Marcado: Thedy Correa

Nei Lisboa em Bagé – Entrevista

[ 08.10.2009 ]

A simplicidade de Nei Tejera Lisboa, 50 anos, foi conferida pelos bajeenses esta semana, quando voltou à cidade para uma performance de seu show atual, e para a divulgação de seu segundo livro, extemporânea à recente Feira do Livro local. Nei já se apresentara na AABB na época do álbum “Hein ?” lançado em 1988, e mais recentemente, em um evento da Ajuris, no Clube Comercial. Desta feita, o artista veio na véspera da agenda a cumprir, antes da banda e produção. Foi pauta em vários veículos de imprensa, e atração-relâmpago das “variedades” de tele-jornal local.

Um Nei naturalmente indiferente aos cliques, acompanhado pelo entrevistador-fã exibindo um autógrafo

Um Nei naturalmente indiferente aos cliques, acompanhado pelo entrevistador-fã exibindo um autógrafo

TRINTA ANOS DE NÃO-ESTRELISMO
“Ser acessível faz parte do meu show”, define um Nei coerente com seu discurso, já no saguão do hotel, onde desceu para uma conversa de cerca de quarenta minutos. O músico cogitou a transferência do bate-papo para uma cafeteria, caso o som de uma televisão no recinto interferisse na gravação. Tal acessibilidade por parte de um artista consagrado, rara em qualquer constelação, acompanha o compositor desde sempre. Ao cumprimentar Paulinho Supekóvia, Nei qualificou de “lenda viva” o guitarrista que tem sido seu escudeiro há duas das três décadas de estrada.
“O estrelismo não é meu mundo. Sempre que tentei, me senti um peixe fora d´água em qualquer situação do gênero. Acho que é uma recusa mútua”, brinca, referindo-se ao showbusiness. Apesar da timidez confessa, Nei chegou a percorrer a via crucis de todo artista gaúcho em busca de projeção nacional: entre 1987 e 88, contratado pela EMI, rumou para o Rio de Janeiro, apareceu na grande mídia. Mas os planos foram interrompidos por um acidente automobilístico que vitimou sua então namorada Leila Espellet. Isso motivou uma inversão da escala de valores do artista: “Aquele mundo se desfez e iniciou o trabalho do disco Amém.”
Permanecendo relevante no cenário gaúcho sobretudo, Nei hoje mantém uma agenda nacional, porém modesta. Conserva datas anuais em São Paulo, para um máximo de 50 pessoas, e Curitiba.

MEGA-SHOW DE ANIVER
Além dos shows comemorativos ocorridos ao longo do ano, há um projeto de um grande espetáculo de aniversário, envolvendo “mega-banda, orquestra de câmara e locutor paulista”. A idéia inicial de lançar um DVD, que chegou a ser divulgada na mídia, tornou-se incerta: a captação envolve em torno de 200 mil reais, e embora a produção estude a Lei Ruanet, questiona-se a validade de investir em “um suporte (o de DVD, CD) em depreciação, tanto pela tecnologia atual de distribuir música, como pela demora do processo, por exemplo, gravar em março e lançar no fim do ano”. Diferentemente de Amém e Hi-Fi, o terceiro álbum ao vivo daria prioridade aos clássicos do cantor. Tal qual o repertório atual, que faz um balanço da trajetória em seu aniversário, distinto aos shows Lado B (com as canções menos exploradas comercialmente, o que inclui o último disco quase na íntegra) e Hi-Life (comemorando dez anos do ao vivo anterior).
O envolvimento com o show atual não abriu espaço para um novo álbum de inéditas. Nei admite ter apenas “esboços de gaveta”, mas ainda sem visualizar se o próximo trabalho dará continuidade ao intimismo MPBista de Translucidação (2006), considerado pelo autor um trabalho difícil (quanto à assimilação pelo público).

