Marcado: Ricardo Belleza

Memória do rock: 1996 foi o ano da banda Abutres

As matérias a seguir são de meu período como repórter do extinto jornal Correio do Sul, de Bagé. Os exemplares da época constam do Arquivo que funciona junto à Biblioteca Pública Municipal. Tem muita produção minha ali, como a resenha-entrevista do show do Skank no Militão, e a conversa com Monique Evans sobre a festa que foi parar na delegacia.

Selecionei duas inserções que falam diretamente de rock, e de uma banda que começava a ganhar um destaque que se prolongou. Vergonha de alguns vícios da linguagem empregada, tipo “incendiar o público” (alguém chamou os Bombeiros?), e também os períodos longuiiiiíssimos para ler.
Além disso há menções a casas noturnas há muito falecidas, e a pessoas que há muito migraram de Bagé para melhor. Que ninguém tente calcular minha idade por estas referências arcaicas – eu posso ter sido um prodígio : )

Dos seis integrantes d´Os Abutres, acho que só o Ricardo ainda está por aqui. Aliás, um de seus projetos atuais, a Banda Marvin (com Alessandro Ribeiro, Augusto Avello e Humberto Martinez) está retornando aos palcos, com data no Atelier Coletivo no dia 29, sexta.

1. Abutres sobrevoam cena roqueira local (Correio do Sul, 16 de dezembro de 1996)

Em seu primeiro show no Armadilha, a banda Abutres incendiou o público detonando covers que transitaram do rockabilly clássico (Jerry Lee Lewis, Chuck Berry) ao contemporâneo (Cascavelletes) passando pelos 60´s (Doors, Creedence Clearwater Revival, Velvet Underground) e exibindo raízes punk (Ramones). “Nosso som é isso aí mesmo, energia positiva para ativar a adrenalina da galera nas festas”, define o vocalista Ricardo Belleza. Entre as canções próprias, “Não Me Querem Mais Aqui”, “Cigarrilha, Whisky e Mulher” e “Jaque” – esta tocada também no programa de rádio Nitro, do punk rocker Marcelo Kalil. A formação atual apresenta Ricardo Belleza, 25 (vocal e eventual violão acústico), Guga Giorgis, 19 (guitarra-solo), Juliano Paraná, o “Mandrake”, 22 (guitarra-base), Marcelo “Muskito” Robaina, 20 (baixo), Márcio Gomes, 15 (teclado) e Pedro Belleza, 20, primo do vocalista e conhecido como “Rasga-diabo” (bateria).

Ricardo, que no grupo paralelo Os Impossíveis toca harmônica, violão e solta a voz em baladas em um repertório “mais soft para barzinho, desde o blues de Muddy Waters”. Em Porto Alegre, Belleza morou próximo ao Garagem Hermética, onde cruzava figuras carimbadas do underground gaúcho. De volta a Bagé, festeja: “Tenho sentido, em eventos como o Bagepalloza, que aqui tem pessoal curtindo rock and roll e planejo uma grande festa de rock em Bagé em 97, em parceria com Djs que hoje moram em Porto Alegre e estão reunindo um acervo musical que é uma loucura !”. A agenda dos Abutres prevê um show na inauguração do Barraka Blue no Cassino, dia 21. Outro pode ser confirmado para Bagé antes do Natal. Enquanto isso o sexteto divulga o trabalho.

2. Rock fez a diferença na noite de Natal (Correio do Sul, 27 de dezembro de 1996)

Não bastasse a tradição de seus Djs em esquentar pistas, a equipe Barraka Blue esforçou-se em presentear com um atrativo muito especial o público da festa Natal Amigo, ocorrida no Clube Comercial: um show digno dos grandes circuitos, onde Guga, Mandrake, Muskito, Márcio Gomes e os primos Belleza (Ricardo e Rasga-Diabo), mais conhecidos como Os Abutres, cumpriram brincando a promessa de injetar rock´n roll nas veias de Bagé. O set list transitou pelos hinos do estilo On The Road de ser como “Route 66” e “Born To Be Wild”, mas incluiu sem preconceitos Queen, Foo Fighters e Jovem Guarda. Ao servir uma dose dupla de Tequila Baby mesclada com canções próprias, os entrosados roqueiros invadiram, como os colegas da capital, o primeiro escalão do rockabilly gaúcho. Um ponto alto foi quando Ricardo, de garrafa em punho, encarnou o xamã Jim Morrison para a trilogia de clássicos dos Doors. E o clímax veio com a trinca arrasa-quarteirão “Johnny B. Good”, “Great Balls Of Fire” e “Whole Lotta Shakin´ Going On”. A galera ficou pedindo mais. Vai ter, em breve.

