Marcado: Pata de Elefante

Jupiter, Pata e o micro-woodstock

Show de Jupiter Apple com abertura de Pata de Elefante [Porto Alegre, Bar Opinião, 05.11.2009]

Meu primeiro show do Jupiter ever 😉
Antes, revi a Pata de Elefante – agora, com muito mais amplificação, visceralidade e pulsação. Foi a primeira execução para grande público de faixas recentes, e o release do clipe novo. Os ecos hendrixianos na guitarra me sugeriram que estávamos num micro-woodstock particular que viria a sedimentar-se na lisergia do astro principal.
O clipe de “Modern Kid” na íntegra, no telão, precedeu o headliner da noite. Presente muito do que se podia esperar: o Thunder, o Astronauta, os diálogos em inglês (“Let me hear you say yeah !!” foi uma constante…). Uma sucessão de canções reconhecidas: “Querida Superhist…”, “Tortas e Cucas”, “Síndrome de Pânico”, “Essência Interior”. Mais destaques: a tendência dançável mas de estilo muito próprio das novas composições, graças à cozinha atual, valorizada ainda mais em palco. Em uma delas, “Gregorian Fish”, B-side de “Modern Kid” participação especial de Júlio Cascaes na guitarra. Outra é “Talentoso”, bossa que Jupiter demonstrou só, à guitarra, após provocar o primeiro bis quando se despediu com a décima música. Aliás, ele sola em algumas canções, quando assume a guitarra personalizada da mesma cor do conjunto lilás que veste. E, se nem todos “clássicos” apareceram, “Lugar do Caralho” foi a finaleira, algo esticada por improvisos.
Após, um possível novo bis, clamado pela audiência, não ocorreu. O telão cobriu o palco. Jupiter referiu-se a Porto Alegre apenas como “terra natal”, deixando claro ser para ele uma data a mais em sua agenda, e não um comeback tipo Morrissey em Manchester ou Legião em Brasília.
A carreira solo de Jupiter não tem link algum com suas ex-bandas. Não precisa. O rebolado a la Jagger de 1988 que consta nos arquivos da TVE gaúcha deu lugar a uma arte que exige que alcancemos sua vibração. O show atual é mais de arte e vanguarda do que emoção barata do rock´n´fun. O que não incomoda em uma vírgula aos fãs.
Além disso, Apple está certíssimo em cantar em inglês: sua música é única no mundo, sem sotaque sulista ou nacional. E o balanço dos últimos singles indica que ele superou certa letargia e achou o nervo para agradar, inclusive, aos sentidos mais básicos… com classe.

Pata de Elefante + Marvin

[2009.06.19]

A noite de sexta, 19, foi do Atelier Coletivo. Pata de Elefante – banda “nacional” no contexto alternativo ainda que gaúcha de nascença – com abertura da Marvin local – ausente dos palcos há meses.
Como é hábito em Bagé, o público preenche o espaço lá pela 1h AM. Há quem proteste pelo aumento do ingresso dos habituais R$ 10,00 para 15,00.

GEDC5310

Hora da Marvin: com a performance de palco limitada pelas reduzidas dimensões do mesmo, resta a Ricardo Belleza concentrar-se em ser crooner; com emotividade e sem derrapar nas letras, impressas em sua frente. Experientes em divertir, os marvins (completados por Beto, Augusto e Alessandro) mesclam petardos do rock de sempre com novidades ainda quentes na memória coletiva, mantendo alto o nível adrenal durante 14 canções que pareceram cinco. De quebra, o cantor empunha o violão para o encerramento com duas composições próprias, potenciais hits nas rádios locais se for do interesse destas, como nos tempos da B. K. Jones, em versão demo.

tracklisting da Marvin

tracklisting da Marvin

I) Covers
Other Side – RHCP
Dead Flowers – Stones
One – U2
Route 66 – versão John Mayer
Louie Louie – versão Motorhead
Black Night – Deep Purple
Molly Chambers – Kings Of Leon
I Saw Her Standing There – The Fab 4
Rock And Roll All Nite – Kiss
You Shook Me All Night Long – AC/DC
Eye Of The Tiger – Survivor (sim, a trilha de Rocky Balboa. Garotas simularam pugilismo na platéia)
What A Wonderful World – versão Joey Ramone
II) Músicas próprias
Cravo e Canela
Fliperama

A Pata não demora em se ajeitar on stage, por conta da simplicidade do trio, em que guitarrista e baixista revezam-se mutuamente entre ambos instrumentos. Gustavo fixa-se no assento percussivo, sentindo-se em casa.

GEDC5313

A impressão que causam é coerente com sua proposta: a vibração é de um show de rock “convencional”, apenas liberto das amarras do formato pop. Vitalidade flui das cordas e baquetas. A satisfação em tocar transparecia na expressão (e no suor) de Daniel. Jam session? Experimentalismo ? Só na medida, já que as músicas são executadas basicamente como no estúdio. Nada de firulas virtuosas e solos de dois quilômetros. Os caras evitam se auto-rotular porque a tarefa é ingrata mesmo: são muitas influências, em tese, díspares. Às vezes lembra surf music, às vezes psychobilly; dali há pouco baixam Hendrix e Jeff Beck. “Parece trilha de spaghetti“, comenta a menina na pista, talvez inconsciente de quanto está com a razão.

ENTREVISTA PRÉ-SHOW

O terceiro álbum da Pata, ainda sem título, está gravado e previsto para sair em setembro, pelo selo independente dos anteriores (o gautcho Monstro Discos), mas desta feita em parceria com a Trama, garantindo a distribuição. “Soa mais rock que o anterior, que era mais tranquilo e tinha influência folk”, define Gabriel.
jota2
O músico comenta a opção pelo instrumental, que para muitos seria um suicídio comercial: “Não foi uma escolha, foi acaso: tocava com Gustavo e marcamos uma jam nas Catacumbas da UFRGS com alguns amigos que na última hora não foram. Chamei o Dani, que tocava comigo em outra banda, apresentei os caras praticamente em cima do palco. Foi um improviso legítimo: nenhum de nós cantava; não tocamos músicas prontas, mas o que saiu na hora. Não foi chato, tipo música instrumental séria… e notamos que o pessoal gostou”. Gabriel acrescenta que o trio nem cogita mudar sua estética: “botar vocal é um passo pra estragar tudo, pois esse é o diferencial pra banda. Apesar de ouvirmos música instrumental, nosso som é do tipo de música com vocal mesmo, para dançar…” O batera Gustavo completa: “A gente circula muito mais no nicho das bandas com vocal que no circuito instrumental… e sempre agradamos assim; o público pula, grita, assobiam a melodia… a música instrumental se impôs e nós aceitamos”.
A musicalidade do (power?) trio se inseriu definitivamente no programa dos festivais alternativos país afora, sobretudo em Goiânia e Minas, onde vão constantemente a convite. Os três vivem exclusivamente da banda e rejeitam ser vistos como anti-comerciais, já que buscam o sucesso com uma proposta incomum.

***

Para registro: sobre a iniciativa de viabilizar espetáculos assim aqui em Fodham City, vale o recado final de Belleza aos pagantes: “Sigam vindo no Atelier. Aqui é onde vocês podem encontrar alguma coisa diferente em Bagé”.

Cartaz Pata