de uma variação acelerada de “Dom Quixote”, ao final de “Toda Forma de Poder/Banco” – que já estendera tentando descobrir o que ainda emociona os fãs. Causas perdidas ? Time de futebol? Banda? (R.: “Pouca Vogaaal”). A opção “partidos políticos” recebeu vaias, um dia após as eleições. Aliás, a trilha de abertura do show havia sido a ópera “O Guarani” (Carlos Gomes), mas a Hora em Bagé era do Pouca Vogal.

“Vamos todo mundo, ninguém pode faltar”

Os versos de “Pose (Anos 90)” não foram cumpridos literalmente. Clara Gessinger foi o que faltou no palco. A herdeira de Humberto veio a Bagé, onde almoçou churras com torta de sobremesa na casa de familiares, conforme comentou no Twitter. Mas a quinta música da noite não ganhou o toque feminino que valorizou a reinvenção presente no Acústico de 2004.

“Pose” é uma das 12 pérolas de “Gessinger, Licks & Maltz” (1992), conhecido como “G, L & M”, que fecha a trilogia de discos cada vez mais progressivos que os Engenheiros tiveram coragem de lançar no Brasil dos anos 90: antes foram o megaplatinado O Papa É Pop, e o Várias Variáveis, feito às pressas para se antecipar à chegada de Clara.
É uma suite conceitual costurando faixas que se confirmaram pouco radiofônicas.
O nome é uma homenagem auto-irônica aos dinossauros do gênero como Emerson, Lake & Palmer, ou aos caras do Yes quando assinavam dessa forma. No caso dos EngHaw marcou uma formação muito querida e clamada pelos fãs na comunidade do Orkut.
Subestimado pela mídia, é o álbum favorito de muito fã, e traz algo do clima intimista que encontra certa continuidade no Pouca Vogal.

Auxílio luxuoso
A superação de LL

Os bajeenses, todavia, foram presenteados com outro convidado eventual no PV. Humberto costuma referir-se como “Duplo L” ao titular do baixo da Cidadão: Luciano Leindecker. Ele surgiu tocando Quince (instrumento criado por ele) em “Música Inédita”. Depois assumiu o baixo, que tocou em pé, para mais duas colaborações, e ainda permaneceu batucando uma caixa. Enriqueceu não só os arranjos mas o sentido do que se via no palco, com seu exemplo: ao lado de uma dupla que vence a ditadura do mercado com uma atitude genuina, Luciano também era a imagem da superação. Lutando contra problemas de saúde nos últimos anos, nem por isso abandona o prazer de excursionar e pulsar as quatro cordas no ritmo dado pelo bombo legüero do irmão.

Programa Familiar:
show do PcVgl pode ser um, e ainda reunir três gerações: D. Cacilda, a homenageada em “Terra de Gigantes”, a cardiologista Rosália Gessinger e Clarinha – abstenção sentida no palco, mas curtiu a passagem pelos pampas.

Coro dos (muito) contentes: Talvez desafinado, foi quem cantou com Humberto e Duca “Pose” e muitas outras.


Leia também:

Gessinger e a cultura gaúcha: material exclusivo onde HG avalia a influência da música regionalista no rock gaúcho e em sua obra.
https://marcelofialho.wordpress.com/2008/09/08/gessinger/

Sobre o Pouca Vogal (artigo opinativo em versão original do que saiu editado no Blog da RBS)
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/10/27/pvrbs/

Entrevista: “Se eu fosse depender das grandes estruturas não teria uma semana de vida” (Gessinger)

Ao ser entrevistado em Bagé, Humberto Gessinger avaliou o fato de o Pouca Vogal ter sido trazido pela mobilização dos fãs na internet. “Cara, isso sempre aconteceu muito com Engenheiros, a coisa de transbordar e cair na rua. Eu me lembro que uma vez eu dei uma entrevista, tinha saído numa revista uma livrinho com todos fã-clubes do Brasil e não tinha nenhum do Engenheiros. Achei bacana e falei pro Carlos (Maltz) e a gente falou numa entrevista. No dia seguinte a gente era a banda com o maior fã-clube ! Porque parece que as pessoas querem fazer o contrário do que tá acontecendo… Já senti ali que Engenheiros é uma coisa de rua. Antes da internet, a coisa dos fanzines, dos mimiografados, tinha muito, e foi o que segurou a minha onda, porque se eu fosse depender das grandes estruturas eu não teria uma semana de vida. Ao mesmo tempo que eu sou muito grato a isso eu não conheço outro mundo, talvez eu nem saiba avaliar o quanto importante isso é, porque pra mim desde sempre foi assim, ligação direta”.
Ele adianta que o Pouca Vogal não tem data prevista para acabar: “Do ponto de vista estético ele é inesgotável, porque a gente pode passar uma vida não só compondo, como relendo o que já escreveu, porque o projeto joga luzes diferentes sobre. Tem outros fatores girando em torno dum lance desses que não só os estéticos. Mas espero que o tempo que durar seja com intensidade total”.
Na parceria, o processo de criação “pinta de várias formas. Cada um faz a sua parte sozinho, seja música ou letra. Aconteceu casualmente, não foi algo que a gente tivesse se imposto. Muito da composição se passa na parte de trás do cérebro e tu nem sabe o que tá escrevendo, e uma hora cristaliza. Não faz muita diferença se a composição é para o Pouca Vogal ou não. A questão é mais do arranjo que da composição – pra que formato a gente vai fazer ?”, detalha HG.
Como escritor, Humberto tem pronto o sucessor de Pra Ser Sincero (2009, Belas Letras), com título a ser definido pelos fãs: “O PSS é um zoom in, é alguém contando 1, 2, 3, 4, 5. E esse novo é 1,1 e 1,2 e 1,3, quer dizer, ele tá chegando mais próximo. Não sei se vai ser melhor ou pior, mas vai ter essa diferença”, compara.

