Marcado: Lobão

Diploma de Jornalismo: análise de dois debates simultâneos

Na noite da terça, 23, os programas televisivos MTV Debate e Observatório da Imprensa, ambos ao vivo e praticamente simultâneos, tiveram a mesma pauta: fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista.
Assisti ambos pela internet e gravei partes em streaming para rever. Inicialmente iria apenas descrever o que vi e ouvi, mas em dado momento, Lobão me deu letra para a correta análise: “tô constrangido de estar aqui nesse debate sem ter diploma de coisa alguma”, disse o roqueiro. Me percebi ante uma dualidade: um apresentador sem formação; outro devidamente oficializado – por registro no MTb e não por diploma, que nos anos 50 era quase inexistente. Dines promoveu sua auto-formação muito mais rica que em muitas faculdades; exceção que não pode ser convertida em regra a ponto de deduzirmos que todo aspirante a jornalista faria o mesmo no Brasil anos 2000.

lobao

Admiro Lobão pela atitude, desde o Vímana. A exemplo do Marcelo Nova, não tem papas na língua. Simulou masturbar-se no palco em seu show em Bagé. Vendeu álbuns exclusivamente em bancas de revista no passado, o que é ousado e anti-sistema; arriscando abrasileirar o trip hop, estilo que não massificou por aqui. Apresentou o VMB mais recente todo largadão.
Ademais, soa humilde ver tamanho ícone da cultura apresentando um programa televisivo, como João Gordo faz há anos e Frank Jorge andou fazendo no Radar da TVE gaúcha.
No entanto, o tema é: jornalistas. Não me parece adjetivo aplicável ao senhor Woerdenbag Filho, ainda que inserido em um programa e em uma emissora de TV, cuja produção inclui profissionais da comunicação…
Dines, por seu turno, é um símbolo direto da comunicação brasileira. A instituição Observatório da Imprensa, que inclui o programa televisivo, é um dos maiores estímulos de meu ingresso ao curso superior. Conhece a história nacional sob um olhar crítico como poucos ainda vivos, testemunha presencial das mazelas da ditadura, de toda a história da formação em jornalismo; e estudioso dos primórdios da imprensa no país, com o lobby europeu de Hipólito da Costa; e a perseguição clerico-inquisitória que impedia aos tipógrafos e comunicadores de então a importação iluminista. (Dines é judeu).
Tanto eu sou assumidamente parcial na presente avaliação, quanto Dines o foi na coordenação do debate. Mostrou, é verdade, depoimento exclusivo de Gilmar Mendes, na mesma linha do catastrófico discurso da votação. Mas depois colocou entrevista a jurista no Recife que questiona a alçada do STF sobre o tema. Logo, deputado federal Miro Teixeira, anunciando para breve projeto de lei que assegura direitos trabalhistas da categoria jornalística. Muniz Sodré, constante do programa, foi o escolhido para representar o “sim ao diploma”, sempre vindo após as respostas de Mário Vitor Santos, “o outro lado”.
Na MTV também captei uma tendência pró-diploma, desde as primeiras postagens nos blogs da emissora. O debate teve um VT inicial com a contumaz edição “dinâmica” e uma externa mostrando passeata estudantil em São Paulo.
Os convidados – três pró-diploma:
Guto Camargo – presidente do Sindicato dos Jornalistas de SP; Bruna Araújo, estudante que organizou passeata em SP; Thamyê Blois, do Portal Veja SP, recém-formada.
E o trio da oposição: Ricardo Gandour, diretor da ANJ e diretor de conteúdo do Estadão; Ivan Finotti, repórter da Folha; Victor Ferreira – estudante, estagiário na Época. Neste segundo caso, como sempre, senti vergonha dos argumentos apresentados pelos simpatizantes à queda da exigência. Sempre admitem defender a formação em jornalismo, mas não explicam de que modo ela vai ocorrer fora do curso.
Na “condução” dos trabalhos, Lobão, sendo natural, explicitou a dicotomia que eu presenciava entre os dois debates. Definiu a si mesmo como “bem outsider”, no sentido de que despencara de paraquedas num assunto que não domina e não estudou previamente, ocupado que está com seus afazeres musicais. Assim a conversa fluiu da mesma forma que em sua ausência, e, como, jornalista sem formação, o grande Lobo se confirmou como um divertido entertainer.