POETA EM PROSA
Nas cidades onde se apresenta, Nei promove sessões de autógrafo de seu mais recente livro, “É Foch !” (pronuncia-se Fóshi – alusão a um eminente marechal francês atuante no início do século). Em vista de que Thedy Corrêa e Duca Leindecker têm livros publicados e Humberto Gessinger anunciou que fará o mesmo, questiono a Nei, se lançar livros (o que ele fez pela primeira vez há 20 anos) é uma tendência natural para os músicos. “Não só músico, todo mundo quer lançar um livro, plantar uma árvore e ter um filho”, brinca o cantor, com o clichê. “Mas no caso do músico, se é conhecido, a editora já se interessa sem ler. (risos) E costumamos ter fome de prosa, porque escrever letra é uma atividade ‘neurótica’, principalmente no meu caso que componho primeiro a música”, confessa, tendo um calafrio só de pensar em escrever.
“É Foch !” compila justamente escritos extra-musicais de Nei, que colaborou com crônicas para Zero Hora (quinzenalmente) e Extra-classe (mensal, veículo ligado ao Sinpro) até a época da concepção do álbum Translucidação. “Foi uma experiência muito legal, apesar da minha falta de tarimba e lentidão para escrever; o que atrapalhava no fechamento”.

DEU NA TV
A percepção de Nei quanto a mídia transparece em algumas de suas letras, como “Deu na TV”, do álbum Relógios de Sol (2001). Será que para o poeta nada se salva na grade da TV ? “Na Globo News, assisto os comentaristas para poder falar mal deles, e o programa Milenium. Além de outros programas de entrevistas e documentários no canal GNT. O seriado Law and Order, da Universal, é um vício”, admite. “Mas hoje a TV é só uma entre outras telas, como a da internet, por exemplo”.

Camiseta alvirrubra com que Nei foi presenteado agradou, pelas cores em comum com seu favorito no futebol gaúcho

Camiseta alvirrubra com que Nei foi presenteado agradou, pelas cores em comum com seu favorito no futebol gaúcho

NEI TEJERINHA
Mais do que rock, a música de Nei tem elementos que variam da MPB ao blues de cabaret, e em alguns momentos assimilaram uma genética latina, denunciada por títulos como “Cha cha cha Moderno”, e letras como “pop art meio bolerão”. Nei revela que a influência da vizinhança resume-se ao Uruguai, pátria de origem da família Tejera, de seu avô, e com cuja cultura teve um “namoro” na produção do disco “Amém”. Na época, promovia inusitadas reuniões de músicos locais com uruguaios, como Jorginho do Trompete com Maurício Trobo, “Lobo” Nuñez e Ruben Rada.

A influência latinoamericana mais ampla sobre Nei vem da literatura. Vários autores dessa origem, dividem com os beats as maiores referências literárias do cantor. “Sou um leitor comum, não um intelectual”, adverte. “Nas entrevistas perguntam que livro estou lendo e sou bem sincero: nenhum !”.

CLIQUE NO COCO… E OUÇA O NEI NA FAIXA
Devido a seu perfil democrático, Nei procurou oferecer aos fãs mais que discos, livros e shows e investiu na tecnologia: seu site oficial é constantemente aprimorado, sendo rico em material, incluindo seu acervo completo. Foi desenvolvido o programa “Webvitrola Cliquenococo”, que permite o acesso online (via streaming) a toda a discografia (incluindo dois títulos fora de catálogo), shows extra-oficiais e vídeos. Parte das faixas pode ser baixada legalmente – o músico chegou a pagar ao ECAD para ofertar sua obra. Sobre a distribuição de material pela Internet, argumenta: “é inutilidade jogar contra. A indústria tem uma percepção equivocada das possibilidades e agiu da pior maneira quanto a isso. As vendas de CD caíram não só devido aos downloads mas por ´N´ motivos: as gravadoras seguem inflacionando o preço, e um cartel de quatro majors domina 80% do mercado mundial. Chamo pirataria às vendas de calçada, ligadas à máfia chinesa e sem pagamento de impostos. A troca de arquivos via rede, ponto a ponto, é salutar”. Está prevista para breve a primeira transmissão ao vivo pelo site, após a conclusão de testes técnicos.