Os vários talentos de Duca Leindecker

Dez anos antes de Gessinger se autobiografar, Duca lançava “A Casa da Esquina”, e em 2002, “A Favor do Vento”, ambos os romances pela L & PM. A faceta escritor é uma das muitas do multimidiático artista.

Também produziu várias bandas gaúchas em seu estúdio próprio, o Submarino Amarelo, em Porto Alegre, onde recentemente o Nenhum de Nós gravou seu novo álbum, Contos de Água e Fogo. Leindecker ainda produz curta-metragens como “Chá de Frutas Vermelhas”, atualmente em exibição no Canal Brasil, da Globo, e que entrou nos Curtas Gaúchos da RBS em 2009.
Sua esposa Ingra Liberato, protagonista principal de Ana Raio e Zé Trovão, voltou às telas da tevê aberta em 2010 com a reprise da novela.
Em Bagé, DL revelou estar trabalhando um terceiro romance e ter um novo curta já escrito, ambos os projetos inacabados, respectivamente, por insatisfação com o texto, e por falta de recursos.

2. SEGUINDO GESSINGER E LEINDECKER

Como foi o dia do Pouca Vogal em Bagé: entrevistas, autógrafos, televisão e outros pormenores

Ok, confesso. Venho seguindo Humberto Gessinger e Duca Leindecker há algum tempo. E mais, tem dezenas de milhares fazendo o mesmo. No ambiente onde isso acontece, eles se apresentam como @1bertogessinger e @ducaleindecker. Welcome to Twitter.

Foto: Murilo Dotto

Foto: Murilo Dotto

Pelo microblog é que foi possível antecipar nas primeiras horas da segunda-feira que os dois sairiam em ônibus de POA por volta de 2 hs com chegada prevista para as 7 hs. E de fato, no início da manhã Humberto já tuitava fotos do Clube Comercial. Naquele momento, o madrugador @murilodotto (dottoblog.blogspot.com), que chegava para apresentar o Conexão Pop Rock na FM 98.1, capturou seu encontro com o músico.

Ao meio-dia, HG e DL encerraram bloco do Jornal do Almoço local. Responderam ao repórter Chrystian Ribeiro sobre sucesso, excursões pelo Brasil, interação com o público, improviso no palco e o papel de multiinstrumentistas que assumem. E em seguida tocaram “Depois da Curva”, cuja letra fala em deixar passar a ventania – que de fato marcava Bagé desde a véspera.

A íntegra do papo em vídeo pode ser conferida no site da RBS TV Bagé, atualizado por Patrick Corrêa:
http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=147392&channel=45

Retomando a perseguição: fui ao Yázigi porque sabia pela internet que o PV estaria lá. Me antecipei mas encontrei uma fila de fãs. Depois de um hiato, a esperada dupla chegou distribuindo “autógrafos e sorrisos” como Gessinger anunciou ao microfone, e protagonizando, entre tantas, as cenas a seguir.

A diretora do Yázigi Internexus, Maria do Carmo Machado, foi oportuna em explicar a promoção “Band Me Up”, que oportuniza espaço a novas bandas em busca de projeção. Aqui, ela e parte da equipe recepcionam aos músicos.
>>Confira: http://www.bandmeup.com.br/

Entre os fãs mobilizados pela presença do PV, vários músicos (alguns portando instrumentos para que fossem autografados) como é o caso da galera da banda Plasma Rock, na foto. (ao fundo, Leko Machado)

Também trabalharam por ali os enviados dos veículos de comunicação locais, como o Jornal Folha do Sul, representado por Fernanda Couto e Antônio Rocha. Mesmo caso do Rota 20 – na foto, Graciela Freitas grava seu take…

Também Diélen e Marta da Pop Rock FM, que transmitiram ao vivo…

Mas entre os repórteres, provavelmente o coração que bateu mais forte no dia foi o da Niela Bittencourt, do Jornal Minuano. Fã confessa de EngHaw e PcVgl e militante da vinda do segundo, trabalhou na cobertura acompanhada do namorado (e repórter fotográfico) João. Emocionada na presença de Humberto e Duca, lhes revelou que, se vier a ter um casal de filhos, serão chamados Ana e Luciano, em homenagem aos integrantes do PV.

