Marcado: Renato Russo

Dado Villa Lobos prevê Colapso para 2011

Ex-Legião Urbana trabalha em pré-produção de segundo álbum solo
[ Entrevista exclusiva concedida em 18.11.2010, em Pelotas ]

O artista segura o material que levei para autógrafos: a primeira Bizz que comprei (por causa da Legião), o CD Jam 80 (já com Toni Platão).

Começando pelo disco novo… tinha um nome definido, depois mudou, não?

Dado>> É, não sei ainda. Tem essa ideia do “Passo do Colapso”, que era uma ideia que tava vindo, assim. Mas, que no fundo, no fundo, o disco questiona a vida como ela é – as relações da vida no dia a dia.

Então tem um conceito fechado ?

Dado>> Mais ou menos, mas, justamente: aí abriu. Primeiro comecei com a ideia de “realmente estamos vivendo um colapso quase sem volta” mas, assim: é um ciclo do colapso. Mas ainda as ideias estão em andamento, fechando o repertório. Aí comecei a ver que na verdade o disco falava de outras coisas também, ainda não consegui fechar justamente essa ideia. Mas na verdade estava pensando agora em canções – é um disco muito mais de canções, e no meio do caminho entra a ideia de colapso.

Quais as músicas que vão entrar ? “O Homem que Calculava”, que já está nos shows, entra ?

Dado>> Vai. É toda uma relação com o Nenung – a música “O Passo do Colapso” ele escreveu a letra, em cima de uma ideia que falei. É um grande parceiro.

A música “Overdose Coração” teria potencial para trilha de telenovela…

Dado>> Com certeza. A ideia é assim – o refrão tem título de novela… “mel no sangue”, “cântico dos cânticos”, “amor, sublime amor” (risos)

Já está definido o primeiro single ?

Dado>> Não. Acho que trabalhando as coisas desse jeito, ainda está bem longe de fechar. Primeiro trabalhar o repertório, fazer, realizar, gravar. A previsão seria o primeiro semestre. Vai sair pela Rock It ! com a distribuição de alguma gravadora.

A noticia de que o álbum terá a participação do guitarrista do Calypso surpreendeu…

Dado>> Eu cruzei o Chimbinha um dia. Foi muito bacana, uma noite muito especial. Aí pensei nele tocando nessa música, que inclusive é minha e do Nenung também, “Lucidez”. A ideia é trazer também os Paralamas pra gravar com ele…

Ela tem um traço latino então…

Dado>> Não exatamente latino, é uma música mais praiana. Acho que encaixaria bem os dedilhados, a pegada da guitarra do Chimbinha.

E a parceria com o outro gaúcho, o Marcelo da Robô Gigante, como surgiu ?

Dado>> Gravei duas músicas que ele me mandou: “Paralisado” e “Tudo Bem”. Ele é cantor e guitarrista. Encontrei da última vez que estive aqui e tocamos umas músicas.

Pareceu inusitado o tributo à Legião no Uruguai em 2008, para o qual tu e o Bonfá foram convidados. Como é a cena lá, existe um séquito de fãs ?

Dado>> Aconteceu assim: um amigo que agora é nosso manager, apresentado em 2008 pelo Hermano Viana, passou a ideia: “Tem um pessoal no Uruguai que tá querendo fazer uma homenagem à Legião Urbana, e pretende levar você e Bonfá”. Tenho uma ligação especial com Montevidéo, morei lá quando garoto. Aí, falei: “Pô, legal ir pra Montevideo tocar”. O resultado é que são grandes bandas: La Vuela Puerca, No Te Va a Gustar e metade do Bajo Fondo, que são metade uruguaios e metade argentinos. Eles prepararam um repertório de 20 músicas. A gente entrava na décima-primeira e tocava junto com eles. Foi muito bonito, ficamos muito amigos. Tinha uma ligação com a Legião, aquela coisa da fronteira, a música chegou até lá.

Em Santa Maria, onde vocês vão tocar, existe uma festa “Clube da Criança Junkie”…

Dado>> hahaha. Jura ?!

O que era esse clube, e qual era o teu papel nele ?