BERLIM/BONFIM/CIDADE-BAIXA
Na produção antiga de Nei, certo bairrismo gaúcho transparece em elegias a valores típicos de Porto Alegre, como “Berlim-Bonfim”. Hoje fora do tradicional bairro (divulgado nacionalmente pelo “Magro do Bonfa”) em que morou por décadas desde os oito anos de idade, Nei cantava a boemia inerente ao local, mas admite que a mesma se desfez no final dos anos 90: “só sobrou o Ocidente, do que havia”. Para ele a Cidade Baixa hoje concentra as opções noturnas.

NEI PARA CRIANÇAS – EXCLUSIVIDADE DA MARIA CLARA
Nos últimos dias em Bagé, houve quem especulasse que Nei fosse pai da atriz Mel Lisboa, destacada por minisséries e novelas globais há alguns anos. Apesar do sobrenome, Mel é na verdade filha de Bebeto Alves, um dos antigos parceiros musicais de Nei.
Já Maria Clara, sim, é o nome da pequena criação de Nei que passou a dividir o tempo do músico com a arte, nos últimos seis anos. Nei admite estimular na menina o gosto pela música, “da mesma forma que faria se (a música) não fosse meu trabalho; nada excepcional. Propiciamos a ela conteúdos legais, tentando escapar do circuito da Xuxa e das coisas que imbecilizam, tratam a criança como um adulto idiota”. Nessa proposta, apresentou à filha os grupos Palavra Cantada e Cuidado Que Mancha. Demonstra expectativa quando comentamos sobre o Pequeno Cidadão, projeto de Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra voltado ao público infantil.

“NÃO DÁ PRA CONTAR ESTRELAS QUE BRILHAM NO FIRMAMENTO…”
Entre tantas atividades, Nei ainda encontra tempo para ativismo político, emprestando seu talento à ideologia que acredita. Essa face se tornou bem conhecida no pleito de 2002, em que Nei aparecia na mídia regional interpretando “Agora é Lula”, de Péri e Duda Mendonça. O engajamento é constante: no último fim de semana Nei engrossou o coro Fora Yeda no Parque Marinha do Brasil. “Não tenho afiliação partidária ou compromisso. O ideário me corresponde apenas, e as realizações como as que vejo em Bagé. Conheço as divisões internas, mas quero ver um partido unido… e vitorioso !”

Nei conheceu a simpatia e profissionalismo da imprensa local

Nei conheceu a simpatia e profissionalismo da imprensa local

HEIN ?! QUEM ?! (NEI PARA NEÓFITOS)

Nome fundamental da música gaúcha (em um estilo rotulado eventualmente como MPG), Nei celebra em 2009 três décadas de carreira musical, além de 50 anos de vida.

Iniciou seus shows no final dos anos 70. Na época, o bairro bonfim era uma espécie de celeiro artístico, a partir da lendária esquina maldita. Entre os convivas de Nei iniciante, Gelson Oliveira, Bebeto Alves, cineastas como Carlos Gerbase, e atores como o performático Antônio Carlos Falcão, mais popular por sua imitação de Maria Betânia.
Em 1979, o antológico espetáculo Deu Pra Ti Anos 70, que execrava debochadamente a década moribunda, atingiu popularidade, inspirando mais tarde o filme homônimo. Nei era acompanhado pelo guitarrista Augusto Licks, que mais tarde alcançaria fama nacional ao entrar para os Engenheiros do Hawaii.

Humberto Gessinger também foi um parceiro importante na época do Carecas da Jamaica (1987), cuja faixa-título é um dueto. “Deixa o Bicho” é composição do Alemão.

Em 1993, gravou “Quebra-cabeça” com o Cidadão Quem para o álbum do estréia, Outras Caras.

No final dos anos 90 realizou a primeira temporada conjunta com Vitor Ramil, onde tocavam seus respectivos sets e formavam duo para clássicos de ambos, como “Dirá, Dirás” e “Sapatos em Copacabana”, e de terceiros como os Beatles.