Incidentalmente à esquerda, o autor destas maltraçadas, flagrado pelo mago da fotografia, Leko Machado.

Foto: Leko Machado

Foto: Leko Machado

Falando no Leko, retribuo a aparição – olha ele à esquerda, neste momento tiete da formanda em Comunicação Buca Netto, que compartilha com 1berto a paixão pelo tricolor. À direita, o mascote Humbertinho.

Na verdade o Humbertinho e o Duquinha foram criações artesanais das irmãs Jenifer e Queli.

3. A LONGA HIGHWAY SP-BAGÉ

Fãs unidos pelo PcVgl: Chinelatto (esq.) veio de São Paulo para o show viabilizado por um movimento virtual encabeçado por Leandro Souza (dir.)

A devoção em torno de um artista é também origem de grandes amizades. Foi assim com José Luís Chinelatto, que voou de São Paulo, capital, em sua primeira vinda a Bagé, para o Dia do Pouca Vogal. Desde que se identificou com as canções do álbum Minuano na rádio, em 1997, passou a acompanhar fãs do Sul, onde já veio seis vezes, em cidades como Caxias, Bento, e inclusive na gravação do DVD de 2009 do PV, na capital. Os gaúchos retribuiram as visitas, por exemplo, na gravação de Novos Horizontes, dos Engenheiros, em 2007, e na turnê subsequente. Técnico em Óptica e proprietário de uma casa do ramo, Chinelatto auto-financia suas viagens, pesquisando na internet as passagens mais em conta.

Gessinger e a cultura gaúcha: material exclusivo onde HG avalia a influência da música regionalista no rock gaúcho e em sua obra.
https://marcelofialho.wordpress.com/2008/09/08/gessinger/

Sobre o Pouca Vogal (artigo opinativo em versão original do que saiu editado no Blog da RBS)
https://marcelofialho.wordpress.com/2010/10/27/pvrbs/

https://marcelofialho.wordpress.com/2010/11/02/pv/

Nei Lisboa em Bagé – Entrevista

[ 08.10.2009 ]

A simplicidade de Nei Tejera Lisboa, 50 anos, foi conferida pelos bajeenses esta semana, quando voltou à cidade para uma performance de seu show atual, e para a divulgação de seu segundo livro, extemporânea à recente Feira do Livro local. Nei já se apresentara na AABB na época do álbum “Hein ?” lançado em 1988, e mais recentemente, em um evento da Ajuris, no Clube Comercial. Desta feita, o artista veio na véspera da agenda a cumprir, antes da banda e produção. Foi pauta em vários veículos de imprensa, e atração-relâmpago das “variedades” de tele-jornal local.

Um Nei naturalmente indiferente aos cliques, acompanhado pelo entrevistador-fã exibindo um autógrafo

Um Nei naturalmente indiferente aos cliques, acompanhado pelo entrevistador-fã exibindo um autógrafo

TRINTA ANOS DE NÃO-ESTRELISMO
“Ser acessível faz parte do meu show”, define um Nei coerente com seu discurso, já no saguão do hotel, onde desceu para uma conversa de cerca de quarenta minutos. O músico cogitou a transferência do bate-papo para uma cafeteria, caso o som de uma televisão no recinto interferisse na gravação. Tal acessibilidade por parte de um artista consagrado, rara em qualquer constelação, acompanha o compositor desde sempre. Ao cumprimentar Paulinho Supekóvia, Nei qualificou de “lenda viva” o guitarrista que tem sido seu escudeiro há duas das três décadas de estrada.
“O estrelismo não é meu mundo. Sempre que tentei, me senti um peixe fora d´água em qualquer situação do gênero. Acho que é uma recusa mútua”, brinca, referindo-se ao showbusiness. Apesar da timidez confessa, Nei chegou a percorrer a via crucis de todo artista gaúcho em busca de projeção nacional: entre 1987 e 88, contratado pela EMI, rumou para o Rio de Janeiro, apareceu na grande mídia. Mas os planos foram interrompidos por um acidente automobilístico que vitimou sua então namorada Leila Espellet. Isso motivou uma inversão da escala de valores do artista: “Aquele mundo se desfez e iniciou o trabalho do disco Amém.”
Permanecendo relevante no cenário gaúcho sobretudo, Nei hoje mantém uma agenda nacional, porém modesta. Conserva datas anuais em São Paulo, para um máximo de 50 pessoas, e Curitiba.