Dado>> Isso era uma brincadeira do Renato. Adolescente em Brasília, interiorzão… Como todo adolescente, a gente tinha um bando de garotos, que ia catar cogumelo no pasto, tinha uns chás de Beladona – tudo muito natural. Eu era muito garoto, e o Renato era mais velho, aí um dia ele falou, me deu essa alcunha: (imitando) “Você é o presidente do Clube da Criança Junkie”. Falei: “Não, não, nada disso!”. Mas era só uma brincadeira: a gente passava o fim de semana zoando geral e eramos bem garotos.

O teu estilo de guitarra está mais para Johnny Marr e Robert Smith do que para as distorções de um Malmsteen ou Satriani… como você o define ?

Dado (Fazendo gesto de reverência aos guitarristas dos Smiths e Cure)>> Não sei cara, acho que é bem simples, acho que é mais melódico, harmônico, e às vezes algumas frases que saem, algumas ideias, são bem colocadas, acho que a ideia é essa: de fazer a música andar. A guitarra sendo um instrumento harmônico que compõe bem e harmoniza bem com o resto da canção, enfim. A ideia é harmonizar sempre.

Havia uma espécie de “padrão Legião” de sonoridade, definido pelo Renato, que sempre voltava aos mesmos timbres de teclados, e às cordas de violão e viola. Musicalmente, isso era um limitador para ti ?

Dado>> Depois de um certo tempo, no Descobrimento do Brasil, a gente falou: “Pô, vamos dar uma geral aí”. Experimentar um pouco mais, na verdade você tá dentro do estúdio pra isso: não ficar sempre naqueles timbres de teclados, né ? Que era as cordas do Juno 106. Sempre acreditei que existiam outros sons também que comporiam bem, dentro dos arranjos. Mas Renato, ele gostava muito daquela sonoridade, daquele negócio.

O Renato ainda conseguia se comunicar na tua visita ao apartamento dele, dias antes da morte ?

Dado>> Não, o que foi muito triste, justamente. Foi uma semana antes.

Quando foi o último contato com ele ainda consciente ?

Dado>> Nas mixagens de A Tempestade. Aí a gente meio que teve um bate-boca assim… mas tudo certo, normal. Depois a gente se falava pelo telefone, tava tudo certo. Então quando eu fui visitá-lo, foi realmente uma grande surpresa.

Vocês imaginavam uma turnê para o álbum ?

Dado>> Não, turnê não.

Por causa da saúde do Renato ? Ou por outro motivo ?

Dado>> A gente não fazia muito essas coisas, não saia muito pra rua. Depois de um certo tempo era complicado. Mas ali no momento da Tempestade, eu vi que a gente ia ter que dar um tempo mesmo… mas sempre acreditando na ciência, na medicina… que aquilo seria um quadro reversível.

O que ficou incompleto ? Tem algo que tu queria ter dito ao Renato, ou feito, e que quando percebeu já não era mais possível ?

Dado>> Tem um monte de coisa que você gostaria de ter falado pra pessoa, que a pessoa se foi de um jeito tão repentino, dramático e drástico, que ficou… “cara, esse cara foi embora e eu tinha que ter falado certas coisas pra ele”. Disso… a gente ter meio que se desentendido no final… essa coisa de briga de família, de irmão falar. Tipo, ´cê tava dando um tempo….

E aquele verso de “Leila”, “no domingo cachorro-quente com as crianças na Fernanda”… é a Fernanda Villa Lobos ? É um fato vivido pelo próprio Renato ?

Dado>> É, a gente domingo ia lá pra casa. A gente tava no Rio trabalhando e tal, chegava o domingo e a gente chamava os amigos pra comer cachorro-quente, jogar um jogo, conversar, ouvir música.

A gente mitifica a imagem do poeta amargurado… Mas então o Renato tinha seus momentos de descontração ?

Dado>> Claro… quando ele queria, ele era muito bem-humorado, muito pra cima… um cara dinâmico e tal, esperto… agora, oscilava entre esses momentos bacanas e a solidão. Basicamente, ele era um cara muito sozinho, não conseguia evitar.

A parceria com o Nenung nunca te trouxe ao Kadhro Ling (templo budista em Três Coroas) ?

Dado>> Não, conheço de fotos… eu me identifico.

Qual é a tua “orientação espiritual” ?

Dado>> Sou totalmente agnóstico, ateu. Sou quase um mitômano, tenho santinhos colados no estúdio. Gosto muito das imagens e das histórias, não que eu siga um dogma, coisa da igreja…essas religiões monoteistas. Mas o o budismo tem essa coisa muito mais leve, eu acho e muito mais voltada pra você ali, junto.