Anjo da Fronteira e outras composições de um roqueiro bajeense

Conheça a obra de Ricardo Belleza no You Tube

Há alguns meses, a internet foi enfim desbravada pela obra de Ricardo Belleza. Foram upados no You Tube vídeos de 12 canções executadas em parceria com Marcelo Chroner, conhecido como o lead vocal da The Pampas.
O endereço é o próprio canal da banda: http://youtube.com.br/bandathepampas/
onde pode-se acessar também os demais vídeos da banda, incluindo seu single mais conhecido, “Maria Ferradura”.

As canções em parceria, por ordem de compositor, são:

De Marcelo Chroner:
Cachaça
Ela Roubou Meu Coração
Fogo Na Casa
Jeito Embriagado
Olha Nos Meus Olhos
Tudo Igual

De Ricardo Belleza:
Ana Elisa
Anjo da fronteira
Aos Cacos
Cravo e canela
já apresentada com a banda Marvin, a exemplo do show de abertura para a Izmália em 2009.
https://marcelofialho.wordpress.com/2009/08/09/izmalia/
Você Não Vai Se Arrepender – radio hit da B. K. Jones.
Você se foi

Os registros primam pela simplicidade extrema, na linha de ensaios gravados, com produção quase ausente. Raras exceções de sofisticação, como um timbre de slide guitar no solo de “Ela Roubou Meu Coração”. Os arranjos foram adaptados para duas vozes (Belleza faz o grave), e dois violões, com harmonias que remetem ao boogie (“Fogo Na Casa”) e, inclusive, à moda de viola. Na temática, o rock and roll clássico dos primórdios: corações partidos, interações safadas com o sexo feminino. Diversão garantida, como na letra de “Aos Cacos”.

O Anjo da Fronteira

Entre o punhado de canções no You Tube, chama atenção “Anjo da Fronteira”, cuja estória bem poderia agradar ao playlist das rádios. A letra homenageia o regionalismo, ao apropriar-se do estilo narrativo de Gildo de Freitas. Mas reflete uma realidade bastante urbana e atual, eis que estão cada vez mais comuns trajetórias parecidas com a do “anjo” do título.
A música já havia sido apresentada em 2009 no Atelier Coletivo:
https://marcelofialho.wordpress.com/2009/10/24/atelier/

Eu a conheci numa rodoviária
Uma mulher sem pudor, ex-presidiária
Ela me contou de toda a sua história
Dos seus dias de luta, das suas glórias

Foi dançarina exótica em um cabaré
Com uma python albina, dançava balé
E ela era feliz e enfim
alugou um apê na Alberto Bins
Comprou som estéreo e tevê,
discos do Roberto iê iê iê

Prostituta de luxo ela virou
Até político importante namorou
Mas por um gigolô se apaixonou
e toda sua grana ele levou
E ela começou a cheirar,
beber e se detonar
Do cabaré chique saiu
e nas ruas se prostituiu

Participou de um assalto a uma lanchonete
e foi presa em flagrante, nossa triste vedete
Ladra, viciada e prostituta
Mofou no xadrez e se tornou adulta
Mas um dia pra rua ela voltou
De um amigo uma grana emprestou
No interior um prostíbulo montou
E algum dinheiro ganhou

Dona de cabaré
Naquela cidade ela é
Puta querida virou
E muita gente ajudou

Hoje minha amiga ela é
É um amor de mulher
Anjo que na fronteira caiu
E de lá nunca mais saiu