MEGA-SHOW DE ANIVER
Além dos shows comemorativos ocorridos ao longo do ano, há um projeto de um grande espetáculo de aniversário, envolvendo “mega-banda, orquestra de câmara e locutor paulista”. A idéia inicial de lançar um DVD, que chegou a ser divulgada na mídia, tornou-se incerta: a captação envolve em torno de 200 mil reais, e embora a produção estude a Lei Ruanet, questiona-se a validade de investir em “um suporte (o de DVD, CD) em depreciação, tanto pela tecnologia atual de distribuir música, como pela demora do processo, por exemplo, gravar em março e lançar no fim do ano”. Diferentemente de Amém e Hi-Fi, o terceiro álbum ao vivo daria prioridade aos clássicos do cantor. Tal qual o repertório atual, que faz um balanço da trajetória em seu aniversário, distinto aos shows Lado B (com as canções menos exploradas comercialmente, o que inclui o último disco quase na íntegra) e Hi-Life (comemorando dez anos do ao vivo anterior).
O envolvimento com o show atual não abriu espaço para um novo álbum de inéditas. Nei admite ter apenas “esboços de gaveta”, mas ainda sem visualizar se o próximo trabalho dará continuidade ao intimismo MPBista de Translucidação (2006), considerado pelo autor um trabalho difícil (quanto à assimilação pelo público).

POETA EM PROSA
Nas cidades onde se apresenta, Nei promove sessões de autógrafo de seu mais recente livro, “É Foch !” (pronuncia-se Fóshi – alusão a um eminente marechal francês atuante no início do século). Em vista de que Thedy Corrêa e Duca Leindecker têm livros publicados e Humberto Gessinger anunciou que fará o mesmo, questiono a Nei, se lançar livros (o que ele fez pela primeira vez há 20 anos) é uma tendência natural para os músicos. “Não só músico, todo mundo quer lançar um livro, plantar uma árvore e ter um filho”, brinca o cantor, com o clichê. “Mas no caso do músico, se é conhecido, a editora já se interessa sem ler. (risos) E costumamos ter fome de prosa, porque escrever letra é uma atividade ‘neurótica’, principalmente no meu caso que componho primeiro a música”, confessa, tendo um calafrio só de pensar em escrever.
“É Foch !” compila justamente escritos extra-musicais de Nei, que colaborou com crônicas para Zero Hora (quinzenalmente) e Extra-classe (mensal, veículo ligado ao Sinpro) até a época da concepção do álbum Translucidação. “Foi uma experiência muito legal, apesar da minha falta de tarimba e lentidão para escrever; o que atrapalhava no fechamento”.

DEU NA TV
A percepção de Nei quanto a mídia transparece em algumas de suas letras, como “Deu na TV”, do álbum Relógios de Sol (2001). Será que para o poeta nada se salva na grade da TV ? “Na Globo News, assisto os comentaristas para poder falar mal deles, e o programa Milenium. Além de outros programas de entrevistas e documentários no canal GNT. O seriado Law and Order, da Universal, é um vício”, admite. “Mas hoje a TV é só uma entre outras telas, como a da internet, por exemplo”.

Camiseta alvirrubra com que Nei foi presenteado agradou, pelas cores em comum com seu favorito no futebol gaúcho

Camiseta alvirrubra com que Nei foi presenteado agradou, pelas cores em comum com seu favorito no futebol gaúcho

NEI TEJERINHA
Mais do que rock, a música de Nei tem elementos que variam da MPB ao blues de cabaret, e em alguns momentos assimilaram uma genética latina, denunciada por títulos como “Cha cha cha Moderno”, e letras como “pop art meio bolerão”. Nei revela que a influência da vizinhança resume-se ao Uruguai, pátria de origem da família Tejera, de seu avô, e com cuja cultura teve um “namoro” na produção do disco “Amém”. Na época, promovia inusitadas reuniões de músicos locais com uruguaios, como Jorginho do Trompete com Maurício Trobo, “Lobo” Nuñez e Ruben Rada.

A influência latinoamericana mais ampla sobre Nei vem da literatura. Vários autores dessa origem, dividem com os beats as maiores referências literárias do cantor. “Sou um leitor comum, não um intelectual”, adverte. “Nas entrevistas perguntam que livro estou lendo e sou bem sincero: nenhum !”.