A letra de “Diamante” é totalmente inspirada em budismo…

Dado>> Foi a primeira música que gravei. Eu ouvi ela em 98. Era voz e violão. Fizemos uma gravação. Ali foi o que bateu, foi quando me conectei com os Dharmas e o Nenung.

Vocês se encontraram nessa vinda ao Sul ?

Dado>> Aqui, ainda não encontrei. Eu tava viajando, tô há um mês fora. Cheguei sábado, domingo fui a Belém, toquei lá no Se Rasgum com os Porongas, foi incrível. Cheguei segunda à noite no Rio, na terça, tinha umas entrevistas pra fazer. Correria desgraçada.

A Rock It ! lançou artistas como os gaúchos do Ultramen e Comunidade Nin Jitsu. Agora que ela não é mais uma gravadora, qual a tua contribuição, no lugar dela, para o cenário independente ?

Dado>> O lance da produção musical, fonográfica ficou bem complicado nesse momento. Continua demandando dinheiro, investimentos e tal. Você sempre tem que estar com uma estrutura. Primeiro você tem que satisfazer o artista, ele nunca tá satisfeito. Difícil. E hoje os meios de propagação estão mais fechados, eu sinto. No lugar, eu tenho buscado sempre trabalhar em estúdio. Estar gravando alguma coisa, produzindo alguma coisa. Acabei de fazer uma trilha do Malu de Bicicleta. E o curta do Nicolas Behr. E aí eu me ocupo assim, algo que eu realmente gosto de fazer. E da música, seja a serviço do que for: um curta, um longa, uma canção, um disco. E estar ao vivo tocando também, maravilhoso.

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Dado Villa Lobos em Pelotas

Guitarrista traz produção solo e revisita Legião Urbana no Sul do Brasil

Os gaúchos interessados em Legião Urbana terão oportunidade de assistir ao legado vivo da banda, em novembro. Dado Villa Lobos se apresenta em Pelotas no dia 18, no Bar João Gilberto, em tour que inclui ainda praças como Três de Maio e Frederico Westphalen. Além das canções da carreira solo do guitarrista, cerca de metade do show será reservada à obra da Legião. Para isso, o convidado especial Toni Platão, com seu vocal barítono, acompanha a banda completada por Carlos Laufer (baixo), Renatinho Ribeiro (guitarra), Caio (teclados) e Lourenço Monteiro (bateria).

Fração importante do trio que a Legião foi no maior período de sua existência, Dado, 45, assim como Marcelo Bonfá, é co-autor de grande parte das músicas cantadas por Renato Russo. Ratificando o lema Urbana Legio “Omnia Vincit” (Vence Tudo), as canções do grupo surgido em Brasília superaram a morte (o poeta-cantor se foi há 14 anos) e o tempo – perpetuando-se na memória coletiva, e se fazendo obrigatórias nos projetos posteriores dos ex-integrantes.

A sonoridade do álbum solo de Dado, Jardim de Cactus, remete a ecos das influências pós-punk como The Cure e Smiths, em um ambiente experimental e climático. A maioria das faixas é cantada pelo próprio Dado, mas há várias participações especiais. O disco foi lançado fisicamente em versão “Ao Vivo MTV” em 2005, e só mais tarde a gravação original de estúdio seria prensada por um selo paulista.

Vale lembrar que na época dos primeiros álbuns da Legião, Toni Platão teve mais do que 15 minutos de fama nacional com sua banda Hojerizah e o hit “Pros que Estão em Casa”. Dado é quem avalia: “Somos grandes amigos desde então e é sempre um grande prazer dividir o palco com ele, grande artista que é”. Nos anos 90, a dupla registrou algumas parcerias nos estúdios da Rock It! (gravadora de Dado, que também é produtor musical), e desde então Toni se habituou a cantar Legião nos mais variados tributos, como a Jam 80 da Bizz, o “Uma Celebração” do Multishow e Festival Porão do Rock.