Ricardo Vaz Belleza é verbete obrigatório na enciclopédia do rock bajeense.
Finalmente a upagem dos vídeos vem a demonstrar no terreno virtual sua relevância no contexto local, se bem que de modo ainda modesto em proporção ao acervo gravado pelo compositor.
De ascendência familiar artística e escolado em ambientes under, especialmente da capital gaúcha, como o Garagem Hermética em seu auge, Ricardo trouxe tais influências para suas composições e performances. Assim, ancorado nas diferentes bandas que criou, abriu mais espaço para o rock na realidade local, em espaços cativos como lhe era o extinto Point Bar. Pelos idos de 1996, iniciou período de intensa atividade, virando notícia nos jornais locais e sendo headliner em eventos como a Festa de Natal do Clube Comercial daquele ano e a final regional do Garota Verão. Em seguida, emplacou pelo menos dois hits na Atlântida FM 98.1, consagrando-se com a recepção do público em edições consecutivas do festival Juninão. As clássicas “diferenças internas” causaram uma sucessão de aparecimentos e dissoluções de bandas lideradas por Belleza: Abutres, B. K. Jones, Máfia, Xamã, Porfírio Bell… Em meados da década 2000, esteve afastado dos holofotes por fatores pessoais como o ingresso na faculdade de Publicidade e Propaganda da Urcamp, onde graduou-se em 2009. Nos últimos anos, Ricardo voltou a ser atração nos recintos artísticos de Bagé, hora com sua mais recente banda, a Marvin, hora em apresentações solo recheadas de convidados, até chegar à parceria com Chroner.
Como compositor, Ricardo demonstra forte identidade com as raízes das duas primeiras décadas do rock – seu lado billy e countryficado; e o romantismo que oscila entre o ingênuo e o sacana.
Embora gravações de estúdio da época da B. K. Jones circulem informalmente pela cidade, a expectativa é de que Ricardo cumpra o anunciado em seu twitter @ricardobelleza e disponibilize no You Tube também suas composições mais antigas. Entre elas, “Carolina (Funeral na Capital)”, “Tua Teimosia”, “Rua dos Sonhos Perdidos”, todas da época da Porfírio Bell.

Atelier anuncia Espaço de Verão com show 3 em 1

Atelier Coletivo prepara o lançamento de seu Espaço de Verão com reunião inédita de três artistas consagrados localmente

Na sexta, 23 de outubro, o Atelier Coletivo ofereceu um espetáculo com algumas inovações que foram um ensaio para a inauguração de seu Espaço de Verão, prevista para daqui a duas semanas. Uma reforma ampliará a capacidade de público do prédio, que terá ainda abertura de seu pátio para eventos de quarta a sexta, incluindo happy hour com início mais cedo que o praticado pelos festeiros bageenses.
O proprietário do Atelier, Carlo Andrei Rossal, motivou-se após avaliar as tendências do entretenimento noturno local e perceber apropriações de propostas diferenciadas, praticadas pelo Atelier desde sua origem, inclusive na escolha dos artistas a se apresentar na cidade. Rossal teve mais certeza de que o caminho é uma polarização cada vez maior das opções, na qual a casa que dirige deve se afirmar como um local cult.
A partir da abertura com show do Soul da Silva, o Espaço de Verão deverá oferecer sempre interações multiculturais, com artes plásticas, grafitagem, exposições fotográficas… Com efeito, nesta data já se presenciou um fato do tipo que “só se vê no Atelier”: paralelamente aos shows, o desenhista Theo Gomes tomou uma mesa e com gestos bruscos, comparados por alguém com os de uma psicografia, começou a esboçar imagens a lápis, com seu estilo característico baseado em achura.

Show três-em-um: Belleza, Schneider e Pavão (+ auxílio luxuoso…)

O ambiente de liberdade artística e parceria previsto como uma marca para o Atelier de Verão já se fez sentir no show da sexta-feira.
Uma reunião inédita entre três músicos com história em Bagé, e convidados especiais, na qual cada um tinha seu set mas era livre o intercâmbio entre todos, no palco. Ricardo Belleza, Roger Schneider e Luciano Pavão, respectivamente, modificaram o playlist de seus shows habituais para o formato do evento: acústico plugado, sem bateria mas com a percussão de um cajón (instrumento de origem flamenca).

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Eu com Belleza e Alessandro - clicados por LÉKO MACHADO

Belleza demonstrou algumas concepções mais artísticas de sua produção-solo: “Flamenco Western” (oportuna para a percussão latina) e “Anjo da Fronteira” (letra longa inspirada em Gildo de Freitas, e associada à produção de um curta-metragem), momento em que o cantor arriscou-se na harmônica. Do repertório de sua banda Marvin (atualmente em stand-by), inseriu apenas as covers finais, como “One” do U2 e “A Hard Day´s Night”, com a presença do guitarrista da banda, Alessandro Ribeiro. A B. K. Jones, banda de maior projeção radiofônica de Belleza, foi representada com o hit “Você Não Vai Se Arrepender”. Também resgatou clássicos de raiz como “Bad Moon Rising” e “Runaway” (Dell Shannon). Já nesse momento inicial houve a primeira das convocações do baterista Cássio Neves para o cajón.