CLIQUE NO COCO… E OUÇA O NEI NA FAIXA
Devido a seu perfil democrático, Nei procurou oferecer aos fãs mais que discos, livros e shows e investiu na tecnologia: seu site oficial é constantemente aprimorado, sendo rico em material, incluindo seu acervo completo. Foi desenvolvido o programa “Webvitrola Cliquenococo”, que permite o acesso online (via streaming) a toda a discografia (incluindo dois títulos fora de catálogo), shows extra-oficiais e vídeos. Parte das faixas pode ser baixada legalmente – o músico chegou a pagar ao ECAD para ofertar sua obra. Sobre a distribuição de material pela Internet, argumenta: “é inutilidade jogar contra. A indústria tem uma percepção equivocada das possibilidades e agiu da pior maneira quanto a isso. As vendas de CD caíram não só devido aos downloads mas por ´N´ motivos: as gravadoras seguem inflacionando o preço, e um cartel de quatro majors domina 80% do mercado mundial. Chamo pirataria às vendas de calçada, ligadas à máfia chinesa e sem pagamento de impostos. A troca de arquivos via rede, ponto a ponto, é salutar”. Está prevista para breve a primeira transmissão ao vivo pelo site, após a conclusão de testes técnicos.

BERLIM/BONFIM/CIDADE-BAIXA
Na produção antiga de Nei, certo bairrismo gaúcho transparece em elegias a valores típicos de Porto Alegre, como “Berlim-Bonfim”. Hoje fora do tradicional bairro (divulgado nacionalmente pelo “Magro do Bonfa”) em que morou por décadas desde os oito anos de idade, Nei cantava a boemia inerente ao local, mas admite que a mesma se desfez no final dos anos 90: “só sobrou o Ocidente, do que havia”. Para ele a Cidade Baixa hoje concentra as opções noturnas.

NEI PARA CRIANÇAS – EXCLUSIVIDADE DA MARIA CLARA
Nos últimos dias em Bagé, houve quem especulasse que Nei fosse pai da atriz Mel Lisboa, destacada por minisséries e novelas globais há alguns anos. Apesar do sobrenome, Mel é na verdade filha de Bebeto Alves, um dos antigos parceiros musicais de Nei.
Já Maria Clara, sim, é o nome da pequena criação de Nei que passou a dividir o tempo do músico com a arte, nos últimos seis anos. Nei admite estimular na menina o gosto pela música, “da mesma forma que faria se (a música) não fosse meu trabalho; nada excepcional. Propiciamos a ela conteúdos legais, tentando escapar do circuito da Xuxa e das coisas que imbecilizam, tratam a criança como um adulto idiota”. Nessa proposta, apresentou à filha os grupos Palavra Cantada e Cuidado Que Mancha. Demonstra expectativa quando comentamos sobre o Pequeno Cidadão, projeto de Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra voltado ao público infantil.

“NÃO DÁ PRA CONTAR ESTRELAS QUE BRILHAM NO FIRMAMENTO…”
Entre tantas atividades, Nei ainda encontra tempo para ativismo político, emprestando seu talento à ideologia que acredita. Essa face se tornou bem conhecida no pleito de 2002, em que Nei aparecia na mídia regional interpretando “Agora é Lula”, de Péri e Duda Mendonça. O engajamento é constante: no último fim de semana Nei engrossou o coro Fora Yeda no Parque Marinha do Brasil. “Não tenho afiliação partidária ou compromisso. O ideário me corresponde apenas, e as realizações como as que vejo em Bagé. Conheço as divisões internas, mas quero ver um partido unido… e vitorioso !”

Nei conheceu a simpatia e profissionalismo da imprensa local

Nei conheceu a simpatia e profissionalismo da imprensa local

HEIN ?! QUEM ?! (NEI PARA NEÓFITOS)

Nome fundamental da música gaúcha (em um estilo rotulado eventualmente como MPG), Nei celebra em 2009 três décadas de carreira musical, além de 50 anos de vida.

Iniciou seus shows no final dos anos 70. Na época, o bairro bonfim era uma espécie de celeiro artístico, a partir da lendária esquina maldita. Entre os convivas de Nei iniciante, Gelson Oliveira, Bebeto Alves, cineastas como Carlos Gerbase, e atores como o performático Antônio Carlos Falcão, mais popular por sua imitação de Maria Betânia.
Em 1979, o antológico espetáculo Deu Pra Ti Anos 70, que execrava debochadamente a década moribunda, atingiu popularidade, inspirando mais tarde o filme homônimo. Nei era acompanhado pelo guitarrista Augusto Licks, que mais tarde alcançaria fama nacional ao entrar para os Engenheiros do Hawaii.

Humberto Gessinger também foi um parceiro importante na época do Carecas da Jamaica (1987), cuja faixa-título é um dueto. “Deixa o Bicho” é composição do Alemão.

Em 1993, gravou “Quebra-cabeça” com o Cidadão Quem para o álbum do estréia, Outras Caras.

No final dos anos 90 realizou a primeira temporada conjunta com Vitor Ramil, onde tocavam seus respectivos sets e formavam duo para clássicos de ambos, como “Dirá, Dirás” e “Sapatos em Copacabana”, e de terceiros como os Beatles.