Nos últimos anos, Nei participou da transposição de suas composições para ambiente de concerto, como quando as executou em conjunto com a Orquestra de Câmara da Ulbra.

Também vem sendo regravado por nomes que transitam de artistas de Nenhum de Nós a Caetano Veloso (trilha do longa nacional Meu Tio Matou Um Cara), e mais recentemente, Zélia Duncan.

Nei tem uma identificação maior com as bandas gaúchas emergentes nos anos 80, como ele, e interagiu muito mais com estas do que com nomes do cenário atual, entre os quais somente a Pública dividiu palco com ele recentemente.
Questionado sobre uma eventual falta de reconhecimento dos nomes históricos da música do RS, Nei acha natural que os jovens tendam a identificar-se com os artistas de sua geração. Recorda um cartoon muito ilustrativo desta situação, em que jovens vêem um anúncio de Bob Dylan e comentam: “Olha, o pai do Jakob, do Wallflowers, também toca !” Como exceção, “de vez em quando se exuma alguma coisa do passado, como eu mesmo (risos)”.

Natural de Caxias, recebeu este ano do Legislativo daquele município o título de Cidadão Emérito Caxiense.

Agradecimentos:
Ana Lombardi, produtora do show de Nei
City Hotel

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Nenhum de Nós em Bagé – 2008

Thedy, com uma compania ilustre (Lennon na estampa) e outra nem tanto

Thedy, com uma compania ilustre (Lennon na estampa) e outra nem tanto

MUITOS DE NÓS CANTARAM…

Como se sabe, o Nenhum de Nós fez um concerto ao ar livre em Bagé em 30 de dezembro de 2008. Oportunidade para ouvir a opinião dos próprios músicos – leia-se Thedy Correia e Véco Marques – sobre as questões suscitadas por seu trabalho.

OS ÚLTIMOS ROMÂNTICOS – o idealismo continua

O Nenhum de Nós que conhecemos: a banda que canta “Paz e Amor”, dá conselhos ao filho em “Dança do Tempo”… Que não tem vergonha de assumir seu romantismo, nitidamente influenciado pela audição da Jovem Guarda…
Muitos carnavais transcorreram desde que Camila apanhava e baixava a cabeça; e desde que o grupo nos engatinhantes anos 90 assinava junto com De Falla e outras, um manifesto pela revagabundização do rock gaúcho…
Pelo exposto, cogitava eu que o perfil do Nenhum tinha mudado desde então… que a exemplo dos Titãs, ao virarem pais de família, tinham amenizado seu discurso…

O vocalista Thedy, no entanto, desmistifica essa visão, defendendo que a rebeldia permanece, especialmente na postura idealista ante o showbusiness: “Eu acho que o rock que a gente fez sempre teve um pezinho na garagem, entendeu ? E a garagem que eu digo é os ideais que tu tem quando tu forma uma banda. Me dá a impressão que isso é uma coisa que falta hoje, porque tem muita gente que forma uma banda não pra fazer rock, mas pra fazer sucesso. E hoje as músicas que a gente tem ouvido no rádio e tudo, elas são músicas de artistas, que o interesse deles, é o sucesso. Então o que fica pra trás ? Quando tu faz uma escolha dessas, tu abre mão de algumas coisas como por exemplo a qualidade, a tentativa de inovar alguma coisa, propor coisas diferente, correr riscos e tudo. E acho que o rock de garagem tem isso um pouco, descompromisso com essas coisas que são muito mercantilistas, digamos assim. Então pra mim, o NDN durante todo esse tempo manteve muitos ideais de uma banda de garagem, e se tu me perguntar hoje, eu diria que a
tendência é a gente voltar ainda mais pra esses ideais.”

ROCK DE BOMBACHAS – BANDEIRA OU ESTIGMA ?