rogerRoger também foi estratégico na disposição das canções: em um primeiro momento, investiu ainda mais no clima intimista sugerido pelo formato voz e violão (“Palco”, “Com Que Roupa”), para em seguida, proporcionar um crescendo de adrenalina que culminou sintomaticamente com “Rock And Roll”. Nesse ínterim, clássicos oitentistas como “Roxanne”, “Everybody Who Wants To Rule The World”, “Logical Song”, “Careless Whispers”, além de “Wish You Were Here”, “Smooth Operator” e “Candy”. A maioria das canções ganhou releituras bastante funcionais com ênfase na harmonia das cordas.

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Pavão, atração da recente Feira do Livro local, soube ser eclético como os parceiros: acenou ao Mercosul musical com “Circo Beat”, lembrou Raul com “Tu És o MDC…”. Se o artista anterior homenageara Nei Lisboa, aqui o tributo é a Vitor Ramil, com “Jokin”. As parcerias causaram os pontos altos: primeiro, convite sui generis aceito por Carlo Andrei para assumir o cajón em “Odara”, revelando mais um talento do artista multimídia (risos). Logo, Pavão retribuiu a participação no set de Belleza, chamando Ricardo para “Johnny B. Good”, agora com Pastelzinho batucando. Com essa parceria, tudo voltou ao início, e foi também o fim – do show “oficial” com o trio, uma vez que Pastel filho permaneceu, agora ao violão, para acompanhar o soul sexy de Cibele Martinez, em mais um número imprevisto de uma noite cultural no Atelier…

Izmália em Bagé: dose dupla

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Bagé viveu cenas atípicas no sábado, 08. Dose dupla na área cultural: a mesma dobradinha de bandas, apresentando diferentes performances para dois ambientes distintos. A atração visitante, Izmália, contou com a Marvin local para a abertura dos trabalhos.
O primeiro ato teve como palco o Instituto Municipal de Belas Artes, no início da noite. Com entrada franca, dentro de uma ação itinerante da Fundação Ecarta, que visita vários municípios gaúchos e incluiu Bagé numa seqüência de shows ao longo do ano, a van com o quarteto de músicos e representantes do projeto cultural aportava na avenida Sete… enquanto, no interior da casa, o palco normalmente utilizado para apresentações de alunos de musicalização, era tomado pela Marvin. Neste ambiente algo sóbrio, e repleto de instrumentos como três baterias e um piano coberto, a formação era completa e elétrica, porém o show, pocket e autoral – após duas covers para aquecer, apresentaram suas quatro composições de trabalho, com as quais devem desembarcar em um estúdio da capital gaúcha até o fim do ano. Em sua atual temporada, com shows mais constantes, o quarteto a cada oportunidade demonstra-se mais à vontade no palco e entrosado.
Minutos depois, a simplicidade do palco (cuja única “produção” era o cartaz da Ecarta ao fundo) sofreu leve alteração, com o aparecimento dos bancos onde o trio de frente da Izmália se instalou (devidamente suportados pelo batera Rafinha Carneiro, integrado à família há cerca de seis meses), denunciando o clima do show: intimista, como pedia a ocasião, mas nada de voz e violão: Izmália tem (literalmente) soul… e, claro, muito rock and roll !
Com a platéia ganha de cara, pela simpatia em interagir, e por não economizar nas covers, alternariam entre visceralização (com os arranjos) de standards da MPB imortalizados por Elis (“Como Os Nossos Pais”) e Vinícius; e reverência a compositores da nova leva, como Marcelo Camelo – já na abertura, com “O Vento”, e mais tarde “Sentimental”, sugestão do guitar man Marcelo. A verve jopliniana da cantora não tardou a ressaltar, com “Easy” dos Commodores, coverizada antes pelo Faith No More; e na seqüência Amy Winehouse “Back to Black”, que, assim como “All My Loving” dos Beatles teria bis no show “rock” mais tarde.
Mesmo entre tantos clássicos, as composições próprias intercaladas obtiveram reação positiva. Extraídas do álbum “Quase Não Dói”, de 2007, a faixa-título, “Além do Que Se Pode Alcançar”, “O Beijo Que Não Tem Saída”, etc. tem um potencial que torna sua ausência sentida no playlist negociado das FMs. Em tempos de superficialidade estética sem conteúdo, nada como artistas cuja entrega emociona… Izmália hoje é uma banda, não se trata da estrela com músicos de apoio. O nome foi mantido pelas premiações conquistadas. A cantora inclusive tirou de circulação seu blogue, que para ela “estava com um perfil muito pessoal, e falando principalmente de futebol”, prometendo que vai reativá-lo após uma reformulação.
Horas mais tarde, Atelier Coletivo – a versão com acréscimo de peso do espetáculo. Agora todos em pé, e com cervejas disponíveis no local.