Nos últimos anos, Nei participou da transposição de suas composições para ambiente de concerto, como quando as executou em conjunto com a Orquestra de Câmara da Ulbra.

Também vem sendo regravado por nomes que transitam de artistas de Nenhum de Nós a Caetano Veloso (trilha do longa nacional Meu Tio Matou Um Cara), e mais recentemente, Zélia Duncan.

Nei tem uma identificação maior com as bandas gaúchas emergentes nos anos 80, como ele, e interagiu muito mais com estas do que com nomes do cenário atual, entre os quais somente a Pública dividiu palco com ele recentemente.
Questionado sobre uma eventual falta de reconhecimento dos nomes históricos da música do RS, Nei acha natural que os jovens tendam a identificar-se com os artistas de sua geração. Recorda um cartoon muito ilustrativo desta situação, em que jovens vêem um anúncio de Bob Dylan e comentam: “Olha, o pai do Jakob, do Wallflowers, também toca !” Como exceção, “de vez em quando se exuma alguma coisa do passado, como eu mesmo (risos)”.

Natural de Caxias, recebeu este ano do Legislativo daquele município o título de Cidadão Emérito Caxiense.

Agradecimentos:
Ana Lombardi, produtora do show de Nei
City Hotel

Volta, Augustinho

licks Esse registro de Augusto Licks foi postado num blog como tendo sido captado em agosto, em um shopping. Augusto foi um dos construtores da identidade dos Engenheiros do Hawaii que perdurou durante sua permanência na banda, até o acústico “Filmes de Guerra…” (1993). Tal estética foi depois derrubada por Gessinger. Licks trabalhara com Nei Lisboa em um espetáculo e dois álbuns clássicos; tinha grande cancha de estúdio, como de palco, e soube canalizar a favor do trio. Após retirar-se dos enghaw processou a dupla remanescente pelo uso do nome. Hoje se oferece para ministrar workshops de música – ou seja, demonstra disposição ao trabalho guitarrístico. Talvez essa impressão tenha levado a comunidade dos fãs dos Engenheiros no Orkut a só exibir no perfil fotos do trio GL&M. Jornalista formado, Licks sempre se confessou avesso à exposição na mídia. Seu perfil nerd (a começar pela aparência) de um dândi que se revoltou executando solos de grande desenvoltura, credenciou-lhe como um perfeito engenheiro do Hawaii; de tal modo que mesmo após seu afastamento, há permanente clamor popular por um comeback, da formação “clássica”, por parte de grande fatia dos fãs. Ninguém sabe se isso será superior aos conflitos pessoais entre os três, para viabilizar a volta, que seria oportuna após o atual stand by da marca Engenheiros, para o aniver de 25 anos, em 2010. Deixa eu engrossar o coro: VOLTA, LICKS !!!

Wander Wildner em Bagé

“O Atelier Coletivo é o espaço alternativo do futuro” (Wander)

wander2

Bagé entrou na última quinta-feira, 16, no rol das cidades gaúchas em que Wander Wildner tocou pela primeira vez (como Pelotas e Salvador do Sul) em sua abrangente excursão atual.
A turnê promove o álbum La Cancion Inesperada, de 2008, que extrema ainda mais influências brega-paraguaias de infância, anteriores ao punk replicante. A obra tem prefácio emotivo do jornalista Marcelo Ferla e participações como Jimi Joe, Artur de Faria e Biba Meira, que não excursionam regularmente com Wander. O site oficial já anuncia para breve novo disco, já que é comum na trajetória do artista amadurecer projetos paralelamente durante anos.
Uma das maiores projeções nacionais do cantor foi a regravação de “Bebendo Vinho” pela banda Ira! em 1999; no entanto, regionalmente ele recebe tratamento cult que se estende aos guetos alternativos Brasil afora.

I – EL SHOW DEL MARIACHI WANDER
CANCIONES ESPERADAS Y OTRAS COSITAS

mariachi

Pontualmente uma hora após o anunciado, começa o baile. A simplicidade do time completado por Milton “Sting” Heck e Pedro Petracco não tem nada de desplugada; é um trio-elétrico.
Falando em claro “portuñol”, Wander se revela milagreiro (referência à versão de Ramones que toca) e ao longo de 18 canções desfila suas referências: Secos e Molhados (“procurem no Google”); o filme cult El Mariachi, de Robert Rodriguez (a primeira versão do roliudiano Balada Del Pistolero); e o caçula dos irmãos Ramil – autor de milongas como aquelas que, já entre as primeiras músicas, acordes denunciam que a banda trouxe, e que soam oportunas na campanha gaúcha.
Além de mandar saudações à madrinha Maria Pia, Wander vendeu na melhor linha “la garantia soy yo”, seu peixe, isto é, exemplares de seu CD de 2008 a 10 pilas.
Principalmente, soube equilibrar o show de lançamento com o que o público pedia (gritava), como “Não Consigo…”, “Empregada”, “Hippie-punk…”, “Eu Tenho Uma Camiseta…”, “Bebendo Vinho”, e principalmente, os pontos de massacre do assoalho: “Amigo Punk” e “Lugar do Caralho” (pela vibração verificada, o prédio do Atelier não sobreviveria a um show de Flávio Basso). Nem todos pedidos seriam atendidos – faltaram “Jesus Voltará” , “Candy” do iguana pop Iggy…
E nem tudo foram flores: problemas na equalização, em alguns momentos limaram o microfone de Wander, mas sua voz natural era ouvida pela platéia, que muitas vezes assumia os vocais em coro.