Dado respondeu rapidamente algumas perguntas do blog enquanto arrumava as malas nas vésperas de sua viagem à Espanha – para três datas em um projeto especial com um “combo” de artistas, La Caravana Americana. Ele comenta seu entusiasmo com a experiência: “Estou por aqui e amanhã, 19, devo encontrar com todos, uma idéia de Xoel Lopez, artista Espanhol que tocou conosco em Fortaleza na virada do ano, um super projeto que traz a cultura ibero-americana, cubanos, argentinos, colombianos, portugueses e muito mais, em terras européias, uma super caravana e promete ser muito divertida”. O chefe da Rock It! revela ainda que está na pauta de seus produtores a retomada do projeto Sete Cidades, onde ele e Bonfá se reuniriam para excursionar por sete importantes cidades brasileiras tocando Legião com a presença de convidados, possivelmente músicos uruguaios, repetindo o que ocorreu em Brasília e Fortaleza.

No dia 25, enquanto os dois terços remanescentes da Legião estiverem na Europa, a EMI, eterna gravadora da banda, lança um box com os oito álbuns da banda remasterizados e fotos inéditas. Dado não ignora que a internet se tornou um mercado à parte convivendo com o fonográfico, onde existe uma discografia “extra-oficial”, de amplo conhecimento público, de shows e sobras de estúdio da banda… Questionado, comenta: “O mercado paralelo vai passar um dia a ser o mercado oficial, passamos por um periodo de transição, não tem volta; mas no entanto, os discos da legião chegarão em novos formatos, CDs e vinil, e acabam de vender 500 mil cópias dos digipacks nos últimos três meses, algo a ser avaliado…”.

ATENÇÃO EMPRESÁRIOS DA NOITE BAJEENSE: a produção do show de Dado está aberta para ampliar a agenda no Sul, eventualmente com uma apresentação por aqui, em data próxima à de Pelotas. Contatos: e-mail alexandre.milenar@gmail.com e telefones (21) 2424-1091 e (21) 7843-1518.

O “novo” Renato Russo

A notícia de um possível “retorno” da Legião Urbana – que reproduzimos aqui há meses e já não era nova – não para de repercutir, inclusive no site “oficial” da banda, mantido pela gravadora EMI, que refuta a possibilidade de uma reunião sob esse nome.
Como curiosidade, elencamos alguns “substitutos” imagináveis para o vocalista (quando muitos entendem que não é o caso tentar substituir Renato). Não vamos incluir aqui as dezenas de bandas cover propriamente ditas, mas apenas artistas que tem uma obra própria.

>>>RANKING RUSSO<<<

VALMIR XAVIER

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O maior diferencial de nossa lista em relação a possíveis outras, está radicado a poucas horas de Bagé: trata-se de cantor de Piratini, RS. Há algum tempo seu único disco foi divulgado quase na íntegra no programa Talento Brasileiro, da Delta FM. Valmir é um compositor prolífico, com centenas de canções, segundo consta na página http://www.malhariapicanco.com.br/pagina valmir xavier.htm, da empresa de que é proprietário.
Promete para breve novo site com possibilidade de audição de suas músicas. A voz é muito idêntica à de Renato, as composições tendem para o acústico, a maioria baladas, mais identificadas com a fase final da Legião.

TONI PLATÃO

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Ele nunca se promoveu como um novo Renato, mas é o único aqui que já se apresentou com os remanescentes do trio, em ocasiões como o show que resultou no disco Jam 80, onde canta Será. Colabora com Dado há muitos anos. Na Rock It ! a dupla realizou várias gravações, como “A Valsa”. Sua banda original, Hojerizah, era contemporânea da Legião, chegaram a tocar juntos inclusive no aniversário da revista Bizz. Toni tem uma grande voz e sempre mostrou formação operística. Seu repertório atual não dá muita ênfase ao rock.

MARCELO HAYENA, UNS E OUTROS

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Outra contemporânea à Legião e às suas influências (modismo da época) foi a banda Uns e Outros, cujo álbum de estréia data de 1987. Além do êxito radiofônico “Carta Aos Missionários”, tiveram sucessos menores como “Canção em Volta do Fogo” e “Dias Vermelhos”, e nos álbuns mais recentes descaracterizaram a estética do início.

VINÍCIUS GUSSEN, BANDA ID
Em meados da década de 90, uma banda com vocação para cover da Legião participou com quatro composições de uma coletânea do selo Polvo Discos. Estava armada uma grande confusão: tudo era tão idêntico à L.U. que muitas rádios anunciaram como se fosse material novo da banda de Renato. Inclusive na rádio local 98.1 FM a música “Dignidade” chegou a entrar nos top hits.