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A Marvin demonstrou uma variação do repertório que já vem apresentando, rearranjado de modo a tornar ainda mais empolgante a celebração do rock… algumas influências coincidentes com as da Izmália ficaram evidentes ao serem coverizadas pelas duas bandas da noite, como: AC/DC, Ramones, Beatles… assim que tomou o palco, (por volta de 2h30 AM) a banda portoalegrense mostrou que não estava para amenidades: a segunda música já foi “Suck My Kiss”, petardo do Red Hot em sua era mais funkeada e que não pareceu incomodar muito ao baixista Sandro em emular com competência um Flea. “Vamos fazendo uma própria e um tributo”, informava a cantora, entregando a fórmula que manteve o pique da festa… entre o atendimento a pedidos como “Monogamia”, e Beatles again; essa foi a tônica que trouxe, entre as canções próprias, as certeiras “Jailbreak”, “I Wanna Be Sedated”, “Breakdown” dos Foo Fighters… até a orgiástica seqüência final só de covers, com Kinks, Steppenwolf, Muse (apontada como uma preferência da banda, que eu assino embaixo) e Led Zep… sempre com uma performática frontwoman, demonstrando que seu comentado ecletismo jamais podou sua veia roqueira escolada em Janis, Patti Smith, Amy… celebração consumada, a cantora saiu à francesa sem poder concretizar o combinado – tomarmos umas no Atelier, em vista de uma indisposição orgânica anterior inclusive ao segundo show, contratempo que sequer transpareceu durante a atuação da banda, dado o profissionalismo da equipe.

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Griffe reabre, sempre com shows

Há algumas semanas, a casa noturna Griffe reabriu suas portas na Galeria Kalil, despertando nostalgia em quem viveu a época de sua primeira fase. No início dos anos 90, aquele foi um dos primeiros locais de festa que teve seu nome consolidado na região. Se no longínquo momento a dance music (ou acid house, a vertente mais popular de então) imperava, hoje os hit parades estão mais ecléticos, viabilizando que, mesmo em Bagé, cresça o número de casas com ofertas diferenciadas de divertimento. Nesse contexto, a nova Griffe não se limitou à discotecagem em seus eventos, e sempre tem trazido ao menos um show musical por noite. No sábado, 20 de julho, a dose foi dupla com Roger Schneider (e grupo) + banda Marvin. O primeiro transita pela MPB de um Djavan e pelo rock massificado dos Paralamas, e ganhou um toque adicional de distorção pela presença do guitarrista Téco (Sistema Falido) em sua banda. A atração seguinte apresentou repertório similar ao desempenhado mês passado no Atelier Coletivo, porém adaptado ao público distinto com acréscimo de covers, especialmente dos Beatles. E ainda voltaram para um bis.
Assim, a Griffe reúne elementos de pub para happy hour; com danceteria em pista ampla.
Outra iniciativa madura da empresa é iniciar a portaria às 21h30 – há muitos anos os empresários da noite bageense incentivam o público a entrar mais cedo às festas, pois o horário médio de concorrência dos festeiros aqui é tardio em relação a outras cidades gaúchas, fato comprovável por qualquer um que tenha contatos fora. Assim sendo, welcome back Griffe ! Bem-vindo Abbey Road ! Atelier, Rebordossa: continuem conosco ! Espaço para os artistas e opções culturais para o povo !

Pata de Elefante + Marvin

[2009.06.19]

A noite de sexta, 19, foi do Atelier Coletivo. Pata de Elefante – banda “nacional” no contexto alternativo ainda que gaúcha de nascença – com abertura da Marvin local – ausente dos palcos há meses.
Como é hábito em Bagé, o público preenche o espaço lá pela 1h AM. Há quem proteste pelo aumento do ingresso dos habituais R$ 10,00 para 15,00.