Carlo Andrei está sorrindo com a repercussão de suas iniciativas

Carlo Andrei está sorrindo com a repercussão de suas iniciativas

Ricardo Belleza e Augusto, da Marvin Produções, trouxeram o show

Ricardo Belleza e Augusto, da Marvin Produções, trouxeram o show

augusto

II-ATELIER-MODELO
E mais uma vez, a atitude corajosa de bancar cultura alternativa em Bagé foi coroada com lotação de casa (atraindo até mesmo colegas de casas noturnas locais) e reação positiva de público. Mas o golpe de misericórdia foram os comentários de Wander, durante nossa entrevista, trecho presenciado por Carlo Andrei. O poeta considerou o Atelier um exemplo do que pode ser um modelo de espaço para o circuito alternativo futuro: “em dez anos aprendemos muito e nos próximos dez, vão surgir outras propostas, talvez como esta aqui do Atelier, lugares que não sejam só bar – tá muito comum lugar só com cerveja e show e os festivais estão muito parecidos. Na Europa, nos squats onde se faz shows, se consegue para as bandas beliches para dormir, jantar, cerveja, café da manhã e dividem bilheteria”.
Não satisfeitos com tal reconhecimento, os organizadores do show ainda encerrariam a noite com mais um presentinho aos pagantes: show com a Sistema Falido local, com sua fusão de rock com hip hop, e a presença no palco de DJ.

III-ENTREVISTA (um pequeno tratado sobre Wander Wildner)

NA CAMA COM WANDERLEY

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Sentado na cama de casal do dono do bar Atelier Coletivo, que serve de “camarim” para os nomes alternativos que se apresentam na casa, o artista troca de roupa entre goles do vinho ao seu lado. Em seguida, relata como, antes da sessão de autógrafos na Livraria Editora Bageense, veio para a fronteira num ônibus “pinga-pinga” e foi recepcionado pelos produtores na Rodoviária. Wander explica que nem sempre o contraste com o estrelato é tanto: “Às vezes viajo de avião, cada show é uma história. Para que saia show pela primeira vez num lugar, tem que fazer de modo simples, baratear custo. Sem alugar van; não vem técnico, roadie, nem equipamento”.
A redução da banda a um trio, para o músico, não compromete a execução das canções gravadas: “Disco é um trabalho, show é outro, não tem nada a ver. Impossível fazer no palco o que se faz no disco (a não ser que este seja muito simples), onde sempre tem um monte de amigos tocando”.
Uma das presenças do estúdio inviáveis na maioria dos shows é a do lendário guitarrista Jimi Joe: “ele não pode faltar ao trabalho (como diretor da rádio da Unisinos), e faz hemodiálise”.

BLOGUE PIRATA E EMETEVÊ

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Ao vivo, Wildner não se caracteriza como “um tipo de pirata”, modo como se descreve em seu blog Mapa do Rock, no portal MTV. “Cada trabalho é um trabalho, não tem a ver. O blog é sobre ir a lugares, coisa que os piratas fazem”. wander_garota_sexshop-455Criado recentemente a convite da emissora, no site o cantor apresenta locais interessantes por onde passa, como o bar paulista Astronete. Wander, que em 2004 gravou o MTV Ao Vivo Bandas Gaúchas também a convite, relata: “tenho relação com a MTV desde que ela existe há 18 anos. O primeiro demo-clipe exibido por ela, foi da Sangue Sujo (antiga banda de WW). Sou amigo de diretores, tomo vinho na casa deles”. Mas, esclarece, não rola jabá: “a maioria dos artistas dão dinheiro pra MTV rodar seus clipes; eu nunca paguei nada. Desde o começo ela tem um percentual de espaço para artistas alternativos”. Mesmo assim, Wildner não se submete ao canal musical: assim como nunca fez (nem foi convidado para) Gugu e Faustão “porque é da Globo”, e se limita aos programas da MTV com que mantém identificação: “Do Mion só fiz o Cover Nation, seus outros programas considero machistas e falo pra eles. Geralmente faço tevê pequena, do interior, que vão entrevistar… tô falando do meu trabalho e não tô me sujeitando a nada”.