Uma das marcas registradas do Nenhum é a sonoridade do rock gaúcho claramente influenciado pela cultura típica regional. O guitarrista Véco Marques explica a maneira tranqüila com que eles mantêm sua identidade sonora: “O NDN é uma banda que já ´tá há 22 anos na estrada e a gente sempre primou por fazer as misturas dos elementos regionais. Desde o primeiro disco já tem o sotaque do acordeão, os próprios violões. A gente sempre se resumiu como sendo uma banda folk, mas não americano, um folk gaúcho mesmo, até porque a gente se criou ouvindo as músicas das Califórnias e festivais nativistas, e mesmo sendo uma banda de rock a gente nunca virou as costas pra nenhuma espécie de influência, desde Beatles até Noel Guarani e Luis Carlos Borges. Então acho que a grande essência do Nenhum é justamente essa. Depois que eu entrei, tendo tocado oito anos com Renato Borghetti, e do João Vicente, a gente até afundou mais o pé nesses elementos folclóricos.

Mas eu acho que ao longo dos anos a gente acabou aprendendo a dosar até a quantidade de acordeon, não é uma coisa forçada, como se fosse uma bandeira tipo: “Viemos do Rio Grande do Sul, temos que tocar de bombacha e de acordeon”. Não é isso. É o gosto pela sonoridade mesmo. Acho que a gente tá aprendendo a dosar bem, e vamos fundo nessa mistura, acho que a grande essência do nosso trabalho, nossa música é oriunda dessas coisas: de a gente estar tocando hoje em Bagé, amanhã no Rio de Janeiro, anteontem em Caxias do Sul, ou seja, não virar as costas pra nenhuma tipo de influência.” O músico, no entanto, não crê que bandas gaúchas com proposta musical similar a de seu grupo, formem um movimento unido: “Acho que uma identidade do Nenhum de Nós existe sim, mas a gente nunca quis ser bairrista, tipo: “somos gaúchos, olha só como a gente usa bombacha”. Como a gente circula no eixo central do paí, a gente nota que tem um olho espichado pro rock que é feito no Rio Grande do Sul. Um olho bom, eu diria assim. Na verdade a gente tem várias vertentes, a gente tem o melhor do reggae o melhor do rock, o melhor do punk rock; e por aí vai… dos grandes baladeiros… Acho que todos expoentes que a gente tem aqui, do rock feito no Rio Grande do Sul e essas ramificações que o rock sempre nos deu, são bem feitas e a maioria bem sucedida. Mas não que a gente tenha intenção de ser um movimento, separatista, virar as costas pro resto do país, isso seria uma bobagem… num país com duzentos milhões de habitantes, seria burrice, um tiro no pé o cara querer se isolar o Rio Grande do Sul. Obviamente que o próprio sotaque que a gente fala, e a gente ir pra dentro da MTV tomando um chimarrão já identifica a gente no Rio Grande do Sul, mas não… mas não como uma bandeira e sim como um hábito de todos que moram no Rio Grande do Sul.”

ROCKIN´ IN THE MERCOSUL

Na verdade, há muito o Nenhum transcendeu o papel de ser um mero representante do rock riograndense na mídia nacional, como era quando eles e os Engenheiros estavam no top ten Brasil, há uns 15 anos. Depois disso, eles ampliaram seu campo para o vigoroso e sub-aproveitado rock produzido nos vizinhos hermanos sulamericanos, estabelecendo boas relações a exemplo dos Paralamas da época de “Dos Margaritas”. Véco revela que esse trabalho continua a pleno:
“Cada vez mais com os dois pés dentro da América do Sul. Esse ano a gente teve uma troca de figurinhas muito legal com duas bandas do Uruguai, uma chamada “No Te Va a Gustar”, que hoje talvez seja a banda mais importante de toda a América do Sul, fazem shows estourados no Chile, na Argentina, na Bolívia, na Colômbia, no Equador; e a gente fez três shows lotados em Montevidéo, Capital do Uruguai; a gente trouxe a Porto Alegre essa banda, e mais o Sócio que é um grande músico uruguaio pra tocar conosco uma temporada no Teatro São Pedro.
Ou seja: da mesma maneira que eles abriram as portas pra gente entrar pro outro lado pelo Rio da Prata, a gente ta abrindo, trazer uruguaios e argentinos pra tocar conosco aqui, é muito importante que a gente pegue esse corredor da América do sul. O Brasil, Por não falar a língua (espanhola), a gente sofre um pouco disso, mas não que a gente seja auto-suficiente. Se pegar, por exemplo, Paralamas do Sucesso, uma das maiores influências dos Paralamas do Sucesso é o rock argentino. Fito Paez, Charly Garcia, Soda Stereo, Gustavo Cerati.Então o NDN em 2009, 2010 vai lançar discos lá, trazer mais parcerias do Uruguai e da Argentina pra tocar conosco aqui, porque a gente tem certeza que o nosso rock tem esse sotaque, do acordeão, do bandoniom, sotaque argentino, sotaque do tango; e a gente nota isso no palco lá, tocando para platéias cada vez mais cheias, cada vez com mais interesse na nossa música e a gente com muito mais interesse pela música feita lá do outro lado.”