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Hora da Marvin: com a performance de palco limitada pelas reduzidas dimensões do mesmo, resta a Ricardo Belleza concentrar-se em ser crooner; com emotividade e sem derrapar nas letras, impressas em sua frente. Experientes em divertir, os marvins (completados por Beto, Augusto e Alessandro) mesclam petardos do rock de sempre com novidades ainda quentes na memória coletiva, mantendo alto o nível adrenal durante 14 canções que pareceram cinco. De quebra, o cantor empunha o violão para o encerramento com duas composições próprias, potenciais hits nas rádios locais se for do interesse destas, como nos tempos da B. K. Jones, em versão demo.

tracklisting da Marvin

tracklisting da Marvin

I) Covers
Other Side – RHCP
Dead Flowers – Stones
One – U2
Route 66 – versão John Mayer
Louie Louie – versão Motorhead
Black Night – Deep Purple
Molly Chambers – Kings Of Leon
I Saw Her Standing There – The Fab 4
Rock And Roll All Nite – Kiss
You Shook Me All Night Long – AC/DC
Eye Of The Tiger – Survivor (sim, a trilha de Rocky Balboa. Garotas simularam pugilismo na platéia)
What A Wonderful World – versão Joey Ramone
II) Músicas próprias
Cravo e Canela
Fliperama

A Pata não demora em se ajeitar on stage, por conta da simplicidade do trio, em que guitarrista e baixista revezam-se mutuamente entre ambos instrumentos. Gustavo fixa-se no assento percussivo, sentindo-se em casa.

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A impressão que causam é coerente com sua proposta: a vibração é de um show de rock “convencional”, apenas liberto das amarras do formato pop. Vitalidade flui das cordas e baquetas. A satisfação em tocar transparecia na expressão (e no suor) de Daniel. Jam session? Experimentalismo ? Só na medida, já que as músicas são executadas basicamente como no estúdio. Nada de firulas virtuosas e solos de dois quilômetros. Os caras evitam se auto-rotular porque a tarefa é ingrata mesmo: são muitas influências, em tese, díspares. Às vezes lembra surf music, às vezes psychobilly; dali há pouco baixam Hendrix e Jeff Beck. “Parece trilha de spaghetti“, comenta a menina na pista, talvez inconsciente de quanto está com a razão.

ENTREVISTA PRÉ-SHOW

O terceiro álbum da Pata, ainda sem título, está gravado e previsto para sair em setembro, pelo selo independente dos anteriores (o gautcho Monstro Discos), mas desta feita em parceria com a Trama, garantindo a distribuição. “Soa mais rock que o anterior, que era mais tranquilo e tinha influência folk”, define Gabriel.
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O músico comenta a opção pelo instrumental, que para muitos seria um suicídio comercial: “Não foi uma escolha, foi acaso: tocava com Gustavo e marcamos uma jam nas Catacumbas da UFRGS com alguns amigos que na última hora não foram. Chamei o Dani, que tocava comigo em outra banda, apresentei os caras praticamente em cima do palco. Foi um improviso legítimo: nenhum de nós cantava; não tocamos músicas prontas, mas o que saiu na hora. Não foi chato, tipo música instrumental séria… e notamos que o pessoal gostou”. Gabriel acrescenta que o trio nem cogita mudar sua estética: “botar vocal é um passo pra estragar tudo, pois esse é o diferencial pra banda. Apesar de ouvirmos música instrumental, nosso som é do tipo de música com vocal mesmo, para dançar…” O batera Gustavo completa: “A gente circula muito mais no nicho das bandas com vocal que no circuito instrumental… e sempre agradamos assim; o público pula, grita, assobiam a melodia… a música instrumental se impôs e nós aceitamos”.
A musicalidade do (power?) trio se inseriu definitivamente no programa dos festivais alternativos país afora, sobretudo em Goiânia e Minas, onde vão constantemente a convite. Os três vivem exclusivamente da banda e rejeitam ser vistos como anti-comerciais, já que buscam o sucesso com uma proposta incomum.

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Para registro: sobre a iniciativa de viabilizar espetáculos assim aqui em Fodham City, vale o recado final de Belleza aos pagantes: “Sigam vindo no Atelier. Aqui é onde vocês podem encontrar alguma coisa diferente em Bagé”.

Cartaz Pata