dines

Claro que diante deste golpe histórico, ninguém quer rir. Nesse sentido o Observatório supriu minha necessidade com eficiência anos-luz à frente. Houve condução efetiva da discussão, e a edição feita por jornalistas, limitou-se ao realmente relevante. Muito mais profundo, concatenado e diversificado nos formatos. Além do conteúdo já descrito, depoimentos de correspondentes do Reino Unido (Bocanera) e Argentina, relatando como funciona o diploma naquelas bandas.
Este Observatório também marcou a estréia do Chat, do qual foram extraídas perguntas. O que lembra a intenção inicial do programa, muito bem relatada na página
http://www.tvebrasil.com.br/noticias/060427_observatoriodaimprensa.asp
Ao final, confirmei a tese de que os frutos falam pela árvore, e que, desde agora, quem souber avaliar qualitativamente a comunicação verá o descompasso decorrente da decisão federal.

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MTV News: Flávio Basso, Urbana Legio e RPM

O melhor do dia hoje (22) foi a MTV. Teve Discografia com RPM, e Código com Jupiter Apple, não nessa ordem.
O programa dedicado a discos básicos, na véspera fôra com Legião Urbana Dois, e hoje, com Revoluções Por Minuto, traça um bom panorama do que mais me atraiu no Rock-BR dos 80. Acho que com a Revolta dos Dândis, fecharia a trilogia do meu gosto. Os álbuns saíram num momento efervescente, pois estava surgindo um “mercado” que antes não havia para dar vazão a uma demanda historicamente reprimida de escoamento cultural. Surgiam a revista Bizz, o programa Clip Clip na Globo… e espaços em programas tradicionais como Chacrinha, Fantástico… apresentando aos nativos um resumo do rock da moda e também do histórico, cantado em português sem legendas.
Renato Russo encarnou o poeta atormentado. Para o Brasil, ele veio a ser Morrissey, Jim Morrison… Na época, forçava mais o falsete na voz. O disco que deveria ser duplo e se chamar Mitologia e Intuição, capta a banda saindo do estado bruto da estréia, para uma sofisticação pouco mais acústica mas antes da amenizada estratégica de As Quatro Estações. “Eduardo e Mônica” vem cheia de referências culturais, uma cortesia constante do letrista Renato. Metrópole vem em versão diferente da original do Aborto Elétrico. Também da era punk foi adaptada a letra de “1977” virando “Tempo Perdido”, considerada por alguns plágio dos Smiths.
Paulo Ricardo, foi o sex symbol do rock local, e o tesão com que cantava foi mais um elemento na fórmula que tornava o RPM ultra-moderno, unindo teclados progressivos a uma pegada rock. O grupo hoje subestimado pelos roqueiros, é composto de músicos respeitáveis: Paulo Ricardo merece crédito nem que seja pelo slapping inicial de Olhar 43; e escreve poeticamente. Deluqui seguiu fazendo belos trabalhos como os solos de Simples de Coração, dos Engenheiros. Schiavon é um erudito, hoje arranjador de uma emissora global de TV. P. A. tem vários projetos paralelos roqueiros.
Quando ainda em ascensão, Paulo Ricardo e Renato Russo concederam entrevista conjunta à Bizz. Anos mais tarde, já nos 90, gravariam juntos uma versão de A Cruz e A Espada, já que Renato não recusava duetos, exemplos: Erasmo, Biquíni Cavadão etc.
Agora Jupiter Apple Maçã: com um semblante que “inspira cuidados” – algo de Jim Morrison, algo de Serguei… e cada vez mais louco no bom sentido de entregar ao mundo novas pílulas psicodélicas instantâneas… Que dizer de um cara que grita “Yes I am a genius” rebolando, após empolgados elogios por parte do apresentador Lobão ?
Entre as novas composições que ampliam o espectro de referências, ainda rolou Paint It Black, dos Stones.