“NÃO PARTICIPO DE NENHUM MOVIMENTO; PUNK É UM RÓTULO”
Wander evoca a longa relação com a MTV como demonstração de que não “se vendeu para o sistema”, nem “traiu o movimento”, até porque não faz parte de nenhum: “Movimento é coisa de quem não sabe fazer coisas. Todo movimento é estático, nenhum é interessante. Eles criam regras e as pessoas não evoluem. Não pertenço a nenhum… sou apenas… um homem ! Livre, e digno…” Para ele, a expressão punk não passa de um rótulo. “São rótulos temporários, de época. Punk é a mesma coisa que o hippie, o beatnik, o lúmpen… só que numa época o mundo é de um jeito, e tem um nome, depois tem outro… são outsiders…”

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…NEM PUNK NEM GÊNIO…
Ao contrário de seus fãs, Wander não se inclui numa possível galeria de “gênios” do rock gaúcho que alguns procuram enxergar. “Gênios são pessoas que tem um trabalho muito grande, produzem num ritmo alucinante, maior que o normal. Não faço isso, minha produção é num ritmo lento. O Júpiter Maçã é um pouco gênio, Edu K… são pessoas que produzem muito. Gênio não entende muito como são as coisas, não consegue conviver com as outras pessoas. Tá sempre indo além e não trabalha a coisa no tempo que eu trabalho. Eu não sou um criador; o gênio cria muitas coisas que não existem, o tempo inteiro”.

MÚSICA REGIONAL GAÚCHA
Conhecedor de muito tempo do contexto alternativo nacional, o ex-replicante avalia com propriedade as diferenças de uma possível “cena” musical sulista em relação a outras, especialmente o caráter comunitário das fusões musicais no Nordeste: “Lá a criação é muito grande, sempre misturaram o que vem de novo com a tradição, as coisas antigas. Qualquer cara que tem banda punk, tem bloco de maracatu. Chico Science é um exemplo. Aqui no RS poucos artistas misturam, porque os regionalistas nos anos 70 não gostaram do que os jovens faziam, eu vi isso. Então não se fez essa mistura natural que Pernambuco, Pará, Bahia fazem”. No entanto, Wildner considera o rock gaúcho um dos melhores do Brasil, além de “um pólo de criação”: “Em SP, megalópole que vai além de uma cidade grande, não tem rock interessante. Já teve Mutantes, Joelho de Porco; mas o mais interessante não é rock, como Premê, Rumo, e hoje, Luiz Tatit, Maurício Pereira, Mulheres Negras. Assim como no Maranhão tem reggae, e aqui no Sul, Vitor Ramil, Nei Lisboa, Júlio Reny que não é rock, é canção. E letristas fenomenais, raros no rock: Carlos Gerbase, Humberto Gessinger, Mini da Walverdes, Nenung (The Dharma lovers/ ex-Barata Oriental); e na nova geração, Andrio da Superguidis”.

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DIAS MELHORES PARA O ALTERNATIVO
Wander faz um balanço positivo para o circuito alternativo brasileiro desde a época de seu primeiro álbum: “hoje tem 38 festivais independentes, onde só tinha um. Tem muito mais lugar pra tocar, internet pra distribuir música; as bandas estão aprendendo a fazer turnê porque não sabiam; os grandes artistas não faziam, queriam ganhar muito e deram mal exemplo. Na Europa e América, bandas grandes como U2 e Stones tem duas bandas antes, e tocam dia sim, dia não. Aqui tá chegando nisso”. Sua média atual de shows pretendida é oito por mês: “em maio fiz 14, mas chegava em casa em SP e só lavava a casa e a roupa sem descansar ou fazer coisas novas. Eu tinha largado o produtor e faço tudo, toda a produção, tinha que descobrir um método de produzir”.

TOM CAPONE: AO MESTRE, COM CARINHO

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Falando em produtor, oportuno um tributo a Tom Capone, produtor musical falecido em 2004, em acidente em Los Angeles, após concorrer ao Grammy. Brasiliense, Tom havia trabalhado com Legião Urbana, Raimundos, O Rappa e vários outros artistas renomados. Mas no caso de Wander, sua influência foi ainda mais determinante do produto final de seus dois discos iniciais, e conforme segue, estendia-se ao caráter humano: “Foi ele que me fez, a minha carreira, eu tava em Porto Alegre e ele me chamou pra gravar o Baladas Sangrentas. Sou muito cabeça dura e não entendia, só fui entender depois que ele faleceu. Hoje procuro honrar o que ele me ensinou: ser generoso, espalhar o amor que ele tinha; senão teria que parar de novo. Tenho que continuar e aprender a ser mais cabeça aberta. Acho que estou conseguindo, e ele deve estar dando risada comigo agora” (risos)