“BLANCH”, DO COGUMELO PLUTÃO

PRAIA BLANCH

Vocalista gay militante, insinua ter estabelecido certa intimidade com Renato Russo através de amigos comuns. Inclusive teriam uma letra em parceria, “Pride Day”. Em alguns momentos lembra o jeito de Russo cantar. As composições, em geral soam mais rock que a manjada “Esperando Na Janela”. Olha que humilde a banda é em seu site, num “editorial” não-assinado: “…dizem que Cogumelo reinventou a música folk no Brasil… que é a nova Legião Urbana, Smiths, U2… Não, não é !!”

JERRY ADRIANI

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Na verdade, Renato na época do estouro de “Será” é quem teve o timbre vocal comparado com o de Jerry, pela mídia. Outro ponto em comum é o gosto pela regravação de clássicos do romantismo italiano. Tanto que após a morte de Russo em 1996, Jerry gravou um tributo com versões em italiano da Legião; além de se fazer acompanhar por Dado e Bonfá em versões de Será e Tempo Perdido

CARMEM MANFREDINI

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Inusitada notícia surgida em 2009: a irmã caçula de Renato Manfredini Júnior, Carmem, se lançou como cantora de rock, acompanhada pela banda Tantra – esta, formada por músicos de apoio que reforçavam a Legião no palco nas últimas turnês. Lançaram dois álbuns antes, com Gian Fabra no vocal, com influências oitentistas.

MTV News: Flávio Basso, Urbana Legio e RPM

O melhor do dia hoje (22) foi a MTV. Teve Discografia com RPM, e Código com Jupiter Apple, não nessa ordem.
O programa dedicado a discos básicos, na véspera fôra com Legião Urbana Dois, e hoje, com Revoluções Por Minuto, traça um bom panorama do que mais me atraiu no Rock-BR dos 80. Acho que com a Revolta dos Dândis, fecharia a trilogia do meu gosto. Os álbuns saíram num momento efervescente, pois estava surgindo um “mercado” que antes não havia para dar vazão a uma demanda historicamente reprimida de escoamento cultural. Surgiam a revista Bizz, o programa Clip Clip na Globo… e espaços em programas tradicionais como Chacrinha, Fantástico… apresentando aos nativos um resumo do rock da moda e também do histórico, cantado em português sem legendas.
Renato Russo encarnou o poeta atormentado. Para o Brasil, ele veio a ser Morrissey, Jim Morrison… Na época, forçava mais o falsete na voz. O disco que deveria ser duplo e se chamar Mitologia e Intuição, capta a banda saindo do estado bruto da estréia, para uma sofisticação pouco mais acústica mas antes da amenizada estratégica de As Quatro Estações. “Eduardo e Mônica” vem cheia de referências culturais, uma cortesia constante do letrista Renato. Metrópole vem em versão diferente da original do Aborto Elétrico. Também da era punk foi adaptada a letra de “1977” virando “Tempo Perdido”, considerada por alguns plágio dos Smiths.
Paulo Ricardo, foi o sex symbol do rock local, e o tesão com que cantava foi mais um elemento na fórmula que tornava o RPM ultra-moderno, unindo teclados progressivos a uma pegada rock. O grupo hoje subestimado pelos roqueiros, é composto de músicos respeitáveis: Paulo Ricardo merece crédito nem que seja pelo slapping inicial de Olhar 43; e escreve poeticamente. Deluqui seguiu fazendo belos trabalhos como os solos de Simples de Coração, dos Engenheiros. Schiavon é um erudito, hoje arranjador de uma emissora global de TV. P. A. tem vários projetos paralelos roqueiros.
Quando ainda em ascensão, Paulo Ricardo e Renato Russo concederam entrevista conjunta à Bizz. Anos mais tarde, já nos 90, gravariam juntos uma versão de A Cruz e A Espada, já que Renato não recusava duetos, exemplos: Erasmo, Biquíni Cavadão etc.
Agora Jupiter Apple Maçã: com um semblante que “inspira cuidados” – algo de Jim Morrison, algo de Serguei… e cada vez mais louco no bom sentido de entregar ao mundo novas pílulas psicodélicas instantâneas… Que dizer de um cara que grita “Yes I am a genius” rebolando, após empolgados elogios por parte do apresentador Lobão ?
Entre as novas composições que ampliam o espectro de referências, ainda rolou Paint It Black, dos Stones.