ACÚSTICOS E INDIGNADOS

Sendo precursor e recorrente no formato hoje popularizado (banalizado?) pelo Acústico MTV, o Nenhum de Nós, através de Véco, faz um esclarecimento:
“Existem duas correntes do formato acústico: uma quando a banda realmente ta a fim de subir num palco – e vou pegar o Nenhum como exemplo – e mexer nas músicas, usar outro tipo de instrumento, outras influências; e o segundo formato é um caça-níquel: quando a banda já ta ´fechando a bodega´ e o cara diz: ´não, vamos ganhar mais uns pilas fazendo um acústico´, porque é um produto que vende. Mas eu acabo achando que passa do limite, sabe ? Na primeira resposta que eu te dei, falei em folk. Folk lembra violão, o Nenhum de Nós nunca teve vergonha de subir num palco usando um violão. Pega uma banda que nem Charlie Brown Jr., os caras nunca usaram violão e fazem um acústico só pra lançar e ganhar uma grana, depois eles não vão numa turnê de dois anos como a gente fez, levando citar indiano, levando bandonion, bandolim, slide, ´um milhão´ de instrumentos que a gente tem orgulho de levar pra cima dum palco. Essa é a grande diferença: a gente mata no peito, assume e faz; não é só pra ganhar grana, muito pelo contrário: a gente ganhou muito pouco fazendo isso (risos). É um projeto artístico, a gente adora. A gente ta fundo agora num projeto de misturar acústico com o elétrico, a gente tá achando esse híbrido, esse meio termo e daí pra frente vai ser isso. Violões, instrumentos acústicos com as guitarras.”

REM, THE ONE THEY LOVE

Em novembro passado, o Nenhum ganhou um de seus maiores prêmios: a oportunidade de abrir “em casa” o show do REM, emblemática banda oitentista que segue lançando álbuns relevantes e cuja estética é muito similar à do grupo gaúcho.
Na visão de Véco, REM é “a maior influência do Nenhum de Nós, talvez seja a banda em que a gente mais tenha se focado, e ter aberto o show dos caras em nossa cidade, foi talvez um dos grandes momentos da nossa carreira, porque a gente acabou achando que subir num palco com uma banda que tu admira é um presente, uma dádiva, e isso a gente acabou assinando embaixo de uma banda que a gente adora e nos deu a honra de subir no palco e ter feito esse show com eles para 25 mil pessoas.”
Thedy afina-se com o discurso do colega, acrescentando que a interação com os americanos não se restringiu ao palco: “Foi muito bom. Uma das bandas mais importantes pra mim e pro Nenhum, uma das que mais influenciou, muito no trabalho de guitarra e tudo. Dividir palco com eles, e depois conversar alguns momentos com o Mike Stipe num jantar, foi um dos momentos que entrou pra minha história assim das boas recordações…”
Fica a dedução de que a máquina zero na careca de Carlos Stein é um tributo ao Michael Stipe… uma declaração de amor, assim como as dirigidas aos Beatles verificadas nas camisetas de Thedy e Véco.